2004. O assassinato dos fiscais em Unaí

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         No dia 28 de janeiro de 2004, durante uma emboscada, os auditores fiscais do trabalho, João Batista Soares Lage, 50, Eratóstenes de Almeida Gonçalves, 42, Nelson José da Silva, 52, e o motorista Aílton Pereira de Oliveira, 51, foram assassinados em um trevo, na rodovia MG-188, que dá acesso aos municípios de Unaí, Bonfinópolis de Minas e Paracatu. Foi uma chacina engendrada por indivíduos poderosos da região, certos da impunidade pelos seus crimes. Eles estavam naquela região para apurar denúncias de trabalho escravo, praticado por fazendeiros de agronegócio em fazendas de plantação de feijão.     
      Em razão da competência, a Polícia federal assumiu as investigações, mas depois de algum tempo solicitou o apoio da "Homicídios", quando o delegado Wagner Pinto e sua equipe, foram designados para o auxílio necessário, dentro da força tarefa criada para identificar os criminosos e mandantes do bárbaro crime. Depois de um brilhante trabalho investigativo, os irmãos Norberto e Antério Mânica, grandes produtores da região, foram apontados como mentores da chacina. Outros cinco homens, entre eles dois pistoleiros, também foram identificados e presos.

 

“Maurício Hashizume - Brasília – 


         A Polícia Federal (PF) reuniu autoridades, delegados e imprensa, nesta terça-feira (27), para anunciar que mais um crime que abalou o país foi quase desvendado. Apesar das prisões de seis envolvidos nos assassinatos dos fiscais Nelson José da Silva, João Batista Lages, Erastótenes de Almeida Gonçalves e do motorista Ailton Pereira de Oliveira do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) durante o último fim-de-semana, falta ainda o principal: apontar com suficiência de provas quem é o autor intelectual dos homicídios que ocorreram há exatos seis meses, no dia 28 de janeiro deste ano, em Unaí-MG.
        Segundo o chefe da Delegacia de Homicídios de Belo Horizonte, Wagner Pinto, que acompanha o caso de perto, a linha de investigação “mais consistente e robusta até o momento” acerca do mandante dos crimes converge para o fazendeiro Norberto Mânica, um dos maiores produtores de feijão do país. O valor das multas aplicadas pelo falecido fiscal Nelson José da Silva a Mânica acumula cerca de R$ 2 milhões. Ele é o fazendeiro cujas multas alcançam mais altas cifras na região. E a grande maioria de autuações com o seu nome resultaram da violação de leis trabalhistas. De acordo com o delegado, as investigações e as confissões dos executores confirmam que a motivação do crime foi o incômodo provocado pelas insistentes multas e o alvo principal era Nelson.
         “Tudo leva a crer que foi um crime de mando”, completou Antônio Celso dos Santos, delegado da PF que acompanha o caso da morte dos fiscais do trabalho em Unaí. Seis pessoas foram presas nos últimos dias. Dois dos três pistoleiros - Erinaldo de Vasconcelos Silva (vulgo “Júnior”) e Rogério Alan Rocha Rios –, bem como o acusado de ser o contratar os matadores Francisco Élder Pinheiro, mais conhecido como "Chico Pinheiro", foram presos em Formosa-GO, município do entorno do Distrito Federal. Segundo os delegados, eles fazem parte de uma quadrilha de roubo de cargas, assaltos e pistolagem que já vinha atuando na região. O terceiro contratado para executar o crime, William Gomes de Miranda, foi detido no Paranoá, cidade-satélite do Distrito Federal. Os outros dois presos que formam a cadeia “superior” do crime são José Alberto de Castro (vulgo “Zezinho”) e o empresário de comércio de cereais Hugo Alves Pimenta, de quem Castro é empregado. Apenas estes últimos não confessaram o crime e devem dar novos depoimentos para a Justiça de Minas Gerais.
        Todos os presos serão transferidos para Belo Horizonte nesta quarta-feira (28). "Apesar das prisões, alguns pontos precisam ser esclarecidos para se chegar aos mandantes", prometeu o delegado Santos, que confirmou novos depoimentos e diligências para alcançar a outra extremidade do crime que ainda não foi desvendado por completo. Existe ainda um sétimo envolvido no crime que já estava preso na Polícia Civil do Distrito Federal. Trata-se de Humberto Ribeiro dos Santos, cuja participação se restringiu à adulteração de um livro de registro de hóspedes do Hotel Athos, em Unaí, onde os acusados se hospedaram no dia 27 de janeiro deste ano para cometer o crime na manhã seguinte. Alan, um dos pistoleiros, preenchera as lacunas com o seu nome verdadeiro. Os delegados informaram que o suspeito
Chico Pinheiro, em seu depoimento, afirmou que o “patrão” (Hugo Pimenta) - por ele mesmo apontado - não informou qual seria o motivo do “serviço”. Pimenta teria apenas dito ao contratador que o fiscal Nelson “era muito rigoroso e que estava multando demais os fazendeiros da região”. Empresário e não fazendeiro, Pimenta aluga um imóvel de propriedade de Norberto Mânica e, segundo a PF, demonstra cultivar laços de amizade com o latifundiário de Unaí. Em depoimento, o empresário assumiu que deve R$ 180 mil a Mânica. Ouvido pelos investigadores, Norberto Mânica negou qualquer envolvimento com o crime e disse que o acúmulo de multas não seria motivo para o assassinato o fiscal. Ele vai ser convocado para depor mais uma vez. 187 mil telefonemas e um relógio.
       
As prisões realizadas até agora foram resultado de um cruzamento de dois rastros importantes deixados pelos criminosos. O primeiro deles foram os telefonemas. Os investigadores partiram de um universo de 187 mil registros de ligações telefônicas da região próxima a Unaí no período do crime para chegar a 2 mil suspeitos. As investigações chegaram, há cerca de três meses, a um grupo menor ligado ao contratador Chico Pinheiro. Bastou analisar alguns registros de hotéis da região de Paracatu, onde Júnior se hospedara uma semana antes do crime para acompanhar a passagem da equipe de fiscalização do MTE pela cidade, para fechar a teia. Algumas ligações de telefones públicos próximos à residência de Chico em Formosa confirmaram ainda mais as suspeitas. Depois de serem encarcerados, porém, a prova mais evidente do envolvimento dos pistoleiros foi um relógio dourado, subtraído do fiscal Erastótenes na abordagem que antecedeu o crime. Pouco antes de fazer os disparos fatais, Júnior recolheu o objeto, imaginando que poderia lucrar com a oferta, feita pela própria vítima acuada pela ameaça de uma arma de fogo. Depois da execução, Junior confessou aos investigadores que jogou o relógio dentro do vaso sanitário de sua casa e deu descarga. Resultado de uma operação de cavação da fossa séptica da residência do acusado que durou seis horas no último domingo (25), os peritos encontraram o relógio de Erastótenes. A mulher do falecido fiscal já havia entregue a nota fiscal e uma foto da vítima com o relógio no pulso e essa era uma das informações-chave que a PF e a Polícia de Minas estavam mantendo em sigilo para não atrapalhar mais as investigações. O crime.
       
Os fiscais saíram do hotel no centro de Unaí às 7h05 do dia 28 de janeiro de 2004, hora em que Zezinho ligou a Júnior para informá-los. Três minutos depois, Zezinho liga mais uma vez para o pistoleiro para fazer um alerta de que os fiscais estavam próximos ao bando que, na ocasião, estava composto apenas por Júnior e Alan. William, o terceiro elemento, seguiria as vítimas em outro carro. Às 7h10, Júnior retorna ligação para Zezinho para confirmar que já estavam seguindo o carro dos fiscais. Os funcionários do MTE seguiram primeiro para a estrada que liga Unaí a Bonfinópolis, mas provavelmente por causa das condições desfavoráveis do percurso, resolveram dar meia volta. Quando estavam seguindo para a estrada de terra onde seriam abordados, erraram a entrada. Os bandidos, então, mesmo sem William (que seguia para o local do crime, mas se atrasou por causa de pneu furado) pegaram o caminho certo e acabaram ficando à frente dos fiscais. Em um dado trecho da estrada muito ermo, os pistoleiros pararam o carro e desceram para pedir informações aos fiscais. Foi aí que eles anunciaram um assalto e Erastótenes, o mais desesperado, logo cedeu o relógio a Júnior. Após o recolhimento dos telefones celulares, Júnior acertou dois tiros com sua pistola 380 na cabeça do motorista Ailton, três em João Batista e dois em Erastótenes, ambos sentados no banco de trás do veículo. Alan atingiu o principal alvo, o fiscal Nelson, com dois tiros de um revólver 38 na cabeça. O crime ocorreu por volta de 8h30 a 8h40. Às 9h15, Júnior, já a caminho de Brasília, faz nova ligação para Zezinho para comunicar que o serviço estava feito. Segundo os acusados, no próprio dia dos assassinatos, os executores entraram em contato com o contratante Chico Pinheiro para informar que Nelson – cuja morte já tinha sido “orçada” em R$ 25 mil - estava acompanhado de mais três pessoas. Depois de ter contactado o “patrão” (Hugo), Chico Pinheiro teria autorizado os pistoleiros a matarem todos os quatro. “Pode matar todos que a gente dobra o preço”, teria dito Hugo, conforme relato do próprio Chico Pinheiro. O carro Fiat Fiorino utilizado por Júnior e Alan para o crime foi jogado no Lago Paranoá, em Brasília e foi encontrado no dia 3 de fevereiro pela Polícia Civil do DF. A arma do crime, relatou Júnior, também foi jogada no Paranoá. A PF está organizando diligências nos próximos dias para procurar a pistola. Cinco ou seis dias depois do crime, Zezinho foi até Formosa entregar o dinheiro para Chico Pinheiro. Com a grana em espécie (algo em torno de R$ 50 mil), Chico Pinheiro chamou Júnior para que ele ficasse responsável de distribuir a parte dos executores. Júnior teria ficado com R$ 17 mil (com os quais comprou um carro), R$ 9 mil foram para Alan e William pegou R$ 5 mil. Outros R$ 3 mil acabaram com Humberto só para que ele arrancasse a folha de registro de hóspedes do Hotel Athos em que Alan escreveu o seu nome verdadeiro. Chico Pinheiro, o intermediador, recebeu aproximadamente o restante, aproximadamente R$ 16 mil. A mesma quadrilha, de acordo com investigações da PF, já chegou a matar por apenas R$ 3 mil.”

 

https://www.youtube.com/watch?v=ywfpnURJgAw

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