1949. O Assassinato de Marcha Ré- Luiz Soares da Rocha

Imprimir

 

       O Crime de "Marcha Ré" teve grande repercussão nacional no final da década de 40 e princípio de 50 pelas circunstancias e envolvidos no episódio. Trata-se de um homicídio envolvendo um médico de notoriedade da capital mineira. O relatório do Delegado Luiz Soares da Rocha demonstra de forma cabal, o eficiente e inquestionável trabalho de investigação pura dos policiais que trabalharam no caso. Abaixo a íntegra do belo relatório, transcrito pelo jornal "Vigília". Na realidade, a mídia na época não deu enfase ao trabalho da Polícia Civil, ao contrário, fez severas críticas e atrapalhou as investigações, como podemos constatar na fase inicial do relatório. A imprensa, contudo, na conclusão dos trabalhos policiais mudou de atitude enaltecendo a competente investigação. Evidenciou também, a batalha dos grandes nomes que participaram do júri, tanto na acusação como defesa, nos grande debates ocorridos. E até nos dias atuais, este belo trabalho de investigação policial x defesa no julgamento, serve de parâmetro para estudos e análise de grandes juristas e estudantes de direito.

As fotos a seguir são da Praça da Estação e Avenida Afonso Pena, no centro da capital mineira, no final dos anos 40.

 

Alguns erros constatados no texto, devem-se à inserção da íntegra da reportagem e relatório da autoridade policial, havendo uma dicotomia entre a velha e a moderna ortografia brasileira.

 

                                                                           O ASSASSINATO DE MARCHA RÉ

                                                    

                                                                                                  Arma usada no Crime

O relatório apresentado pelo delegado Luiz Soares da Rocha, começa historiando os fatos passados às vinte e uma horas e cinquenta minutos do dia 23 de setembro de 1949, quando uma ambulância do Pronto Socorro foi solicitada para atender um homem gravemente ferido que se encontrava estirado na Rua Padre Eustáquio, quase no cruzamento com Manhumirim. Relata as impressões iniciais, o desenrolar das primeiras investigações, com os poucos informes de que dispunha a Polícia: as declarações de Valdir Savassi, um dos proprietários do carro de Isoni e que vira o motorista atender ao telefonema fatídico e dizer: "Progresso! Ressaca! Quartel do 5º..." e em seguida "Oitenta Cruzeiros".

Prossegue o relatório, acentuando que depois de verificar que não se tratava de latrocínio e, sim de homicídio comum, a Polícia iniciou seu trabalho. Uma convicção se formou logo no espírito de todos os policiais que examinaram o carro de "Marcha Ré": ele havia sido abatido dentro de seu próprio automóvel.

 

                                                                              PRIMEIROS INFORMES CONCRETOS

 

                                                                             O Carro e a Reconstituição do Crime

Continuando nos relatos das diligencias desenvolvidas, o delegado faz referencia à primeira testemunha surgida que forneceu detalhes interessantes às investigações. Tratava-se de Joel Araújo. Outra testemunha valiosa surge depois: Nilo Lima. Ambos fornecem pistas preciosas à Polícia que, assim, no dia imediato ao crime, sabia dessas três cousas com as quais deveria orientar o seu trabalho:

a) que Isoni havia sido morto dentro de seu automóvel;

b) que a agressão não se verificara no local onde fora atirado seu corpo;

c) que seu matador, ou, um de seus matadores era chauffer.

Nada mais.

Como soe acontecer em casos tais, tudo mais girava m torno de presunções, conjecturas e hipóteses. Às tontas e nas trevas a Polícia tateou por longos e preciosos dias.

E prossegue o relatório: "Não suspeitando de ninguém, não dispondo de nenhum índicio conveniente que levasse ao criminoso, natural para que assim agisse."

EM BUSCA DE SUSPEITOS

Primeiramente as suas atenções voltaram-se para os antecedentes da vítima, para seus costumes e hábitos, para sua vida íntima, enfim, que sabia desregrada e boêmia. Os seus amigos de farra foram ouvidos um a um à cata de pormenores , que, por acaso, nos levassem ao seu assassino. Colegas de seu estacionamento foram "baratinados" dias seguidos. Um deles, Ari França foi detido por várias horas, submetido a severo interrogatório e, devolvido ao seu meio, após provar, sem sombra de dúvida, a sua inocência. A amante da vítima, Maria Augusta, por diversas vezes, em diferentes dias, foi trazida à nossa presença, sem nada adiantar às investigações que se processavam. Fracassando nossas tentativas em procurar, no ambiente em vivia Isoni, o seu matador, nos atiramos em busca de outros suspeitos.

Um chauffer de caminhão, que, na época, trabalhava como garçon de botequim, situado nas proximidades do final do ponto de onibus Progresso e que, dias antes, tivera um atrito com "Marcha Ré", foi detido e depois mandado em paz, convencendo-nos de sua inculpabilidade no caso.

Deixando os chauffers profissionais em procura de outras pistas, defrontamo-nos com um pobre alfaiate, que, dias antes do crime, fora visto em atitude suspeita no final da linha de onibus, bem acima da igreja Padre Eustáquio. Conduzido à delegacia, confessou ele, entre lágrimas, que, de fato, ali estivera por várias vezes, mas à procura de uma sua filha menor, transviada do caminho da honra e que ele julgava estar frequentando umas casas de tolerancia, existentes na imediação.

Vêem, pois, a justiça e a opinião pública que a polícia, desde que tomou conhecimento do homicídio de Isoni, não descuidou de seus deveres funcionais, como maldosamente se quis insinuar nas esquinas e através da imprensa.

SURGE NELSON ROCHA

O que a polícia não tem é o dom de adivinhar. Não pode inventar criminosos. Tem que descobri-los e provar que são criminosos. Continuava a polícia com seu trabalho de investigações, quando inesperadamente, surge a sensacional revelação do ferroviário Nelson Rocha. Em resumo, dizia ele, mais ou menos, o seguinte: Na noite do crime subia a Avenida do Contorno em Santa Efigenia, quando cerca das vinte e duas horas, um carro, vindo da Praça, junto ao Batalhão, em disparada, entrou na contra mão, na citada avenida, passando por sobre um canteiro, ali existente, indo parar em cima do passeio, frente ao prédio 2963. Diante de tanta irregularidade praticada pelo chauffer, que Nelson julgava estar embriagado, resolveu o ferroviário ver o número do carro, guardando-o mentalmente. Era um automóvel escuro, de praça e tinha o número 403. Dele viu ainda descer um homem, abrir o portão que se encontrava cerrado, ao mesmo tempo que um outro fazia penetrar o veículo no páteo e garage do dito prédio.

Era uma informação bôa, preciosa demais para ser desprezada. O informante não sabia sequer quem residia naquele prédio, desaparecendo, deste modo,qualquer eiva de parcialidade em seu relato.

Explicava tudo, lógica e convincentemente. Não tergiversava nunca, sendo coerente até o final, como demonstraremos no desenrolar do nosso trabalho.

Conservou-se irredutível em suas informações, mesmo quando açoimadas de falsas por alguns jornalistas e interessados em destruir seu depoimento.

Dando o valor merecido ao depoimento de Nelson Rocha, a Polícia tratou logo de identificar os moradores do prédio 2963, da Avenida do Contorno. Apurou-se rapidamente que nele funcionava uma república de estudantes, explorada por uma mulher de nome Aurita. Além dos estudantes, residiam ali, também um senhor de nome Latife e um médico chamado Doutor Romualdo Neiva, ambos chauffers amadores.

Trouxeram-nos ainda, os investigadores, notícias de que o médico em apreço era comunista e homem dado a aventuras galantes. Ora, a estas alturas dos acontecimentos, a Polícia desconfiava que "Marcha Ré" havia sido morto por questões de mulheres. A situação em que foi encontrado o seu carro, com o cofre do mesmo arrombado e com papéis revolvidos, dava-nos a impressão de que seu assassino, após a agressão, tentara procurar algum documento, carta ou fotografia, que estaria guardado no referido cofre. Notaram os investigadores, que o paralama do lado direito do carro de Isoni havia sido recentemente arranhado. Foram até o portão do prédio 2963, onde residia o Doutor Romualdo e lá verificaram atritos no referido portão, provocados por um automóvel. Mediram com a fita métrica, a altura destes atritos e conferiram com os arranhões do automóvel de Isoni. Coincidiam, perfeitamente. As investigações marchavam perfeitamente, quando alguém, precipitadamente deu o alarme.

Um dos jornais locais publicou com estardalhaço, uma notícia, que, por seu sentido tendencioso, chocou a opinião pública, com especialidade a honrada classe médica de Belo Horizonte. O assassino de "Marcha Ré", segundo o referido jornal, seria um médico casado residente em Santa Efigenia.

A repulsa causada por tão inconsequente nota, foi geral, repercutindo até na própria Polícia.

                                                                                     O DR. NEIVA DEIXA A CAPITAL

                                                                       

Dias após esta temerária publicação, Romualdo deixava Belo Horizonte, segundo alguns, para sua terra natal-Paracatú, e, segundo outros, para Conselheiro Pena.

Quando se procurava fixar as suas possíveis relações diretas ou indiretas como chauffer assassinado, estourou a bomba de todos conhecida. Com escândalo pouco comum, alguns jornais estamparam seu retrato, transformando de um momento para outro um suspeito de haver praticado um crime, num criminoso, como se tudo tivesse sido descoberto.

Todo o paciente trabalho da Polícia, repentinamente ameaçara ruir por terra, à mercê da leviandade de uns e da indiscrição de outros. Passada a onda, as investigações prosseguiram. Para Conselheiro Pena foi enviado um investigador, a fim de colher dados sobre a a rápida estadia do Doutor Romualdo naquela cidade do Vale do Rio Doce. De lá, nos vieram depois, apreendidos, com as formalidades legais, um terno e objetos de uso pessoal do médico suspeito e que de muito nos valeriam, como veremos dentro em pouco.

A CHEGADA RETUMBANTE E TEATRAL

Ao nosso espírito causou espécie a retumbante e teatral chegada do Doutor Romualdo à esta cidade, o seu procedimento, antes e depois de suas declarações, espontaneamente prestadas ao Doutor Delegado de Segurança Pessoal, bem como as entrevistas, entrecortadas de ameaças e de seus protestos, tipicamente comunistas. Isso, longe de nos desanimar, nos convenceram de que algo de suspeito existia no proceder deste médico.

A reação de um inocente, de um homem injustamente acusado de crime tão grave, nunca poderia ter sido aquela, esboçada pelo Doutor Romualdo, quando de sua primeira estadia na Polícia. Calmo e sorridente entrou na Chefia de Polícia, calmo e sorridente dela saiu. Vagarosa, mas seguramente caminhavam as investigações em torno do crime de que foi vítima "Marcha Ré", quando surge em cena o preto Geraldo Gomes da Silva, dizendo-se autor e único responsável pelo trucidamento do infeliz chauffer.

PRISÃO E PRIMEIRAS DECLARAÇÕES DE GERALDO GOMES DA SILVA

A notícia da prisão do assassino de "Marcha Ré", dada com sensacionalismo pelas estações de rádio, correu célere pela cidade, enchendo de justa satisfação todos aqueles que, interessada ou desinteressadamente acompanhavam a marcha dos acontecimentos, ligados a tão falado assassínio.

Cedo, muito cedo, correram os defensores do Doutor Romualdo às estações radiofônicas e às redações dos jornais para apregoar aos quatro cantos a ineficiencia da Polícia, acutilando-a, impiedosamente, como se qualquer dos responsáveis pelos importantes setores da corporação, tivessem afirmado oficial ou extra-oficialmente a culpabilidade do médico, a quem, à viva força, queriam arrancar do pelourinho em que estava expôsto.

Para nós, ele era apenas um suspeito. E a Polícia tem o direito, é bom que todos saibam, de suspeitar de qualquer um, desde que para isto tenha razões, seja ele médico, advogado ou banqueiro, pertença a que classe social pertencer.

Preso, Geraldo foi conduzido à presença do Doutor Davidson Pimenta da Rocha, em cuja delegacia prestou as suas primeiras declarações, de todos conhecidas.

                                                                            PRIMEIRO DEPOIMENTO DE GERALDO GOMES

                                                                       

Ao tomar conhecimento das declarações de Geraldo a opinião pública esclarecida as repeliu. Elementos ligados à Polícia e que do fato criminoso conheciam os pormenores, julgaram inaceitáveis as declarações engendradas por Geraldo.

Eram ilógicas, feriam o bom senso, brigavam flagrantemente contra todas as provas colhidas pela Polícia no rumoroso inquérito.

É princípio assentado, entre todos os criminalistas da velha e da nova escola, que não se deve acreditar na confissão de um criminoso, quando os detalhes principais do crime, como os relata o confidente, chocam-se contra outras provas, de modo a traduzir perfeita incompatibilidade entre as circunstancias e fatos já apurados e os expostos pelo confidente.

Daí, não termos acreditado na confissão de Geraldo.

Vamos demonstrar de modo a não perdurar a menor dúvida, no espírito menos atilado, que ele mentiu do princípio ao fim de suas declarações, ilaqueando a bôa fé da digna autoridade que o ouviu. Contestaram estas declarações, de maneira violenta, com todas as provas até aqui tão prudentemente amealhadas pela Polícia.

Refutamos, ponto a ponto, as assertivas do homicida confesso.

AS CONTRADIÇÕES DE GERALDO GOMES

Começamos pelo móvel do crime. Sabido é, que ninguém tira a vida de outrem, sem um relevante motivo social ou mesmo anti-social. Qual o motivo alegado por Geraldo para eliminar Isoni?

- Uma briga, ou melhor, uma agressão que sofrera, poucos dias antes do crime, levada a efeito contra a sua pessoa por "Marcha Ré" e um companheiro, moreno, alto, de bigodes. Onde se verificou tal agressão?

- À sua amante Onorina, disse êle, que havia sido num bar, na Zona Boêmia da cidade. Ao delegado que o interrogou, afirmou ter sido vítima nas imediações da Standard Oil, em Carlos Prates.

Uma mulher, amante de "Marcha Ré"!

Qual o seu nome?

Não sabia!

Pura invencionice. Mudando o local da suposta agressão, Geraldo mostrou-se hábil e inteligente. Ora, deveria ter raciocinado êle, na Zona Boêmia, os bares são muito frequentados, apurarão logo que menti. Testemunhas não faltarão para fazer luz sobre o caso. Transferiu, deste modo, a suposta agressão para as imediações da Standard, na rua Conquista. Foi ainda, mais infeliz. Estivemos lá duas noites seguidas. Das vinte às vinte e duas horas, horário em que diz ter sido agredido, o local é movimentado, muito claro, iluminado que é pelas luzes do depósito da Standard.

Os rondantes que ali trabalham há vários anos, foram ouvidos pela Polícia e disseram nunca ter havido briga alguma naquelas cercanias Por outro lado, se de fato houvesse se verificado esta agressão, o companheiro de "Marcha Ré", não teria, logo depois do crime, comparecido à polícia dando dela conhecimento às autoridades? Claro que sim. Há muito tempo estaria descoberto o criminoso. Sendo amigo da vítima, a ponto desta convidá-lo a surrar alguém, quando "Marcha Ré" apareceu morto, poderia êle depreender logo ter sido Geraldo o assassino.

Outra inverdade das declarações do assassino confesso, que ressalta logo aos olhos dos leigos, que só poderia ser aceita por pessoas de bôa fé, é aquela em que diz ter atraído Isoni à rua Padre Eustáquio, no cruzamento de Manhumirim, local despoliciado, sem levar arma alguma. Esta é positivamente intolerável. Um homem sequioso de vingança, ainda com o corpo dolorido de pancadas, arma cilada ao seu agressor e vai ao encontro do mesmo, sabendo-o valentão e disposto, inteiramente desarmado...Este ponto fragílimo das declarações de Geraldo não demanda mais comentários.

Inacreditável, também, especialmente para aqueles que conheciam Isoni, foi a parte da narrativa de Geraldo, em que afiança, que o motorista, ao chegar ao lugar combinado, ultrapassou-o, tendo êle, Geraldo, lhe feito um sinal para parar. Isoni era um dos chauffers mais ativos e astutos da capital. Tivesse êle, na realidade, brigado com Geraldo, dias antes do crime de que foi vítima, em hipótese alguma pararia o carro para enfrentá-lo numa rua escura como aquela. Achava-se desarmado e a diferença de físico e de idade entre os dois era patente. Não se podia aceitar tão pouco a afirmação de Geraldo, quando, em suas declarações , diz ter telefonado a "Marcha Ré", do Bar Carponi, no princípio da rua Padre Eustáquio, tratado com êle a corrida fatídica e ido esperá-lo à rua Padre Eustáquio, nas imediações de Manhumirim, tendo feito este trajeto de bonde. Era de nosso conhecimento que "Marcha Ré", segundo conta do depoimento de Valdir Savassi, logo que recebeu a telefonema de seu assassino, seguira incontinenti para o Progresso. Se assim foi como admitir a hipótese de Geraldo haver chegado primeiro ao local do crime? Não é possível que um bonde ande mais depressa do que um automóvel. Outro ponto que nos chamou a atenção sobre a falsidade das declarações de Geraldo, foi aquele em que êle tentou explicar a sua fuga no carro da vítima e o consequente abandono do mesmo na rua Curitiba. Fosse êle, somente êle, o assassino, muito mais fácil lhe seria escapar abandonado o carro no local do crime e descendo a pé para sua casa, situada na rua Uberlandia 110, distante uns mil metros. O que ele veio fazer no centro da cidade foi trazer o seu cúmplice.

Como já tivemos oportunidade de acentuar em outro trecho deste relatório, dos fatos já não preocupavam mais a Polícia, que os julgava esclarecidos, desde o início das investigações, que colidiam frontalmente com as declarações de Geraldo. Assim era que tínhamos certeza de que Isoni fora môrto dentro de seu carro e que o local onde fôra batido não havia sido o mesmo, onde fôra encontrado. Vem Geraldo e fantasia uma briga fora do automóvel, frente à rua Manhumirim, afirmando tê-lo agredido fora do carro, no local o encontrou a ambulância.

E o sangue que encharcou o carro que gotejou rua afora, até as proximidades do Bar Rocha?

E Joel Araújo, a testemunha já ouvida que ali estava, justamente junto ao poste, cruzamento de Manhumirim com Padre Eustáquio desde as vinte horas, que nada viu?

O que esta testemunha viu, conforme já dissemos, foi um carro subindo em marcha lenta rua Padre Eustáquio, vindo ao lado da Igreja, fazer uma semi-parada e soltar qualquer coisa na rua. Viu, depois, o corpo de um homem, o corpo do pobre "Marcha Ré".

Não houve, por conseguinte, briga alguma na rua Padre Eustáquio.

Observando, com atenção a reconstituição feita pelo criminoso perante o Dr. Davidson, baseada em suas primeiras declarações duas outras verdades brotam logo os olhos de quem as examinam. Uma é a em que Geraldo. após lutar com Isoni, desfecha-lhe as pancadas mortais com a barra de ferro que lhe arrebatou. Enfrenta-o, face a face, não é canhoto, e, no entanto as pancadas foram atingir a região mastoidiana direita e o occipital da vítima. Outra, é a que reconstitui a queda final do assassinado.

Todos sabem que o sangue de Isoni, descendo por entre o espaço, que separa a porta e a almofada dianteira do lado direito do carro, ganhou o estribo do mesmo lado, formando grande pôça, como se pode constatar pelas fotografias de fls, já estampada nos jornais. Geraldo reconstituiu entretanto, a cena final do lado opôsto, junto ao volante, quando esta parte do carro só foi atingido por ligeiros salpicos de sangue, mesmo assim, na parte interna do vidro da porta. Só duas coisas são verdadeiras no primeiro depoimento do homicida número um. As partes que dizem respeito ao telefonema e a obstrução de sua fuga pelo carro Ford 29, que manobrava no momento na rua Santa Quitéria. Tudo mais é mentira, grossa e deslavada farsa para imbair a opinião pública e iludir a justiça.

SEGUNDA DECLARAÇÃO DE GERALDO

Não se sentindo satisfeitas com as primeiras declarações de Geraldo, por achá-las por demais inverossímeis, mostrando sua patente falsidade, as altas autoridades policiais do estado, acharam por bem submetê-lo a novo interrogatório, convencidas que estavam de que êle guardava segredos e tentava salvar a situação de outros culpados.

Não se duvidava de sua responsabilidade, isto porque, o conhecimento de alguns detalhes importantes do crime por ele revelados, como o da telefonema denotavam de maneira inequívoca que tomara parte ativa na trama criminosa de que resultou o assassinato de Isoni. E tinham razão de assim pensar. Geraldo, após cerrado o interrogatório, acabou cedendo. A mentira não pode ser sustentada por muito tempo, quando contra o criminoso se erguem argumentos irrefutáveis.

Confundido ante as provas que lhe foram exibidas, Geraldo resolve confessar a verdade. Fê-lo amplamente com abundância de detalhes, diante de testemunhas idôneas e do Dr. Corregedor Geral da Chefia de Polícia. Ficamos sabendo então que ele foi apenas o braço mercenário, armado por outras pessoas interessadas na morte de "Marcha Ré". Contou a história direitinho, sem medo e nem tibiezas. Dêle não partira nenhuma iniciativa.

                                                                                    A CONFISSÃO DE "ZUZA".

                                                           

Apontado por Geraldo Gomes como um dos co-autores da morte de "Marcha Ré", o chauffer José Abrahão Guerra, vulgo "Zuza", foi detido e posto à disposição da Polícia para prestar declarações.

Ao primeiro contato com a Polícia, revelou este indiciado o dissimulador consumado que é.

Três perguntas lhe foram feitas inicialmente:

a) se conhecia a estrada da Ressaca;

b) se conhecia Geraldo Gomes da Silva;

c) se havia conhecido e falado alguma vez com"Marcha Ré".

Um não sêco e sem mais explicações foi a resposta dada por "Zuza" às perguntas que lhe foram formuladas pelo Dr. Corregedor Geral de Polícia, que foi quem o interrogou. Ora, todos nós sabíamos que êle deveria estar preparado com antecedencia para fugir com evasivas às perguntas que lhe fossem feitas na Polícia. Mas, mentir assim, era demais. Não era possível que um chauffer de praça de Belo Horizonte ignorasse o trajeto que vai da capital à Ressaca, principalmente em se tratando de um simpatizante comunista, pois, ultimamente aquele bairro distante tem tido a preferencia dos elementos bolchevistas para as suas reuniões clandestinas. A Ressaca foi mesmo, não há muito tempo, um interessante e frequentado centro de turismo e diversões. Quanto a não conhecer "Marcha Ré", um dos tipos mais populares e conhecidos da praça, do meio em que vivia "Zuza", era evidentemente outro absurdo. Ante a atitude de "Zuza", Geraldo, que a esta hora, havia sido conduzido à sua presença, pediu-lhe para contar a verdade, uma vez que para êle, Geraldo, já tudo revelara. Diante disto, "Zuza" resolveu abrir o livro, como se diz na gíria policial. Dirigindo-se ao Senhor Corregedor Geral da Chefia de Polícia, disse que estava pronto para esclarecer o que sabia sobre o crime. Conduzido ao cartório, perante testemunhas de reconhecida idoneidade moral, foram reduzidas a termo as suas declarações de fls.

Reafirmou êle, em linhas gerais, as acusações de Geraldo, procurando, no entanto, como é natural, esquivar-se, dando a entender que não agira com dolo, involuntariamente se envolvera com a trama sinistra. Não negou que tivesse sido êle o intermediário entre o Dr. Romualdo e Geraldo Gomes, o elemento de ligação dos dois comparsas diretamente responsáveis pelo delito.

Convém, nesta oportunidade transcrevermos os tópicos das declarações de "Zuza" e Geraldo, nesta parte, para se verificar a perfeita identidade das mesmas. Contando como conheceu Doutor Romualdo, assim se expressa Geraldo Gomes:

Que, em conversa, "Zuza", o declarante contava sempre as suas vantagens, principalmente quando fôra empregado do Coronel Argentil, que, como disse linhas atrás, tinha nele grande confiança.

Que "Zuza" certo dia, disse que tinha um amigo, um médico, que precisava de um homem como o declarante, trabalhador e disposto, e que na primeira oportunidade faria a apresentação do declarante ao dito Doutor. Que de fato "Zuza" cumpriu o prometido, pegando-o na Praça Sete e levando-o em seu automóvel até as proximidades do Hospital São Vicente e escola de Medicina, onde o apresentou ao Doutor Romualdo Neiva, o tal amigo a que se referia tempos atrás. (Declarações de fls 123, versus).

Ouçamos agora, a palavra de "Zuza" sobre o mesmo assunto. Desta maneira nos fala êle: "Que no ano passado, antes da morte do chauffer "Marcha Ré", ocorrida em circunstâncias estranhas, o declarante foi procurado por seu primo, Doutor Romualdo Neiva, que, na ocasião residia na Avenida do Contorno, próximo ao Hospital Militar, que lhe pediu para arrumar um bom chauffer, que entendesse bem da máquina e fosse um homem disposto. Que o declarante que tinha boa impressão de Geraldo Gomes da Silva, resolveu então levá-lo à presença do Doutor Romualdo, apresentando-o ao seu primo e pedindo para êle colocação. Que Geraldo Gomes da Silva foi levado à presença do Doutor Neiva , nesse dia no próprio carro com o qual o declarante fazia lotação para Santa Efigenia" (Declarações de Zuza). Estes tópicos das declarações dos dois acusados, não confirmados por Onorina Carmen, amante de Geraldo, quando, depondo pela segunda vês, nesta delegacia, assevera: "que antes do crime de que foi vítima "Marcha Ré", Geraldo, que estava desempregado disse à depoente que um chauffer de nome "Zuza" estava arranjando para êle emprego como chauffer de auto-lotação, ônibus ou carro de praça.

Depois de ter confessado ter recebido da bôca do próprio Dr. Romualdo Neiva a revelação de ter sido êle o o assassínio de "Marcha Ré", logo após seu regresso de Conselheiro Pena, o indiciado "Zuza" historia a sua cooperação no crime da Ressaca, nestes termos textuais:

"Que aproximadamente às vinte horas o declarante procurou o Doutor Neiva em sua casa na Avenida do Contorno, como haviam combinado e rumaram para a estrada da Ressaca, tomando o caminho natural, isto é, subindo a Rua Padre Eustáquio. Que, penetrando na estrada da Ressaca, mais ou menos uns tres quilometros, nas proximidades do armazém, o Doutor Neiva mandou que o declarante parasse, o que êle fez, atravessando o micro na estrada, com a parte dianteira voltada para o armazém. Que mais ou menos uma hora depois, pela estrada da Ressaca, veio um carro, parando mais ou menos a uns cem metros do do micro do declarante".

Cotejemos este texto das declarações de "Zuza" com um outro das de Geraldo, em sua confissão, quando diz:

Que "Marcha Ré" tocou em direção à Ressaca e uns quinze minutos depois chegava ao local previamente combinado, que, como disse, era um grupo escolar, à margem esquerda da estrada. Que ao aproximar-se do local, a uns cem metros mais ou menos, o declarante e "Marcha Ré" notaram que uma jardineira pequena estava parada no meio da estrada, atravessada com a frente voltada para um armazém, situado também, do lado esquerdo da estrada. Que o declarante acha que a jardineira que estava atravessada na estrada, perto do armazém, foi o veículo de que se serviu o Doutor Romualdo Neiva para transportar-se ao local do crime e que o mesmo era de pessoa de sua intimidade, tanto assim, que na hora em que fugiam em direção à esta cidade, um indivíduo branco que se encontrava ao volante da mesma jardineira, acenou com a mão como a dizer adeus. Que para o declarante, o indivíduo em apreço é o chauffer "Zuza".

Vêm, pois, que Geraldo não afirmara categoricamente que havia sido "Zuza", o homem que levara o Doutor Romualdo à estrada da Ressaca na noite fatídica. Foi êle, "Zuza", que, espontaneamente, confessou ter sido o condutor de seu primo, daí o inegável valor dessa confissão. Não falou Geraldo, também, que "Zuza" conduzira o Doutor Neiva no seu micro-ônibus. Falou em jardineira. Foi "Zuza" quem veio e alegou haver se utilizado de seu próprio carro.

Ouvido em ambiente calmo e sereno, com uma liberalidade jamais vista em crimes da gravidade deste de que estamos tratando, tendo por diversas vezes conversado em caráter amigável com a autoridade que o inquiriu, como podem atestar as testemunhas que assistiram suas declarações, "Zuza" foi pôsto imediatamente em liberdade. Como se mostrasse receioso de ser vitimado pelo Doutor Neiva e seus amigos, solicitou-nos garantias, tendo sido posto à sua disposição, para levá-lo em casa, o investigador Antonio Agostinho.

Decretada a sua prisão preventiva, desapareceu êle, para voltar dois dias depois, acompanhado de seus advogados, em estado de grande prostração física e moral. O homem que saíra bem dispôsto da Chefia de Polícia, após confessar sua participação no crime e acusar o Doutor Neiva, Inexplicavelmente regressava naquele deplorável estado, um verdadeiro farrapo humano, no dizer da imprensa.

Como explicar tamanha modificação?

Só podemos atribuir às ameaças e sevícias morais que lhe foram aplicadas pelos amigos do Doutor Neiva, a quem ele acusara, possivelmente os comunistas, que, a estas horas, já se encontravam arregimentados para salvar, de qualquer modo, a pele de um de seus grandes líderes no Estado.

Com razão disse o Doutor Corregedor: "Nunca a liberdade fez tanto mal a um homem".

Quando o mandamos em paz, prevíamos o que ía lhe acontecer. Por dever de ofício, conhecemos muito bem os metódos de persuasão e intimidação usados pelos prestistas. Eles nunca perdoam o traidor, o que delata o crime e aponta os criminosos. Para êles todos os crimes são perdoáveis, menos o de traição ao partido e seus chefes.

O rídiculo da encenação preparada para a entrega de "Zuza" à Polícia não produziu o efeito desejado. Ninguém acreditou nas acusações, que se levantaram contra as autoridades que o ouviram. , As torturas morais, tão inabilmente exploradas, se desmoralizaram ante a repulsa unânime da opinião pública, graças ao trabalho inteligente da imprensa.

Todos sabiam quais os verdadeiros culpados, quais haviam sido na realidade os algozes de "Zuza".

ZUZA CONFIRMA SUA PARTICIPAÇÃO

Após entregar-se, foi êle recolhido a um dos quartos particulares da Casa de Correção, onde permaneceu durante muitos dias, em observação médica. Ali, confirmou êle mais duas vezes sua participação no crime, que vitimou "Marcha Ré" e as suas acusações levantadas contra o Doutor Romualdo. Primeiramente, diante do Dr. Chefe de Polícia e do Dr. José Fernandes, digníssimo juiz da 3ª Vara Criminal de Belo Horizonte. Depois, na presença de três ilustres advogados, que ali compareceram a convite do Dr. Corregedor Geral da Chefia de Polícia, arrastados pelo nobre propósito de esclarece a verdade. Sabemos ainda, que um destes advogados, o Dr. Edgar Guimarães, fez-lhe várias perguntas, entre elas, uma de suma importância.

CARRO DE ZUZA SÓ FOI DESMONTADO APÓS O CRIME

Intrigado com as notícias que alguns farsantes veicularam pela imprensa, afirmando que o carro do "Zuza" estaria desmontado em uma garage da rua Brito Melo no dia do crime, aquele causídico perguntou a "Zuza" se era verdade o que estavam apregoando, tendo, então, o chauffer incriminado desmentido tal versão, dizendo que seu carro fora desmontado dias depois da morte de "Marcha Ré".

Diante disto desnecessário se torna destruirmos as graciosas declarações prestadas à imprensa por interessados na absolvição de "Zuza". Poderíamos analisar as informações dadas pelo bacharel Antonio Silva, a respeito, bem como as de sua empregada Maria Divina. Mas, são tão inverossímeis, tão inacreditáveis, pecam tanto pelo excesso de que se revestem, que talvez, melhor fôsse silenciar-mos. Maria Divina, quatro mêses após o crime, mostra ter prodigiosa memória, ao descrever com requintes de pormenores os passos dados por "Zuza", naquela noite de sexta-feira. Só faltou falar na côr de seus trajes íntimos, quando de seu recolhimento ao leito...

Não é atôa que os hebreus e os indús, e, depois os romanos na antiguidade, faziam severas restrições aos depoimentos femininos. Os romanos não tinham mesmo pêjo em afirmar: "Non mulieri, credetor sicuti viro".

ZUZA JÁ PRATICOU CRIME EM PARACATÚ

O depoimento do bacharel Silva, preferimos recebê-lo como um dêstes depoimentos de piedade, de altruísmo, de que nos falam os criminalistas. Não o conhecendo pessoalmente, presumimos tratar-se de homem de boa formação moral e cristã, sensível como nós, à dôr alheia. Talvez tivesse se deixado arrastar pelos impulsos de seu coração, ao ver debulhada em lágrimas, diante de sí, a aflita esposa de "Zuza". É sempre respeitável a dôr de uma espôsa, qualquer que seja o marido. Ninguém mais do que nós deplora esta situação, mas, acima de tudo e de todos, o sagrado cumprimento do dever. É tempo de arrancarmos a roupagem de santo com que querem vestir este mistificador. "Zuza" já praticou homicídio culposo em Paracatú, em 26 de julho de 1938, pelo qual foi condenado. Quando tinha doze anos, segundo êle próprio confessa, disparou a sua arma ferindo, gravemente, um soldado, que veio a falecer, mais tarde. Foi preso por desordens na mesma cidade e, atualmente, responde por um crime de atropelamento, ocorrido nesta capital, em 18 de janeiro de 1949. É o que consta dos documentos anexos aos autos à página 181.

A situação de Geraldo gomes da Silva e José Abrahão Guerra, o "Zuza", está claramente definida nestes autos.

Estes indiciados, confessaram sem preâmbulos, a participação que tiveram no evento criminoso, descrevendo com minúcias, o quinhão que lhes coube na fúnebre empreitada. As suas declarações encontram inteiro apôio nas provas, que se acumulam neste inquérito. A culpabilidade de ambos na cilada armada para atrair "Marcha Ré" à morte, e o papel que cada qual nela desempenhou, é matéria pacífica, já perfeitamente esclarecida.

Acusaram êles, como mentôr intelectual, como figura central de tôda a tragédia, que, por tantos e tão dilatados dias, prendeu a alma popular desta capital e de todo o estado, o Doutor Romualdo da Silva Neiva. Estribados nestas declarações dos co-autores e em outras provas indiciárias e circunstanciais, pedimos e obtivemos a decretação da prisão preventiva do médico acusado.

INOCENCIA NÃO SE PRESUME, PROVA-SE.

Interrogado pelo Doutor Corregedor Geral da Chefia de Polícia, o Doutor Neiva recusou-se a depôr. Ante as perguntas que lhe foram formuladas, de acordo com as exigências da lei, face ao disposto no artigo 185, do Código de Processo Penal, este indiciado preferiu manter-se desesperadamente na negativa. Esqueceu-se que o silêncio obstinado de um acusado, nada prova em seu favor.

Acareado com Geraldo, continuou o Doutor Neiva negando sua culpabilidade, dizendo-se inocente, sem nada haver alegado em favor desta inocência, esquecido de que, inocência não se presume, prova-se.

Os que o defendem, principalmente, os marginais, alegam em seu favor dois fatos, que segundo pensam são capazes de eliminar qualquer suspeita sôbre a sua pessoa e fulminar as provas contra êle colhidas pela Polícia. Na noite do crime, dizem os tais marginais, não poderia o Doutor Romualdo ter morto "Marcha Ré" porque na hora em que o mesmo se verificou, estava êle em casa de Astir Hissa, sua noiva...

Além disto, argumentam ainda, até através de epístolas encomendadas, o Doutor Neiva é um moço de bondade ilimitada, lhano no trato, amigo dos humildes a quem sempre procurou diminuir os sofrimentos, enfim, um cidadão de acrisoladas virtudes morais e cristãs. Isto, dizem os seus amigos, os seus protetores, os interessados na sua absolvição, os das extranhas solidariedades.

À estes argumentos contrapomos outros, capazes de pulverizá-los, senão vejamos:

Quem disse que o Doutor Romualdo Neiva, na noite de sexta-feira, vinte e três de setembro de mil novecentos e quarenta e nove, às vinte e uma horas, achava-se na casa de sua noiva? - O acusado, sua noiva, os parentes desta e mais ninguém. Merecem estes depoimentos qualquer fé, em juízo? Parece-nos que não. Partem êles de pessoas, diretamente interessadas em sua libertação, capazes de maior sacrifício para vê-lo livre, desembaraçado da penosa situação que se encontra.

                                                   OS VIZINHOS DESTROEM DECLARAÇÕES DA NOIVA DO MÉDICO

                                                 
                                                                                     A Casa de Neiva

                                                                                         

Astir Hissa, a infeliz noiva do Doutor Neiva, a cujo estoicismo rendemos nossas homenagens, falando aos repórteres do "Diário da Tarde" de 23 de janeiro do ano em curso, repete as mesmas palavras, pronunciadas em outubro do ano passado, quando, pela primeira vez, veio à baila o nome de seu noivo como um dos suspeitos do assassínio de Isoni.

Sem malícia, com a ingenuidade própria das mulheres menos amadurecidas, conta aquela linda história do passeio de automóvel pela Praça da Liberdade, em marcha lenta, o seu regresso à casa às vinte uma e trinta, o seu cochilar na boléia do carro, até a inocente brincadeira de palha atrás da orelha... É um bonito álibi, não resta a menor dúvida. Mas acredite nêle quem quiser, menos nós da Polícia. Tanto não acreditamos que resolvemos apurar a veracidade da história engendrada por Astir. Indicava ela como testemunhas de tais acontecimentos suas vizinhas. Dona Rosina Papa Dias e sua filha Eli. Intimadas compareceram à Chefia de Polícia, acompanhadas do senhor José Sérvulo Dias, marido e pai, respectivamente de Rosina e Eli. E o desmentido veio formal e peremptório.

Fazendo questão de ressaltar que não queriam incriminar ou inocentar ninguém, afirmaram Dona Rosina e seu marido, que jamais disseram a quem quer que seja que haviam visto o carro do Doutor Romualdo Neiva parado em frente à casa de sua noiva, na noite de 23 de setembro de 1949,noite em que tombou morto "Marcha Ré".

Eli Dias, a mocinha, que segundo Astir, levara uma guaraná gelada para o Doutor Romualdo, na noite do crime, confirma este detalhe do guaraná, negando, entretanto, ter visto, em casa de Astir, na referida noite, o Doutor Neiva.

Às vinte e três horas, quando da entrega do guaraná, viu seu carro parado no local de costume, não sabendo porém, a hora em que êle lá chegou. Termina seu depoimento, nestes termos, que são claros e incisivos: - "Que a depoente não viu, nem dentro do carro, nem nas janelas, nem do lado de fora, como habitualmente costumava passear, naquela noite, o Doutor Romualdo."

Vemos, pois, em face destes importantes depoimentos, que nenhuma prova apresentou até agora o Doutor Romualdo Neiva, capaz de nos convencer que, de fato, na noite de 23 de setembro do ano passado, encontrava-se em casa de sua noiva. O que ali foi visto, isto mesmo às vinte e três horas, foi seu carro, não a sua pessôa. Convém, ainda, ponderar que às vinte e três horas tudo já se encontrava consumado, tendo "Marcha Ré" dado entrada no Pronto Socorro às vinte e duas e doze minutos, conforme prova o controle da ambulância.

Não pode substituir tão pouco o segundo fator levantado pelos que o defenderam, pelos que se batem por sua inocência: - a extrema bondade de que se mostra dotado.

É preciso não se esquecer de que o Doutor Romualdo da Silva Neiva é comunista. Não se trata de mero credo vermelho, como cavilosamente se quer insinuar após o crime. Mas, de um autêntico comunista, cujos ideais jamais renegou. E um comunista, vamos ser sinceros, é capaz de tudo, até de praticar o mais feio dos crimes, que é o de trair à pátria. Destituído de qualquer sentimento cristão, a bondade do comunista é uma máscara, encobre sempre outros desígnios, visa outros objetivos.

Visitando os lares pobres de Santa Efigênia, distribuindo amostras de remédios, o Doutor Romualdo o que visava não era minorar o sofrimento alheio, mas angariar prosélitos para sua doutrina política, mais fácil de ser encontrada entre a dôr e a miséria.

MEMBRO DESTACADO DO PARTIDO COMUNISTA

Não se diga que somos nós, agora que êle caiu em desgraça, que estamos taxando de comunista. Não! Na Delegacia de Ordem Pública está êle fichado como comunista, tendo sido secretário da extinta célula Pedro Ernesto, instalada na Faculdade de Medicina em 22 de setembro de 1945. Foi êle também, secretário político do Comitê Distrital de Santa Efigênia, conforme publicação do Jornal do Povo, em 5 de fevereiro de 1947. "Vide documento de fls 176". É necessário não se esquecer de frisar que o secretário de uma célula e de um Comitê Distrital comunistas, de acôrdo com orientação do partido é o seu supremo chefe.

Ainda, recentemente, por ocasião dos preparativos do congresso Pró-Paz, continuou êle exercendo as suas atividades extremistas, reunindo-se com outros "camaradas", entre êles, João Corrêa e a Doutora Maria Las Casas, numa alfaiataria, situada no Bar Trianon, na Rua da Baía, (Depoimento de Walter Melo). Alguns ingênuos, interessados pela sorte do Doutor Romualdo, costumam argumentar por aí que é impossível ter êle morto a "Marcha Ré", homem a quem nem siquer conhecia, não tendo, outrossim, ficado provado também os encontros realizados entre o Doutor Romualdo e Geraldo, antes e depois do crime.

A frase proferida pela vítima, momentos antes de se ver gravemente ferida "eu conheço este homem", quando para o carro caminhava o Doutor Neiva, revela que entre os dois havia relações e que estas não eram muito amistosas, pois Isoni não quiz retribuir seu cumprimento.

Quanto aos encontros entre os dois principais indiciados, só podem extranhar não terem sido os mesmos presenciados por alguém, os indivíduos pouco conhecedores das manhas dos criminosos, principalmente daqueles que, prévia e calculadamente, armam o braço de terceiros para executar um crime. Comumente, estes encontros são em locais reservados, achando-se os dois sempre a sós, tomando todas as precauções para afastar testemunhas. Mesmo que alguém houvesse visto o Doutor Neiva conversando com Geraldo, de nada poderia suspeitar, salvo se adivinhasse o que lhe ia no cerébro, a evolução da idéia criminosa, que lhe verrumava a mente.

Além disto, pelas próprias palavras dos amigos e defensores do Doutor Neiva, através dos jornais, era seu costume estar permanentemente em contáto com os pobres e humildes. Logo, dêle ninguém poderia desconfiar, ao vê-lo conversando com um preto vulgar.

Contra o médico, além das confissões dos co-réus, Geraldo Gomes da Silva e José Abrahão Guerra qu se corroboraram e se entrozam de maneira integral, a Polícia colheu outros índicios, capazes por si só de levá-lo à barra do tribunal e à condenação.

CONFIRMA-SE O DEPOIMENTO DO FERROVIÁRIO

Os exames periciais levados a efeito na garage do prédio 2963, da Avenida do Contorno, onde residia o médico, poucos dias depois do crime, revelam que o auto 403, da vítima, penetrou no portão do prédio, deixando vestígios de tinta azul no referido portão, provocados pelos atritos que tiveram como consequência os arranhões do paralama do lado direito do veículo. (vide laudo fls 55).

Confirma-se deste modo, o importante depoimento de Nelson Rocha. Os peritos colheram quando do exame verificado, resíduos suspeitos tanto no portão como entre os detritos de cimento, areia, terra e tijolos no páteo , onde permaneceu por alguns instantes, o carro 403. Submetidos êstes resíduos a exame de laboratório, concluíram os peritos haver probabilidade ou possibilidade da existência de sangue no material recolhido.

Quando desta diligência surgiu o comentado e pitoresco incidente provocado pela Dona Aurita, a proprietária da pensão, acérrima defensora do Doutor Neiva, amplamente noticiado pela imprensa. Percebendo que os peritos vasculhavam tudo à procura de vestígios de sangue, Dona Aurita saiu com aquela história do cachorro ferido, que por ali passara, gotejando sangue. Tão fora de propósitos foi a desastrada intervenção de Dona Aurita que, Doutor Pimenta da Veiga, advogado de Neiva, habilmente a retirou do local para não ver mais complicada, por suas indiscreções, a situação de seu constituinte.

Os exames periciais realizados no terno do Doutor Neiva, apreendido em Conselheiro Pena, por ordem desta delegacia, revelam a existência de pingos de espermacete em suas calças, fato êsse que vem corroborar as afirmações de Geraldo, quando disse que o médico indiciado usou um tôco de vela para examinar os papéis retirados do cofre do carro, quando o mesmo entrou pelo portão da casa 2963, da Avenida do Contorno.

SANGUE NO PALETÓ

A suspeita da existência de sangue no paletó apreendido foi, em parte, confirmada pela Polícia Técnica, como demonstra o laudo de fls. O resultado não foi cem por cento como esperávamos, porque, como se verifica mesmo a olho nú, a aba e o ombro foram lavados por uma substância química destas comumente usadas pelos médicos para limpar manchas de sangue. Entrevistado pelo "Diário da Tarde" sobre a notícia da apreensão do seu terno e a probabilidade de estar o mesmo manchado de sangue, o Doutor Neiva deixou entrever em suas respostas ao repórter, a provável existencias destas manchas, alegando que o médico operador que é, possivelmente o sangue do avental poderia ter atravessado esta peça e atingido o seu paletó. Como se fosse possível aceitarmos uma explicação destas! Qualquer médico, mesmo os chamados médicos da roça, jamais operaria um cliente, por mais ligeira que fosse a intervenção, vestido com paletó. No caso presente, trata-se de um cirurgião servindo num hospital da capital, versado na ciência operatória, discípulo que foi de ilustrado médico, o que torna inaceitáveis as suas explicações. O desvestimento do paletó faz parte elementar da técnica cirúrgica.

TESTEMUNHA DE CAPITAL IMPORTÂNCIA

Quase ao findarmos êste inquérito, surgiu uma testemunha de capital importância, para cujo depoimento, chamamos a atenção da justiça. Trata-se de José Gomes Barbosa, o capataz da fazenda do sr. João Viana, onde foi preso o acusado Geraldo Gomes da Silva.

Depois de afirmar conhecer Geraldo há muito tempo, sendo seu íntimo amigo, a ponto de confiar-lhe a guarda da própria família, José Gomes Barbosa conta como apareceu Geraldo em sua casa, no início do mês de novembro findo. Com poucos dias de estadia na fazenda, observou José que seu amigo estava triste e pensativo. Invocando a velha amizade que os prendia, José pediu a Geraldo explicações sôbre seu estado de ânimo, sôbre a abatimento físico e moral de que se achava possuído. Geraldo então, contou-lhe tudo. Vamos passar então a palavra à testemunha citada para fazer seu relato. Em seu depoimento de fls., por precaução, assistido por duas testemunhas, assim fala José Gomes Barbosa: - "Que decorridos dias, o depoente que é amigo de Geraldo e em quem tinha a mais absoluta confiança, a ponto de mandá-lo trazer sua mulher ao médico, notou que Geraldo estava um pouco triste, mostrando-se preocupado. Que, diante disto, o depoente procurara saber de Geraldo quais as razões destas preocupações, perguntando-lhe se êle tinha feito alguma coisa de mal, tendo Geraldo então, lhe revelado, muito em segrêdo, que êle e um médico chamado Doutor Romualdo tinham sido os autores da morte do chauffer Isoni, conhecido por "Marcha Ré". Que o depoente reprovou o ato de Geraldo, que êle não deveria ter feito isto, tendo Geraldo, respondido que, quando praticara o crime, em companhia do médico, estava com a cabeça meio virada. Que, estarrecido ante a notícia recebida, o depoente a princípio supôs que Geraldo não estivesse dizendo a verdade, mas Geraldo disse que o que dissera era uma realidade, tanto assim que êle - depoente, esperasse, porque a qualquer hora ficaria sabendo a notícia".

Constata-se, assim, que, mesmo antes de ser preso, em novembro do ano passado, já Geraldo revelara a um seu amigo a culpabilidade do Doutor Neiva, no caso da morte de "Marcha Ré".

Conspiram, ainda contra o facultativo, outros indícios que vêm formar um élo muito forte em tôrno de sua pessôa, reforçando as provas já analizadas. Ei-los: - o trabalho de despistamento da Polícia, usado do princípio ao fim pelo Doutor Neiva. O seu comparecimento ante as autoridades policiais acompanhado por dois ilustres criminalistas para prestar declarações sem qualquer intimação ou insinuação por parte da Polícia sobre sua responsabilidade no assassinato de "Marcha Ré". O fato de ter-se prestado sem nenhum protesto a reconstituir a entrada do carro na garage da pensão onde residia, tal como qualquer assassino confesso, quando seria fácil a um homem de sua projeção social, escudado como se achava em bons protetores, recusar cumprir aquela formalidade policial, mormente quando em altos brados, se dizia inocente. A sua frase, célebre frase, quando da acareação: "GERALDO, VOCÊ É UM COVARDE", que a pena cintilante de Moacir Andrade, um dos mais brilhantes e cultos cronista do Estado tão bem analizou. Para essa crônica das mais erúditas, que se publicaram a respeito dêsse crime que tanta paixão despertou na opinião pública, chamamos a atenção de todos interessados no desfecho dêste sensacional caso.

Na perpetração dêste crime, na urdidura do mesmo, vê-se claramente a influência de comunismo. Desde o ardil, usado para atrair a vítima ao local do crime, onde foi isolada, até o desfecho final, obedeceu este assassinato aos moldes tipicamente vermelhos e que não se extranha por ser o Doutor Romualdo comunista.

Relembramos nesta fase de nosso relatório, alguns dos mais falados crimes praticados no Brasil, pelos agentes comunistas, para melhor julgarmos da semelhança dêstes, com o de que estamos tratando. O estrangulamento de Elsa Fernandes, os assassinatos de Tobias Warcheski, de Maria Silveira, a "Neli", e o de Domingos Antunes Silveira, mais conhecido por "Paulista", foram os que mais abalaram o povo por sua barbaridade e requintes de malvadês. Em todos êles as vítimas foram inteligentemente atraídas a uma cílada, em logares êrmos e despoliciados e alí friamente executados. Dêstes crimes, o de que foi vítima o chauffer profissional, apelidado de "Paulista", dado às características de que se revestiu, é o que mais, de fato, se assemelha ao de que trata o presente inquérito, parecendo êste uma cópia daquele.

Com efeito, o Domingos Antunes de Azevedo, o "Paulista", era como "Marcha Ré", chauffer de praça no Rio de Janeiro. Fôra êle o motorista encarregado de levar Maria Silveira, a "Neli", ao local onde a sacrificaram. Os assassinos da infeliz mulher , todos comunistas, não confiavam muito em "Paulista, e, por isto depois do crime, reunidos, resolveram eliminá-lo, eliminando, desta forma, a única testemunha capaz de denunciá-los. Lá, como aqui, valeram-se êles de dois amigos de "Paulista", os comunistas Antônio de Azevedo Costa para atraí-lo à estrada da Tijuca, o que foi feito com relativa facilidade. No dia do crime, tomaram o carro da vítima, já agora em companhia de Diocesano Martins e Daniel Valença, o primeiro, encarregado da execução, e, o segundo, chauffer profissional, que deveria ir na boléia e se encarregaria de freiar o carro, quando se verificasse o assassinato. Passaram, antes, num bar, onde adquiriram cerveja e sanduiches, pois, segundo diziam, iam para um pique-nique. Tal como "Marcha Ré", sem nada desconfiar, "Paulista" rumou para as furnas da Tijuca. Ali, quando julgaram azado o momento, Diocesano, covardemente, pelas costas, desfechou-lhe três tiros, matando-o. Morto, "Paulista" foi atirado do carro, tomando Valença a direção do mesmo, voltando os bandidos à cidade, onde, após saltarem do automóvel, abandonaram-no na rua Cupertino Durão. Aqui, a cópia foi quase fiel. Um único detalhe escapou, êste mesmo por circunstâncias independentes da vontade dos assassinos: "Marcha Ré", como "Paulista", não foi atirado fora do seu carro no local do crime, porque providencialmente, surgiu um automóvel, vindo da Ressaca, quando de sua agressão, evitando-se, desta forma, que se consumasse, in totum, as intenções do Doutor Neiva.

No Rio, como em Belo Horizonte, os assassinos, depois do crime, passaram a acompanhar as peripécias das investigações pelos jornais, e, impunes estariam até hoje se a Polícia carioca não tivesse agido com energia e destemor, tudo descobrindo.

A insensibilidade moral demonstrada pelo Doutor Neiva, a sua calma fria e meditada, retratam fielmente o criminoso nato, tipicamente comunista, educado para o crime, preparado física e espiritualmente para resistir as mais duras provas , aos mais cerrados interrogatórios. Tem êle a fibra de um verdadeiro líder bolchevista. Vem vivendo com heroismo incomum o seu grande drama, conseguindo, dêste modo, maior número de simpatizantes entre o seu credo político, aos quais dá o exemplo de como resistir os golpes de adversidade.

O MÓVEL DO CRIME

A Polícia, como a maioria do povo, mesmo antes de Geraldo, o assassino confesso, dizer que o móvel do crime era uma carta, já abraçara a hipótese de ter sido êste o motivo determinante do crime. Assim, pensava, porque de início foi logo banida a idéia de latrocínio. A carteira da vítima estava intacta e intocados alguns objetos de seu uso pessoal, inclusive um relógio. Enquanto isto o cofre do carro, como mostra a fotografia de fls, havia sido violentado, os papéis lá existentes, revistados. Era o testemunho mudo de que seu assassino procurara uma carta, documento ou fotografia, que supunha ou tivera denúncia de ali estar guardado.

Quando veio à baila o nome do Doutor Romualdo Neiva, como o possível autor deste crime, mais se robusteceram, a respeito, as convicções da Polícia. Separados socialmente vítima e indiciado, só poderiam juntar-se em circunstâncias tôdas especiais. A aproximação dos dois só se poderia ter verificado em situações equívocas.

A vida pregressa de "Marcha Ré" e do Doutor Romualdo nos mostrou o rumo a seguir. Ambos tinham por costume frequentar os "rendez vous" da cidade, um por dever de ofício e inclinação natural, outro, segundo êle próprio confessa em suas declarações, em obediência às suas necessidades fisiológicas de homem jovem e livre.Ora, todos sabem não constituindo tal fato segredo para ninguém, qu estas casas de tolerância, espalhadas pelos quatro cantos da cidade, não recebem sómente prostitutas vulgares. Infelizmente, ali vão ter de preferência mulheres casadas, acostumadas ao adultério, viúvas alegres e pobres mocinhas que, de virgem só tem o rótulo e a aparência. São os chamados "golpes" na gíria dos conquistadores.

A nossa presunção é que numa dessas sortidas amorosas, um dos "golpes" do médico incriminado haja esquecido no automóvel da vítima uma carta ou bilhete comprometedores, capazes de, revelados os seus têrmos, produzir-se o desmoronamento de um lar e o arrebatamento de um futuro. Apossando-se desta missiva, o chauffer vitimado, cujo caráter era um tanto maleável, sgundo é voz geral, teria dela se aproveitado para extorquir ou tentar extorquir dinheiro de sua portadora. Dai o ato de desespero do Doutor Neiva, vendo-se êle obrigado por uma questão de honra e, quem sabe, para defender seu próprio futuro, seriamente ameaçado, a lançar mão do recurso extremo, atraindo Isoni à Ressaca, para arrancar-lhe de qualquer modo, aquilo, que, indevida e criminosamente, retinha. Por isso teve que recorrer a Geraldo Gomes, amigo e protegido da vítima que teria, como teve, mais facilidade em levar, àquela hora da noite, "Marcha Ré" às estradas ermas da Ressaca.

A maioria daqueles que acompanham com interêsse o desenrolar deste dramático e já famoso caso policial, desconhece os meandros da processualidade. Justifica-se, assim, a confusão que vêm fazendo a respeito do móvel do crime. O móvel do crime é o motivo que leva alguém a delinquir. No caso, então, é uma carta, possivelmente de um amor proíbido. A nós da Polícia e à justiça, pouco importa o seu conteúdo, o nome do homem ou da mulher que escreveu. Ficamos satisfeitos apenas em saber o motivo, a causa que determinou o Doutor Neiva a tramar a eliminação de "Marcha Ré". Não nos interessa a vida privada de ninguém. Intencionalmente, a Polícia não concorre para denegrir, reputações e fomentar desgraças.

Muito fortes e comprometedores devem ser os têrmos desta carta, capazes de justificar o ato do Doutor Romualdo, indo tentar reavê-la em pessoa. Em vista desta atitude e da reação ultimamente provocada no seio dos comunistas, não são poucos os que divulgam a idéia de que tão decantada missiva contenha não o segredo de um amor proibido, mas sim uma revelação comprometedora do Partido Comunista, que, eventualmente, foi ter às mãos de Isoni.

Para nós o Doutor Romualdo conseguiu rehaver o documento. A calma e a frieza com que vem enfrentando a dolorosa situação em que o colocou o destino, dá-nos esta convicção. Vislumbrasse êle a mais leve possibilidade da Polícia descobrir tão importante e inconveniente documento e outra seria a sua atitude.

O segrêdo, o grande mistério, ninguém jamais o desvendará, a não ser que o Doutor Romualdo o revele.Por muitos anos ainda, se falará nesta carta, famigerada carta, que roubou a vida de um homem e matou as esperanças de um moço.

A TRAMA DA PRISÃO DE GERALDO GOMES

Para o grosso do público e mesmo para a maioria dos que exercem atividades policiais em Belo Horizonte, constituiu desconcertante surpresa a prisão de Geraldo Gomes da Silva, nas condições em que se deu, bem como a maneira como foi obtida a sua confissão, quando de suas primeiras declarações. Um crime assim, tão misterioso e tão confuso, não se descobre com essa facilidade assim. Suspeitou-se logo e com carradas de razões da urdidura de uma trama, organizada para entregar o criminoso à Polícia.

Não faltou até quem o supusesse um auto-acusador, com intenções de ocultar, por paga, o verdadeiro criminoso. Os que suspeitaram tratar-se de uma trama, adredemente preparada, a prisão de Geraldo, tiveram mais tarde, confirmadas suas suspeitas.

Com efeito, basta ler com atenção devida, o longo depoimento do investigador Otaviano borges, o homem que entregou Geraldo à Polícia, para chegarmos a esta conclusão. Nota-se por êste depoimento que aquele policial foi habilmente enleiado pelos comunistas, os mais diretamente interessados na proclamação da inocência do Doutor Neiva. Vemos por êste depoimento que foi Fritz Sales, namorado de uma cunhada do investigador, que o levou à presença do Doutor Neiva, na casa do professor Silva de Assis.

Data daí, o primeiro contácto de Otaviano com o indiciado Doutor Neiva. Outros encontros foram se verificando, sempre provocados pelo médico que parecia experimentar o "tira" para ver até onde poderia nele confiar. Tornaram-se amigos a ponto de ter o investigador orientado o Doutor Neiva após as declarações de Geraldo, como êle deveria portar-se, diante do delegado, na acareação, se por acaso fosse chamado à Polícia. (Vide depoimento de Otaviano Borges). Estavam as coisas neste pé, quando em meados de janeiro, um cunhado de Otaviano, de nome Delmir Vilela, também comunista, telefonou ao policial pedindo para procurar Adelino Roque, graduado chefe vermelho, residente à rua Platina 337, pois este conhecia uma pessoa que sabia quem era e até onde residia o assassino de "Marcha Ré".(Depoimento de Fls 152). O programa estava sendo executado à risca. O Doutor Neiva foi levado à presença de Adelino, seu velho conhecido de partido, conforme faz sentir o investigador, mostrando-se o médico entusiasmado com a notícia.

A esta altura dos acontecimentos, Geraldo já se encontrava devidamente preparado para ser preso, conforme faz sentir em suas declarações, quando da acareação com o Doutor Romualdo, corroboradas pelas afirmações de seu amigo José Gomes Barbosa, que, em seu depoimento, disse que Geraldo parecia aguardar, a qualquer momento, sua prisão.

A confissão que tinha a fazer na Polícia já lhe havia sido ensinada, estando inteiramente decorada. O momento era oportuno para fazer a entrega do preto. O segredo da morte de "Marcha Ré" já não mais estava de posse apenas dos assassinos e de Onorina, amante de Geraldo. Três outras pessoas, Maria de Oliveira, Inercina e o cabo Osório, também o conheciam. Era preciso agir e com urgência, antes que o cabo Osório, conforme lhes declarara, levasse os fatos ao conhecimento das autoridades competentes. E passaram então, o Doutor Romualdo e "Zuza", num trabalho inteligente de despistamento, a auxiliar Otaviano na localização e captura de Geraldo. Tinham êles todo interesse em entregar Geraldo a este policial amigo. Com isto, pensavam não correr perigo algum. Geraldo seria levado à presença do delegado por Otaviano, não seria apertado, contaria a história que contou, quando de sua primeira confissão, e seria solto, pois, segundo "Zuza", não tinha contra sí, decretada prisão preventiva. Quase que obtiveram êxito total em suas maquinações. Não fosse a intervenção da alta administração policial, teriam vencido a partida tão habilmente jogada. Em liberdade, Geraldo, como é de costume e tradição entre os comunistas, em casos desta natureza, seria, oportunamente executado. O Doutor Romualdo se safaria da incômoda posição que se encontrava e, de palanque, o comunismo assistiria à debacle da Polícia e da Justiça, o desprestígio, enfim, das autoridades constituídas, eterna preocupação dos seus chefes.

Entregue Geraldo à Polícia, os autores da farça, tranquilamente foram aguardar em sua casa o resultado, já com as entrevistas preparadas para a imprensa e o rádio, logo que estourasse a bomba. Não faltou siquer alguém que, impensadamente, declarasse, que, a acreditar-se na confissão do preto, havia êle agido em legítima defesa. . .

Mas o tiro saiu pela culatra. A primeira confissão de Geraldo, tão inabilmente arquitetada, não convenceu a ninguém, não poderia resistir, como fato não resistiu ao mais ligeiro sôpro da lógica e da verdade. E a máscara dos farsantes veio abaixo.

CONCLUSÃO

Ao chegarmos ao fim dêste sensacional inquérito, devemos confessar estarmos tranquilos com a nossa consciência. Na sua feitura, trabalhosa e verdadeiramente estafante, não tivemos outros objetivos sinão o esclarecimento da verdade e bem servir à justiça. Somente uma paixão nos arrastou, a paixão da verdade.

Estamos convictos de que atingimos nosso desideratum, apontando à justiça e à sociedade como responsáveis pela morte do infortunado "Marcha Ré", o Doutor Romualdo da Silva Neiva, Geraldo Gomes da Silva e José Abrahão Guerra, vulgo "Zuza". O fazemos de consciência tranquila, baseado em provas irrefutáveis, angariadas às claras, sob o olhar vigilante da imprensa e da opinião pública, que acompanharam, passo a passo, todo o desenrolar do nosso trabalho.

O povo supremo e severo juiz da Polícia, nos regimes democráticos, através de seus porta vozes, que são os homens da imprensa, já nos julgou. Acredita na culpabilidade dos indiciados. Resta agora o pronunciamento da justiça, que não tardará e cegamente nele confiamos.

A tarefa a nós entregue foi árdua e de urzes sempre foram os caminhos que palmilhamos. Porque ainda é difícil neste País, e com mágoa nós o dizemos, processar os ricos e poderosos, principalmente quando se encontram escudados em prestígios de classes, seitas ou partidos políticos.

Mas, desde quando, stá escrito nas leis divinas ou humanas que, matar é privilégio dos pobres e dos humildes e que só êles devem pagar pelos crimes cometidos?

A prevalecer tão exdrúxula e revoltante tése, melhor não seria rasgarmos nossas leis e introduzir entre nós o regime do patriciado.

Os tropêços e as dificuldades por nós enfrentados neste sensacional inquérito, não foram erguidos para salvaguardar os direitos de Geraldo Gomes da Silva, o pobre preto arrastado à prática de um crime pela maldade dos brancos que depois, tentaram atraiçoá-lo. Todos os obstáculos que se levantaram diante de nós, foram no sentido de salvar a sorte do Doutor Romualdo da Silva Neiva e de seu primo e protegido , José Abrahão Guerra. Esquecem-se, entretanto, os homens que se levantaram para proteger êstes indiciados de que não somos nós da Polícia que, deliberada e propositalmenrte, fomos ao encontro do Doutor Neiva e deseu apêndice - o "Zuza". Foram êles, arrastados por sua culpa, que vieram até nós.

A Polícia, é bom que se diga mais uma vez, não condena ninguém nem absolve ninguém. O seu dever é apontar à à justiça e à sociedade os criminosos, cabendo a elas puní-los.

Afinal, não fomos nós e sim o destino que colocou no caminho do Doutor Romualdo da Silva Neiva: o ferroviário Nelson Rocha; que arranhamos o carro 403 no portão de sua casa, na Avenida do Contorno, 2963; que jogamos pingos de espermacete em suas calças; que mandamos Geraldo e "Zuza" confessar o crime e apontar o Doutor Neiva como principal responsável pela tragédia; que criamos o depoimento de José Gomes Barbosa, em o qual, êle diz que já em novembro, Geraldo lhe havia revelado que êle e o Doutor Romualdo haviam morto a "Marcha Ré"; que tivemos culpa de Iracema Silva, na noite do crime, na rua Padre Eustáquio, haver visto dois homens no automóvel 403, um preto e outro branco; que descobrimos ser o Doutor Romualdo um dos chefes comunistas a frequentar os vários rendez-vouz da cidade; que, finalmente tramamos com seus amigos comunistas a entrega de Geraldo à Polícia.

Tudo isto e mais as provas circunstanciais colhidas neste inquérito, que atestam, sem sombras de dúvida, a responsabilidade dos indiciados na morte de "Marcha Ré", são a expressão mesmo da verdade.

A Polícia não fabricou estas provas nem tão pouco engendrou confissões para os indiciados assiná-las, como maldosamente disse um dos advogados de Doutor Neiva, em sua entrevista concedida ao "Diário Católico" de 12 do corrente mês. Bem sabe aquele ilustrado causídico que não é o nosso costume assim proceder. Qualquer outro advogado, menos êle, poderia, mesmo sem razões, insinuar tais coisas em nosso detrimento. Porque, em nenhuma administração, gozamos de mais prestígio e tivemos mais forças, como, quando, de sua passagem pela Chefia de Polícia e deve ser do conhecimento de Sua Senhoria, que jamais nos prevalecemos dêste prestígio e desta fôrça, mesmo no período semi-ditatorial, como vivíamos, para fabricar confissões. Não acrditamos que o repórter que o entrevistou haja interpretado bem o seu pensamento. Preferimos assim pensar, porque o recurso utilizado para defender os seus constituintes não está, positivamente de acôrdo com o seu passado e sua dignidade profissional. Pode ordenar que seu constituinte "Zuza" negue sua participação no delito e esculpe seu primo e protetor Doutor Neiva, mesmo atentando-se a que suas declarações foram livres, prestadas perante três pessoas idôneas, reiteradas por duas vezes, na Casa de Correção como tivemos oportunidade de acentuar.

A negativa é um direito que que lhe assiste, é o "jus sperneandi", é a táboa de salvação em deverá agarrar-se para salvar a causa periclitante dos indiciados. Aliás, essa negativa de "Zuza", esta retratação, já é esperada por todos. Outro objetivo não tiveram os advogados do Doutor Neiva, quando procuraram obter a procuração de seu primo. A retratação deve ter sido a condição dele exigida para patrocinarem sua causa. O golpe, só não o vêm, os cegos. Não cabe a nós da Polícia julgar o valor desta retratação. Caberá à justiça apreciá-la e temos certeza que o fará com as cautelas devidas.

Chegado é o momento de pormos um paradeiro a esta onda de inverdades que, de quando em vez, alguém prejudicado em seus interesses ilegítimos, assaca contra a Polícia. A Polícia é uma corporação chefiada e orientada por bacharéis, em sua maioria esmagadora tão dignos, honestos e altivos como os mais o sejam em qualquer dos setôres da atividade humana. E, por isto mesmo deve merecer o respeito e o tratamento de todos. Não a julguem aqueles que não sabem ou não podem julgar. Falamos isto, porque além das insinuações a que nos referimos, linhas atrás, alguém rico de imaginação e pobre de espírito, lançou contra nós uma acusação que precisa ser repelida, devido a desagradável repercussão que teve entre a honrada e nobre classe dos advogados. Referimo-nos à notícia de que a Polícia, para conseguir a confissão de Geraldo, teria usado de um ardil, lançando mão dos honrados Doutores Chefe de Polícia de Estado e Corregedor Geral da Chefia de Polícia, bem como, do brilhante advogado Doutor Pimenta da Veiga. Não sabemos como puderam forjar tal notícia. Vamos liquidar de vez esta lenda. Geraldo confessou o crime, apontando os seus comparsas porque, quando da primeira vez que êle depôs, estava mentindo, e a mentira não pode manter-se por muito tempo, mormente quando o mentiroso não dispõe de recursos intelectuais para sustentá-la.

Enfim, se o testemunho do criminoso, isto é, a confissão do crime é a melhor das provas, se é o meio menos suspeito para se chegar à verdade, segundo Mitemaier e Benthan; se a confissão dos co-réus, desde que não se eximam da responsabilidade de seus atos criminosos deve ser crida em juízo; se a confissão feita perante a autoridade policial, quando acompanhada de outros elementos de convicção, constitue prova não só para a pronúncia como para a condenação, como têm entendido alguns criminalistas, os mais eminentes: se o índicio é o testemunho mudo; se a presunção é a aparência da verdade; se a prova testemunhal, mesmo com sua costumeira falibilidade, tem o seu valor relativo e é de ser aceita, até prova em contrário; finalmente se matar é crime previsto em nosso Código Penal; se tudo isto é verdade e não um mito, então poderemos dizer, afirmar que o Doutor Romualdo da Silva Neiva, Geraldo Gomes da Silva e José Abrahão Guerra são criminosos e devem pagar pelo assassinato de "Marcha Ré".

Ao pormos fim a este longo relatório, queremos agradecer a confiança, o apoio moral e material que nos deram o Doutor Chefe de Polícia do Estado e Corregedor Geral da Chefia da Polícia e outras autoridades sediadas em Belo Horizonte. Enquanto o primeiro nos assistia de longe, cercando-nos das garantias necessárias para atingirmos nosso objetivo, o Doutor Corregedor veio até nós, e, ombro a ombro, caminhou conosco, nas fases culminantes dêste inquérito. A êle e ao seu digno auxiliar devemos grande parte de nosso êxito.

Seria injustiça, se, ao remetermos este inquérito às autoridades judiciárias, aqui não ressaltassemos o trabalho da imprensa da capital, o brilhante papel por ela desempenhado em todo o desenvolver do inquérito. Portou-se dignamente, à altura de sua relevante missão social orientando a opinião pública, com imparcialidade, fazendo justiça aos nossos esforços, desmanchando intrigas e corrigindo enganos.

Dando o valor merecido ao trabalho dos rapazes da imprensa, que de perto nos acompanharam, reproduzindo com fidelidade, o que viram e ouviram nas noites de vigílias e madrugadas endormidas, que conôsco passaram, fizemos juntar a este volumoso inquérito dezenas de recortes de todos os jornais de Belo Horizonte, contendo judiciosos artigos e crônicas sobre o mais falado crime já verificado em terras de Minas Gerais.

Este inquérito obedeceu em tudo as formalidades estatuídas em lei. Assim relatados, sejam êstes autos remetidos ao Excelentíssimo Senhor Doutor Juiz substituto da 3ª Vara Criminal, para os fins legais.

Envie-se cópia dêste relatório ao Excelentíssimo Senhor Doutor Corregedor Geral da Chefia de Polícia do Estado.

Chefia de Polícia , em Belo Horizonte, aos 14 de fevereiro de 1950.

                                                
                                                                                 Luiz Soares de Souza Rocha

                                                                             3º Delegado Auxiliar da Chefia de Polícia

O JULGAMENTO

O médico Romualdo Neiva foi processado e condenado pelo Tribunal de Júri no primeiro julgamento a uma pena de 3 anos. Houve uma grande controvérsia em relação a esse crime e o detetive Alfredo Zuquin, que trabalhou nas investigações, acusado de manipular o resultado para apontar o médico como mandante, o que não seria a primeira vez em casos de grande repercussão ou com envolvimento de pessoas influentes no seio da sociedade. A polícia é sempre a culpada. Abaixo o documento dos arquivos do TJMG onde registra o julgamento de Romualdo Neiva.

"O "Crime do Marcha a Ré", ocorrido em Belo Horizonte em 1949, foi de grande repercussão e amplamente divulgado pela imprensa da época. O motorista de táxi Francisco Isoni, conhecido como “Marcha a Ré”, foi assassinado, sendo que seu carro e seu corpo foram encontrados em pontos distintos da cidade (Carlos Prates e Centro da Capital, respectivamente). Foi apontado como principal suspeito do crime o médico Romualdo Neiva. Segundo uma testemunha, o taxista havia interceptado uma carta de um outro médico e professor de Neiva para uma suposta amante. Depois disso, Marcha a Ré passou a chantagear o professor e, por isso, teria sido morto pelo aluno.

Confissão

Romualdo Neiva, que se encontrava fora da cidade, ao retornar apontou o assassino como sendo o motorista Geraldo Gomes da Silva, que, por sua vez, confessou ser o único culpado. O detetive Zuquim, encarregado do caso, insistiu em sua teoria, que se apoiava no depoimento de uma testemunha diagnosticada como portadora de desequilíbrio emocional, e teria induzido o autor a apontar Neiva e seu primo, o motorista José Abraão Guerra, como co-autores.

Os três foram presos, processados e levados a júri popular. No primeiro julgamento, José Abraão Guerra foi absolvido e Geraldo Gomes da Silva e Romualdo Neiva foram condenados, em decisão que acabou sendo anulada.

No segundo julgamento, auxiliando a defesa, atuou o criminalista Evandro Lins e Silva, que viria mais tarde a ser Ministro das Relações Exteriores e do Supremo Tribunal Federal (STF). O advogado demonstrou de forma incontestável que o réu não tinha sido autor nem participara do crime. A absolvição foi obtida com a demonstração científica da insustentabilidade da denúncia, levando-se em conta o tempo de coagulação do sangue humano.

Condenação

Nesse novo julgamento, o júri manteve a condenação do motorista Geraldo Gomes e a absolvição de José Abraão Guerra. Por maioria de votos, foi absolvido também o médico Romualdo Neiva. O representante do Ministério Público recorreu da decisão.

No julgamento, o relator do processo votou pelo não provimento da apelação e os demais votaram, igualmente, pela absolvição do médico, que teve seu alvará de soltura expedido logo após o julgamento."

 

2011 1949. O Assassinato de Marcha Ré- Luiz Soares da Rocha. © 2012 - Cyberpolicia: História da Polícia Operacional Investigativa
Powered by Joomla 1.7 Templates, read web hosting reviews