Biografia Faria 1 - Detetive. O início da Carreira

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Categoria: Biografia

 

BIOGRAFIA PARTE I

 

 

INTRODUÇÃO

 

          Este espaço biográfico é dedicado ao autor deste site, o policial civil aposentado Antonio Carlos Correa de Faria, (Faria) para registrar sua vida e carreira profissional, apresentando de maneira transparente, principalmente para jovens policiais, todas as intempéries, dificuldades, alegrias, perigos, tristezas e adrenalina na profissão polícia. Irá registrar também, as mudanças e evolução em relação ao enfrentamento no aspecto criminal, durante toda a sua trajetória na carreira escolhida. Faria é um policial que iniciou sua carreira muito jovem, como detetive, nos idos da década de 70, alcançando todos os níveis da carreira. Posteriormente, através de concurso público, galgou o cargo de delegado, e, mais uma vez, alcançou todos os níveis até atingir o ápice, como Delegado Geral. Ocupou praticamente todos os cargos operacionais, sempre lembrado nos momentos de crise, como vamos observar nessa narrativa sobre sua vida policial.

          Faria não busca o pedantismo de se colocar como um herói ou um grande policial. Busca apenas, fazer uma narrativa da vida de um policial linha de frente, assim como milhares de outros que já se foram, ou continuam na lida infernal que buscaram como profissão. Heróis, o são, todos os policiais que enfrentam no dia a dia, o front da violência urbana na repressão à criminalidade. Sejam policiais civis, militares ou federais, a carreira e seus sacrifícios lhes exigem essa condição, que nem sempre, esses bravos e legítimos policiais têm a noção de sua importância dentro do sistema de segurança em nossa sociedade. Assim como, essa mesma sociedade assistida por esses bravos, não lhes delegam a justa importância profissional.

          Muitas investigações, diligências e acervo biográfico ficarão fora deste documento por terem se perdido com o tempo, pela falta de uma memória mais detalhada, mas, certamente, tentaremos inserir no cerne dessa biografia, pelo menos os fatos mais importantes, ou que tenham sido registrados ao longo dos trinta e cinco anos de atividade desse profissional. Buscaremos ilustrar e demonstrar a veracidade e realidade dos fatos aqui narrados, com fotos, documentos e reportagens que se interligam durante a narrativa.

 

PREÂMBULO

O FILHO DE AIMORÉS

 

           Antonio Correa de Faria, pai do biografado, casou-se em 1950 com Landy, da família Araújo, da cidade vizinha Mutum, notória pelos crimes de mando e assassinatos cruéis. Após o enlace, foram morar em uma casa às margens do Rio Manhuaçu, nas propriedades do pai, Joaquim Correa de Faria, onde trabalhava a terra e cuidava dos afazeres da roça. O menino Antonio Carlos de Faria, que depois mudaria seu nome para Antonio Carlos Correa de Faria, nasceu em 1954, na cidade de Aimorés, no leste mineiro, às margens do Rio Doce, divisa de município com Baixo Guandu, no Espírito Santo, onde viveu parte de sua infância até os seis anos, quando seus pais empreenderam fuga para Belo Horizonte. 

1950. A casa na roça, de Antonio e Landy. Barra do Capim/Aimorés.

         Nas décadas de 30/40/50 e 60, Aimorés foi palco biográfico do coronelismo sangrento e da pistolagem que imperavam naquela região do Vale do Rio Doce, uma das mais violentas de Minas Gerais. A cidade tinha como mandatário político, à época, o famoso “Coronel Bimbim”, responsável por mais de 8.000 mortes, segundo a imprensa e revistas que registraram reportagens sobre o notório cidadão. Em meio a esta cultura “antropofágica”, a família Corrêa de Faria tentava se manter naquela região com seus desmandos. Abaixo, transcrição de partes do livro escrito pelo biografado: “O Sangue do Barão – As Histórias de Nossa História”, que narra a saga de sua família Corrêa de Faria e o cotidiano dos crimes e da cidade de Aimorés, desde seu nascimento, infância e décadas pretéritas. O primeiro dos cinco trechos destacados do livro, narra uma característica, de como eram tratados, politicamente, os casos violentos e, em particular, um que envolveu sua família.

         Registramos a história de furto de ovos ocorrido na casa na zona rural de Aimorés, conhecida por Barra do Capim (Foto acima), onde moravam os pais do biografado, sendo suspeito um filho de empregados da lavoura:

           “Quando faltavam três meses para o nascimento de Antônio Carlos, o segundo filho, Landy deixou sua casa na roça e foi para a cidade de Aimorés, onde sempre ficava aos cuidados de Libânia Araújo durante os períodos de parto e resguardo. Antonio ficou na Barra do Capim e passou a vigiar o “gambá’ que estava roubando os ovos, não demorando muito para flagrar um rapaz, filho de um dos baianos, furtando os ovos nos ninhos. O rapaz sofreu uma reprimenda verbal e correu para contar ao seu tio, que não gostou e fez intriga com o irmão, pai do rapaz. O homem imediatamente tomou as dores, falando que não admitia que seu filho fosse chamado de ladrão e armando-se com uma faca tipo peixeira, com cerca de 40 centímetros de lamina saiu à procura de meu pai, achando-o trabalhando na roça, em cima de um dormente, utilizando um machado para cortar e aparar lenha. O homem foi chegando e tirando satisfação, enquanto Antonio, com seu jeito mineiro, continuava seu trabalho sem lhe responder. O baiano foi ficando nervoso com aquela indiferença e explodiu sua cólera. “Ocê num vai me responder não seu cabra safado”. Em seguida sacou a arma que levava na cintura, não observando a posição privilegiada de seu oponente, que estava em cima de uma tora de madeira, num plano mais elevado em relação ao seu pretenso agressor. Ao perceber que seria atingido, agiu rápido, desferindo um golpe certeiro com o machado, atingindo um dos lados da cabeça do baiano que caiu ao solo com uma das orelhas decepada, no meio de uma grande poça de sangue. Antonio disparou a pé para Aimorés, chegando ofegante após correr os cerca de 15 quilômetros que dividia a Barra do Capim, de Aimorés, contando para Libânia Araújo: “Oia madrinha, tenho certeza que vou sê preso, pois o sem-vergonha é gente do PSD, ligado no Álvaro Sales, mas eu num podia dêxá ele mi matá”.Meu pai era da UDN, adversário político da turma do PSD que estava no poder. Libânia com seu trejeito sisudo lhe disse: “Cê vai ser preso é nada”, apanhou sua bicicleta Phillips e saiu procurando o citado político para narrar os fatos, dizendo que não admitiria ver seu sobrinho preso por causa de uma agressão que não provocou, apenas se defendeu. No mesmo dia, Álvaro Sales procurou Libânia para dizer que a “parte”, como era chamada a notícia de crime, já estava arquivada.”

            A história de Aimorés registra inúmeros incidentes e assassinatos envolvendo as disputas políticas locais, como percebemos em outra parte do livro, “O Sangue do Barão – As Histórias de Nossa História”:     

“As eleições de 1954 marcaram nos anais da história de Aimorés, um período de violência e corrupção eleitoral, quando Zequinha Henrique e “Bimbim” se candidataram a prefeito e vice respectivamente pelo PSD, contra Antônio Ferdinando Polastri e Antônio Filgueiras Campos pela UDN, principalmente pela omissão da Secretaria de Segurança que fez vista grossa, porque o governo estadual era do mesmo partido de “Bimbim”. Nessa eleição, defuntos saíram de suas covas para votar, eleitores foram espancados, títulos foram rasgados pela simples desconfiança de que a pessoa iria votar no adversário. Uma mesma pessoa votava em Baixo Guandu e Aimorés, ou vice versa, além de votar em mais de uma sessão no mesmo município. Antônio Corrêa e Landy ficavam alheios a violência política, cuidando de seus afazeres na Barra do Capim, apesar de udenistas, enquanto Libânia Araújo saía em campo pelos votos de seu partido, o PSD. Libânia Araújo era uma das eleitoras que votavam mais de uma vez, em Aimorés e Mutum. Nas ruas as duas facções se digladiavam em deboches e agressões verbais, sendo os partidários de “Bimbim” chamados de Pica-paus e os adversários, da UDN, denominados de Corta-goelas.”.

As reportagens abaixo, do Jornal Última Hora, registram alguns aspectos da violência em Aimorés. Na primeira matéria, a foto do Coronel Bimbim, o carrasco de Aimorés.


        Mais um caso inusitado da política em Aimorés, durante a infância de Antônio Carlos e suas irmãs Graça, Penha e Auxiliadora, foi o assassinato de um cabo eleitoral de Juscelino Kubitschek, no final dos anos 50, durante um discurso, também narrado no livro aqui citado:

          “O caso do pistoleiro Mesquita causou grande repercussão em Aimorés, quando da chegada de Juscelino Kubitschek na cidade. Durante o comício, o pistoleiro se posicionou bem próximo do palanque e atirou contra Pacheco, cabo eleitoral de Juscelino e que se encontrava do seu lado direito. O homem caiu morto ao lado do ex-presidente que levou um grande susto em meio à correria após o tiro mortal. Mesquita correu para a divisa do estado e do outro lado da ponte que limitava Aimorés com Baixo Guandu, mostrava sua arma para as pessoas que o perseguiram e dizia em tom de deboche: “Êta revolvinho bão qui nunca faiô”. No momento de medo e raiva pela covardia, Juscelino teria gritado para o povo que o assistia: “Eu quero a orelha desse bandido”. Dias depois o pistoleiro foi morto na casa da amante, segundo contam, a mando de um político influente da capital. Antônio Pereira, o marido de Nelci, constatou a morte do pistoleiro de uma forma que jamais esqueceu. Ele foi jantar um frango ensopado na casa de um amigo, quando ele lhe chamou no quarto para lhe mostrar “uma coisa” antes de comerem o frango. O amigo pegou um vidro com um líquido e alguma coisa dentro, dizendo: “Óia ai Toim, é a orêia do homi pra mandá pru Juscelino”. Antônio Pereira amarelou e teve ânsia de vomito ao ver a orelha do pistoleiro Mesquita dentro de vidro e saiu correndo da casa do amigo, sem jantar.”

          O Coronel Bimbim ganhou notoriedade política em Aimorés, principalmente em razão dos inúmeros assassinatos e crimes praticados por seus jagunços contra os desafetos:

          “Segundo a revista Século, em seu número 21, de novembro de 2001, “Cálculos mais exagerados dão conta que Bimbim, nos seus 40 anos de domínio sobre o Vale do Rio Doce, foi responsável por mais de oito mil mortes”. As mortes aqui computadas vão desde ladrões de toda espécie, a ciganos, adúlteros, estupradores, a políticos ou cidadãos que simplesmente não concordavam com sua ideologia política e ousava votar nas eleições em seus adversários. Dizem que era temido por muitos, respeitado por outros tantos, que alguns o amava, mas a maioria o odiava, ainda que veladamente. São inúmeras as histórias desse Coronel, registradas principalmente na memória daqueles que conviveram com ele, ou em Aimorés naquele tempo. Dentre os muitos casos, um descreve o tratamento dado a um estuprador no final dos anos 50, que teve uma das orelhas decepadas pelos jagunços de “Bimbim”, que apesar de ter sua vida poupada, carregou para o resto de sua vida a marca de sua condenação sumária, lembrando muito, alguns países bárbaros que adotam a mutilação de membros como pena para criminosos. Alguns moradores mais antigos, na casa de seus 70 a 80 anos relembram que certa vez o coronel chegou em um baile onde a sanfona “comia solta” e com seus jagunços obrigou os homens a dançar com os homens e as mulheres com mulheres até o raiar do dia”.

           Em 1960, depois de um atrito que envolveu o Tenente Scárdua, jagunço de Bimbim, Antonio Correa de Faria Sobrinho juntava sua prole e com sua esposa embarcavam para a capital mineira. Pelo trem da Vitória-Minas, em uma viagem sem volta às origens, na fuga de uma morte anunciada, iam em direção a um futuro incerto. Assim como ele, inúmeras famílias fugiram do coronelismo violento de Aimorés: 

 “José Vicente de Oliveira, juiz de paz de Penha do Capim naquela época e também se refugiou na capital, com medo da morte. Virgílio Oliveira, que era homem rico em Aimorés largou todos os seus bens para iniciar uma vida modesta na grande metrópole. Também Valdemiro Ribeiro Soares, amigo de Antonio Corrêa, foi mais um pai de família que fugiu de Aimorés com sua mulher e filhos, em princípio de 60, sob ameaça de ser assassinado. Na época os depoimentos de Davi Resende e sua esposa Daís Teixeira, que também fugiram de Aimorés e foram morar na favela “Cabeça de Porco”, comoviam os mineiros através da imprensa. Ela chorava todos os dias com medo de que sua mãe e seus irmãos fossem assassinados por terem permanecido.”

 


 


BELO HORIZONTE

           Na capital mineira, Antonio Corrêa, sofreria as dificuldades inerentes aos homens do campo que emigram sem recursos, cultura e profissão, que levam apenas a herança de resignação, sofrimento e muita coragem para vencer. É o mais digno acervo que conseguem absorver da lida na roça.

“Antonio Corrêa chegou do interior sem uma profissão definida e com grandes dificuldades para sustentar a mulher, os quatro filhos e pagar o aluguel do barracão do Calafate, onde conseguiu alojar sua família. Landy, sempre muito religiosa se apegava às orações para pedir uma luz e chorava copiosamente em frente ao sacrário da igreja de São José, naquele bairro. Um dia, após fazer seus pedidos a Deus, teve a coragem de chegar em casa e escrever uma carta ao governador Magalhães Pinto, da UDN, pedindo-lhe que ajudasse Antônio, que estava em sérios problemas financeiros. Na carta, Landy comentou as razões políticas que os obrigaram a sair de Aimorés por terem apoiado o seu partido e que, agora, em tom de desabafo e desespero, “exigia” sua ajuda para que seu marido pudesse ingressar na Guarda Civil, sonho de Antônio. A Guarda Civil foi uma corporação da área de segurança pública extinta em 1970, durante o regime militar, apesar do grande prestígio que tinha junto ao povo mineiro. Ela mandou a carta sem muitas esperanças, tanto que nem comentou com Antônio Corrêa. Passados alguns dias, apareceu um policial na porta de nossa casa montado em uma moto Harley Davidson e Landy se assustou achando que o marido tivesse se envolvido em acidente. Era, na realidade, o que Landy considerou um verdadeiro milagre, pois o policial era um mensageiro do governador e trazia um aceno positivo em resposta à carta. Antônio Corrêa, quando chegou em casa e sua mulher lhe contou as novidades, quase deixou escapar aquela oportunidade por não ter acreditado que o governador teria respondido à carta.”.


             Antonio Correa de Faria ingressou na Guarda Civil e foi espelho de caráter e dignidade para seu filho Antonio Carlos de Faria, que se lembra daquela instituição e alguns de seus membros, colegas do pai, nos primeiros anos da década de 60. Eram guardas da 3ª Divisão, ao lado do antigo Cine São José, que frequentavam sua casa na Rua Alterosa, nº 39, Bairro Calafate, para almoçar e jantar na pensão improvisada, que consistia em um quarto de fundos. O contato com os Guarda Civis com seus belos uniformes, cinturões, armas nos coldres, quepes e distintivos, enchiam a imaginação daquela criança. Quando crescer eu quero ser polícia”, dizia para seus pais. A vida profissional de Antonio Corrêa seria curta, ao sofrer uma lesão quando efetuou a prisão de um marginal. As sequelas lhe decretaram a aposentadoria precoce.

Casa da Rua Alterosa, 39. B. Calafate. Antonio Correa de Faria, Guarda 773 Rádio Patrulha da Guarda Civil.

 

          Em 1963/64 Antonio e sua família mudariam para o Bairro Nova Cintra, onde Faria viveria o resto de sua infância e juventude. O bairro era um amontoado de ruas abertas, sem iluminação, saneamento, calçamento, ou qualquer estrutura para uma comunidade. No entanto, era um recanto tranquilo, sem muita confusão, exceto as pequenas brigas aos domingos, no campo de futebol, no fim da Rua Santarém, confrontando com a linha férrea. Ali permaneceram durante cerca de doze anos, até que um incidente os obrigou a mudar rapidamente daquele bairro que ajudaram a construir a primeira casa, que Antonio orgulhosamente levantara para sua família. 

        Os pais de Faria, viveram dias difíceis na capital, tanto no Calafate, quanto no Bairro Nova Cintra. Os filhos, entre 10 e 14 anos, iniciaram no trabalho nesta tenra idade. Landy pegava o trem e ía até o matadouro do Bairro São Paulo, onde comprava sangue miúdos de porco para fazer chouriço para Faria revender na "Paradinha" da Nova Cintra. As meninas pegavam seus balaios de verduras e percorriam o bairro para ajudar no sustento da família. Antônio improvisava uma pequena mercearia e ferro velho nos fundos da residência.

 

Matadouro do Bairro São paulo. 1964. Créditos Fotos Antigas de Belo Horizonte (Facebook).

Era como uma nova fuga e mais uma vez, os riscos eram os motivos para a mudança, conforme passamos a narrar.

Abaixo: 1966. Faria, sua mãe e irmãs, na Rua Santarém, 773.              1969. À direita, amigos de infância e juventude: Jorginho, Mauro, Zé Márcio, Dalmo, Faria e Marquinho.

 

                       Primeiro Encontro com a Violência.

             Em 1974, com a morte de uma empregada, que trabalhava para a sua família, Antonio Correa foi nomeado tutor de quatro crianças, filhos da doméstica, que foram colocados sob a sua custódia pelo Juizado de Menores. A mãe das crianças deixara uma casa que foi alugada por Antonio em 1975 e diante da inadimplência, o inquilino foi cobrado para o devido pagamento. Não gostando de ser admoestado pela dívida, o inquilino deslocou-se até a residência de Antonio, que, nesta ocasião possuía uma serralheria na garagem. Antonio Correa estava sentado defronte a uma mesa, ao lado do seu filho Antonio Carlos de Faria, quando percebeu a aproximação do inquilino com a mão na cintura. Ao adentrar naquele recinto, uma espécie de escritório improvisado, o homem sacou sua arma, mas Antonio, com sua malícia de aimoreense e a experiência adquirida como policial, já tinha em suas mãos o revólver Taurus 38, guardado na gaveta à sua frente e, em ato de reflexo defensivo, disparou contra o peito de seu agressor, não lhe dando tempo de disparar a garrucha que portava em uma das mãos. Antonio poderia ter matado seu oponente que tombou ao chão com o balaço recebido, mas preferiu sair do local, orientando seu filho Antonio Carlos a socorrê-lo. O biografado colocou o ferido na Veraneio Chevrolet C14 que possuíam e o conduziu ao Hospital de Pronto Socorro. Foi seu primeiro contato perceptível com a realidade violenta que a vida lhe apresentava. O ferido sofreu sequelas, mas não morreu. Logo depois do entrevero, informações chegaram, dando conta que seus irmãos eram pistoleiros em Goiás e viriam vingá-lo. Mais uma vez a família de Antonio Corrêa de Faria teria que juntar suas coisas e mudar, fugindo de novos pistoleiros. Pouco tempo depois, o filho de Antonio Correa ingressaria nos quadros da Polícia Civil mineira, acompanhando os seus passos. 

 

 

INÍCIO DA CARREIRA

DIVISÃO DE TÓXICOS E ENTORPECENTES

O DETETIVE FARIA

                      

1976. Sede da ACADEPOL e posteriormente Divisão de Tóxicos e Entorpecentes no 2º andar. No 1º foi instalada a Delegacia de Trânsito e Acidentes.

          Em 1975, Antonio Carlos de Faria, na juventude de seus 20 anos, ingressou na Academia de Polícia Civil para o curso de aspirante de detetive, em razão do concurso público que vencera para a investidura no cargo. Filho do Guarda Civil Antonio Correa de Faria, o “773”, Faria iniciava sua carreira com muitos sonhos, a exemplo de seus contemporâneos, em meio ao furacão da ditadura militar. A academia, naquele período, situava-se na Rua 21 de Abril, ao lado da rodoviária da capital mineira, cravada no meio do baixo meretrício das Ruas Mauá, Bonfim e Paquequer de um lado e as Ruas Guaicurus, São Paulo, e Curitiba, do outro. Nos fundos, a Praça Oiapoque com o cinema que recebia seu nome, palco de diversas blitzens para prisão de criminosos e vadios que ali frequentavam diariamente. Na parte de baixo do prédio funcionava o Banco Mineiro e ao lado a tradicional Padaria Martini. Nas imediações da Avenida Santos Dumont, Rua Guarani e Praça Rio branco, bares e restaurantes como Adão, Toniollo, Libanês e Scotellaro, pontos de encontro da boemia de Belo Horizonte. Com a saída da academia do prédio, o então Secretário de Segurança, Coronel EB Vinicius Alves da Cunha, homem de grande inteligência e visão vanguardista, criou a Divisão de Tóxicos e Entorpecentes para a nova repressão especializada ao tráfico e uso de drogas que seria instalada no mesmo local. As nomeações dos novos policiais teriam prioridade para a nova unidade policial e quarenta servidores, entre delegados, detetives, escrivães e carcereiros para lá foram designados.

 

Na foto, registramos o delegado Manoel Jacinto, de camisa vermelha, coordenador da ADEPOL com a turma Masp 220 de detetives, em janeiro de 1976. Ao fundo, o prédio da Academia, que passou a receber as novas instalações da Divisão de Tóxicos. Faria é o 3º (1ª linha de policiais de cima) da esquerda para direita.

          O policial Faria esperava pela sua designação para aquela especializada, visto ter ficado em 4º lugar no curso e se viu frustrado e injustiçado, quando saiu sua classificação para Paracatu, cidade próxima ao Distrito Federal. Outros policiais, com pontuação infinitamente inferior, foram selecionados para a capital. Persistente e turrão, o detetive Faria não se apresentou em Paracatu e começou a auxiliar seus colegas da nova Divisão, carregando móveis e utensílios para as salas que se improvisavam para receber aquela inovação policial. Apesar de se pensar em uma unidade especializada e de ponta para a época, a Divisão de Tóxicos e Entorpecentes no início de suas atividades, possuía apenas duas Rurais, um Dodge vermelho e um caracterizado, um telefone fixo para atendimento coletivo da inspetoria, uma cela improvisada e muita disposição dos policiais para trabalhar. Neste ambiente Faria começou, ao jeitinho brasileiro, assinar o ponto de frequência, como se ali fosse lotado, interagindo com as atividades policiais da DTE. As fotos que passamos a seguir, registram o policial Faria ao lado de seus companheiros, ou em ações policiais.

 Nas fotos acima, nos anos de 1976 e 1977 os policiais companheiros: Marco Antonio Teixeira, o Marquinho "Farol de Kombi", Faria, Nelson Fialho, Ivanir Pires de Gouveia, Odilon Coelho e Camargos em diligencias e viagens. Na última foto, a equipe F: Faria, Fialho e Fátima. ( Moema, Bom Sucesso e Marliéria).

 

          Passados cerca de três meses, já com as equipes formadas, (Faria participando da equipe denominada “F”, em razão de seus componentes: Faria, Fialho e Fátima) a chefia da Divisão recebeu um ofício com as providencias preliminares para exoneração de Faria pela falta de apresentação em Paracatu e ausência por mais de trinta dias. Foi um momento desesperador para o policial, só solucionado com a interferência do delegado Murilo Junqueira, titular da DTE, junto ao Superintendente Thacyr Omar Menezes Cia, que cancelou o procedimento e fez novo ato de designação. A Divisão era formada por policiais comprometidos e de qualidade operacional, com Murilo Junqueira, depois Genésio como chefes de divisão e os delegados Jane Maluf, Eduardo “Marreco”, Paulo Porto, Eliane Fialho e Domingão. Dentre os detetives, podemos nominar Fátima, Faria, Fialho, Gaspar, Filipe, Luiz Carlos, Cardoso, Marco Antonio Teixeira, Laerte, Baía, Matias, Eduardo, Odilon, dentre outros, bem como os experientes Manoel, Nelson Silva, Cléber de Abreu, Onésimo, "Tião Remelecho", Roncarate e Dormival, oriundos da extinta Guarda Civil. As atividades eram desenvolvidas nas favelas de Belo Horizonte, dentre elas o Buraco Quente, Querosene e Vila dos Marmiteiros, Cabeça de Porco e outras da capital. Também participavam ativamente dos festivais de inverno de Ouro Preto e Serra Verde, assim como, operações no “Carolina”, ao lado da atual Assembleia Legislativa, Postinho da Savassi, periferia e bairros classe A da capital, onde existia a incidência tráfico e uso de drogas. Ocorreram inúmeras diligências de destaque na Divisão de Tóxicos nos anos finais da década de 70, período que a polícia conseguiu tirar de circulação todos os grandes traficantes da capital, dentre eles: "Duzinho", Barreto, Marrom, José Olímpio, Baianinho, Toninho Pedra, "Serjão", Arquibaldo, Getúlio Vargas, Marinho e tantos outros. Os policiais realmente vestiam a camisa no combate ao tráfico de drogas, trabalhando inclusive em horários de folga e com veículos próprios.

NO INÍCIO, MUITAS DIFICULDADES. 

 1976. 1ª Carteira policial usada por Faria. Ao lado com alguns de seus primeiros e grandes companheiros em Monlevade.

  

          Quando o policial começa sua carreira, a vontade de trabalhar e mostrar serviço enche o coração de coragem para os enfrentamentos, o que também implica em vários erros durante as ações. Alguns podem ser fatais. Nos anos 70, os detetives iniciaram sua peleja sem armas e mesmo a carteira funcional que foi fornecida dois meses depois. Algemas era um privilégio de poucos. No início das atividades da turma Masp 220, pelo menos dois incidentes fatais marcaram aqueles policiais. O primeiro envolvendo o detetive Zé Maria, que manuseando uma arma no alojamento efetuou um disparo que ceifou a vida de seu companheiro. Em seguida, durante atividades de repressão a tráfico na região do conjunto IAPI, o detetive Gaspar, entregou sua arma a um informante para que mantivesse sob vigilância um traficante, enquanto buscava testemunhas para o flagrante. Seria previsível uma cena trágica para policiais experientes, mas não para o jovem Gaspar que ouviu o estampido de um tiro, e em seguida o corpo do traficante tombar mortalmente pelo projétil que lhe acertou a femoral. O informante, por medo, efetuara o disparo contra o criminoso. O detetive Faria, na mesma ocasião, deu mais sorte que seus companheiros, quando participava de uma "batida" no "Carolina", ponto de tráfico da classe média Zona Sul. Ali existiam vários bares da moda e o tráfico de drogas pesadas era intenso. Faria, que estava na companhia de Fialho e Zé de Fátima, sacou seu revólver calibre 32, marca INA, durante a abordagem de três rapazes bem vestidos, que seriam revistados para busca de drogas. Faria posicionou sua arma na direção da cabeça de um dos rapazes, com o cão puxado, quando acidentalmente o gatilho foi acionado ou o cão bateu por defeito mecânico. O policial ficou estático ao lado de seus companheiros ao perceber a tragédia que poderia ter se consumado, só não ocorrendo por que a arma mascou, não deflagrando a munição. Os três rapazes nem sequer foram revistados diante do estado emocional de Faria, que sabia não ter defesa, caso o disparo fosse efetuado e acertasse a cabeça de um rapaz classe média alta.

Como explicar?

          Os policiais entraram na Rural da Divisão de Tóxicos e retornaram para a delegacia. Depois de estacionar o veículo, foram para o Bar do Adão, na Avenida Santos Dumont, onde degustaram uma boa dose de conhaque para relaxar. Podemos falar das rondas no IAPI e imediações, levadas a efeito por Faria, Fátima e Fialho na busca de traficantes, que dificilmente voltavam de mãos vazias. Numa dessas incursões os três policiais depararam com um grupo de cinco ou seis indivíduos e a ordem para ficarem quietos foi dada. Fialho praticamente nascera e crescera naquele conjunto, onde moravam sua avó e tia, sendo muito conhecido. Por isso surgiu o problema naquela abordagem. Um dos cinco elementos agrediu Fialho quando ele tentava dar a "geral", jogando-o ao chão, para em seguida correr, tentando se safar da ação policial. Foi questão de segundos para Faria perceber a agressão e desferir um tiro no calcanhar do agressor que caiu ao solo. "Agora você pode continuar correndo", disse o detetive para o agressor ferido, que saiu "manquitolando", desaparecendo na escuridão do local. Os policiais conseguiram achar pequena porção de maconha com um dos rapazes, levando-o para a Divisão de Tóxicos. Nunca mais tiveram notícias do valentão.


MARIMBONDO

           Logo que iniciaram suas atividades na Divisão de Tóxico, os detetives daquela unidade recém-criada estavam com a adrenalina à flor da pele, a ansiedade de começar as prisões de traficantes, a vontade exasperada de se tornarem verdadeiros policiais. E para isso, a prisão de um bandido era o batismo. Nos primeiros meses, a maioria não possuía nem mesmo as identidades funcionais e armas conforme já relatado. Nesse clima de expectativa, logo nos primeiros dias de atuação, Faria, Cardoso e Marco Antônio Teixeira, o “Farol de Kombi”, receberam a informação de um usuário de drogas, que um traficante de apelido “Marimbondo” estaria negociando maconha no início da Rua Padre Eustáquio, nas proximidades da Igreja daquele bairro. Os três policiais, por volta das 20:00 de uma noite de abril de 1976, foram para o local onde estaria ocorrendo o tráfico e se dispersaram na procura do criminoso. Combinaram que o primeiro que localizasse o marginal avisaria os demais para que se efetivasse a prisão. Nem tudo sai conforme o combinado é uma velha máxima que se aplicou naquele dia como uma luva. Por azar ou sorte, Faria encontrou “Marimbondo” em uma das primeiras esquinas da Rua Padre Eustáquio, fazendo uma transação de maconha com viciados e os colegas policiais estavam há dois quarteirões distantes do local. Se gritasse espantaria o traficante e perderiam sua primeira prisão em flagrante. O traficante ao ver o detetive Faria permitiu sua aproximação achando que fosse mais um usuário a adquirir sua mercadoria. O jovem policial arrancou sua arma, um velho Taurus 32 que usava na época e numa ação brusca dominou o traficante, colocando o revólver em sua cabeça. Com certa dificuldade Faria conseguiu duas testemunhas que passavam na hora pelo local e perceberam a inexperiência e estado emocional abalado do policial, que tremia muito, acabando por tentar acalmá-lo. Rapidamente chegaram os outros dois policiais que ajudaram o detetive Faria na finalização da prisão, anotações dos dados, apreensão da droga que estava em seu poder, condução do preso e testemunhas. Já dentro da viatura Faria começou a acalmar e percebeu que o nervosismo do preso era maior, ao sentir um forte mau cheiro e indagar o conduzido, recebendo a respos: “vocês me desculpem, mas o susto que tomei foi muito grande, estou todo cagado”. Mesmo “cagado” foi conduzido e autuado pelo escrivão Clinton, no primeiro flagrante daqueles novos policiais.

 

22 NO SACO

          No princípio de carreira, os policiais cometem muitos erros e às vezes correm sérios riscos por negligência ou inexperiência. Erros que às vezes se tornam fatais. No inicio dos trabalhos da Divisão de Tóxicos, os detetives Faria, Fialho, Marco Antônio Teixeira (Marquinho), Zé de Fátima e o escrivão Maroni saíram para a ronda noturna na região do Bairro Santa Tereza, em Belo Horizonte. Era rotina na vida dos policiais civis da capital, trabalhar no expediente e à noite realizar incursões pelos diversos bairros e favelas na busca de traficantes, ou drogados para se tornarem informantes. Faria dirigia uma velha Rural descaracterizada da unidade policial, branca e azul. Na Rua Salinas, próximo ao Oásis, clube tradicional daquele bairro, a equipe abordou e deu busca em um rapaz que portava pequena porção de maconha, sendo colocado na parte de trás da rural que não tinha cômodo de presos isolado. Durante o trajeto de volta à Divisão de Tóxicos, Faria notou pelo retrovisor interno que o preso mexia muito, como se algo estivesse lhe incomodando. O policial gritou para Fialho que estava no banco de trás para conferir porque ele mexia tanto, quando o conduzido respondeu tranquilamente:a arma está machucando o meu saco“. Atônitos, a viatura foi parada bruscamente e o cidadão foi submetido a uma nova busca, quando encontraram um revólver calibre 22, acondicionado na região escrotal. Os policiais arriscaram suas vidas pela busca de um flagrante, sem observância dos critérios de segurança e técnica exigidos para o procedimento, que deve ser padrão. Deram muita sorte do preso não ter tido coragem para usar sua arma, conforme vários antecedentes na crônica policial. Aquela abordagem serviria de experiência para o resto de suas vidas.


OS DENTES DA RUA GRÃO MOGOL

          Em outra dessas rondas, agora no Opala SS, vermelho e preto de Faria, Nelson Fialho e Marco Antônio Teixeira se dirigiram para um bar da Rua Grão Mogol, juntos com seu companheiro, onde era notória a ocorrência de tráfico de drogas. Apesar de estarem de folga, era normal essa abnegação pelo trabalho policial e o comprometimento com a atividade policial. Havia uma concorrência leal entre os policiais pelo premio mensal: uma mensagem afixada no quadro de avisos com destaque para quem conseguisse maior número de flagrantes. Um simples reconhecimento ao trabalho dos melhores, mas que conseguia estimular aqueles jovens policiais. E para conseguir esse “grande premio”, não havia hora, dia, noite, feriado ou fim de semana para trabalhar. O bar, alvo da incursão, estava cheio e os policiais combinaram que Faria entraria no estabelecimento e permaneceria na parte dos fundos para não perder nenhum movimento. Em seguida Fialho e Marquinho entrariam pelas duas portas do estabelecimento, se identificando como policiais através da carteira funcional na mão esquerda, enquanto a direita segurava a arma. Era uma blitz normal e as pessoas que ali se encontravam, acataram a ordem de encostarem-se à parede para serem revistados. À exceção de um que jogava sinuca e continuou como se nada estivesse acontecendo. Estando do lado dele, Faria insistiu para que parasse e atendesse a ordem legal. Numa demonstração de ironia e desrespeito, o cidadão continuou jogando, ignorando os policiais, possivelmente sob o efeito de drogas. Faria tentou lhe abordar, colocando a mão no taco de sinuca, impedindo-o de prosseguir a jogada e dizendo em alto e bom tom que devia respeitar a polícia sob pena de prisão. O detetive não deu nem tempo de pensar no seu gesto, quando recebeu de forma violenta, um tapa no “pé de ouvido” que lhe fez perder o rumo momentaneamente. Fialho percebeu a agressão e agiu rapidamente jogando um par de algemas para seu companheiro, gritando: “segura Faria”. Para infelicidade do cidadão, o contra-ataque foi tão rápido quanto o tapa recebido. Ao tentar pegar as algemas no ar, o policial não conseguiu impedir a continuidade de sua trajetória que acidentalmente atingiu a boca do agressor, provocando-lhe a extração involuntária de cerca de quatro a cinco dentes. O indivíduo, ao receber a pancada na boca, saiu em desabalada carreira pela Rua Grão Mogol, com a boca sangrando, deixando seus dentes próximos à mesa de sinuca.


 BARRETO E DUZINHO

          Faria participou de duas prisões que marcaram naquela época, ao ser quebrada a espinha dorsal do tráfico de drogas na região da Pedreira Prado Lopes, Buraco Quente e Santo André. Os dois grandes traficantes da época, que comandavam a região foram presos pelos policiais da Divisão de Tóxicos. Barreto foi preso no Bairro Céu Azul, com muita droga (maconha, Perventin, cocaína) e armas escondidas no meio de uma pilha de tijolos em seu quintal. Essa diligencia marcou a vida profissional do detetive Faria, porque foi realizada junto com vários outros policiais neófitos que estavam desarmados e sem a identificação policial, apesar do alvo ter sido um perigoso traficante. Era como "pegar touro a unha". Hélio de Carvalho, o “Duzinho” foi preso pela equipe de Cléber de Abreu, “Zé do Pão”, Faria, Jesus e Filipe, na região de Vespasiano, próximo ao atual CT do Atlético, com aproximadamente 500 quilos de maconha. Foi mais um golpe no tráfico que teve como consequência, naquele lapso temporal, a majoração da maconha devido à carência de mercadoria no mercado. “Duzinho” foi condenado a uma pena superior a cinco anos e teve benesses da justiça de Santa Luzia durante o cumprimento de sua condenação. Misteriosamente o traficante desapareceu, com boatos à época, que registravam ter sido executado por grupo de extermínio que desapareceu com seu corpo.


O MORRO DO QUEROSENE
                      

          Na década de 70, uma das mais perigosas favelas da capital, o “Morro do Querosene”, ficava na subida da Avenida Raja Gabaglia, pelo seu lado esquerdo, nas proximidades de onde se localiza atualmente a Polícia Federal. Quem observa atualmente aqueles prédios enormes e luxuosos, não imaginam a favela que ali existia. Dentre os muitos crimes ali praticados, a favela foi palco da morte do policial civil Sander Antonio Duarte, em 17 de abril de 1975, chacinado por um bando de menores assaltantes. Por diversas vezes, policiais da Divisão de Tóxicos e Entorpecentes, mais precisamente, Faria, Fátima, Fialho e Luiz Carlos ou Ivanir, sempre em número de quatro ou cinco, faziam investidas no local na busca de traficantes. Essas incursões ocorreram logo após a morte de Sander, nos anos 76, e 77. O planejamento operacional era muito rudimentar, consistindo em ir para a favela em uma Rural antiga, de cor azul, que era estacionada nas proximidades, onde combinavam a entrada ao local. Dois dos policiais se posicionavam na parte de baixo, imediações do Bairro Cidade Jardim, enquanto a outra dupla ficava na parte superior, na entrada pela Avenida Raja Gabaglia. As dificuldades eram muitas porque não tinham rádios de comunicação e os celulares surgiriam duas décadas depois. As duas equipes cronometravam em seus relógios de pulso o tempo suficiente para que chegassem simultaneamente ao centro do “Querosene”, onde ficavam os traficantes para o comércio das drogas. Normalmente a equipe de baixo tinha alguns segundos a mais devido à subida, mas, chegavam britanicamente juntas, possibilitando a prisão de vários marginais, como o “Marrom” e Jorge Eleutério de Jesus. Apesar de armados os bandidos não tinham chance de reação ao se sentirem acuados pelos dois lados do morro. Em 1976, numa dessas investidas no “Morro do Querosene”, Faria, Fialho e Baia , depararam com uma turma de oito elementos em atitude suspeita, nas proximidades da Rua Viçosa, fazendo movimento de tráfico de drogas. Apesar de estarem em número inferior, os detetives saíram rapidamente do Volks branco descaracterizado e partiram para cima dos indivíduos que se espalharam, empreendendo fuga. Alguns estavam armados e atiraram em direção aos policiais enquanto fugiam. Dois dos oito suspeitos foram presos nas proximidades e colocados dentro do fusquinha. Um dos bandidos armados entrou no prédio da esquina de Rua viçosa com Rua Cristina, onde os três policiais se concentraram, enquanto vizinhos telefonavam pedindo reforço. Faria, Manoel e Baia ao darem busca no telhado do prédio encontraram o traficante Melquizedec Batista da Silva, preso com um revólver calibre 38, inox, novinho. A reportagem do jornal Estado de Minas trazia o título e a matéria:

O Morro do Querosene       

                                     
"TIROTEIO NA PRISÃO DE TRAFICANTES".     
                                   

  “O policial entrou na sala do delegado da Divisão de Tóxicos e, com a voz ofegante pediu: Doutor, vim pegar a carabina, porque o pessoal lá em cima está precisando de reforço. Eles disseram que os rapazes estão resistindo. No mesmo instante o delegado Eduardo Ângelo foi atrás do detetive, voltando logo em seguida. Onde está a chave da metralhadora. O delegado Genésio que estava conversando foi direto para sua sala. O delegado Eduardo apanhou a metralhadora, um pente de balas e saiu da sala em disparada dando ordens a dois de seus auxiliares. Na porta da delegacia duas viaturas esperavam o delegado e pegaram rumo ao Bairro São Pedro. No ponto final do ônibus do Bairro São Pedro, eles pararam e os oito detetives desceram dos carros, todos armados. Nas varandas dos prédios vizinhos,as mães com suas filhas, acompanhavam a batida. A loja de pão de queijo ficou abarrotada de gente, e o dono nervoso ameaçava fechar as portas, pois, com o movimento não podia acompanhar a ação policial. Parado na esquina, um Volks branco da Tóxicos, vidros fechados, guardava dois meninos. O rapaz que tinha entrado no prédio, ainda estava lá, escondido entre a laje e as telhas. Recebeu voz de prisão e se entregou”. Foto: Jornal Diário da Tarde com o detetive Faria (circulado) e Manoel, no alto. As  fotos demonstram situações diferentes dos policiais da Divisão de Tóxicos: o cotidiano e adrenalina dos enfrentamentos.
 


OS TRABALHOS INTEGRADOS COM O SNI E POLÍCIA FEDERAL

          Na segunda metade da década de 70, a Polícia Civil inovou sua metodologia de trabalho ao firmar convenio com a Polícia Federal e SNI (Serviço Nacional de Informações). Seus policiais participaram de cursos de repressão ao tráfico ministrado pelo Departamento de Polícia Federal e, em contrapartida, faziam trabalhos integrados a cada seis meses com a Polícia Federal e o SNI. Os novos servidores do SNI vinham de Brasília para estágio prático no prédio da Divisão de Tóxicos e Entorpecentes, onde era montado um QG para interrogatórios e investigações avançadas. Ali havia escala de policiais civis, federais e dos agentes do SNI. Era um laboratório policial, onde os policiais civis e federais buscavam usuários de drogas e pequenos traficantes que eram repassados aos agentes do SNI para treinamento de interrogatórios científicos. Os policiais Civis e federais, faziam entre eles, constantes chacotas com os engravatados agentes do SNI, de pouca conversa e nariz rebitado, demonstrando uma superioridade que inexistia, ao contrário, no campo operacional, os detetives e agentes levavam uma grande vantagem. Isso foi comprovado em certa ocasião, que os federais levaram um usuário que foi interrogado longamente pelos agentes do SNI, que depois, fichavam,faziam um relatório e liberavam o conduzido. Faria, Fátima e Fialho estavam de serviço naquele sábado e seguiram o usuário após sua liberação. O rapaz foi enquadrado no meio da rua, próximo à Divisão de Tóxicos, ao argumento de que agora a conversa era com polícia e que ele não ia passar “batido”. O rapaz, temeroso, passou para os três detetives, a informação de que naquela noite, o traficante “Arquibaldo” estaria na Savassi, comercializando maconha. Apesar de pouco crédulos na informação, já que o informante tinha sido sabatinado por especialistas do SNI, Faria, Fátima e Fialho esperaram anoitecer e deslocaram para a Avenida Getúlio Vargas, próximo à Praça da Savassi. O informante que acompanhava, de longe mostrou “Arquibaldo” em uma esquina com um saco de estopa seguro pelas mãos e de quando em vez, retirava algo de seu interior e repassava para jovens que o procuravam. Os três policiais se aproximaram e deram o “pulo” em “Arquibaldo”, engravatando-o e ao verificarem o saco, constataram que estava com cerca de quinze quilos de maconha. Preso, “Arquibaldo” foi conduzido à Divisão de Tóxicos e apresentado aos mesmos agentes do SNI que ainda estavam de plantão, não, sem antes, esboçarem certa ironia e gozação pelo interrogatório frustrado.

1976. Acima, à esquerda, na esquina de Rua da Bahia com Bernardo Guimarães, ficava o "Bar do Moita". Em frente, à direita, o prédio que serviu de sede da Guarda Civil, Colégio Ordem Progresso e outros órgãos policiais. Ao lado o Opala SS vermelho e preto, ano 1974, que Faria ganhou de seu pai quando foi nomeado detetive. O veículo era utilizado em diversas investigações pela falta de veículos descaracterizados no início do funcionamento da Divisão de Tóxicos e Entorpecentes.


GETÚLIO VARGAS CARDOSO

           Na região dos bairros Nova Suíça, Gameleira e Vila dos Marmiteiros, o bandido Getúlio Vargas Cardoso agia e seu nome começava a despontar como grande traficante de maconha. Para investigar o tráfico, duas equipes foram formadas pelos policiais Faria, Luiz Carlos “Carioca”, Costa Filho, Gaspar, Fátima, e Baía para a investida no período noturno, horário de movimentação do criminoso. Os policiais se separaram nas imediações do antigo Cine São José, no final da Rua Platina, no Bairro Calafate em Belo Horizonte e iniciaram a varredura no local. Ao se dividirem, os policiais, apesar de próximos, cerca de dois quarteirões, ficaram sozinhos nas diversas direções tomadas. Cerca de uma hora após, se reencontraram diante do chamado de um dos colegas que encontrou Luiz Carlos caído ao chão, com o joelho quebrado ao tentar prender o traficante que reagira, derrubando Luiz no chão. O criminoso conseguiu fugir na noite escura em direção à favela dos Marmiteiros. O traficante comprara uma briga com aqueles policiais e era questão de honra prende-lo. Dias após o incidente, Faria, Baía, Odilon e Gaspar retornaram ao Bairro Nova Suíça, e dividiram-se em duas equipes, passando a percorrer a pé, as ruas do bairro. Não demorou muito para que Faria e Baía, que faziam dupla, encontrassem com o traficante que vendia tranquilamente sua maconha ao lado de duas mulheres, na Rua Juscelino Barbosa, próximo ao número 250, perto do INSS.
           Getúlio Vargas, achando que eram clientes deixou que os policiais se aproximassem, quando Faria, ao lado de seu companheiro, sacou seu revólver Taurus 32 e enquadrou o traficante, dando-lhe voz de prisão. As mulheres saíram correndo, descendo a Rua Juscelino Barbosa, e Baía saiu no encalço das duas, enquanto Faria o dominava com o uso da arma. O traficante Getúlio, aproveitando-se do fato de detetive Faria ter ficado sozinho e desviado sua atenção para o colega, avançou em sua mão, tentando lhe tirar a arma. Não conseguindo, começou a agredi-lo, chutando e mordendo sua mão, deixando marca dos dentes na mão direita do policial. Getúlio era um criminoso troncudo, forte e com o uso da força, empurrava a arma do detetive para seu peito, tentando acionar o gatilho, enquanto o policial a travava com o dedo. Foi uma luta de vida ou morte para Faria, que sabia o que ocorrera com o outro policial que tivera o joelho quebrado pelo mesmo traficante. Agora era sua própria arma que lhe era apontada. Faria resistiu à agressão e apesar do sufoco, conseguiu abaixar a arma e efetuar um disparo que atingiu o joelho do bandido, que caiu ao solo.
          Tecnicamente, os policiais foram instruídos para arrolar duas testemunhas para a busca pessoal e enquanto Faria tentava achá-las, o bandido, mesmo baleado, escondeu sua droga em uma lixeira. A testemunha convidada foi quem alertou o policial, avisando que Getúlio colocara um pacote dentro do lixo, sendo orientada a buscar no lixo o que fora jogado pelo traficante, quando a mesma apanhou um embrulho várias buchas de maconha em seu interior. Ao ouvir o tiro, Baía retornou rápido para ajudar seu companheiro e formalizar o flagrante para apresentação na delegacia. O traficante foi conduzido à Divisão de Tóxicos em um desses períodos de atividades integradas e apresentado ao delegado de plantão, que naquela oportunidade, era da Polícia Federal. Policial já bem experiente, mas burocrata e próximo de sua aposentadoria, apavorou-se ao ver o orifício de tiro esguichando sangue em grande profusão nas dependências da DTE. Nervoso, determinou a condução do preso até o Hospital do Pronto Socorro para ser socorrido, permanecendo na delegacia. Foi preciso a interferência do chefe de Divisão, Genésio, para que o delegado da Polícia Federal comparecesse ao hospital e autuasse o traficante, já que a prisão fora legal e a lesão provocada por resistência comprovada pelas testemunhas e o ferimento na mão do policial. Apesar de ser um policial veterano, o delegado federal "amarelou" diante do sangue.
           Getúlio Vargas foi processado e condenado, tendo cumprido cerca de dois anos de cadeia. Passados outros três anos após aquela tumultuada prisão, os detetives Faria e Antonio Carlos Coelho, o “Jabutirica” (agora trabalhando na Delegacia de Furtos e Roubos da Floresta) faziam uma ronda a pé na Avenida Paraná, região central da capital, quando Faria reconheceu um homem mancando de uma perna, vindo em direção aos dois. Era Getúlio Vargas, puxando da perna lesionada pelo tiro no joelho. Faria parou na sua frente e disse: "Como está Getúlio Vargas Cardoso?". Ao reconhecer Faria, Getúlio se descontrolou e demonstrou nítido nervosismo e desespero. Não acreditava que encontrariam novamente. O bandido foi rapidamente dominado pelos dois policiais que o revistaram, encontrando dentro de sua calça, na parte frontal, cerca de meio quilo de maconha escondida. Foi novamente conduzido à Divisão de Tóxicos, autuado em flagrante e recolhido no Depósito de Presos da Lagoinha. Posteriormente o traficante Getúlio Vargas Cardoso, conseguiu novamente sua liberdade e entrou em paranoia de perseguição por Faria, segundo lhe comentou seu colega Baia, que encontrara com ele na prisão. Ao sair em liberdade foi atropelado por um trem, na região do Calafate, tendo morte instantânea.

   1976/1977:  Cardoso, Odilon e Faria, no Festival de Inverno em Ouro Preto. Jesus, Faria e Costa Filho em Juiz de Fora. Marquinho e Faria em Moema. Camargo, Fialho, Marquinho, Faria e Ivanir no Parque Florestal do Rio Doce.

          Apesar dos parcos recursos de diárias para as diligencias no interior do estado, os policiais não colocavam este fator como obstáculo e inúmeras investigações eram realizadas com  os competentes resultados aqui apresentados.


MEIO BIGODE EM OURO PRETO

           Existem casos curiosos, ou inusitados, que acontecem no dia a dia do policial, quer seja na delegacia, durante suas atividades rotineiras, quer seja, em diligencias. Este caso que Faria presenciou, aconteceu durante diligencias em Ouro Preto. No ano de 1978, foram designados vários policiais para o reforço do policiamento no festival de inverno de Ouro Preto, no mês de julho. Naquele ano o delegado Eduardo Ângelo chefiava uma das equipes que ficou na 1ª quinzena, dentre os quais podemos citar os policiais Fialho, José de Fátima, Anésio dos Passos, Osmar (Sapo), Edson (Sô Dico), Dário Costa, Odilon, inspetor Manoel e outros que a memória falha no momento. No alojamento, que foi improvisado no Colégio ao lado do Grande Hotel, foram colocadas cerca de 20 camas individuais, com banho de água fria a uma temperatura ambiente média de dois a seis graus. Existia muito companheirismo naquela época, lembrando em muito, a turma de colegiais ou de exército, tal o ritmo de brincadeiras e molecagens nos horários de folga, principalmente no período noturno. Quem se atrevia a chegar por último, geralmente encontrava os cobertores e lençóis amarrados, com nós difíceis de desatar. Às vezes eram as camas que eram desmontadas. Em uma noite, José de Fátima havia tomado uns conhaques no final da noite, para abrandar o frio e apagou na cama, ao chegar no alojamento. O Anésio não podia esperar uma oportunidade melhor, armou-se com uma tesoura e cortou apenas um dos lados do bigode do Zé de Fátima. Pela manhã a turma se aprontou cedo e foi para a praça principal de Ouro Preto, tomar café e iniciar as atividades, deixando Zé de Fátima para trás. Ocorre que o alojamento não tinha espelho e Zé de Fátima se aprontou e foi encontrar-se com a turma na praça. Eduardo Ângelo, ao vê-lo com apenas meio bigode questionou: “Fátima que palhaçada é essa”. Sem entender o que estava acontecendo, foi até um espelho de um restaurante próximo quando percebeu a tragédia ocorrida com seu precioso bigode. Os companheiros tiveram que segurá-lo, pois, queria a todo custo atirar em Anésio com sua Beretta 6.35. Só foi possível contornar a situação e acalmar Zé de Fátima quando Anésio foi convencido a ir até um barbeiro e cortar seu bigode estilo mexicano. No mesmo barbeiro, Zé de Fátima também tirou a outra banda de seu amado acessório capilar facial.


MORRO DO BURACO QUENTE


           Essa é mais uma das muitas situações difíceis pelas quais passam nossos policiais em defesa da sociedade, que nem sempre toma o conhecimento necessário dessas ações perigosas. Trabalhando no período noturno, na Divisão de Tóxicos, em 1976, numa noite fria de junho, Faria, junto com os detetives Pedra e Cardoso, seus companheiros de equipe, durante o plantão dirigiram-se para a favela do “Buraco Quente”, ao lado da Pedreira Prado Lopes, onde fariam uma tentativa de prisão de traficantes de entorpecentes. Subiram a Avenida Antonio Carlos, passaram pelo plantão do Departamento de Investigações e estacionaram o carro, o Dodge Charger RT, vermelho, descaracterizado, em uma rua de pouca iluminação, ao lado da favela. De longe viram bandidos postados na entrada de uma ruela. Ao chegarem ao beco que dava acesso para o interior do aglomerado, foram recebidos por quatro traficantes que identificaram os policiais como se fossem usuários de drogas e clientes em potencial. Os bandidos cercaram os três e disseram que apenas um dos “clientes” poderia entrar na favela, através do beco, para verificar a droga. O detetive Faria tinha um revólver 32 escondido por trás e ofereceu-se para entrar, argumentando para os traficantes, que o dinheiro do pagamento da maconha ficaria com os outros dois, (Detetives Pedra e Cardoso) que permaneceriam fora da favela, aguardando o seu retorno. Alegou que era a segurança que tinham para não ocorrer “arrocho”, ou seja, não serem assaltados. Faria combinara antecipadamente com seus colegas, que tão logo entrasse na favela, marcariam três minutos cravados no relógio para irem em seu auxílio. Tempo superior a esse, colocaria sua vida em perigo maior que o necessário. Após percorrer cerca de trinta metros, Faria, chegou a uma espécie de praça, onde estavam cerca de oito traficantes manuseando maconha acondicionada em jornal. O policial civil começou a verificar a droga que os traficantes lhe entregaram, conferindo manualmente sua qualidade. Enquanto olhava a maconha, dava tempo para se esgotarem os três minutos previamente planejados, quando Pedra e Cardoso de armas em punho, apareceram gritando e se identificando como policiais. Foi correria geral e o bandido que mostrava a droga arrancou uma faca e tentou esfaquear Faria. O policial deu um salto para se desviar da arma e sacou rapidamente sua arma, acionando por duas vezes seguidas na direção da cabeça do bandido. Por duas vezes seguidas a arma falhou e os tiros não saíram. O policial gritou para o traficante que o terceiro acionamento não falharia. O bandido, não se sabe, se por espanto ou medo, se entregou. Pedra e Cardoso conseguiram prender outros dois criminosos que foram conduzidos para a Divisão de Tóxicos, na Rua 21 de abril, próxima à rodoviária, onde foram autuados por tráfico e tentativa de homicídio. A título de curiosidade, o revólver 32 que Faria usava, era o mesmo que falhou na abordagem aos rapazes do "Carolina", incidente citado acima.


O TIJOLÃO DE TONINHO PEDRA

           Na segunda metade dos anos 70, os “irmãos Pedra”, dominavam o tráfico de drogas de asfalto na capital, principalmente para os usuários Classe A. Leonor Assunção Pedra e seu irmão “Toninho Pedra” eram conhecidos nas altas rodas e principalmente da Divisão de Tóxicos e a Metropol de Prata Neto. Leonor Pedra tornou-se evidencia no crime, quando se envolveu na famigerada “Gang do Sexo”, que vitimavam crianças que foram violentadas e assassinadas. Leonor, Boca “Roxa” e outros bandidos foram presos pela Metropol, em um inquérito e processo tumultuado, com muitas acusações de tortura e grande repercussão na mídia, que apontava outros suspeitos, dentre eles, um professor, um tenente e um padre. Quando Leonor Assunção Pedra foi liberado pela justiça, apareceu morto com sinais de execução por grupo de extermínio, sendo policiais civis apontados como autores, no entanto, sem comprovação de responsabilidade. Paralelamente, no mesmo período, em 1976, os detetives da Divisão de Tóxicos, Ivanir Pires, Luiz Carlos, o “Carioca“ e Faria fizeram uma campana no Bairro Santo Agostinho para prenderem em flagrante “Toninho Pedra”. Ele morava em um apartamento com uma menor e os policiais receberam informações que teria maconha em sua residência. A campana começou por volta das 13:00 horas, mas para azar dos policiais, naquele dia o traficante estava sendo ouvido em outro processo em que era réu. Por volta das 16:00 horas, Faria e Ivanir bateram na porta e quando a menor abriu, entraram no apartamento de “Toninho”, enquanto Luiz Carlos permaneceu na rua com um rádio HT, daqueles antigos, que tinham o apelido de “Tijolão”, aguardando a chegada do marginal para avisar seus companheiros. Acompanhados de duas testemunhas, Faria e Ivanir iniciaram a busca na casa e encontraram pequena porção de maconha, cerca de 100 gramas que a menor afirmou pertencer a “Toninho”. Da rua, Luiz Carlos avisou pelo rádio, a aproximação do traficante e os dois policiais que estavam no interior do apartamento se esconderam atrás da porta, colocando as duas testemunhas no quarto. “Toninho Pedra” ao entrar em sua residência foi dominado sem reação, tendo os policiais estranhado ele estar com as roupas rasgadas. O traficante afirmou que teria sofrido agressão no fórum ao desacatar policiais militares. “Toninho”, aparentemente tranquilo, assumiu a propriedade da droga alegando que seria para seu uso e assim se livraria do indiciamento por tráfico. No entanto, quando Luiz Carlos adentrou na casa, vindo da rua, o traficante começou a berrar e gritava que: “este tijolo não é meu. Estão fazendo uma javanesa. Meu bagulho são só  as buchas", se referindo ao HT, que pensava ser um tijolo de maconha. Toninho aproveitou-se do momento que o levavam para a Rural Willys e conseguiu correr em direção à Avenida Amazonas. Depois de alguns quarteirões perseguido por Ivanir e Faria foi alcançado, dominado e algemado. Após dominá-lo, os policiais da Tóxicos esclareceram que aquele “tijolo” não era maconha, apenas o rádio de comunicação embrulhado em um jornal para não chamar a atenção. Realmente parecia um tijolo de maconha. Mais calmo “Toninho Pedra” foi levado à Divisão de Tóxicos e autuado em flagrante pelo delegado Eduardo “Marreco”.

A MORTE DE ZÉ DO PÃO

          Um dos episódios que mais marcaram a vida dos policiais da "Tóxicos" foi o assassinato covarde do detetive Nelson Silva, o “Zé do Pão”, (chefe de equipe de Faria, Fialho e Fátima) abatido pelo traficante Eli Bragança na favela da Cabana do Pai Tomás. Eli era conhecido por sua violência no tráfico da região da Cabana, Vista Alegre e Nova Cintra, onde fazia a sua mercancia de drogas. No princípio de outubro de 1977, o Cabo “Índio”, da PM, velho conhecido dos policiais da Divisão de Tóxicos, por sua operacionalidade e disposição invejável na perseguição de criminosos, fazia sua ronda na região do Bairro Gameleira/Vista Alegre, quando avistou Eli Bragança fazendo movimento de drogas. “Índio” era um policial de compleição física avantajada e partiu para cima do traficante, que também era forte e reagiu violentamente à prisão, entrando em luta corporal, conseguindo arrebatar a arma do policial militar. “Índio” conseguiu se esconder enquanto Eli disparava vários tiros em sua direção, não sendo atingido, por muita sorte. Desolado, “Índio”, no mesmo dia, procurou seus amigos policiais da DTE e lhes contou o ocorrido, solicitando apoio para tentar prender e recuperar a arma. Menos de uma semana depois, mais precisamente no dia 13 de outubro de 1977, os policiais Cléber de Abreu, Nelson Silva, Felipe e Jesus, receberam um informante que noticiava a presença de Eli Bragança e outro traficante em um barraco da Favela Cabana do Pai Tomás, onde estariam manipulando droga para revenda. Os quatro saíram na velha Rural e estacionaram próximo a entrada da favela, na Avenida Amazonas. Felipe permaneceu no carro na companhia do informante, enquanto os policiais Cléber, Nelson e Jesus entravam pela viela principal que dava no barraco, conforme explicara o informante.
           Ao chegarem ao barracão, os policiais “colocaram a porta para dentro” e invadiram o imóvel, não dando chance, nesta oportunidade, de reação por parte de Eli e seu comparsa, que foram colocados no chão, sentados. Os três policiais passaram a revistar o local e nesse momento cometeram um erro fatal, deixaram Eli sem uma vigilância segura e rigorosa. Ao lado do traficante, debaixo de umas revistas, havia uma arma escondida que rapidamente foi segura pelo bandido com as duas mãos, que, mesmo sentado, começou a atirar. Nelson Silva foi alvejado mortalmente no peito, Cléber atingido no queixo e Jesus no braço. A ação rápida do bandido frustrou qualquer tentativa de reação. Os bandidos fugiram rapidamente do local, enquanto a Polícia Civil e Militar eram acionados. Faria, Fialho e Zé de Fátima chegavam naquele momento à Divisão de Tóxicos, em horário de almoço, quando receberam a notícia desencontrada em relação a mortos e feridos. Não havia nenhum carro disponível para apoio aos colegas. Faria pegou seu Opala que estava estacionado na Rua 21 de Abril e foram para o local, sendo os primeiros policiais civis a chegarem à Cabana do Pai Tomás, quando tomaram conhecimento do desfecho fatídico. Em pouco tempo a favela fervilhava de policiais. Durante as investidas, o detetive Pedro Neves, também da Divisão de Tóxicos, deparou-se com outro detetive, um veterano da Delegacia de Vigilância Geral, que devido ao nervosismo e revolta, o confundiu com um dos traficantes, por estar com uma arma na mão e desferiu um tiro que lhe atingiu o tórax. Diante da confusão formada, o detetive Faria, por conhecer o traficante Eli Bragança, foi designado pelo delegado Domingão, para coordenar uma pequena tropa de militares com seus cães, em revistas ao interior do aglomerado. Um fato interessante merece registro, durante toda esta tragédia, os pais de Faria, que foram ao local, preocupados com os desencontros de informações da imprensa e viram toda a movimentação de policiais no local, perceberam seu filho no meio daquela praça de guerra portando um velho Taurus 32. Saíram dali e fora diretamente para uma casa de armas no centro de BH, onde compraram um revólver Taurus 38, novo, para que o filho pudesse enfrentar, com “igualdade”, os bandidos. Este fatídico episódio pode ser visto com detalhes na seção Memorial/Nelson Silva (http://www.cyberpolicia.com.br/administrator/index.php?option=com_content&view=article&layout=edit&id=248) e Década de 70 (http://www.cyberpolicia.com.br/administrator/index.php?option=com_content&view=article&layout=edit&id=167).

 

DELEGACIA DE FURTOS E ROUBOS, O KILO.M

http://www.cyberpolicia.com.br/administrator/index.php?option=com_content&view=article&layout=edit&id=176

          O "KILO", a temível "Furtos e Roubos" da Rua Pouso Alegre 417, no Bairro Floresta. Conhecida como "O Inferno da Floresta", foi extinta em 1994, quando transferida para a Rua Uberaba, 175, no Barro Preto. Em principio de 1978, Faria foi designado para a Delegacia de Furtos e Roubos, onde foi trabalhar novamente ao lado de seu ex-chefe de Tóxicos, Murilo Junqueira. O “Kilo” da Rua Pouso Alegre, era uma delegacia "fechada", composta por policiais tarimbados e renomados no meio policial, onde dificilmente recebia um detetive inexperiente, novato. Faria, com seu trejeito de policial jovem, as indumentárias da juventude dos anos 70, chegou meio aos olhares céticos e desconfiados daquelas “águias”, com no mínimo dez anos de diferença na carreira. Ganhou de cara, o apelido de “Boy”, pela diferença de gerações e comportamento. Naquele ano e nos próximos que ali iria trabalhar como detetive, sorveu a experiência da nata da polícia operacional que estava lotada naquela especializada, como: Inspetores Walter “Carrapicho”, Nilton Dias de Castro, o “Niltinho”, Samuel Matozinhos, o “Precheca”, Romeu Rocha, o “Lilico do Bumbo”, Elso “Português”, João Júlio Papa, Falcão, Tião “Carão”, Nedir, Eli “Pastor”, Orlando, Freitas, Sales “Pé Queimado”, Bambirra, Osvaldo Melgaço, o “Dr. Leão”, Osmar “Sapo”, Nogueira, o “Boi Vermelho”, Trajano, Edson Pedra, o “Sô Dico”, Geraldinho “Santa Luzia”, “Zé” Flávio, o “Véi Zuza”, Paulo Meireles, o “Boizinho”, Loamir, Swami Vivekananda, Dauro Gagliardi, Alcir “Comedor de Cachorro” e “Zé” Fernandes, dentre muitos outros. Na carceragem o Subinspetor Domingos, com os detetives “Xamprisco”, “Rasteiro” e Cunha tinham sob sua responsabilidade o mais perigoso setor carcerário do estado de Minas Gerais, o "Inferno da Floresta” . Ali, era custodiada a nata da criminalidade perigosa. Uma masmorra com mais de 400 presos em condições deploráveis. Com justiça, ganhou o apelido de "Inferno".

  CURIOSIDADES DA DELEGACIA DE FURTOS E ROUBOS - KILO.

          Na velha Furtos e Roubos, Faria trabalhou durante oito anos, período no qual aquela unidade era respeitada pela competência, o companheirismo e a lealdade entre os policiais. Existia um clima muito fraterno e de muita camaradagem (sacanagens sadias) e brincadeiras. Todos os casos aqui narrados ocorreram entre os anos de 1978 e 1983 naquela delegacia.

 

O DESENHO DO BIFE


           No ano de 1981 ou 1982, o detetive Jorge Giovane Semim estava recém-casado e acabara de retornar de sua lua de mel. É sabido que no princípio de matrimônio as mulheres capricham para agradar o marido e com Semim não foi diferente. Ele chegou à delegacia com uma caprichada marmita de alumínio com seu almoço, se gabando da mesma. No horário de almoço o inspetor Romeu Rocha chamou Faria e disse: “olha Faria, a irresponsabilidade da equipe do Nivalmendes”, mostrando o armário de aço aberto. Além do Nivalmendes, "Porquinho" e Semim faziam parte da equipe e vários objetos de valor e bens apreendidos estavam no interior do armário. Dentre armas e outros pertences, tinha a marmita de alumínio com o almoço do Semim, a qual Romeu e Faria abriram para dar uma “conferida”. Realmente a esposa do Semim caprichou na preparação de sua alimentação, pois o bife ocupava toda a marmita, escondendo o arroz e demais ingredientes. Aproveitando que Semim e sua equipe estavam em diligências na rua, Romeu e Faria retiraram o bife da marmita, fechando-a novamente com a borracha que servia para vedação, trancando o cadeado do armário. De posse do suculento bife foram até o bar do "Seu Orlando", nas proximidades da delegacia, onde o saborearam como tira-gosto de uma cerveja, enquanto aguardavam a chegada dos policiais. Alguns minutos após, Semim chegou da rua com seus colegas e se dirigiu ao setor, no segundo andar do prédio, onde, segundo testemunhas, retirou a marmita do armário e com todo cuidado tirou a borracha que prendia a tampa. Colocou álcool em uma tampinha e aqueceu a comida sem destampar o recipiente por cerca de dez minutos. Foi o tempo suficiente, para, da porta do bar, Faria e Romeu presenciar Semim descer as escadas da delegacia, todo esbaforido e praguejando muito, procurando o Romeu para fazer o desabafo:

“Romeu, um Filho da Puta abriu minha marmita e roubou minha carne, só pode ser alguém da equipe, porque o armário estava fechado. Romeu, só deixaram o desenho do bife no arroz”, abrindo a marmita e mostrando os vestígios do suco da carne no arroz. Semim acreditava que Nivalmendes, seu chefe de equipe, era o responsável. Romeu chegou a comentar que aquilo era uma brincadeira de mau gosto, mas que devia ser resolvida entre a equipe.

       Juarez            Romeu Rocha             Falcão                      Semin                Faria         Jorge "Camarão"     

      O INFERNO DA FLORESTA

          A carceragem da Furtos também foi palco de acontecimentos memoráveis, além das fugas, tentativas e mortes que sempre rondaram aquele espaço. O cheiro forte de creolina se misturava ao odor fétido das celas antigas, úmidas, mofadas e das enormes ratazanas que infestavam os corredores e dependências. Não existiam camas ou colchonetes e quando muito, alguns parcos cobertores. A comida chegava em grandes latões e era servida pelos "faxinas" (presos de bom comportamento) nas "cascudas" (pratos de plásticos). Os presos usavam as mãos para se alimentar. Apesar da condição desumana de cárcere, ali não ocorriam rebeliões. Os policiais do "Kilo" eram respeitados conforme já citamos. Logo acima da sala da inspetoria, no pé da escada para adentrar no Setor de Triagem, existia uma grande cela que ficava isolada das demais, denominada "Mineirão". Os presos ao chegarem à delegacia eram recolhidos nessa cela para a primeira triagem.

      Ali viveu e morreu "Nego 30", um preso de alta periculosidade por sua psicopatia e pelas mortes e roubos que carregava em seus ombros. Era um negro enorme que teve seus testículos extirpados por causa de um tiro que recebera quando foi preso. Ficava encarcerado em uma cela isolada, devido sua hostilidade e pouca sociabilidade com os demais presos. Seu passatempo preferido era fazer pequenos laços de barbante, com uma espécie de forca na ponta. Uma armadilha para as enormes ratazanas que eram caçadas e rasgadas pelos dentes daquele demente, quando surpreendidas pelos laços mortais.

      Outro doido teve sua história na carceragem do "Kilo" ao enfrentar o Subinspetor Daniel "Tchen", temido pela sua fama de matador. Daniel gostava de passar em frente às celas e provocar os presos com seus gracejos. Um dia, como fazia sempre, subiu o corredor direito, onde tinha cerca de dez celas, fazendo seus gracejos e as provocações. O doido que estava na cela 4, ao ver as provocações, sabia que o policial ia subir o corredor das celas e teria que voltar, pois não tinha outra saída. Então preparou uma armadilha. Defecou em suas mãos e aguardou o retorno de Daniel. Menos de cinco minutos depois o policial retornava e estava em frente à cela, quando o doido desferiu o petardo fulminante, acertando em cheio o peito e cara do policial. Daniel, todo bosteado, gritou para seu colega "Xamprisco" que rapidamente levou a chave do cadeado. Daniel entrou para dentro da cela e por cerca de dez minutos trocou "porradas" com o preso doido. No final, "dois" doidos espancados e com bosta por todo o corpo.

      Podemos registrar também, algumas tentativas de fuga naquele período, como do ladrão "Pintado", da Pedreira Prado Lopes, que durante uma revista na carceragem, aproveitou o descuido dos policiais e desceu a escadaria que dava acesso à Inspetoria e à Rua Pouso Alegre, sendo preso nas proximidades da linha férrea na Praça da Estação, cerca de dois quilômetros da delegacia. Um detalhe diferente nessa tentativa de fuga: "Pintado" estava pelado. Fora colocado nu para a conferencia que era feita antes de entrar para a cela e fugiu nessas condições. 

 
MULHERES E FUTEBOL

      Juarez "Capacete" era subinspetor do Setor 3 e boêmio por natureza, frequentador de Dancings como o "Elite", "Estrela" e outras gafieiras da época. Às Sexta feiras, geralmente no final do expediente, se postava no balcão do Bar do "Seu Orlando", ao lado da delegacia e ali colocava em prática a experiência de sua convivência com a malandragem noturna. A "porrinha". Juarez tinha uma grande habilidade no jogo de "porrinha" e conseguia ganhar muitas rodadas de cerveja à custa das “estrelas", apelido que ele dava aos "otários" que caíam na sua lábia e tentavam enfrentá-lo no jogo. Nessas sextas, sempre aparecia no bar, um homem que fez amizade com os policiais da Furtos e gostava de levar uma grande bandeja enfeitada com alface e tomate que cercavam apetitosos coelhos fritos "a passarinho", degustados como tira-gosto. Depois de certo tempo os detetives descobriram que os coelhos eram, na verdade, gatos. O homem desapareceu depois da infeliz descoberta.

      Mas voltando ao assunto das amantes, conforme foi registrado, os policiais da "Furtos" sempre gostaram de se mostrar perante seus colegas pelas mulheres que tinham “no paralelo”. Juarez "Capacete" não era diferente e por isso teve um fim trágico. Sua mulher, ao descobrir, começou a ministrar veneno em sua comida e bebida gradualmente. Quando passou mal e foi hospitalizado, descobriu-se a lenta tentativa de envenenamento. Foi aquele alvoroço na vida daquele já velho policial, mas, que, em nome da harmonia familiar, a perdoou e voltou a conviver com sua mulher. Infeliz decisão, o experiente policial do "Kilo" foi novamente envenenado, só que, desta vez fatal. Juarez morreu assassinado.

       Neste ambiente de romances e mulheres, alguns poucos policiais eram solteiros, como Faria e Jorge "Camarão" e nessa condição privilegiada se esbaldavam nas noites do antigo "El Rancho", "890", "Moita", "Brunellas", Elite, Boêmia, Estrela, Fantasy e outros bares da cidade, locais preferido para as investidas noturnas.                                                               

          Nem só de "Porrinha" e gafieira viviam os policiais do "Kilo". Eles eram apaixonados por futebol, quer seja pelo respeitado time da delegacia de Furtos e Roubos, ou pelas disputadíssimas "peladas" nos sítios do "Hélio Mamadeira" e “Geraldão”. Ali mostravam todo o lado humano e a sensibilidade, ainda que viril, como homens comuns, que gostavam e participavam desses encontros. Era como se ali, vivesse apenas uma família. Com suas brigas, seus sentimentos e o companheirismo que identificava aqueles policiais. Faziam viagens por cidades da grande BH e interior, sempre buscando levar o perfil esportivo como bandeira de uma delegacia de polícia. Muitas e muitas vitórias conquistadas graças aos seus bons jogadores, que conseguiram no final da década de 70 e princípio de 80, conquistar praticamente todos os campeonatos que participaram. 

         
          Seus grandes rivais eram a Delegacia de Furto de Veículos e 2º Distrito de Contagem, que tornavam as partidas um espetáculo à parte, valendo a pena assistir os jogos. Juízes policiais da federação fizeram parte desses eventos e se destacaram como "Tingué" e "Marcha Ré". No artigo "Esportes", deste site, encontramos diversos registros sobre o tema futebol na polícia. Nas peladas os destaques eram para os "perna de pau", como Faria, Geraldo "Segueta", João "Doido", "Zé da Lenha" e outros, que apesar de não jogarem nada, participavam e davam suas "lenhadas". Depois das partidas, tradicionalmente se reuniam para discutir os jogos e o dia a dia de suas vidas em prosas animadas. Os locais preferidos eram os sítios citados ou os bares do "Barão", "Setor 11" e Bar do "Seu Orlando", todos na Rua Pouso Alegre. Outras fotos e conteúdo sobre o futebol na Polícia Civil, em especial da Furtos e Roubos, veja no artigo
Esportes, deste site. http://www.cyberpolicia.com.br/administrator/index.php?option=com_content&view=article&layout=edit&id=169


TRABALHOS POLICIAIS DO KILO.
 
    

          Em razão da conhecida falta de memória histórica, vamos aelencar apenas algumas das ações registradas com participação do policial Faria, no "Kilo".  As atividades da "Furtos e Roubos" tinham uma característica diferente da Divisão de Tóxicos, onde a busca por prisões de traficantes ocorriam, preferencialmente, no período do dia e da noite. No "Kilo", acontecia principalmente nas madrugadas. Normalmente os policiais da "Furtos", após investigações e de posse das informações de localização de assaltantes, arrombadores ou outros tipos de ladrões, faziam as "quebradas" entre as cinco e seis horas da manhã. Nesses dias, geralmente, a equipe dormia de forma improvisada nas poltronas ou dentro de viaturas para aguardar o horário de "estourar a maloca". "Quebrada ou estourar a maloca" eram termos usados para definir a entrada nos endereços dos bandidos. Os policiais chegavam em número de dois, três, ou no máximo quatro e se dividiam da melhor forma possível para entrar com o mínimo de segurança e não perder os bandidos. Aqueles eram momentos especiais na vida daqueles policiais, quando a adrenalina e a coragem tinham de suplantar os medos e as dificuldades sempre encontradas. A Delegacia de Furtos e Roubos, a Polícia Civil, possibilitou a Faria, conhecer diversas regiões de Minas Gerais e praticamente todos os estados brasileiros, sempre na caça de bandidos que atuavam em Minas e fugiam na esperança de não serem alcançados.


1978- O CASO DO VELHO SEIXAS

          José Seixas Fraga era um velho muito conhecido na Praça Sete, em particular em frente ao Café Pérola. Era comerciante de joias e pedras preciosas e exercia suas atividades, aos gritos, chamando a atenção das pessoas que por ali passavam ou frequentavam. Personagem folclórico no pequeno universo da Praça Sete, tinha a fama de mulherengo e destemido, portando sempre uma navalha para enfrentar malfeitores. Iniciou no comércio de joias nas zonas boêmias da cidade, frequentando os redutos das ruas Mauá, Paquequer, Guaicurus, Bonfim e adjacências, fixando-se posteriormente no coração da cidade como se fosse uma joalheria ambulante. A experiência do “Velho Seixas” e o tipo de convivência com todo tipo de pessoa, lhe deu a autoconfiança que lhe foi fatal. No dia dez de fevereiro de 1977 foi visto pela última vez nas proximidades da Praça Sete, entrando em um veículo Chevette, com possíveis compradores de joias. Nunca mais foi visto. Um ano e oito meses após o desaparecimento do comerciante de joias, a equipe do subinspetor João Júlio Papa, da Furtos e Roubos, acabaram entrando no caso. O detetive Faria tinha informações sobre essa quadrilha desde a época do desaparecimento do “Velho Seixas”, quando estava na Divisão de Tóxicos. Faria chegou a viajar para Juiz de Fora com os detetives Jesus e Costa Filho, na tentativa de prendê-los por envolvimento com o tráfico de drogas na capital. O informante, conhecido por “Mobral”, acompanhou os policiais em 1977, apontando os criminosos, que passaram por eles em um Chevette. A perseguição não surtiu efeito por causa do velho fusca emprestado pela delegacia regional de Juiz de Fora para a diligência e o “possante” Chevette, à época, desapareceu, frustrando o objetivo dos policiais. Logo que chegou para o “Kilo”, Faria passou para seus companheiros de equipe, “Zé” Flávio, Swami e Dário Costa as informações sobre os bandidos e a coincidência do Chevette. Reiniciaram a investigação, partindo da informação de que os marginais conhecidos por Rogério “Rato”, “Bira” e “Toninho” poderiam ser os autores do desaparecimento e morte de Seixas. Muito tempo já se passara e quando isto ocorre, as investigações se tornam mais difíceis e a coleta de provas é complicada, principalmente em um latrocínio sem corpo. Teriam que agir rápido. Os policiais descobriram que Rogério “Rato” e “Toninho” iriam à casa da namorada do primeiro, no bairro Ressaca, próximo ao Ceasa, iniciando uma campana no local. Os detetives Faria, “Zé Flávio”, Dário Costa e Swami disfarçaram pedreiros em uma construção, ao lado da residência da namorada de “Rogério Rato”.

 

       Após algumas horas no local, surgiram os dois bandidos em um Fusca. No entanto, antes da aproximação dos policiais, os bandidos desconfiaram daqueles “pedreiros”, atirando em direção aos policiais para em seguida sair em alta velocidade na direção ao bairro Alípio de Melo. O detetive Swami, rapidamente assumiu o volante da Brasília descaracterizada que estava nos fundos da obra e partiu em perseguição aos marginais. Rogério “Rato” acelerava o máximo que o Fusca podia dar, enquanto Swami colava em sua traseira. Próximo à empresa Seven Boys, os bandidos passaram a mais de 100 quilometro por hora, no horário de saída de uma escola, colocando em perigo a vida de várias crianças que quase foram atropeladas. Neste momento o policial desacelerou para não correr o mesmo risco. Pouco tempo depois os detetives já estavam colados novamente no Fusca e agora os tiros eram revidados. Somente na Avenida Ivaí, os criminosos foram finalmente parados com tiros nos pneus e lateral do Fusca. Dominados, os marginais identificados como Rogério Martins Borba e Antônio Cezar Damasceno, o "Toninho Caiçara", foram levados para a Furtos e Roubos, na Floresta, onde interrogados, confessaram ter assassinado o “Velho Seixas” com a ajuda do terceiro bandido, conhecido por “Bira”, José Augusto Alves Filho, o "Zezinho" e Márcio Murilo Fonseca, o “Marcinho (irmão do traficante “Tuluca”)”. Os dois últimos participaram na receptação das joias roubadas e troca por drogas. A prisão de "Marcinho" foi inusitada. Ele estava fazendo curso para soldado e a PM ao receber as informações de sua participação no latrocínio e o mandado de prisão, não esperou nem que o criminoso troca-se de roupa, apresentando-o na carceragem da Furtos e Roubos com a roupa de instrução que os recrutas recebiam e usavam na época. Coincidentemente “Bira” chegaria de São Paulo naquele dia com um carregamento de drogas e estaria hospedado em um hotel da Rua Tupis, quase esquina de Rua Guarani. Os policiais foram para o hotel e através da recepcionista tomaram conhecimento que o um cidadão com as características fornecidas, havia preenchido uma ficha se identificando como Dr. Fontes e sua chegada estava prevista para aquela tarde. Os policiais sentaram na recepção e aguardaram a chegada do marginal. Por volta das 18:30 horas, um homem, bem vestido e alinhado, todo de branco entrou no hotel, dirigindo-se à recepção para apanhar as chaves do quarto. Ao ser abordado, foi reconhecido e identificado como Joisete Ubiraci Pinto, o “Bira”. Ao abrirem e revistarem sua mala, foram encontrados vários pacotes de maconha. A primeira fase da investigação estava fechada, mas restava aos policiais Faria, Dário, Flávio e Swami, coordenados pelo delegado Jaci de Abreu, buscar provas em relação ao assassinato do “Velho Seixas”, confessado pelos criminosos. Na confissão os criminosos esclareceram que convenceram a vítima a entrar no Chevette, placa AW-6904 para fazerem uma transação de pedras. “Bira” ficou ao volante e se dirigiu a BR-262, quando “Rogério Rato” e “Toninho” passaram um fio de luz no pescoço do “Velho Seixas”, que, no pavor da morte anunciada e iminente, sacou uma navalha, não conseguindo atingir os marginais, que lhe desferiram tiros de Beretta 6,35, disparados por Rogério. Os bandidos subtraíram dinheiro e joias da vítima, jogando o corpo no Rio Paraopeba, nas proximidades de Mateus Leme. Naquela oportunidade os policiais depararam com uma situação insólita: tinham os autores do bárbaro latrocínio, suas confissões, testemunhas que os viram saindo com o velho Seixas pela última vez, porém não conseguiam a materialidade do crime. As joias haviam sido derretidas e o corpo estava desaparecido. No entanto, após a prisão dos marginais e um trabalho incansável de dois meses de procura, os policiais Faria, “Zé Flávio”, Dário Costa e Swami encontraram o registro do sepultamento do corpo de um homem, encontrado boiando no rio e enterrado como indigente na cidade de Taquaraçu, cerca de cem quilômetros do local da desova. Apesar de quase dois anos após o crime, conseguiram fazer sua identificação e fechar com êxito as investigações, no caso que a princípio parecia insolúvel.



1978- OS BANDIDOS DE SANTA MARGARIDA.


          No final da década de 70, no auge do período militar, a Superintendência Geral, o DOPS, Delegacia de Vigilância Geral, Homicídios e Furtos e Roubos eram os setores policiais escolhidos para diligencias pelo interior do estado na apuração de crimes com maior complexidade, checagem de informações, prisões e apoio às delegacias. Em 1979, um desses acionamentos foi feito pelo delegado regional de Manhuaçu, que pediu auxílio de policiais da “Furtos e Roubos” para diligencia em sua área. O delegado Maurício “Brinquinho” recebeu o ofício com o pedido de apoio e determinou ao inspetor Walter “Carrapicho” que designasse policiais para a diligencia. Despachado para o Setor 2, o subinspetor Romeu Rocha chamou os detetives Vidigal, policial “linha de frente” da “Velha Guarda” e Faria para realizarem a diligência em Santa Margarida, cidade próxima de Manhuaçu e Matipó. Faria levava sua inseparável Metralhadora Beretta, Vidigal uma escopeta e uma viatura Veraneio C-14 caracterizada, nas cores preto e branco. Além disso, apenas a cara e a coragem para enfrentar o desconhecido, vez que, não tinham conhecimento do que iriam fazer. Ao chegarem a Manhuaçu, encontraram com o delegado regional Ivan, que os levou discretamente para seu gabinete e lhes dera conhecimento do trabalho sigiloso. Seria a prisão de três pistoleiros e ladrões de gado, que moravam em Santa Margarida e já agiam na região há muito tempo. Informou-lhes que os elementos eram de alta periculosidade e temidos na cidade e, apesar de terem mandados de prisão decretados pela Justiça local, a Polícia Militar da cidade temia prendê-los em razão do receio de retaliação. Faria e Vidigal não entenderam bem aqueles argumentos, pois existia um Batalhão PM em Manhuaçu, além de policiais civis da regional. Para os dois policiais parecia ser medo do enfrentamento, ou das consequências posteriores às prisões.

          Quatro horas da manhã, Faria e Vidigal deslocaram de Manhuaçu para Santa Margarida, cerca de quarenta quilômetros, levando o carcereiro Agostinho, responsável pela indicação dos locais das residências dos bandidos, por conhecer bem a região. Por voltas das cinco e meia da manhã, iniciaram a ação em Santa Margaria. Quando Agostinho indicou a primeira casa, Vidigal e Faria, com a experiência que tinham de estourar “malocas” na capital, partiram para cima. Faria foi pela frente estourando a porta, enquanto Vidigal fazia o mesmo procedimento nos fundos. A rapidez da ação impediu qualquer movimento de resistência por parte do primeiro criminoso preso, apesar de sua arma ter sido encontrada debaixo do travesseiro. Os policiais colocaram o preso no “Cú de Cachorro”, (nome dado ao cômodo de presos da viatura) e seguiram Agostinho até a segunda casa. Lá, o mesmo procedimento anterior foi adotado, porém, o bandido teve tempo de se esconder debaixo da cama, com seu revólver na mão. Bastou uma rajada de metralhadora para o criminoso perder a motivação de resistência. Colocado na viatura, Faria, Vidigal e Agostinho foram até a última residência. Ao entrarem na casa, adotando o mesmo padrão “tático”, os dois policiais da “Furtos” vasculharam todo o imóvel, enquanto Agostinho dava cobertura externa e vigiava a viatura. O terceiro marginal, não foi encontrado. Os policiais interrogaram a rapidamente a esposa do pistoleiro, que demonstrando raiva, afirmou taxativamente:

hoje ele não tá em casa, tá dormindo na casa da amante, que é na rua de baixo”, dando referência do endereço.

          Os policiais não sabiam se ela denunciava seu marido por medo ou revolta, mas o certo é que a quarta casa foi estourada no local indicado pela mulher. Talvez pelo grande barulho de vozes, palavrões próprios dos momentos de invasão de casas de bandidos e os tiros disparados, o terceiro pistoleiro esboçou reação. Também estava armado com um revólver calibre 38 e com ele efetuou disparos quando a casa de sua amante foi estourada. Mais uma vez, o barulho dos tiros de escopeta e metralhadora ecoou dentro da casa, e o "valente" bandido desistiu e se entregou, jogando a arma para os policiais, saindo com as mãos na cabeça. Há que se ressaltar que toda a ação não demorou mais que dez minutos, apesar de serem quatro casas. Diligencias como essa, não se perde um segundo, sob pena de não se conseguir o resultado esperado e perder o fator surpresa. Já clareava o dia quando o último pistoleiro foi reunido com os outros dois, na última casa. Como os pistoleiros estavam seminus e havia necessidade de retirada imediata daquele local, devido ao temor de tentativa de retaliação e resgate de outros membros da família dos criminosos, foi determinado que se vestissem com as roupas que se encontravam na casa da amante do terceiro ladrão. Os três bandidos colocaram os vestidos da amante por não encontrarem roupas de homem na casa. Já eram cerca de seis horas, a movimentação de policiais, tiros e a viatura policial era muito evento para aquela pequena cidade e seus moradores surgiam dentre as frestas das janelas e portas. A caminhada com os perigosos pistoleiros pelo centro de Santa Margarida usando vestidos até a viatura que se encontrava distante, acabou servindo para desmoralizar e acabar com a fama de valentões. 


1978- MELHOR POLICIAL DA DELEGACIA DE FURTOS E ROUBOS

  Nas fotos acima: Equipe C da Furtos e Roubos, em 1979, com "Tião Carão", "Jumbo", Nedir, Eli, Loami, "Segueta”, Faria e Subinspetor Agostinho. Faria.

   

          Em seu primeiro ano de “Furtos e Roubos”, Faria conseguiu grandes feitos investigativos e participou em inúmeras prisões e elucidações de roubos e latrocínios, suplantando as velhas "àguias", os policiais veteranos do "Kilo". Ganhou o Diploma Eficiência-1978, do Departamento de Investigações, como melhor policial de Furtos e Roubos. Uma vitória inimaginável para aquele policial, com pouco mais de dois anos de polícia. Após o reconhecimento de sua chefia e ter demonstrado que tinha potencial para ser policial de “Furtos e Roubos”, Faria ganharia a confiança dos delegados daquela especializada (Jaci de Abreu, Elbert Barra e Maurício "Brinquinho") e em particular de seu chefe imediato, Inspetor Romeu Rocha, assumindo prematuramente a chefia de uma equipe composta pelos detetives Ivan, o “Mico de Itu”, Jorge “Camarão” e Antonio “Pangaré”. Faria se desdobrava para fazer seu curso de Direito em Sete Lagoas, exercer suas atividades de expediente, as rondas noturnas e as inúmeras “quebradas” nas “malocas” dos bandidos. Policial de "Furtos e Roubos" não tinha tempo para nada. Uma de suas obrigações era conhecer as diversas favelas da capital, onde rotineiramente tinham de subir a "cata" de criminosos. Era a responsabilidade que aquela unidade policial impunha a quem quisesse trabalhar no "Kilo". Naquele ano, Faria também participou da equipe chefiada pelo subinspetor Agostinho, quando prenderam a quadrilha mais procurada naquele lapso temporal, de Dimas Campos Chagas e Joel Ferreira da Silva. Com outros bandidos, roubaram vários bancos na capital mineira, região metropolitana e cidades do interior. Foram responsabilizados ainda por roubos de joias contra a atriz Marília Pera e a novelista Janete Clair, todos, crimes investigados e apurados pela equipe de policiais da Furtos e Roubos.


1979- AS MORTES NO ALTO DA AFONSO PENA.

       Nos últimos anos da década de 70 ocorreram inúmeros latrocínios na zona rural do interior de Minas, com requintes de crueldade e similaridade na forma de consumação dos crimes. Os alvos, geralmente eram fazendas de casais pessoas idosas, onde as vítimas eram dominadas, as mulheres estupradas e todos abatidos a tiros de espingarda cartucheira. Em um dos casos, um casal de velhos agricultores teve sua casa invadida e antes de esboçarem qualquer reação foram mortos pelos tiros de uma cartucheira. A velha senhora, agonizando com a barriga aberta e suas entranhas expostas pela violência dos tiros que lhe atingiram, foi violentada sexualmente, nessas condições, pelo marginal. Tratava-se de Ramiro Matilde, o “Ramiro da Cartucheira” que espalhou pânico em Minas Gerais pela barbaridade de seus crimes e por praticá-los com o uso desse tipo de arma (Ver Seção Décadas/70). No ano de 79 ocorreram dois assassinatos seguidos, no alto da Avenida Afonso Pena, que causaram grande repercussão e colocou em pânico a população da capital, quando o comerciante Ajax Lins de Vasconcelos e o vigia Geraldo Lopes foram mortos a tiros. A polêmica, na ocasião, foi causada pela imprensa sensacionalista que apontou a autoria dos crimes a “Ramiro da Cartucheira”.

 

"MORTE HORRÍVEL" "...no caso da morte do rondante, a situação da polícia é mais difícil, pois ninguém viu nada. ...os colegas do rondante ...encontraram-no, numa situação horrível. O rondante tinha sido assassinado com um tiro do lado esquerdo do peito, enforcado com uma mangueira de plástico, com vários nós, amarrado a uma banca de armador da construção. O rondante foi dominado e amarrado à mesa para ser fuzilado à queima roupa. A Delegacia de homicídios foi acionada e os detetives Elton Geraldo Vieira Alves, Wilson Leandro, subinspetor Sebastião e o delegado Orfeu Braúna compareceram ao local para as primeiras investigações". Jornal Diário da Tarde.1979. Reportagem e foto do rondante assassinado.

 

          A equipe dos detetives Faria, “Zé” Flávio, Dário Costa e Swami foi designada para apuração dos dois casos, com muita pressão e cobrança para apuração rápida pela forma covarde das mortes. Entendia-se que fosse um latrocínio e uma tentativa de assalto com morte. No caso do rondante, ele foi amarrado, em seguida baleado e por ser final de semana ficou agonizando até a morte, pelo ferimento sem socorro. A perícia constatou, além das lesões provocadas pelos tiros, inúmeros ferimentos por mordidas de ratos, acentuando seu sofrimento enquanto moribundo. Iniciadas as investigações os policiais chegaram a dois irmãos, Geraldo Lúcio de Resende Maia e Márcio de Resende Maia, filhos de família de abastada de Belo Horizonte do ramo atacadista. Com a prisão dos dois, apurou-se que os jovens eram os autores dos crimes e de muitos outros roubos seguidos de estupros no alto da Avenida Afonso Pena. O local era ermo e escuro, muito usado por casais de namorados. Os crimes eram cometidos sempre em companhia de um terceiro marginal do Rio de Janeiro, Raimundo Batista dos Santos, que também usava o nome de Raimundo Batista dos Anjos, o “Carioca”, foragido de uma penitenciária daquele estado. A grande dificuldade era prender esse marginal, que desapareceu após a prisão de seus parceiros.

         Abre-se aqui um parêntese para elogiar os pais de Geraldo e Márcio, principalmente a mãe, que ao tomar conhecimento dos crimes praticados por seus filhos, chorou no ombro de outra mãe, cuja filha havia sido estuprada e roubada por eles. A emoção dessa mãe, uma psicóloga, ocorreu quando estava na delegacia para ver seu filho criminoso e tomou conhecimento do drama das vítimas ao se encontrarem no corredor. Em um dos casos, “Carioca” violentou o rapaz, enquanto os irmãos bandidos estupravam a mulher. Com muita fibra e coragem, orientada pelos detetives, a mãe conseguiu convencer “Carioca”, quando lhe telefonou, a comparecer em sua casa para conversarem e arrumar advogado para seus filhos. Imediatamente avisou os policiais Faria, e “Zé” Flávio, mesmo sabendo que seu ato, poderia complicar ainda mais a vida de seus filhos em outros processos. Com muita personalidade dizia:

“São meus filhos e não vou deixar de amá-los pelo que fizeram, mas terão de pagar por seus crimes”.

          Raimundo acreditou na conversa e a procurou, quando foi surpreendido e preso pelos policiais que faziam campana no endereço. Com as prisões os bandidos foram interrogados e confessaram a série de roubos e estupros. Apurou-se, em relação às mortes que, quando roubaram o vigia Geraldo Lopes, os bandidos simularam que um dos três estava passando mal em frente à obra onde a vítima trabalhava. Quando a vítima, num gesto de solidariedade abriu o portão para ajudar, foi dominado, amarrado e em seguida baleado sem esboçar nenhuma reação. O vigia foi deixado ferido e morrendo durante aquele final de semana, sendo praticamente devorado por ratos durante seus últimos momentos de vida. O único objetivo da ação era roubar sua arma e se instrumentalizarem para novos assaltos. No caso da vítima Ajax Lins de Vasconcelos, que estava em uma possante moto, foi assassinado ao tentar fugir dos bandidos, que atiraram, segundo as confissões dos criminosos. Um detalhe interessante constatado nesse caso é que “Carioca” era um negro muito forte, desdentado e também homossexual, apesar de ter sido ativo em alguns roubos. Durante os assaltos a casais, gostava de beijar os homens jovens. 



1980. AS GANGUES DE EDSON "BORRACHA" E "MANDÚ"


          
          Acima, inserimos cópias de reportagens do Jornal Estado de Minas, sobre a quadrilha de Edson Borracha e Mandú. Na foto do meio, a equipe de Faria em 1982 a 1984, com Antonio e Jorge "Camarão". Nesse período, a região do Alto dos Minérios, na capital mineira, ganhava importância criminal pelo número de assaltantes que produzia e infernizavam a vida dos cidadãos de Belo Horizonte. “Cabelinho de Fogo”, um dos primatas do crime no “Pé Vermelho”, como o Alto era conhecido, estava preso, mas deixou sua influência e saga criminosa dos anos 70 para os jovens da favela. E ali surgiram dois grandes líderes do mal, formadores de dois grupos: Edson “Borracha” e “Mandú”. Os membros da quadrilha eram menores, rapazes e moças, arregimentados nos becos da favela, ansiosos por ganhar notoriedade e fama. Diferentemente dos criminosos anos 90 e 2000, que migraram para a visibilidade criminosa do tráfico de drogas. Na Gangue dos menores estavam quatro meninas. 

          Em 1980, o Delegado Jaci de Abreu passou para a equipe do detetive Faria, “Zé Flávio” e Swami, uma ocorrência com quatro meninas menores e dois maiores, responsáveis por uma série de assaltos e arrombamentos e presos na Delegacia de Furtos. Para o delegado, uma das menores lançou um desafio arrogante: “Doutor, não me encosta a mão. Sabia que sou menor”. Jaci de Abreu, incrédulo com a prepotência da menor, brincou, que deveria mudar de profissão, chamando a equipe para investigar e interrogar os maiores, determinando o encaminhamento das quatro menores para a delegacia responsável. Dentre os menores, uma era foragida da antiga FEBEM, outra tinha desferido tiros naquele dia, contra uma mulher com duas crianças, a terceira foi a que desafiou o delegado Jaci de Abreu. A quarta menor participara dos crimes, mas ainda não possuía antecedentes policiais e tinha uma história de amor bandido, gênero “Bonnie e Clyde” tupiniquim. Entrou para a gang por estar apaixonada por outro menor, participante da quadrilha. A maioria dos crimes praticados pelos menores eram arrombamentos para conseguir armas ou bens que pudessem ser trocados por elas. Com essas armas, os maiores estavam equipados para os assaltos. Os marginais que ficaram na Delegacia de Furtos e Roubos, eram o Chefe da quadrilha, Edson Conceição Campos, o “Edson “Borracha” e Honorato José Custódio Filho, "Dragão Lila", ambos com 18 anos de idade. (Mais adiante, no título: “1983. O Caso do Desembargador”, veremos que o detetive Faria se encontraria novamente com esse marginal, no entanto, em situação de grande perigo). Os policiais verificaram que “Borracha” estava “premiado”, apesar de sua idade, com uma condenação de sete anos de reclusão por roubo. Interrogados confessaram:

“Metemos a máquina no dono de uma mercearia e levamos alguma grana e bebida. Também metemos a draga no dono da Brasília e levamos o carro para meter as broncas. Fizemos também umas paradas no Santa Inês, Savassi, Boa Vista, Saudade e Alto Paraíso”.

          Edson “Borracha, ainda confessou com detalhes o assassinato de seu parceiro de crime, o ladrão Darci Gomes de Araújo, o "Lobinho”, por desentendimento na divisão de bens roubados. Pouco tempo depois, Edson “Borracha” era assassinado no interior do presídio e Honorato José Custódio, o “Dragão Lila” fugia do cárcere. A quadrilha agora era chefiada por “Mandú” e os assaltos ganhavam novas proporções e se tornara mais violenta, com o ingresso de novos marginais, mas velhos na lida criminosa.



1981. A MORTE DE ADEMAR BOCÃO


          No princípio dos anos 80, o delegado Faria recebeu uma informação indicando o local onde estaria homiziado um perigoso assaltante, conhecido por “Ademar Bocão”. O marginal fora identificado pela participação em vários roubos, onde as vítimas o descreviam como violento durante suas ações criminosas, sempre sob o efeito de drogas. O detetive Faria chamou seus colegas “Camarão”, João “Doido” e Darci “Burro Branco” para checarem a informação e foram para a região do Bairro São Paulo, onde possivelmente estaria o bandido. Ao chegarem ao local, o informante passou em frente ao barracão e deu um sinal positivo, indicando que “Bocão” estava na residência. Rapidamente os quatro policiais cercaram e estouraram o barracão, Faria e "Camarão"entraram pela frente, João e Darci pela porta dos fundos para não dar tempo de reação. O marginal, apesar do fator surpresa, pulou em sua arma, um revólver calibre 38 para tentar uma ação desesperadora, ao ver os dois policiais que entravam na sala, sendo alvejado no joelho, tiro desferido por Faria e outro no pé, disparado por “Camarão”, caindo ao chão. O marginal foi desarmado e levado para a Delegacia de Furtos, para em seguida, por determinação do delegado Jaci de Abreu, chefe do “KILO”, ser examinado por um médico do HPS. O médico, após o exame alegou que os tiros tinham atingido de forma superficial e poderia ser encarcerado, necessitando apenas de curativos. Ademar “Bocão” foi recolhido no “Inferno da Floresta”, carceragem dirigida pelo Inspetor Antonio Domingos e seus auxiliares “Rasteiro” e “Xamprisco”. Dois dias depois, Faria, chefe da equipe responsável pela prisão, ao chegar pela manhã, para iniciar sua jornada de trabalho, foi surpreendido por seu colega, Daniel “Tchen”, que ironizava:

É, Faria, tem um "broncão" ai dentro pra você. O Ademar Bocão suicidou”.

Faria ao ouvir a gozação retrucou:

“Pra mim, não. A bronca é pra ele que morreu”.

O chefe da “Furtos” conversou com os responsáveis pela carceragem e constatou que o preso estava custodiado entre duas outras celas, tendo, portanto, vários testemunhos de outros presos, companheiros de infortúnio. Os jornais estamparam matérias bombásticas, suspeitando das circunstancias da morte do criminoso e enaltecendo o nome de “Inferno da Floresta”. No entanto, os presos ouvidos no inquérito que apurou a morte, confirmaram que ele tentou se matar por duas vezes. Na primeira tentativa sua calça não aguentou e rasgou. Na segunda o suicídio consumou-se.

 

1981. O PISTOLEIRO "NENZINHO" EM ALMENARA.

          Faria, Darci "Burro Branco", Leite e Paulo Menezes na foto batida pelo pistoleiro "Nenzinho", durante os quase 3000 quilômetros de escolta. Na foto acima, à direita: Scoralick, Walter Carrapicho, "Savéia", "Niltinho", "Sivuca", "Joãozinho", Romeu Rocha e Faria.    

          No final da década de 70, a morte do velho fazendeiro Tude Poty Bayard, em Almenara, causou repercussão nacional pela covardia do crime e o envolvimento de policial militar e um dos filhos da vítima no assassinato. Tude era um dos maiores e mais ricos fazendeiros da região e a cobiça pela herança o levou ao túmulo. Alguns anos depois ocorreria o julgamento do pistoleiro, responsável pela emboscada e como sempre, nesses casos de maior repercussão e periculosidade das diligencias, os policiais do “Kilo” eram chamados para executá-las. Em 1981, Faria, juntamente com Paulo Menezes, Inspetor Leite e Darci “Burro Branco” participou da diligencia para escoltar o pistoleiro conhecido por “Nenzinho”, de Brasília, onde estava preso na Penitenciária da “Papuda” para Almenara, comarca de julgamento. No mesmo dia a equipe saiu de manhã de Belo Horizonte e por volta de 1:00 da madrugada do dia seguinte, deixava o pistoleiro no antigo DOPS. Após dormirem algumas poucas horas, continuaram a escolta para Almenara, distante cerca de 750 quilômetros de Belo Horizonte. Total do percurso de escolta, cerca de 1900 quilômetros, percorridos.

        Durante o caminho, ao ser perguntado em conversa informal pelos policiais, em relação ao crime, “Nenzinho” falou abertamente sobre sua contratação pelo filho, os preparativos e a emboscada. Esteve em Almenara por alguns dias até reconhecer pela foto que lhe foi entregue, a vítima, quando esteve na cidade. Com o alvo reconhecido e levantamentos de local e rotina, foi para a estrada da fazenda e permaneceu na tocaia por cerca de três dias com farinha de mandioca, água e rapadura, até conseguir consumar a empreitada. No terceiro dia, de posse de uma carabina, avistou o fazendeiro em seu cavalo, vindo em direção à morte. O velho vinha por uma estradinha de terra de chão batido e ao receber o impacto do primeiro tiro, rodopiou com o animal, tendo forças para sacar sua arma e atirar várias vezes em direção ao pistoleiro. No entanto não conseguiu escapar das balas de “Nenzinho”, caindo mortalmente ao chão. O pistoleiro ainda ironizou para os policiais:

“Era um velho valente, deu trabalho pra morrer”.

           Os policiais chegaram a Almenara por volta das 11:30 horas da manhã, quando passaram na casa do Juiz da comarca, de nome Pantaleão, para avisá-lo da chegada à cidade com o preso, para o julgamento que teria início às 13:00 horas no fórum local. Os policiais falaram que iriam almoçar, quando o magistrado argumentou que deveriam entrar para conversar. A equipe fez menção de deixar o preso na cadeia da cidade para retornarem , quando o Juiz, para surpresa de todos, alegou que o convite era para almoço e extensivo ao pistoleiro (que seria julgado pelo mesmo juiz dentro de poucas horas). O almoço ocorreu com tranquilidade e vários comentários sobre pistolagem foram assunto durante a refeição.   “Nenzinho”, no entanto, almoçou e se restringiu a respostas monossilábicas, permanecendo praticamente calado durante todo o tempo. Era um pistoleiro frio. Findo o almoço, os policiais despediram do magistrado que foi aprontar-se para o júri, enquanto dirigiam-se para o plenário de julgamento. Durante todo o júri, a Polícia Militar fez a escolta externa, fechando os quarteirões no entorno, enquanto Faria e seus companheiros permaneciam na segurança interna, armados com suas metralhadoras Beretta.

           O julgamento iniciou-se por volta das 13:00 horas e seu encerramento deu-se por volta de meia-noite com o veredicto: culpado. A sentença proferida por Pantaleão foi de 30 anos de reclusão, com mais dois anos de medida de segurança. Para aumentar o espanto dos detetives, no dia seguinte, por volta das 7:00 horas da manhã, quando foram buscar o pistoleiro “Nenzinho” na cadeia, para retorno à Brasília, a grande surpresa. Pantaleão se encontrava na porta aguardando a presença dos policiais para suas despedidas. O Juiz despediu-se dos policiais e deu um caloroso abraço no criminoso, dizendo que seus filhos foram praticamente criados com pistoleiros e que era amigo de “Nenzinho”, pedindo ao preso para escrever cartas para ele.

             Quando saíram de Almenara, já na rodovia, cerca de duas horas de estrada, o pistoleiro rompeu seu silêncio com seu semblante frio e sisudo, dizendo:

“Imaginem, esse filho da puta me dá 30 anos de cadeia, mais dois anos de medida de segurança e vem se despedir dizendo que é amigo de pistoleiro e pra escrever pra ele. Vocês já pensaram se ele não gostasse de pistoleiro”.

           A indignação do pistoleiro serviu para divertir os policiais e deixar a viagem menos monótona e cansativa.

 

  

1981. O ASSALTO DA VENDEDORA DE JÓIAS DE CAMPANHA

 

          Agora. estamos no ano de 1981, quando ocorreu um roubo no Sul de Minas sendo a senhora de nome Conceição, tia do delegado Santos Moreira, vítima de três criminosos que lhe renderam e levaram mais de quatro quilos de joias, qre trazia em seu poder por ser revendedora da “Silvania Joias”, fábrica de Belo Horizonte. Nesse período, Faria estava na equipe chefiada por “Eli Pastor”, junto com Walter “Jumbo”, João “Doido” e Alcir “Comedor de Cachorro”, quando foram chamados pelo chefe da “Furtos”, delegado Jaci de Abreu que repassou para eles a incumbência de tentar apurar o roubo. As esperanças de recuperação de alguma joia eram pequenas, pois já se passara quase um mês após o crime. Nesses casos, geralmente, são derretidas e transformadas em barras de ouro, para não deixar prova material que comprovasse qualquer participação no crime. A equipe deslocou na semana santa para a região de Varginha, onde começaram as investigações e identificaram três irmãos da cidade de Campo do Meio, como assaltantes que agiam naquela região. Eram os perigosos irmãos Cléber, Théo e Jalder. Os policiais deslocaram para a cidade, chegando à residência dos bandidos no início da manhã, para pegá-los de surpresa, como era comum naquele tipo de diligencia. Ao cercarem a casa, os policiais tiveram a sorte de encontrar os três bandidos juntos, que tentaram uma reação armada, mas foram prontamente dominados e convencidos a desistirem da resistência. Faria que sempre portava uma metralhadora Beretta, deu uma rajada próxima aos pés dos bandidos e o susto pelo barulho dos tiros, causaram uma hemorragia instantânea na mãe dos criminosos, descendo sua menstruação, apesar da menopausa daquela senhora. "João Doido" e Alcir, que estavam próximos, também dispararam seus “38”, demonstrando que estavam preparados para o enfrentamento. Rapidamente os bandidos foram dominados, algemados e retirados do local em uma viatura C 14 que os policiais usavam. Em poder dos criminosos foram apreendidos quatro revólveres calibre 38 e um calibre 32 com farta munição. Interrogados sobre o roubo, os bandidos confessaram a responsabilidade pelo crime, esclarecendo que todas as joias roubadas foram vendidas para receptadores do Rio de Janeiro e que teriam usado o dinheiro arrecadado na compra e reforma da casa da mãe. Era quase impossível conseguir recuperar alguma coisa com criminosos cariocas, mas policial do “Kilo” não desanimava antes de concluir as investigações. Ininterruptamente, deixaram dois dos criminosos na Delegacia Regional de Alfenas e empreenderam viagem para o Rio de Janeiro. Na capital carioca encontraram com o delegado Campana, que lhes deu toda a cobertura que precisavam, escalando “Leão”, um policial de sua confiança para acompanhá-los. Não durou mais que dois dias para identificar e localizar os dois receptadores, que, diante da ameaça de prisão, preferiram confessar a compra das joias roubadas e fazer a devolução. E para sorte da vítima, o incrível nessa diligencia aconteceu: cerca de 90% do material roubado ainda estava em poder dos receptadores, o restante tinham revendido para pessoas no varejo, desconhecendo esses compradores. Os policiais fizeram a apreensão das joias, inúmeras correntes, pulseiras, anéis, brincos e outros tipos de adereços de ouro e pedras preciosas, fazendo a devida restituição à vítima, através do delegado regional de Alfenas, Orlando Antunes.

"Polícia Apura Roubo de 15 Milhões em Varginha". Jornal Estado de Minas- 18/1/1981. "Foi apurado um assalto de 15 milhões de cruzeiros em joias em Varginha, com a prisão de três dos quatro ladrões, localizados pelos detetives da Delegacia de Furtos e Roubos. Este foi o maior roubo de joias apurado pela polícia de Minas em todos os tempos. O roubo aconteceu quando Conceição Aparecida de Sena foi mostrar joias para uma mulher, de nome Kátia, em Varginha. Geraldo Rodrigues anotou a placa do carro de Conceição e mandou seus irmãos Theo Wilson Rodrigues, Jalder Luis Rodrigues e Cléber Luis Rodrigues irem até a dona das joias para roubar. Os três foram ao local e praticaram o roubo, indo para o Rio de Janeiro, onde as joias foram vendidas em São João do Meriti. Os detetives Eli de Oliveira, Walter, Alcir, João e Antonio Carlos Faria, do setor chefiado pelo subinspetor Romeu Rocha, já apreenderam 90% das joias roubadas." "...os quatro furtaram um Volks entre Pontas e foram até a rodovia Varginha/Furnas, no trevo de Elói Mendes, onde encontraram Conceição Aparecida. Abalroaram o veículo da vítima e desceram armados com uma cartucheira. Tomaram todas as joias que a vendedora transportava, avaliadas em 15 milhões e 700 mil cruzeiros”. Jornal Diário da Tarde-18/1/1981.


Fizico


       Marginal de alta periculosidade, Carlos Antônio Marques, o “Fizico” ganhou as manchetes dos principais jornais de Belo Horizonte em meados dos anos 70, que estamparam diversas matérias policiais, destacando o perfil do marginal. Foi um dos poucos bandidos que ganhou nome e notoriedade em Belo Horizonte, pela série de crimes praticados, a violência contra suas vítimas e parceiros de crime. Também pela sua ferocidade nos embates e enfrentamentos com a polícia. Era um psicopata. Dentre as manchetes relacionadas a ele podemos destacar as dos jornais Estado de Minas e Diário da Tarde:

1/11/76: Difícil prender Fizico.

18/11/76: caça policial a Fizico acaba no hospital com tiro na nuca.

24/11/76: preso não fala de medo de ser morto por Fizico.

         Nessa época, era considerado o inimigo nº 1 pela Furtos e Roubos e Metropol.

          Todas, matérias do jornal Estado de Minas no final de década de 70 e princípio de 80. "Fizico" era uma assaltante impiedoso, com várias mortes pelas costas e sempre com muita disposição para encarar a polícia. Era início dos anos 80, Faria chefiava a equipe de Nilton de Abreu, Antonio Pangaré e Jorge Camarão do setor 2 da Furtos e Roubos, quando receberam informação de que “Fizico” estaria escondido em barraco no final do Bairro Suzana. Os quatro policiais entraram em uma Veraneio C14 descaracterizada, de cor azul, dirigindo para o local da denúncia. Faria, apesar de chefe de equipe, gostava de dirigir as viaturas e, ao chegar à região, encostou o carro cerca de quinhentos metros da residência apontada como esconderijo e dali seguiram a pé. O informante que aguardava nas proximidades, foi ao encontro dos policiais e confirmou que "Fizico" estava dentro da casa, na sala, assistindo TV e tinha um revólver debaixo da perna. Nessas situações, não havia muito planejamento pelas circunstancias encontradas e o que prevalecia era a cara e a coragem. Faria orientou seus companheiros a dividir a equipe para que pudessem pegá-lo de surpresa e com a casa foi estourada pela porta da frente, onde Faria entrou e pelos fundos adentraram Antonio e Jorge Camarão, enquanto Nilton dava cobertura na rua. “Fizico” estava realmente sentado em frente à TV, aparentemente drogado e apesar de tentar pegar sua arma, não teve tempo, diante dos canos das armas de Faria e Camarão encostadas na sua cabeça. Apesar de sua periculosidade, erroneamente foi algemado com as mãos para frente e recolhido na viatura, onde Nilton de Abreu permaneceu escoltando. Certamente aquele procedimento foi o segundo erro, por Nilton ser um policial recém-formado pela academia. “Fizico” aproveitou de um descuido e arremeteu o banco do passageiro da Veraneio contra o policial, que ficou espremido de encontro ao volante. O bandido tentou fugir pela porta traseira da viatura, por onde saiu. Tudo acontece em questão de segundos e o reflexo falou mais alto para Faria, ao perceber o companheiro em perigo, não titubeando em efetuar um disparo, acertando o joelho do marginal.

          Nesse particular, Faria se lembra de ter atingido pelo menos três bandidos no joelho, “Fizico”, “Ademar Bocão” e Getúlio Vargas Cardoso, tiros não letais, mas que desmonta o bandido na hora. "Fizico" foi conduzido ao hospital e posteriormente à Penitenciária Agrícola de Neves. Passados cerca de cinco anos, Faria era delegado da 4ª Delegacia de Furtos e Roubos, quando visitou o seu amigo, delegado Nelson, que respondia como diretor daquele estabelecimento prisional. Ao circularem pelas galerias da penitenciária, em meio a centenas de presos que estavam fora de suas celas, Faria avistou “Fizico” que foi em sua direção, coxeando de uma perna. Faria lhe questionou sobre o que ocorrera para estar mancando e “Fizico”, demonstrando visivelmente sua psicopatia no rosto, falou:

“um filho da puta dum tira da furtos o baleara covardemente e um dia iria vingar”.

          O assunto acabou ali, afinal as circunstancias e local não eram nada propícios para que ele reconhecesse Faria.

 

 Ficha policial de Carlos Antonio Marques, o "Fizico", preso por Faria e sua equipe na Furtos e Roubos e reportagem sobre o envolvimento de sua vítima, na morte de um inocente(Artigo abaixo). 

 

O CASO DELEGADO KLEIN E O RIO DE JANEIRO

 

          Em outubro do ano de 1981, ocorreu um assalto em Vitória-ES, sendo vítima o delegado de polícia federal Benício Klein, rendido por quatro marginais e despojado de sua carteira funcional, uma pistola Browning 9 mm, uma bolsa de couro e outros pertences. Segundo noticiou-se pela imprensa, à época, o delegado, alguns agentes federais e policiais civis capixabas teriam prendido Jailton Rosa da Conceição, reconhecido pela vítima como um dos assaltantes. A equipe conjunta espancou Jailton, mas não conseguiu apurar o delito. Levaram então, para as dependências da Superintendência da Polícia Civil, o pedreiro João Alves dos Santos, vulgo “João da Matilde”, conduzido pelo delegado/vítima e agentes federais, por denuncia que estaria com a pistola roubada. Em circunstâncias misteriosas, segundo consta vítima de espancamentos e tortura, “João da Matilde” morreu em consequência de pancadas na cabeça. Diante da grande repercussão nacional, foram decretadas preventivas de vários policiais civis e federais durante o curso do processo, dentre eles o delegado federal. O delegado da Polícia Civil, Cláudio Guerra, que autorizara o recebimento do conduzido, foi exonerado.

          Há que se perguntar: qual o envolvimento da Polícia Civil de Minas Gerais e o biografado com apuração de crimes de outro estado? Vamos explicar. No ano de 1982, Faria era chefiado pelo inspetor Romeu Rocha, que lhe deu a incumbência da prisão do assaltante Antônio Marques, vulgo “Fizico”, que foi baleado no joelho. “Fizico”, ao ser interrogado confessou ter participado do assalto contra o delegado, em Vitória-ES, apontando como seus parceiros Antônio Carlos Braga, vulgo “Toninho”, Antônio Eustáquio Gonçalves, o “Reza” e Carlos Rodrigues de Jesus, o“Carlinhos Branco” ou “Carlinhos cicatriz”. De posse das informações, conseguiram prender “Toninho” e “Reza”, que, apesar de estarem foragidos e morando no Rio de Janeiro, percorriam vários estados para a consumação de seus roubos e, naquela oportunidade, estavam na capital mineira. Com a prisão dos três assaltantes e da confissão de vários roubos, restava comunicar à Secretaria de Segurança do Espírito Santo para que fossem formalizadas as oitivas e reconhecimento dos criminosos.

            Ocorreu um fato interessante e inusitado na carreira: os assaltantes confessavam o roubo com riquezas de detalhes, inclusive sobre a possibilidade de ter sido assassinado por “Fizico”, ao ser reconhecido como policial. No entanto, quando os presos foram levados para Vitória, o delegado Klein foi categórico em afirmar que eles não eram seus algozes. Aquilo foi um choque para Faria e os policiais de sua equipe, sentindo-se desmoralizados pelas reportagens capixabas que registravam a suspeita de tortura contra os presos mineiros que teria os levado às falsas confissões. Já não se tratava de sobrevivência, mas de respeito profissional provar que estavam certos em suas investigações. Faria conversou com Romeu Rocha e o chefe da Furtos e Roubos, Jaci de Abreu sobre a necessidade de diligenciarem no Rio de Janeiro para busca de objetos roubados, pertencentes ao delegado federal. Apesar dos perigos de uma viagem ao Rio de Janeiro para buscar objetos roubados nos morros e favelas cariocas, Jaci de Abreu autorizou Faria, Darci “Burro Branco”, “Geraldinho Santa Luzia” e Antonio “Pangaré”, do Setor 2 do Inspetor Romeu Rocha.

                  Abaixo os assaltantes "Reza" e "Toninho", parceiros de "Fizico". A outra foto, do Google Earth, registra o Morro da Providencia e a Pedra Lisa.

          Ao chegarem, receberam o apoio do detetive Leão, que trabalhava com o delegado Campanha e sempre lhes dava cobertura naquele estado. O policial os acompanhou nas investigações, apesar de ao se dirigirem ao Morro da Providencia, ficou na parte de baixo, sem subir pelas escadarias de acesso, alegando ser perigoso. Os policiais mineiros deixaram o preso “Reza” com Leão acompanhando e subiram o morro da Providência, onde, apesar de não terem vínculo com as diligencias, deram cana em dois assaltantes, o “Mazzaropi”, de Minas Gerais, reconhecido por “Geraldinho” e um parceiro carioca.

          Também um estafeta da marinha, receptador dos assaltantes “Reza”, “Fizico” e “Toninho” foi preso quando subiam o Morro de Santa Tereza. Os policiais do Rio, que não subiram o Morro da Providencia, ficaram surpresos com a ação dos detetives de Minas e pelas três prisões em poucos minutos de permanência no local. Afinal os mineiros estavam no Rio de Janeiro e as prisões foram em morros cariocas, onde aqueles policiais, não iam.

          No Rio, Faria e seus parceiros descobriram que “Carlinhos cicatriz”, o quarto envolvido, envolveu-se em uma briga com os marginais “Bira 14” e “Moreninho”, sendo baleado e jogado do alto de uma pedreira, no morro da providência. Local conhecido por “Pedra Lisa”, seu corpo moribundo foi lançado em cima de um ônibus, que se encontrava cerca de setenta metros abaixo, tendo morte instantânea. “Reza” esclareceu que a arma, o brasão e a bolsa foram passados para o principal traficante de São Gonçalo, advertindo que era “cara perigoso”. Como se ele, “Reza”, não o fosse.

         Depois dessas diligências, Faria, “Darci, “Geraldinho” e Antonio estiveram em outra favela, no município de São Gonçalo, onde estouraram o barraco do traficante, que seria o receptador da arma do delegado federal. O marginal não foi encontrado, mas sua amásia, que se encontrava no local recebeu uma advertência ríspida de Faria:

“Diga pro filho da puta do seu macho, que somos da “Furtos e Roubos”, da polícia mineira e não vamos dar sossego se a 9 milímetros não for devolvida até às onze horas de amanhã, na 15ª DP, onde estaremos aguardando. “Esta arma é de um delegado e ele vai se arrepender se não devolve-la”.

          Na gíria policial era apenas uma “sugesta moral”, uma pressão psicológica. Na realidade, os policiais não acreditavam que um traficante carioca poderia temer represália de policiais de Minas, além de que, no dia marcado com a amásia do traficante, retornariam de qualquer jeito para Belo Horizonte por volta de meio-dia. Embora vários seguimentos de nossa sociedade não deem o crédito justo aos policiais mineiros, os bandidos cariocas o deram. No dia marcado, por volta das onze horas, quando os policiais preparavam a bagagem na viatura para retornar à Minas Gerais, surgiu a mulher do traficante com uma bolsa de mão e a entregou para Faria. Dentro, uma pistola 9 mm com timbre da Policia Federal. Entregou ainda, a bolsa tiracolo e um distintivo com numeração, também da Polícia Federal. O traficante entregara mais do que fora pedido. A partir daí, os policiais não dependiam mais de reconhecimentos, pois a numeração da arma e do distintivo correspondia aos bens patrimoniados fornecidos pela Polícia Federal ao seu policial, no caso, o delegado Klein. Os policiais cariocas ficaram ainda mais espantados. Não acreditavam no que viam.

A diligência comprovou o respeito que os policiais operacionais de Minas merecem por parte de bandidos de outros estados. “Cometeram o Azar de Assaltar um Delegado”. “Delegado é Acusado de Matar”. JORNAL ESTADO DE MINAS-13/2/82.

 A PEIXEIRADA

          Em 1982, a ditadura prenunciava seu fim com a abertura política do Presidente João Batista Figueiredo. Aimorés, se recuperava das grandes enchentes de 1979 e 1981 que arrasaram a cidade, quando o Rio Doce com sua força avassaladora destruiu toda a região, levando junto, muitas das lembranças de Faria. Neste ano, a filha de sua prima Maria Araújo e Levindo, casou-se na igreja católica do Bairro Nova Suíça, em frente à antiga Escola do Professor Wellington Armanelli. Após o casamento, familiares pediram que Faria levasse o tio da noiva, até o Bairro Nova Cintra, onde seria a festa de recepção, na “boca” da favela da Nova Cintra. O policial Faria possuía um opala vinho e seu cunhado estava em um opala azul, junto com as irmãs e pais do policial.  Após permanecerem alguns minutos no local, Faria foi chamado por seu pai Antonio Correa para que fossem embora, pois, o ambiente não era bom e iniciava uma confusão na rua.  A família de Faria saiu em direção aos carros, quando viram dois indivíduos batendo em outro defronte à casa da recepção. Na condição de policial, Faria não fez vista grossa e tentou intervir, separando bruscamente os brigões. O cidadão que estava apanhando, aproveitou-se da interferência e pôs-se a correr, surgindo uma situação inusitada. Faria separou uma briga onde não conhecia quem estava batendo, muito menos quem apanhava e a situação se inverteu. Os dois agressores se voltaram contra o policial Faria, tentando agredi-lo, que se defendia, revidando os ataques. Como se tratava de uma festa familiar, Faria deixara sua arma no carro e seu pai, percebendo o perigo da situação que envolvia seu filho, correu para apanhá-la. Enquanto seu pai buscava a arma e se defendia dos dois, o tio da noiva, (aquele que Faria lhe dera carona) veio por trás e deu uma peixeirada próximo ao abdômen. Com o corpo quente da adrenalina da briga, Faria só percebeu ao receber o segundo golpe, na região do tórax. Conseguiu segurar a lâmina e quebrá-la, ficando o cabo na Mão do agressor. Seu pai, que já estava próximo e com a arma na mão, desferiu um tiro que atingiu na omoplata do agressor.   Os três conseguiram correr e fugiram do local enquanto Faria era socorrido no HPS. Posteriormente tomaram conhecimento que os brigões eram filhos do homem que agredira Faria com a peixeira e conterrâneos da mãe do policial, todos da cidade de Mutum. O agressor faleceu tempos depois em razão das sequelas pelo ferimento a tiro.

 

1983- O ASSALTO À CASA DO DESEMBARGADOR

          Conforme falamos no início deste artigo, o detetive Faria voltaria a se encontrar com os marginais do "Pé Vermelho", a quadrilha de Edson "Borracha", agora com novo chefe. Em 1982 e 1983, a quadrilha do Alto Vera Cruz, era liderada pelo marginal Carlos Alberto de Carvalho, o “Mandú”, que aterrorizava moradores da Zona Sul e Pampulha. Especializaram-se em assaltos às residências, crime incomum na capital até então, quando dominavam os moradores, amarravam, amordaçavam, para em seguida roubar e em alguns casos, estuprar. As representações noticiando os inúmeros assaltos à residência se avolumavam no “Furtão”, da Floresta. Todas as equipes chefiadas pelos subinspetores “Zé Maria Cachimbinho”, setor 1, Romeu Rocha, setor 2 e Daniel “Tchen”, setor 3, foram empenhadas na captura dos bandidos. Era prioridade máxima. Apesar do grande espírito de união entre a turma, tornou-se uma disputa acirrada entre os policiais da Furtos e Roubos, na busca de informantes ou informações que levassem à prisão dos marginais. O “KILO” não permitia que bandidos ganhassem notoriedade, ou se tornassem famosos, era tradição naquela unidade policial este tipo de procedimento. Bandido de renome tinha que ir rápido para a cadeia ou morria em algum confronto com a polícia.

         Em fevereiro de 1983, os detetives: Faria, o “Boy”, Valter “Jumbo”, Alcir “Comedor de Cachorro” e Jorge “Camarão”, do Setor 2 da Furtos, fizeram levantamentos onde Valter “Jumbo” morava. Apuraram, através de vizinhos, ligados ao policial, que “Mandú” iria à casa de sua irmã, no bairro São Francisco, nas proximidades do Anel Rodoviário. Os policiais passaram a fazer campana e, além disso, um vizinho ficou de dar o alerta, caso visse o marginal. Dado o sinal de presença do bandido, essa equipe de policiais foi para as imediações da casa, posicionando-se em pontos estratégicos, por toda a manhã, até aproximadamente onze horas. Nesse horário avistaram um elemento negro, troncudo, vestindo um macacão branco da ESSO, sem camisa, se dirigindo ao ponto de ônibus. Era “Mandú”, o homem mais procurado pelo “KILO”. Os policiais esperaram que o bandido entrasse no coletivo, para facilitar sua prisão e não colocar vidas em perigo, devido à grande movimentação na rua. O Fiat descaracterizado usado pelos policiais ultrapassou o ônibus e parou no primeiro ponto à frente. Faria e Jorge “Camarão” deram sinal e entraram no ônibus, como se fossem passageiros normais, se posicionando ao lado de “Mandú”, que estava em pé. O policial tem que ser paciente e frio nas ações policiais e não agir precipitadamente. Os dois policiais, “Boy” e “Camarão” esperaram o Fiat 147 da delegacia “fechar” o ônibus, identificando-se para o motorista como policial. “Mandú” percebeu o movimento e esboçou a reação de tocar em sua arma, um revólver Taurus, calibre 38, novo, que se encontrava sob o macacão, mas rapidamente desistiu, ao perceber que dois policiais estavam ao seu lado, com armas apontadas para sua cabeça. “Perdeu Mandú”. O bandido foi desarmado e conduzido para interrogatório no “KILO”. “Mandú” confessou uma série de assaltos a residências em companhia de seus parceiros de crimes, Nazareno Caldeira de Faria, vulgo “Bolão”, Honorato José Custódio, vulgo “Dragão Lila”, Manoel de Paula, o “Chocolate” e Daniel Lopes de Souza, o “Danielzinho”. Em um dos roubos, no Bairro Braúnas, dominaram uma família, obrigaram a mulher a ligar para o trabalho de seu marido, alegando que a filha do casal havia quebrado a perna em uma queda. O marido chegou rapidamente, sendo rendido, tornando-se mais uma vítima e obrigado a assinar um cheque de meio milhão de cruzeiros, à época. Enquanto seus comparsas mantinham a família rendida, “Mandú” foi com a vítima, o homem, até o banco. Lá, com toda a tranquilidade, o marginal ficou ao seu lado, quando se apresentaram ao gerente e resgataram o dinheiro.  

        Com a prisão de “Mandú”, restava agora encontrar os outros membros da quadrilha, que continuavam em liberdade, praticando seus crimes com maior violência contra suas presas. No dia 2 de março de 1983, a equipe de Faria, Antonio “Pangaré” e Jorge “Camarão” estava escalada para o “rondão” do “KILO”, trabalho especial que começava as dezoito e trinta e encerrava no outro dia às oito e trinta. Os detetives ficaram de serviço durante o dia e no final da tarde, tomavam um banho e reiniciavam a jornada de trabalho na ronda. Só no outro dia tinham folga na parte da manhã. A ronda foi iniciada normalmente percorrendo diversos bairros e favelas da capital, principalmente o Cercadinho, Jardim América, Vila Leonina e adjacências. Faria sempre gostava de usar uma metralhadora Beretta e seus companheiros revólveres. Por volta das 23:00 horas pararam no “ponto Zero” para descanso e o lanche. A equipe chefiada pelo detetive Faria não permaneceu mais do que quinze minutos na Delegacia de Furtos quando ele foi chamado ao telefone pelo chefe de plantão para atender uma chamada de urgência. Um homem que se identificava como sendo o advogado Afonso Franco acionava os policiais civis para a casa do Desembargador João Brás da Costa Val, na Rua Engenheiro Carlos Antonini, no Bairro São Lucas, que havia sido invadida por marginais e a sua família estava rendida no interior da residência.
                     
          O detetive Faria chegou a questionar os companheiros: “será que acertamos a sorte grande?”. “É a quadrilha do Mandú?”. Rapidamente apanhou a metralhadora com dois pentes e seus colegas os revólveres, se dirigindo para o local. O veículo que Faria conduzia era uma C-14, velha, que, no entanto aguentou o tranco, chegando rapidamente ao local do roubo. Segundo informações do próprio advogado, que cronometrou o horário após desligar o telefone, os três policiais gastaram sete minutos para chegarem à sua porta. Ao pararem, já com as sirenes desligadas, para não levantar suspeitas, o advogado apontou para a casa do desembargador João Brás da Costa Val dizendo que vários marginais estavam lá dentro. Rapidamente Faria orientou Jorge “Camarão” e Antônio “Pangaré” a entrarem pelos fundos da casa enquanto ele abria caminho pela porta da frente. Alertou para tomarem cuidado, que possivelmente era a quadrilha do “Mandú” e sabiam da periculosidade daqueles bandidos, que certamente não se entregariam sem reação. Com a metralhadora em punho, Faria entrou pela varanda da frente da casa, já gritando o nome de “Bolão” e Daniel para se renderem.

         No mesmo momento, “Camarão” entrava por um corredor que ficava na lateral esquerda da casa. Antonio “Pangaré”, não entendera as instruções deu a volta pelos fundos do quarteirão, ficando apenas dois policiais contra quatro bandidos. Faria e “Camarão” entraram com a “cara e coragem”, apesar de não saberem o número exato de criminosos. “Camarão” entrou pela lateral em direção aos fundos da casa, enquanto Faria, aos gritos de “polícia, a casa caiu” adentrava pela frente da casa. A reação dos marginais foi imediata com uma saraivada de tiros disparada contra os dois policiais. Não tendo chances de saírem pela frente, onde estava Faria, agora dando rajadas de metralhadora, os bandidos abandonaram os reféns,(o desembargador, sua esposa e dois filhos) correndo em direção aos fundos da casa onde trocaram tiros com “Camarão” que foi baleado no peito. Faria chegou ao local onde os marginais se entrincheiraram e encontrou seu companheiro sangrando, ainda de pé, com a mão no ferimento. Jorge “Camarão”, baqueado pelo tiro, ainda teve forças para dizer:

Faria, eles me acertaram, são quatro”.

          Faria apoiou seu companheiro até chegar à rua, onde o advogado providenciou imediato socorro para o policial baleado. Faria ainda correu até a viatura e gritou no rádio que um policial havia sido baleado pela quadrilha do “Mandú”, dando o endereço e pedindo apoio.

        Agora, Faria tinha certeza, eram quatro contra um. Mas alguns fatores preponderantes contavam a seu favor, a raiva, adrenalina e revolta pelos bandidos terem baleado seu companheiro, seu amigo. Faria retornou para os fundos da casa onde reiniciou o tiroteio com os criminosos, que fizeram de um quartinho de despejos a trincheira, já que não conseguiam escalar o muro que possuía cerca de quatro metros de altura. Após cerca de 10 minutos chegaram reforços do plantão da Furtos e Roubos e Metropol, mas a situação já estava consumada. Um policial gravemente ferido, dois assaltantes mortos e dois presos. Identificados, os quatro assaltantes eram realmente os comparsas de “Mandú”, sendo que “Bolão” e Daniel foram mortos por Faria no tiroteio, os outros dois, “Chocolate” e “Dragão Lila” presos. Após o confronto, Faria encontrou com o detetive Antônio “Pangaré” e exaltado questionou o porquê de não ter participado do tiroteio. O policial Antonio, policial de pouca experiência, sempre muito calmo, disse que entendera errada a instrução e ao contrário de entrar pelos fundos da casa, junto com “Camarão” foi para os fundos do quarteirão, deixando-o em desvantagem numérica no confronto.

                 Mandu                                             Bolão                                    Danielzinho                           Chocolate                                   Dragão Lila

          Em seguida a prisão dos assaltantes e a remoção dos outros dois para o IML, apesar de já ser princípio da madrugada, inúmeros policiais que já estavam dormindo em suas casas, foram para a delegacia de furtos, saber mais informações sobre o confronto. Nilton Dias de Castro, Romeu Rocha, Edson “Preguinho”, Agostinho “Bobagem”, Cunha são alguns dos que prontamente compareceram em auxílio e apoio moral ao colega baleado. Em conversa com um dos filhos de João Brás da Costa Val, ele disse a Faria que chegou a casa por volta das vinte e três horas, abriu a porta da frente de sua casa e chegou a fazer barulho para fechá-la, no entanto suspeitou quando viu um armário da sala mexido. Caminhou então, silenciosamente até o corredor que dá acesso aos quartos e cozinha, quando percebeu seu pai, sua mãe e irmãos amarrados e amordaçados. Um dos assaltantes estava ao lado deles e outro na cozinha comendo um pedaço de frango. O rapaz, conseguindo se controlar saiu pela janela sem fazer ruído e foi até a casa do advogado Afonso Franco, seu vizinho, pedindo-lhe uma arma para enfrentar os marginais, quando foi convencido que o caminho certo era acionar a polícia. Posteriormente, os três policiais foram promovidos à classe imediata por ato de bravura, através de decreto do governador Tancredo Neves. O subsecretário José Resende de Andrade prometeu ainda a Faria, que iria lhe promover à última classe na carreira de detetives, a Especial, cumprindo sua promessa quando o policial terminava seu curso para a carreira de delegado. “Mandú” foi assassinado na prisão, Nazareno Caldeira de Faria, vulgo “Bolão” e Daniel Lopes de Souza, o “Danielzinho” foram mortos no tiroteio, “Chocolate” e “Dragão Lila” foram condenados há vários anos de prisão.

"POLÍCIA CHEGA E DOMINA ASSALTO NA RESIDENCIA DO DESEMBARGADOR".

     

"A polícia foi avisada do assalto por Júlio Sérgio da Costa Val, filho do desembargador. Ele, depois de ver os assaltantes, dentro de sua casa, quando retornava de um barzinho foi à casa de um funcionário do Banco do Brasil, seu vizinho, que ligou várias vezes para a Polícia Militar, mas ninguém atendeu, apesar da insistência. O bancário que havia sido assaltado há tempos, tinha o telefone direto da Furtos e Roubos, dado pelo Inspetor Nilton Dias de Castro, fornecendo o número a Júlio. O rapaz falou com o prontidão Damas, contando que sua casa estava sendo assaltada por quatro ladrões. Damas passou a informação para os detetives Faria, Jorge Ferreira (Camarão) e Antonio, responsáveis pela ronda. Na Rua Engenheiro Carlos Antonini, 162, antes de qualquer providencia, Faria deu uma rajada de metralhadora na casa e em seguida gritou ordenando aos quatro ladrões que saíssem de mãos para o alto. Ele gritou ainda o nome de "Bolão", suspeitando que o ladrão comandava o assalto. Na hora que Faria deu a rajada de metralhadora na casa, ele advertiu aos moradores que se mantivessem deitados. Ao ouvirem o primeiro tiro, o desembargador e seus familiares permaneceram deitados, enquanto os assaltantes, totalmente atordoados corriam pelos cômodos da casa. "Bolão" gritou para descerem a escada que leva ao quintal. Lá eles tentaram se entrincheirar. "Camarão" levou um tiro na barriga, mas mesmo ferido, ele ainda, lutou três minutos ao lado de seu companheiro." Parte da matéria de 2/3/1983, do Jornal Estado de Minas.

"ADVOGADO CONTA SEU DRAMA NO SÃO LUCAS".

"Mesmo depois de 24 horas após o assalto à casa do desembargador João da Costa Val, a família continuava traumatizada, com os parentes espalhados pelas casas dos vizinhos e amigos, já que a casa do desembargador estava completamente em desordem. Não conseguiram contar os tiros disparados pelos bandidos, como pela polícia. A casa foi metralhada desde a grade da frente até o muro dos fundos, afora vidraças, janelas e as paredes. Em alguns pontos, os rombos foram tão grandes que soltaram o reboco das paredes. Pelo chão, misturados com o sangue e estilhaços de vidros, tudo pisoteado. A impressão era de que a casa havia virado uma praça de guerra”. Parte da matéria de 3/3/1983, do Jornal Estado de Minas.

                               

Desembargador João Brás da Costa Val.                               Detetive "Jorge Camarão" baleado.                                Advogado Afonso Franco.

“NO HOSPITAL, DETETIVE FERIDO RECORDA O TIROTEIO”.

 "A bala transfixou o estomago, alojou-se no intestino e por pouco não atingiria o coração. Apesar de ainda estar meio atordoado com o acontecimento e sonolento pelo efeito dos sedativos, Jorge Luiz lembra de tudo que aconteceu na noite de quarta feira. "Toda profissão tem espinhos e quando entrei para a polícia, sabia disso. Aceitei e não estou arrependido". Eram quase 23:00 horas de quarta feira, quando ele e mais dois colegas, Antonio Pereira e Faria cumpriam a segunda etapa do trabalho, que compreendia a ronda de 18:00 às 8:00 horas do dia seguinte. Depois de um lanche, começou o que eles (policiais) chamam de "horário Curiango". O telefone tocou e do outro lado o advogado Afonso Franco dava o recado, que a casa do vizinho havia sido invadida por ladrões que tomaram todos os presentes como reféns. A partir daí começou o corre corre. O detetive Faria pegou uma metralhadora e os outros dois entraram na Veraneio dirigida pelo primeiro, só com seus revólveres. Faria avançou sinal, cortou pela esquerda, cantou pneu e, em poucos minutos estava em frente à casa". Parte da matéria de 4/3/1983, do Jornal Estado de Minas.

          Abaixo observamos a diferença de posicionamento de dois magistrados sobre o confronto entre os detetives Faria e “Camarão” em processos distintos, alguns anos depois:

“POLÍCIA MATA ASSALTANTES E JUIZ ACHA BOM” (Jornal Estado de Minas)

 “JUIZ DIZ EM SENTENÇA QUE A POLÍCIA NÃO DEVE MATAR” (Jornal Estado de Minas)

          Duas sentenças. Dois juízes diferentes. Os fatos? Os mesmos. Na reportagem do Estado de Minas de 16/04/1991, parte da sentença do Juiz Carlos Batista Franco, à época na 10ª Vara Criminal, elogiou o trabalho da polícia que matou os assaltantes Daniel Lopes de Souza e Nazareno Caldeira Faria, o “Bolão”, prendendo ainda outros dois. Na época ocorreu um confronto entre a equipe do detetive Faria, Jorge e Antonio “Pangaré” e os quatro assaltantes quando roubavam casa do desembargador João Brás da Costa Val. O tiroteio resultou em ferimento à bala no peito do detetive Jorge Camarão e a morte de dois dos marginais. Na sentença, em processo que julgava a participação dos marginais por outro assalto a residência, o Juiz destacou o perfil de um dos assaltantes presos com a seguinte frase: “Dragão é criminoso de alta periculosidade, fugitivo da cadeia pública de Ipatinga e por sua ficha criminal, elemento de gabarito para a pena de morte”. Já o juiz Francisco Reis de Brito, da 4ª Vara criminal se manifestou de forma diferente, como registrou o mesmo jornal, em 1985, ao julgar a tentativa de roubo na casa do desembargador: “A polícia matou dois e talvez essas mortes pudessem ter sido evitadas. Não é com violência que se combate violência e se matar assaltantes resolvesse, o problema já estaria resolvido, porque a polícia tem matado muita gente”.

          Não nos cabe manifestar sobre essa ou aquela decisão judicial, mas Faria estava presente na situação junto com seu companheiro Jorge “Camarão”, no momento da invasão da residência e confronto com os marginais. Por dever de consciência podemos dizer que os marginais eram comprovadamente responsáveis por uma série de assaltos a residências, estupros e latrocínios. Quando chegaram a casa dominada pelos bandidos, ninguém os esperava com flores, ao contrário, os primeiros projéteis que zuniram nos ouvidos dos dois policiais foram disparados pelas armas daqueles bandidos, que atingiram o peito de Jorge “Camarão”. A resposta dada por Faria, após “Camarão” ser baleado, quando ficou sozinho no tiroteio contra os quatro assaltantes, foi imediata e dentro dos parâmetros legais que a situação exigia. Se não morreram todos os bandidos é porque dois se entregaram não havendo necessidade de serem mortos. O policial que já participou de um tiroteio sabe que é uma experiência única, ao pressentir a morte tão de perto e não poder se deixar levar pelo medo ou passionalidade, devendo o profissionalismo suplantar quaisquer outros sentimentos. Apesar do posicionamento do magistrado que condenou a ação policial, ele foi justo em relação à condenação de Manoel de Paula e Honorato José Custódio a sete anos de reclusão naquele processo.

As fotos abaixo registram Faria com seus companheiros Rosemberg e Wallace em diligências em Poços de Caldas, Sul de Minas e momento de descontração ao lado dos detetives Haroldo, Paulo e Chiquinho.

 

8/12/1985 - Matéria do jornal Estado de Minas. Repórter Vargas Villaça.

          A Bravura do Detetive

"O detetive Antonio Carlos de Faria, da Polícia Civil, foi promovido pelo governador Hélio Garcia, por ato de bravura, da Classe III para Especial. Faria foi um dos policiais que salvaram o Desembargador da Costa Val e sua família, dominados por assaltantes em sua residência. Na época, o então Governador de Minas, Tancredo Neves, interessou-se pela promoção do policial, mas por questões administrativas somente agora o desejo do ex-presidente foi atendido".

          O fato interessante que envolve essa promoção, é que Faria foi promovido ao ápice da carreira de detetive durante o curso para Delegado de Polícia, na gestão do delegado Santos Moreira, gozando dessa condição por cerca de três meses apenas sem o exercício da atividade devido o afastamento na ACADEPOL. Mas, o importante, é que o reconhecimento por ato de bravura fica marcado no ego profissional dos poucos policiais que conseguem tal honraria, vivos. Foi um compromisso firmado e cumprido pelo Secretário Adjunto Zé Resende e o Governador Tancredo Neves.

 

       BIBLIOGRAFIA:

Livro “O SANGUE DO BARÃO-AS HISTÓRIAS DE NOSSA HISTÓRIA”
Jornal Estado de Minas
Jornal Diário da Tarde.
Jornal Última Hora

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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