Biografia Faria 4 - RODI/Delegacia de Falsificações/Seccional Sul

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Categoria: Biografia

       

BIOGRAFIA FARIA PARTE IV

 

        Em 1991 Nilton Ribeiro era Chefe do Departamento de investigações, Paulo Schettino, Superintendente Geral, Faria respondia como delegado adjunto da Divisão, que tinha como titular o delegado Odilon. No período de promoções daquele ano, Faria aguardava com expectativa ter seu trabalho reconhecido, com a promoção à classe especial. Mas sentiu-se frustrado ao ser preterido com a promoção de outro delegado que trabalhava na mesma unidade. Para o policial era um contra senso ser adjunto de uma especializada da responsabilidade da “Furtos e Roubos” e outro ser promovido pelo critério de amizade, procedimento muito comum na administração pública. Faria, entendendo que seria constrangedor permanecer na DCCP depois das promoções, juntou suas coisas e apresentou-se ao Chefe do DI, que se mostrou solidário e lhe deu a incumbência de estruturar o grupo de apoio operacional do Departamento, a RODI.  

 

          A RODI (Ronda Operacional do Departamento de Investigações) era uma unidade de apoio sem muita organização, pouca estrutura e perfil de atividades exclusivas voltadas para atividade de ronda. Possuía quatro equipes noturnas, sendo duas com delegados na coordenação com viaturas emprestadas do plantão. Com apoio de Nilton Ribeiro, Faria permaneceu como coordenador do grupo por três anos, mudando o perfil, as características, o lay out e a metodologia de trabalho, com atividades de apoio policial no período noturno e investigações complexas durante o expediente diurno. Ao entregar o cargo para assumir a Delegacia de Falsificações e Defraudações, a RODI possuía uma estrutura que lhe deu condições de apresentar excelentes resultados durante aquele período. Faria conseguiu compor o grupo com oito equipes, no período noturno, com delegado, subinspetor e seis detetives em cada grupo, perfazendo o total de trinta e dois policiais no período noturno. Os grupos eram divididos pelo planejamento do delegado Faria em equipes: Amarela, Branca, Azul e Verde. Foi criado o setor de expediente que era encarregado de diligencias e investigações de interesse da chefia do DI, coordenado por Faria, Inspetor Carlos Augusto, o “Carlinhos” e seis detetives. Passou a ter em sua frota própria três patrulheiras e três veículos menores no expediente e armamento de ponta. Durante a coordenação das atividades operacionais pelo delegado Faria, a RODI demonstrou uma grande eficiência de seus selecionados policiais, dentre eles: delegados Pitágoras, Altamiro, José Antonio e Jaime. Dentre os detetives e subinspetores, destacamos “Becharinha”, “Miltão”, “Tarzan”, Gabriel, "Chico”, Yull Bryner, Ilton, “Moranguinho”, Sidney, “Camarão”, Joãozinho “Metropol”, Gilberto, Gilson, Anderson, Ellison....


OS MATADORES DE CHICO MENDES

          A polícia de Minas não tinha qualquer competência para se envolver em crime, como o assassinato de Chico Mendes, ocorrido em Xapuri, no Acre. Mas se os assassinos são da região do Vale do Rio Doce e se refugiarem em Minas Gerais, as coisas mudam completamente e as prisões passam a ser responsabilidade da polícia mineira. Em 1993, um homicida conhecido por "Pratinha", acusado de ter matado sua mulher no Edifício JK, foi preso e encaminhado para a pequena carceragem da RODI, onde apenas presos diferenciados permaneciam, por determinação superior. Uma das maiores fontes de informações é na carceragem e o preso, se tem uma boa informação, tenta usá-la como moeda de troca. No caso de "Pratinha" a informação que possuía poderia lhe dar uma melhor condição de cumprir sua cadeia em um ambiente pouco melhor do que a masmorra ao lado, o "Inferno da Lagoinha" ou "Depósito de Presos" do DI. Ele pediu para falar com o delegado Faria, por que tinha uma informação importante. Ao ser recebido pelo Chefe da RODI, o preso disse que era fazendeiro na região de Pocrane e naquela região tinha um lugar conhecido por Vista Alegre, onde os matadores de Chico Mendes, Darly Alves da Silva e seu filho Darci Alves Pereira estariam escondidos depois da fuga da Colônia Penal de Rio Branco, no Acre. Lá era reduto da família dos assassinos e estariam homiziados com a proteção de seus familiares. Faria levou a informação para seu chefe, Nilton Ribeiro que achou prudente conferir a informação, mas deveria levar uma equipe de confiança, por causa da periculosidade dos criminosos, caso fossem encontrados.

          Um dos grandes acervos policiais daquela época estava na RODI, homens que deixavam suas famílias para se enveredar pelos caminhos de perigo que as diligencias policiais lhes ofereciam. Dentro desse espírito de companheirismo e vontade de vencer os desafios, a equipe deslocou para aquela região, onde tiveram que andar a cavalo, de balsa e grandes caminhadas a pé para levantar informações. Quando retornaram à noite para pernoitar na fazenda do preso, o cansaço era tanto, que durante o trajeto, deitavam sobre a vegetação de vassouras à beira dos estreitos caminhos para conseguirem prosseguir.


          lugar era na zona rural e tinham muita visibilidade com relação à presença, afinal eram oito homens, os policiais se identificavam como funcionários da CEMIG que estavam ali fazendo estudos para a implantação da energia elétrica no local. No segundo dia, Faria estava com febre por causa de uma virose e entendeu que era perigoso permanecerem todos ali, principalmente por que teriam que se aproximar do lugar onde os assassinos poderiam estar. O delegado retornou para a Capital, deixando apenas três policiais com a orientação de fazer contato assim que tivessem um posicionamento sobre a localização de Darly e Darci. Por infelicidade dos policiais, tão logo chegaram a Belo Horizonte, o repórter Newton Cunha, do Jornal Estado de Minas, ligou para Faria querendo certificar da diligencia. O delegado pediu para não publicar nada que prejudicaria o sucesso do trabalho policial. Prometeu lhe dar a oportunidade do furo de reportagem, caso a prisão fosse levada a termo. Apesar de garantir não publicar nada, no dia seguinte a matéria saiu na primeira página e no horário de almoço na Rede Globo. Faria, ainda "derrubado" pela febre e mal estar, juntou seus policiais com suas "tralhas" e puseram novamente o "pé" na estrada para chegarem rápido até Vista Alegre, distante cerca de 450 quilometro de Belo Horizonte. Corriam contra o tempo. Chegaram no princípio da noite e encontraram com os policiais da RODI que os aguardavam. Já tinham feito o mapa para chegar ao local e iniciaram a caminhada à noite. Era uma montanha longa e a jornada muito cansativa por caminho que só podia ser feito a pé ou cavalo. E no caso, não possuíam os animais para a jornada.

          Descansavam em pequenas clareiras e bebiam água dos lagos que se formavam pelas pequenas corredeiras que desciam das encostas de pedra. Chegaram à fazenda por volta das cinco horas da manhã e "estouraram" a casa principal, onde poderiam estar os dois. Encontraram apenas dois sobrinhos de Darci que disseram que eles não estavam mais ali. Teriam sido avisados no dia anterior por alguém da família que tinha assistido o jornal MG TV que registrava a caçada e presença de policiais naquela região. Foi uma das maiores frustrações que aqueles oito policiais passaram em suas vidas. Estavam tão perto e a insensatez de um repórter jogou tudo por terra. Exaustos, recostavam e tiravam pequenos cochilos em dormentes e no meio do quintal da fazenda, esperando recuperar forças para o retorno de mãos vazias. Joãozinho "METROPOL" na caminhada de volta passou mal, sentindo paralisia e dormência nas pernas, sendo carregado por Gilberto até o pé da montanha, numa grande demonstração de solidariedade e companheirismo.


A MISTERIOSA MORTE DO MILIONÁRIO DA PAMPULHA


          Este foi mais um caso intrincado na vida profissional do policial Faria, quando Coordenador da RODI. José Geraldo Maximiano foi um homem que se destacou na alta sociedade da capital mineira, nas décadas de 40, 50 e 60, sendo amigo de personagens influentes da política mineira, como JK, seu companheiro da Casa do Baile, no período que era prefeito da Capital mineira. José Geraldo morava na Rua Otacílio Negrão de Lima, 17.550, desde a década de 60, em uma mansão construída no tempo que Pampulha era o paraíso da nata de milionários e emergentes mineiros, às margens da recém-criada Barragem. Foi assessor e Chefe de Gabinete de Secretário de Finanças do Estado de Minas Gerais, em 1963, onde permaneceu por muitos anos. No entanto, aquele homem que viveu a pompa de grandes dias de luxo e notoriedade, a partir dos anos 70, começou a cair no ostracismo de sua solidão até seu fim na década de 90, cuja morte ocorreu em meio a mistério e suspeita de crime com muitos suspeitos que lembravam os grandes momentos literários de Agatha Christie. Morreu sozinho em casa, aos 88 anos de idade, em meio a jornais velhos, lixo e detritos que transformaram a velha mansão em uma pocilga, um pardieiro, onde dificilmente um ser humano teria condições de sobrevivência.

Jornal Estado de Minas, 21 de Maio de 1994.

"Mofo, Teia de Aranha, Mistério."

"O casarão tem aspecto macabro em total abandono, parecendo um cenário de filme de suspense e terror, coforme definiu o delegado Faria. O forte cheiro de mofo, a sujeira em todos os cômodos, teias de aranha nos tetos, baratas e ratos, impressionaram a todos, levando a própria polícia a duvidar que alguém pudesse ter vivido ali, durante tantos anos a fio, sem deixar que se fizesse qualquer faxina. Num velho disco empoeirado, sobre o prato da velha vitrola, um disco de Wagner."

          Faria, após o falecimento de José Geraldo Maximiano, recebeu a visita de uma pessoa denunciando que ele teria sido assassinado por causa de sua fortuna. De posse das informações, determinou que a equipe de expediente da RODI iniciasse as investigações, buscando todo tipo de informações que envolvesse as circunstancias de sua morte. O milionário, que não tinha filhos ou descendentes diretos, de repente, em seus últimos momentos de vida passou a ser assediado por "amigos" e pseudos parentes. Os policiais descobriram que José Geraldo possuía oito contas bancárias onde ocorriam suas aplicações e movimento financeiro. As investigações apontaram que uma advogada que lhe "ajudava" no dia a dia, apareceu com cheques vultosos que teriam sido doados em vida pelo milionário. Essas informações foram contestadas por que segundo testemunhas, o velho assinava os cheques, acreditando que seriam para compras domésticas e pagamento de pequenas contas. Os valores foram adulterados para lesá-lo e inúmeros bens foram subtraídos após a morte de José Geraldo Maximiniano, que incluía joias, prataria, cristais, móveis e até um Chevrolet 1947, com menos de 10.000 quilômetros rodados, apreendido pelos policiais da RODI. Verificou-se, que os "amigos" que o rodeavam antes de sua morte, conseguiram através de uma funerária, um atestado de óbito de um médico, que sequer examinou o corpo. Várias pessoas foram indiciadas, incluindo o médico, a advogada, um contador e outros por furto. Após sua morte fizeram um verdadeiro arrastão. O Delegado Faria não conseguiu provar o homicídio, devido ao lapso temporal entre o sepultamento e a exumação, que culminou com a conclusão da morte por causa da indeterminada.


OS CARROS CLONADOS DO RIO DE JANEIRO

        Acima: os inúmeros veículos 0 KM apreendidos pela RODI.                                                                                      Delegados Faria e Paulo Porto

          A RODI, em 1993, através do seu coordenador, Delegado Faria, recebeu uma informação de Prata Neto sobre a regularização fraudulenta de veículos alienados, oriundos do Rio de Janeiro. Tratava-se de uma quadrilha especializada em esquentar carros financiados através de uma rede de criminosos que contava com a participação de funcionários de concessionárias, DETRANs, cartórios e despachantes que ajudavam na liberação e legalização dos carros. Os estelionatários adquiriam os veículos zero quilometro, com uso de documentos falsos e os revendiam para vários estados, sendo que o DETRAN de Belo Horizonte emplacou mais de 50 veículos. Iniciado os levantamentos e as apreensões, a lateral do Departamento de Investigações ficou abarrotada de carros localizados, em sua maioria, com terceiros de boa fé, que desconheciam a origem ilícita dos veículos, mesmo por que, tinha o aval do DETRAN, que os regularizou. O trabalho ganhou tamanha proporção, que o Chefe da Polinter, Paulo Porto, com sua equipe, passou a auxiliar nas investigações dirigidas por Faria. Os policiais rapidamente chegaram ao líder da quadrilha em Belo Horizonte e principal articulador com os marginais cariocas, identificado como Paulo Antonio. Preso e conduzido às dependências do DI, o estelionatário confessou sua participação e pediu para chamar seu advogado.

          O advogado, acostumado a fazer suas defesas através do uso de propinas e corrupção, ofereceu para os dois delegados, 30.000 dólares para aliviar a situação de seu cliente. Os policiais fingiram concordar com o acordo e marcaram o horário para a entrega dos dólares no gabinete da Polinter. Informaram ao Chefe do Departamento de Investigações, Delegado Nilton Ribeiro e uma emissora de TV, que se postou em local estratégico para filmar a tentativa de suborno. Antes da chegada do advogado, Faria pediu que uma das vítimas dos estelionatários, escondesse atrás da porta do gabinete para testemunhar o momento da entrega do dinheiro. No horário marcado, o advogado compareceu ao local que combinara e retirou cerca de 20.000 dólares do bolso do paletó, colocando em cima da mesa. Argumentou que o restante seria entregue em data posterior, fazendo uma conta em uma folha de papel, a pedido de Faria, do que estava faltando. Assim que encerrou o cálculo, o policial pegou o dinheiro e o papel com as anotações e chamou a testemunha e os repórteres de TV que filmaram tudo. Paulo Antonio, ao ser chamado para receber a voz de prisão e percebendo que o dinheiro não estava completo, afirmou na frente da imprensa e testemunha que podiam dar busca no advogado que os dólares foram entregues na totalidade, que o advogado estava lhe enganando. Na frente das câmeras, Faria abriu o paletó do advogado e encontrou o restante dos dólares, devidamente filmados pela reportagem. Os dois foram levados para o cartório, autuados em flagrante e os dólares remetidos à justiça.
         
           Posteriormente, Faria foi requisitado para ser ouvido como testemunha em uma das varas criminais e enquanto aguardava na sala de audiência, ouvia uma conversa entre o juiz de o promotor, falando da revolta em relação ao processo que fora trancado no Tribunal de Justiça, em relação ao advogado, permanecendo apenas contra o estelionatário, seu cliente. Ao iniciarem o depoimento, o juiz perguntou onde estavam os 30.000 dólares, que não acompanhavam aquele processo. Faria, em tom irônico, respondeu que aquela pergunta deveria ser feita para o desembargador do TJ que recebeu os autos e determinou o trancamento, pois os dólares foram encaminhados para lá. Acrescentou que, se houvesse necessidade poderia apresentar o recibo. Alegou que não tinha nada a falar contra o estelionatário em relação à tentativa de corrupção, uma vez que a proposta foi feita pelo advogado, sem a presença de seu cliente e os dólares foram levados também por ele. O juiz e promotor, visivelmente decepcionados com a própria justiça, dispensaram o policial, dizendo que o processo seria arquivado.



IRMÃOS LEITE

          O Delegado Faria também ganhou grande destaque e notoriedade quando assumiu a parte operacional de caça aos pistoleiros da Vale do Mucuri, mormente aos criminosos vinculados à família Nunes Leite, responsável pela Chacina da Família "Juca Peão" e Chacina de Malacacheta, da família Cordeiro de Andrade. Primeiro nos anos de 1990 e 1992, ainda na Divisão de Crimes Contra o Patrimônio e posteriormente na RODI onde, juntamente com sua equipe de policiais conseguiram feitos extraordinários em vários estados do Brasil. Sob a chefia de Nilton Ribeiro, Chefe do DI e José Resende de Andrade, Secretário de Segurança, Faria teve muito trabalho pela confiança que aqueles chefes depositavam nele. Principalmente entre os anos de 1990 e 1994 quando foi designado para chefiar várias diligências para captura dos criminosos envolvidos na chacina de Malacacheta e uma série de homicídios por pistolagem. Parte dos trabalhos já foram registrados na Seção Biografia - Parte III- Delegado de Furtos e Roubos. Após a chacina, os sobreviventes da família Cordeiro se afastaram do Vale do Mucuri, buscando refúgio nos rincões de nosso país, principalmente em Rondônia e Pará, pensando que com esta fuga estariam livres da ira dos irmãos leite. Ocorre que as garras criminosas da família Leite tinham um longo alcance a exemplo do restante da família Juca Peão, trucidada por pistoleiros em Imperatriz do Maranhão.



O ASSASSINATO DE HELVÉCIO CORDEIRO

          Os irmãos Leite não se contentaram em matar “apenas” sete da família Cordeiro, contratando um pistoleiro para ir à Jarú, em Rondônia, onde assassinou Helvécio Cordeiro, no final de 1992. Apesar da consumação do crime ter se dado em território tão distante do estado de Minas Gerais, fugindo completamente da competência da polícia mineira, José Resende de Andrade encarou a repressão à família Leite e seus pistoleiros de peito aberto, determinando que o Delegado Faria fosse para Rondônia, juntamente com o inspetor Carlos Augusto Lima, investigar o homicídio. Situação bastante inusitada, que causou constrangimento e ciúmes dos policiais de Jarú-Ro, que não concordavam com a presença dos policiais mineiros na cidade para uma investigação que era deles. No entanto, o Secretário de Minas fez contato com o de Rondônia que autorizou a diligencia. Apesar da resistência e falta de apoio dos policiais da cidade os dois policiais iniciaram sozinhos as investigações do zero, já que a ocorrência não foi achada, não existia o laudo de necropsia, nenhum depoimento ou qualquer diligência havia sido realizada. Faria e "Carlinhos" fizeram uma vistoria no local onde a vítima fora assassinada e localizaram projeteis propelidos pela arma do pistoleiro, mesmo depois de cerca de um mês após o crime. Os policiais de Minas conversaram com os familiares e pessoas da cidade, conseguindo identificar um fazendeiro de Minas, conhecido por Pimenta, cuja irmã, uma advogada, teria sido namorada de Aldécio Leite. As informações davam conta que teria abrigado o pistoleiro em sua fazenda durante sua empreitada para a consumação do assassinato.

          Segundo os levantamentos, comentava-se que a arma utilizada no crime teria sido deixada na fazenda. Eles arranjaram um veículo emprestado por um empresário do ramo de borracha, criou uma empatia e amizade gratuita com aqueles dois policiais, talvez pela coragem exacerbada em se arriscarem numa empreitada muito arriscada para aquela região e pelo número ínfimo de policiais. Os dois foram até a fazenda de Pimenta, distante cerca de vinte quilômetros da cidade, já entrando de armas em punho e se identificando como policiais mineiros para os funcionários da propriedade. Não encontraram Pimenta, apenas sua esposa e Faria lembrou-se da estratégia usada no caso do delegado de polícia federal no RJ, (Seção Biografia/Detetive, o Início da Carreira). Faria foi incisivo com a mulher do fazendeiro, ameaçando-a caso seu marido não comparecesse à delegacia para levar a arma e esclarecer o crime. A polícia mineira iria ficar no seu encalço e pediria na justiça, a decretação de sua prisão preventiva. Em razão da conivência do fazendeiro no bárbaro crime, os policiais não esperavam que ele os atendesse e já contavam com sua fuga, pois não tinham estrutura para deslocamentos e perseguições, sem contar que era uma região perigosa e totalmente estranha para eles.

          O fazendeiro não procurou a delegacia de Jarú e o comportamento de Pimenta lembrou o caso do delegado Klein da Polícia Federal (Biografia Parte 1), quando o traficante mandou a mulher entregar a arma no Rio de Janeiro. Neste caso específico, Faria e “Carlinhos” retornaram da fazenda para o hotel já quase no horário do almoço. Pouco tempo depois de terem chegado, o porteiro do hotel chamou o Delegado Faria no quarto, avisando que alguém estaria lhe esperando no saguão. Faria colocou seu revólver Taurus 38 na cintura, não sabendo se poderia ser cilada. Naquela cidade poderia esperar qualquer coisa. Para surpresa do policial, Valter Pimenta, o fazendeiro mineiro, com cara assustada e nervoso se mantinha sentado no saguão do hotel. Apesar de seus quase 1.90 de altura e compleição física avantajada, se mostrava tremulo e trazia um embrulho de jornal em uma das mãos. Faria colocou a mão em sua arma e questionou o que era aquele embrulho. Pimenta entregou ao policial a arma utilizada para matar Helvécio, devidamente acondicionada naquele jornal.
          O policial conversou longamente com o fazendeiro que aceitou dar o depoimento, dando detalhes da participação de Aldécio Leite no crime. Disse que chegou a avisar Helvécio da vinda do pistoleiro, mas ele não acreditou e a falta de credibilidade na informação custou-lhe a vida. Faria, chamou "Carlinhos" e levaram o fazendeiro até a delegacia local, onde deu detalhes do que tinha conhecimento do crime. Após suas declarações Pimenta avisou ao delegado de sua intenção de fugir para os Estados Unidos com receio dos irmãos Leite, pois as informações prestadas eram a sua sentença de morte. Pimenta falou do relacionamento de sua irmã, uma advogada, com Aldécio e a confiança que tinham em sua pessoa até aquele momento e dos acontecimentos que antecederam a morte, com os telefonemas recebidos de Malacacheta lhe dando instruções quanto ao recebimento do pistoleiro em sua fazenda e o apoio logístico que deveria dar a ele. Segundo o fazendeiro, não existia a possibilidade de negar qualquer coisa aos irmãos Leite e ele aceitou a incumbência. Depois do crime, o pistoleiro retornou à sua fazenda para pegar suas coisas e deu de presente o revólver usado para o assassinato.

          De posse da arma, projétil e depoimentos, os dois policiais retornaram para Belo Horizonte, onde fizeram a perícia de comparação balística com resultado positivo, prova esta, totalmente fora dos parâmetros normais. Uma perícia de balística realizada pelo Instituto de Criminalística de Minas Gerais em uma arma apreendida em Rondônia por crime praticado naquele estado. Outro fato que pode ser considerado como uma aberração jurídica foi a representação pela prisão preventiva feita por Faria, a pedido do delegado de Jarú, que alegou não ter naquela ocasião, a menor estrutura para desenvolver as investigações. Faria juntou toda a sua investigação com as provas coletadas e remeteu os autos para a justiça de Jarú, em Rondônia, sendo decretada a prisão dos mandantes.

          Durante o julgamento Aldécio, em 1995, declarou:

“Isso é uma montagem da polícia, do Dr. Faria e do chefe de polícia de Belo Horizonte, chamado Nilton Ribeiro. Esses dois perseguem a minha família. Nilton foi colocado na polícia através de Vander Campos, o qual era político”.

“Ofenir era meu amigo de frequentar a casa um do outro, mas depois virou um robô do Dr. Faria. Ele é manipulado por esse delegado para cometer o crime de falso testemunho”.
“Polícia é polícia e um vai defender o outro”.

“Fui preso lá no Pará, onde fui metralhado e tiros me acertaram, onde não tive chance de me defender, acertando tiros por todo o meu corpo, mas Deus me ajudou”.

          Não existia montagem. Existia sim, o corpo de Helvécio assassinado crivado de balas e provas indefensáveis de sua participação no crime. Os argumentos usados para se defender não surtiram nenhum efeito naquele júri. Faria foi requisitado como testemunha de acusação e Aldécio foi condenado a dezenove anos de prisão. Em relação aos tiros recebidos no Pará, Faria foi o policial que determinou ao piloto da aeronave uma aterrissagem de emergência em Barreiras para que Aldécio fosse submetido ao procedimento cirúrgico. Além dos sete “Cordeiro” que morreram na chacina, Helvécio Cordeiro foi morto em Jarú-Ro, Humberto Cordeiro foi sequestrado e trucidado, possivelmente em uma das fazendas dos irmãos Leite. Dario Cordeiro foi assassinado em Vila Rondon-Pará.

                                                                                   Delegacia Regional de Teófilo Otoni e Faria durante operação policial.

 

PRISÕES DE OFENIR E "GIRAMUNDO".

          No mês de julho de 1993, Nilton Ribeiro, Chefe do Departamento de Investigações, chamou o Delegado Faria para participar de uma ação conjunta com a Divisão de Crimes Contra a Vida. O objetivo: cumprir mandados de prisão contra pistoleiros da Família Nunes Leite. A equipe da RODI tinha interrogado um homem ligado aos pistoleiros e irmãos Leite que se propôs a levá-los até os locais onde estavam homiziados em Lajedão, Serra dos Aimorés, as cidades de Medeiros Neto, na Bahia e João Neiva, no Espírito Santo. Os alvos eram os pistoleiros Donizete Pereira dos Santos, vulgo “Giramundo” e Ofenir Pinheiro Machado, detetive aposentado. Junto com o Delegado Faria, viajaram o delegado de homicídios, Edson Moreira, Subinspetor Jorge Camarão, os detetives Geraldo “BC”, Jorge Simim, “Rubão”, Márcio “Pilotinho”, “Chico” e “Miltão”. Contra os dois criminosos foram expedidos mandados de prisão pela Justiça de Malacacheta, por suas participações em crimes de pistolagem e na chacina. Após a morte do pistoleiro Albino, os dois procurados tornaram-se homens de confiança da família Leite e a captura deles era de vital importância para esclarecimento de pontos intrincados do processo da chacina.

          A polícia sempre trabalhou com muita dificuldade no aspecto operacional, principalmente em se tratando de diligências em outros estados. Aqueles policiais viajaram com dinheiro do próprio bolso, o que ocorre até hoje, buscando o ressarcimento no retorno das viagens, o que podia demorar até meses. Neste caso não foi diferente, ao contrário, tiveram que bancar as despesas do informante que os acompanhava. Viajaram para Governador Valadares onde conseguiram, com um fazendeiro, interessado nas prisões, o abastecimento para o prosseguimento da viagem. Chegaram à Teófilo Otoni, no princípio da noite, quando o Delegado Regional, Geraldo Magela conseguiu um hotel para que descansassem. Tomaram banho, jantaram e foram repousar até aproximadamente meia-noite, quando prosseguiram a viagem em direção a Serra dos Aimorés, Lajedão e Medeiros Neto. Viajaram durante toda a madrugada, percorrendo diversas estradas de terra, com o frio do inverno penetrando nas viaturas e o sono espantado pela tensão e aspecto sombrio da região. Por volta das quatro horas da manhã passaram pela cidade de Medeiros Neto, já no estado da Bahia. Percorreram algumas fazendas sob a indicação do caminho pelo informante, até chegarem ao destino.

  

          O grupo parou as duas viaturas S-10 e andaram cerca de cinco quilômetros até entrarem na sede da fazenda de Carlinhos “Varejão”, rico fazendeiro e muito influente na Bahia e Espírito Santo. A noite fria de julho trouxe muita neblina e os policiais tinham pouca visibilidade enquanto caminhavam até a fazenda devido à forte neblina que cobria a vegetação e as grandes montanhas de pedra que caracterizam aquela região. A casa principal era grande, em estilo colonial e ficava à esquerda da entrada da propriedade. À direita, uma casa menor, onde possivelmente moraria o caseiro e Giramundo segundo as informações fornecidas. Ao se aproximarem, os policiais notaram movimento e barulho na segunda casa, como se tivessem percebido as suas presenças. Os policiais, fortemente armados com suas metralhadoras, pistolas e escopetas, rapidamente cercaram e invadiram a casa, não dando chance de reação. Giramundo, acuado, com um revólver calibre 38, foi prontamente dominado. Na casa grande (principal da sede) as janelas abriam pequenas frestas e murmurinhos eram ouvidos, diante das armas que apontavam para suas direções. O primeiro objetivo fora alcançado e ao perceberem que os policiais da RODI e Homicídios estavam bem armados, aquelas pessoas não esboçaram qualquer gesto para interferir na ação policial. As duas equipes deslocaram para as viaturas e saíram rapidamente de Medeiros Neto para Nanuque, em Minas Gerais, aonde chegaram por volta das sete horas.

          Foram para a delegacia regional, onde só foram atendidos por volta das dez horas. O delegado regional, alegando cota defasada, lhes forneceu apenas 30 litros de combustível para completar a viagem em direção ao Espírito Santo e depois Belo Horizonte. As duas equipes seguiram pela estrada que liga as cidades de Montanha e São Gabriel da Palha-ES, até chegarem a Linhares, no mesmo estado, no cair da tarde. Exaustos pernoitaram em um hotel na parte central da cidade, encarcerando “Giramundo” na delegacia local. Por volta das seis horas do dia seguinte, prosseguiram em direção ao garimpo de João Neiva, naquele estado capixaba, onde possivelmente encontrariam Ofenir Pinheiro. Desceram pela BR-101 até chegarem próximo à cidade de João Neiva, onde pararam em um posto de gasolina para tomar água, irem ao banheiro e traçar estratégia para a chegada ao garimpo, onde a recepção não seria, certamente, amistosa. Os detetives Geraldo “BC” e Jorge Simim foram à frente, no carro chapa fria e ao chegarem ao restaurante foram ao banheiro para fazer suas necessidades e aguardar o restante da equipe. Porém, o policial tem que contar com a sorte, mas, só ela não basta. O tirocínio, a atenção e sagacidade também fazem parte do perfil de um bom profissional de polícia, características estas que foram inerentes a Geraldo “BC”. Ele viu um homem urinando a seu lado, percebendo que estava armado. Disfarçadamente observou que na testa do cidadão tinha uma cicatriz profunda, característica principal de Ofenir Pinheiro. Geraldo “BC” colocou a mão em sua arma e disse:

“Polícia, você está armado?”.

O outro retrucou:

“Então empatou, também sou polícia”.

Tirou uma velha carteira de detetive do bolso de sua calça que o identificava como sendo Ofenir Pinheiro. Rapidamente “BC” o desarmou, chamou Simim que o algemou e foram ao encontro de seus colegas que aguardavam na estrada e desconheciam o golpe de sorte e tirocínio polical de Geraldo “BC”. Voltaram para Belo Horizonte onde os dois confessaram a participação em vários crimes, incluindo a chacina de Malacacheta que com detalhes minuciosos das circunstancias do local e vítimas.


A RECAPTURA DE ALDÉCIO LEITE NO PARÁ

          Faria nunca gostou de viajar de avião, no entanto, suas atividades profissionais sempre o obrigaram a utilizar o meio de transporte com muita frequência, já participando de diversas operações a bordo de helicópteros e viagens internacionais para a Europa e Estados Unidos onde fez cursos de especialização. Em 1994, quando coordenava a RODI, Faria teve necessidade de empreender diligências no estado do Pará onde teriam que capturar elementos foragidos da justiça mineira, envolvidos com a Chacina de Malacacheta. Diante das costumeiras dificuldades, Faria conseguiu um avião Queen Air, BE 80, prefixo PT-B25, de um empresário conhecido por “Lucinho” para empreender a viagem. A Secretaria de Segurança iria bancar apenas o combustível. O delegado fez contato com o então secretário, João Perfeito, que, rispidamente alegou para o policial "que existiam outras prioridades e que Nilton Ribeiro só pensava nos irmãos Leite". A realidade não era essa, o foragido era Aldécio Leite, um dos mandantes da chacina que havia se evadido da carceragem do DI pela porta da frente. Acostumado com as vaidades de algumas chefias, Faria conversou com o empresário, dono do avião, que indignado ofereceu-se para o pagamento do combustível. O avião se encontrava no aeroporto Carlos Prates e quando os policiais Faria, José Antônio Moraes Barbosa, Chico, Ilton e Cândido chegaram, por volta das 13:00 horas, depararam com uma aeronave ano 67 estacionada em um Hangar para manutenção. Ao ver o avião, os policiais pensaram:

“Será que voa?”.

O mecânico argumentou a impossibilidade de voo naquele dia, pois estava fazendo reparo nos freios. Os policiais da RODI Insistiram na decolagem por temerem perder a prisão dos pistoleiros se demorassem a chegar ao destino pretendido, conseguindo a liberação da aeronave por volta das 16:00 horas. A equipe decolou para Brasília onde pernoitaram para prosseguirem no outro dia pela manhã. No entanto, antes de chegarem à capital do país passaram pelo primeiro susto ao entrarmos em uma grande tempestade, que submeteu a aeronave a turbulências e quedas no vácuo como jamais haviam visto. Depois do sufoco, ainda trêmulos, pernoitaram em Brasília, ficando o policial “Chico” dentro do avião para vigilância do armamento pesado. Pela manhã, decolaram novamente em direção ao aeroporto de Imperatriz-MA, onde iriam encontrar com a equipe de terra, que saíra dois dias antes. Cerca de quarenta minutos do aeroporto de imperatriz, o piloto “Miltinho” passou o comando da aeronave para um Sargento PM que estava ali, como “aprendiz de copiloto”, se juntando aos policiais que jogavam baralho na parte destinada aos passageiros. De repente, ouviu-se um barulho estranho, um estalo e uma guinada para a direita, iniciando uma descida de bico. Era uma visão pavorosa ver a terra se aproximando com muita velocidade. “Miltinho” rapidamente se jogou em direção à cabina do avião e após alguns segundos, que parecia uma eternidade para os policiais, conseguiu estabilizar a aeronave, quando a mesma já estava a uma distância perigosa do solo. Silêncio total, após a gritaria e lembrança de Deus e todos os santos, só quebrado quando o detetive Ilton, que estava na frente do delegado, talvez por falta de assunto, falou:

“Dr. Faria, o senhor tá branco, falta sangue no seu rosto”.

O delegado respondeu nervoso:

“Filho da Puta, você tá falando isso por que não tá se vendo no espelho. Quem tem cú tem medo”.

          Ainda tenso, o piloto explicou que acabara o combustível de uma das asas e o copiloto esqueceu-se do procedimento de transferir para o outro tanque, entrando em pânico quando o avião mergulhou no espaço vazio, causando o incidente. Desceram no aeroporto de Imperatriz e realizaram a diligência em três dias. O retorno para a aeronave ocorreu diante de uma grande correria, já que haviam baleado e prendido o mandante de pistolagem e sua mulher. Abandonaram a camioneta usada na diligência no próprio aeroporto e a equipe de terra saiu em alta velocidade do local. Na pressa, o inspetor Jorge “Camarão” esqueceu a pistola 45 que o delegado Faria lhe emprestara, debaixo do banco da camioneta de Aldécio. Cerca de quinze minutos após levantar voo, “Miltinho”, o piloto, pediu a bolsa dele, que deveria estar na parte traseira do avião. Ao verificarem, os policiais que estavam na aeronave constataram que a bolsa do piloto havia sido trocada com outra da equipe de terra. A simples troca de bolsas não faria muita diferença a não ser por um detalhe importantíssimo, o GPS, aparelho portátil que dá a localização da aeronave por satélite ficara na bolsa que naquele momento viajava por uma rodovia com a equipe de terra. “Miltinho”, um excelente e experiente piloto, conseguiu fazer um voo cego por cerca de duas horas e meia até chegar a Barreiras-BA, onde Aldécio foi socorrido e o avião ficou retido pelo juiz local por três dias. Cerca de seis meses após o retorno da diligencia exitosa, o mesmo avião caiu próximo à cidade de Turmalina e matou seus cinco ocupantes que morreram carbonizados, dentre eles, “Lucinho”, empresário que emprestou o avião e ainda bancou o combustível da viagem. Acima, foto da aeronave, quando de seu retorno da diligencia no Pará.


A OPERAÇÃO NO PARÁ

          Já que registramos fatos que envolveram a aeronave usada na operação no Pará, devemos comentar também, sobre os detalhes dessa ação em um estado totalmente inóspito e nocivo para este tipo de ação policial. Na tentativa de recaptura de Aldécio Nunes Leite e sua mulher, foram realizadas ou coordenadas várias diligências pelo delegado Faria, como Coordenador da RODI. Era questão de honra a recaptura daquele que saiu da carceragem do DI pela porta da frente. Faria, o ex-delegado José Antônio Morais Barbosa e outros policiais da RODI estiveram em Vassouras, Rio de Janeiro (RJ), Rio Claro e São Paulo (SP), Medeiros Neto na Bahia, diversas cidades do Espírito Santo e outras localidades onde se teve notícias da passagem dos foragidos. Depois de um não da fuga, as investigações indicaram que Aldécio Nunes Leite e Eva Nilma estariam em Rondonópolis (PA), na fazenda de Josélio Barros, fazendeiro por demais conhecido naquela região por seu envolvimento em crimes de pistolagem, sua influencia política a impunidade. Os dois delegados, juntamente com os detetives Ilton, Joãozinho “Metropol”, Sidney, Gilberto, Inspetor “Camarão” e “Chico”, todos lotados na RODI, em junho de 1994 deslocaram em duas equipes distintas para o estado do Pará.

 

          Uma equipe percorreu milhares de quilômetros em um Gol descaracterizado da SESP-MG e outra, onde estava Faria, em um avião, de propriedade do empresário “Lucinho”, que estava preso por homicídio na carceragem da RODI e custeou os gastos da aeronave, piloto e copiloto, percebendo as dificuldades daqueles policiais. Cerca de dois dias após a saída da viatura ocorreu o encontro no aeroporto de Imperatriz (MA), cerca de 300 km da fazenda de Josélio. Dario Cordeiro, um dos membros da família chacinada em Malacacheta, havia mudado para Rondonópolis, onde tinha comprado uma propriedade para fugir da ira dos irmãos Leite. Para sua infelicidade, Aldécio tinha fugido para aquela região e sua fazenda já tinha sido alvo de dois atentados. Por isso vivia cercado de jagunços que faziam plantão nas varandas das casas da propriedade, com suas escopetas e espingardas. No meio desse clima de terror, o Delegado Faria, José Antonio de Morais e os detetives Ilton, Joãozinho “Metropol”, Sidney, Gilberto, Inspetor “Camarão” e “Chico” permaneceram por três dias na casa de Dario Cordeiro. Josélio e Aldécio não sabiam da presença dos policiais, mas as notícias que corriam, davam conta de um novo atentado contra o fazendeiro. Os policias da RODI realizaram levantamentos de local e mapeamento das estradas de terra para acesso à fazenda de Josélio Barros durante a madrugada. Dario Cordeiro conseguiu comprar um veículo Gol com chassi cortado, possivelmente roubado, para ajudar na investida ao alvo pretendido.

 

          Na data estabelecida por Faria, em meados de junho de 1994, como estratégica para a ação policial, por volta de meia noite, as duas equipes deslocaram nos dois veículos Gol, percorrendo a princípio cerca de 60 quilômetros de asfalto até entrarem em uma estrada de terra que liga Ulianópolis a Rondonópolis. Eram cerca de uma hora da madrugada quando iniciaram o percurso naquela estrada de poeira fina, margeada em boa parte por enormes árvores da floresta amazônica que contrastavam com as grandes áreas devastadas para a criação de gado. Os policiais usavam coletes convencionais com o logo da Polícia Civil e RODI, o balístico e armamento pesado, que incluía escopetas Benelli e metralhadoras HK. No trajeto faziam paradas em fazendas ou casebres à beira da estrada, onde perguntavam pela fazenda do prefeito, aos moradores assustados com aquelas visitas inesperadas na madrugada. Os policiais sabiam que a fazenda de Josélio era a primeira antes da propriedade do prefeito de Rondonópolis e usavam esta estratégia para não levantar suspeitas. Faltavam cerca de doze quilômetros para chegar ao local e já eram cerca de três horas da madrugada, quando os policiais comandados pelo delegado Faria entraram em uma fazenda próxima à estrada. Acordaram os moradores aos gritos de “Polícia” e ao serem atendidos por dois homens, apresentaram a fotografia de Aldécio Nunes Leite, que foi imediatamente reconhecido por aquelas pessoas. Um homem olhou para o outro e disse:

“É o Seu Souza. Ele mora na fazenda do Sô Josélio. Duas léguas daqui”.

           Os policias não tinham mais dúvidas, o caminho estava correto e não podiam perder tempo. A partir daquele local os policiais iniciaram uma caminhada que durou mais de duas horas. Não podiam perder aquela oportunidade e correr o risco do barulho dos carros ser ouvido ou mesmo a luz do farol ser vista a distancia. O silencio e a escuridão da madrugada naquele fim de mundo propagava e aumentava consideravelmente o som.

          Próximo à fazenda de Josélio, os policiais foram recebidos por cães que se mostraram amistosos, não havendo necessidade de matá-los com uso de uma metralhadora com silencioso. As duas equipes cercaram e invadiram as primeiras casas onde desligaram os rádios de comunicação e cortaram os fios para inibir qualquer comunicação. Eram casas de empregados que indicaram a sede da fazenda, onde estavam os alvos procurados, cerca de quinhentos metros de onde estavam. O delegado Faria pediu a um dos empregados que os acompanhasse até a sede da fazenda, indicando o caminho. Ao chegarem à fazenda, por volta de cinco e meia da manhã, houve uma reação a tiros por parte de homens da fazenda e Aldécio, que foi prontamente rechaçada pelos policiais. Cândido, detetive da RODI, levou um tiro no peito, mas o colete o salvou. Aldécio que se encontrava na cozinha armado com um revólver calibre 38, levou cerca de três tiros de metralhadora durante o tiroteio. Dominados e presos, Aldécio foi colocado na traseira de uma caminhonete D-20 de sua propriedade, Eva Nilma no Gol junto com grande quantidade de armas apreendidas. Josélio e alguns homens que estavam na fazenda, após serem desarmados, foram deixados naquele local. Faria falou para sua equipe que o objetivo da diligência era a prisão dos dois, Aldécio e Eva Nilma, não podendo ter outra preocupação senão o que buscavam. Por precaução, os policiais dispararam tiros contra os pneus dos demais veículos que estavam na fazenda e cortaram todo tipo de comunicação. Sabiam da influencia política e do acesso de Josélio à PM do local, cujo imóvel do Quartel lhe pertencia. Além do mais, sua filha era promotora naquela região, o que poderia complicar o recambiamento dos presos e a forma como foi desenvolvida a operação. Os policiais saíram em alta velocidade do local, com os presos divididos nos três carros, a camionete e os dois Gols, deixando um rastro infernal de poeira, que chegava a sufocar os ocupantes dos veículos que vinham atrás. Ao chegarem ao asfalto, depois de mais de duas horas, Faria determinou que a caminhonete prosseguisse com Aldécio para o aeroporto de Imperatriz enquanto aguardavam o GOL emprestado que não acompanhou e desapareceu. Foram momentos de tensão, já que três policiais estavam naquele carro. Faria esperou cerca de dez minutos e como não apareceram, voltaram na direção que vieram pela estrada de terra. Depois de cerca de quinze minutos localizaram os policiais com o veículo quebrado à beira da estrada. Faria, seis policiais e o piloto “Miltinho” vieram no Gol da Secretaria de Segurança em grande velocidade até encontrarem novamente com a caminhonete, já próximo ao aeroporto de Imperatriz. Também a caminhonete que levava Aldécio deu problema mecânico, causando um novo atraso de cerca de duas horas que pareciam intermináveis.

          Depois de todo o sufoco, os policiais chegaram ao aeroporto, onde passaram por outro susto, ao verem dezenas de soldados do exército na pista e em outros setores do aeroporto com fuzis, metralhadoras e toda a parafernália de guerra. Será que estavam ali para impedir a saída com os presos? Mais de meia hora se passaram, com Eva Nilma presa dentro do GOL e Aldécio deitado na carroceria da camionete, em distancia segura dos militares. Na verdade os soldados estavam apenas fazendo instruções rotineiras e se afastaram do local em seus caminhões depois de algumas manobras. Aldécio e Eva Nilma foram colocados no avião, que aguardava em Imperatriz, juntamente com os delegados Faria, José Antônio e outros dois detetives. Durante o voo, Aldécio começou a passar mal, tendo Faria determinado que fosse feito um pouso na cidade mais próxima, Barreiras (BA), para que o preso fosse socorrido. Em Barreiras o delegado Faria comunicou os fatos ao delegado local e ao comandante da PM que colocaram escolta no hospital. O juiz da cidade ficou revoltado por não ter sido avisado numa demonstração de estrelismo e vaidade, já que o normal de apresentação foi feita de maneira padrão. O juiz reteve os policiais, os presos e a aeronave por cerca de três dias naquela cidade, impedindo-os de prosseguir a viagem, colocando militares no aeroporto para evitar o deslocamento do avião. Depois de interferência de autoridades de Belo Horizonte junto às de Salvador, os policiais foram liberados para retornarem a BH com seus presos.

          Esse registro foi feito pelo piloto que narrou sua passagem ao lado dos policiais em todos os momentos da operação realizada em 1994. No ano de 2000, seis anos depois da diligencia no Pará, "Miltinho" sofreu um acidente com outra aeronave, nas proximidades do aeroporto da Pampulha, morrendo carbonizado juntamente com o seu copiloto. Fechava ali um círculo de acontecimentos que envolviam pessoas, "Miltinho" e "Lucinho", que ajudaram os policiais da RODI na perigosa empreitada profissional e morreram tragicamente em situações parecidas, que envolviam aeronaves.

Detalhes referentes à Saga dos Irmãos Leite podem ser acessados no link: http://www.cyberpolicia.com.br/index.php/historia/decadas/475-pistolagem-em-minas



1994. O MORRO DO PAPAGAIO


          Em 1994 Faria, respondendo como titular do RODI foi processado por abuso de autoridade por um crime que não cometera e respondeu por causa de outro colega delegado. Isso iria acontecer por mais duas vezes por erro do Ministério Público, aliás, da Promotoria de Defesa dos Direitos Humanos que denunciava apenas embasada em representações de bandidos, sem buscar, preliminarmente, conforme prevê o Código Processo Penal, a procedência daquelas informações repassadas ao órgão fiscalizador da lei. Faria nunca se esquivou de suas responsabilidades, mas esses três casos ele realmente foi processado no lugar de outros três delegados. Anderson Batista era um traficante do Morro do Papagaio, preso frequentemente por sua atividade criminosa, mas sempre acobertado pelo pai, que fazia o maior carnaval para livrar seu filho das garras da justiça. E a maneira mais fácil encontrada eram as denúncias aos órgãos de direitos humanos e imprensa, contra os policiais que o prendiam. Os policiais eram transformados para algozes e violentos. Em uma dessas ocasiões, equipes da RODI estiveram em sua casa, no Morro do Papagaio e tentou sua prisão, não conseguindo por estar em outro local, naquela ocasião. O grupo de policiais era chefiado pelo delegado Pitágoras Lincoln que comandava duas equipes noturnas. O Delegado Faria não participou da ocorrência, naquele momento se encontrava dormindo em sua residência. O Chefe da RODI não participava dos trabalhos noturnos que ficavam a cargo dos seus delegados. Anderson e seu pai procuraram a promotoria e denunciaram abusos na diligencia, indicando os policiais da RODI como autores. Os promotores não tiveram a preocupação de pedir informações sobre a diligencia e sumariamente denunciou Faria e dois outros policiais que teriam sido identificados no local. O delegado era muito conhecido pela série de trabalhos que apresentava rotineiramente e os promotores sabiam ser ele o Chefe da RODI. Durante o processo criminal, o policial demonstrou para o juízo da vara responsável, todo o organograma do órgão que chefiava, sua operacionalidade e os nomes de todos os policiais que trabalhavam à noite, com suas respectivas escalas. Não acusou seu colega Pitágoras Lincoln, que era o policial que comandara a diligencia, afinal, conhecia o traficante Anderson e sabia que não podia acreditar em suas versões, costumeiramente mentirosas. Faria passou pelo constrangimento de um processo por um crime impossível de ter sido praticado por ele, devido às circunstancias comprovadas, que culminaram em sua absolvição. Posteriormente o traficante foi assassinado por criminosos rivais da mesma favela.

A DELEGACIA DE FALSIFICAÇÕES

 

           
         Com a mudança da chefia do Departamento de Investigações em 1994, o delegado Raul Moreira assumiu o lugar de Nilton Ribeiro, e convidou Faria para assumir a titularidade da Delegacia de Falsificações e Defraudações, no segundo andar do prédio do DI, em substituição ao Delegado Sudam. Era uma área completamente diferente das unidades operacionais que Faria ocupara antes, mas desafios são uma constante na vida de qualquer policial e vencê-los, uma obrigação. Naquela especializada o delegado Faria contava com policiais experientes e de grande tirocínio, podendo destacar nesta biografia, os delegados, Elcides, Alexandre Champbel, Fialho e Pedrinho. Ofélia se destacava como excelente chefe de cartório, ao lado de Damasceno. Na inspetoria, detetives experientes na atividade de investigações de estelionatos e fraudes diversas. Foi um período de grandes prisões de estelionatários envolvidos com "laranja mecânica", cartões clonados e golpes de repercussão na macro criminalidade do 171. Uma das principais ações policiais que merece registro foi o desmantelamento de uma quadrilha internacional de falsificação de cartões de crédito.

       Acima alguns registros de encontros dos policiais da Delegacia de Falsificações, nos anos de 1995 e 1996, na casa do investigador Cláudio, no Bairro Castelo, em momentos de descontração. Identificamos os delegados Faria e Nilton Ribeiro. Investigadores: Cerezo, Semin, Lommez, Gilberto, Gilson, Roberto "Mão Branca", "Prechequinha", Aílton e outros, que, oportunamente serão identificados.


A QUADRILHA DOS URUGUAIOS

 



         
          No final de 1996, uma das maiores quadrilhas de falsificadores de cartões de crédito foi desbaratada pela equipe dos Delegados Faria, e Pedrinho. Os criminosos usavam alta tecnologia e equipamentos sofisticados para a confecção dos cartões de crédito que eram utilizados para compras na Europa e Brasil. A quadrilha era composta de uruguaios e tinham uma vida de luxo, morando em mansão no Mangabeiras, zona sul da capital mineira. Inúmeros equipamentos e joias foram apreendidos com a quadrilha. Para as administradoras de cartões que figuravam como vítimas dos criminosos, a Delegacia de Falsificações tirava de circulação a principal quadrilha naquele seguimento criminoso com apreensão de equipamentos de alta tecnologia na época. O prejuízo causado somava milhões de dólares contra as administradoras de cartões. 

          Um fato que merece destaque na Delegacia de Falsificações e Defraudações, na visão de Faria, foi o contato com uma "vítima" que lhe procurou com um cheque sem fundos de 1.000.000,00 (Um milhão de reais) em 2004, no princípio do Plano Real, quando a equivalência do dólar era de aproximadamente 1 x1. Faria pediu a um escrivão para tomar a termo os fatos alegados e exigiu a apresentação de comprovação da transação comercial que envolvia aquele volume de dinheiro (Este foi um procedimento adotado por Faria, para impedir o uso da polícia em cobranças e fatos de competência da área cível). A "vítima" coçou a cabeça e disse que não iria prosseguir com a ação criminal, preferindo perder um milhão de reais. Saiu da delegacia e nunca mais retornou com seu "cheque sem fundos".

          Faria permaneceu naquela especializada por um período de pouco mais de um ano, percebendo que ali jamais poderia desenvolver um trabalho operacional competente, naquela incessante atividade de "enxugar gelo". A especializada estava abarrotada de inquéritos, ocorrências, representações e investigações preliminares, somando mais de 8000 feitos, que contrastava com a estrutura mínima e arcaica para tamanha demanda. Preferiu buscar outra unidade que lhe proporcionasse desenvolver melhor o seu perfil profissional. 


A SECCIONAL SUL
 

 

         A extinta Seccional Sul, quando Faria assumiu sua titularidade, em 1996, era localizada no imóvel da Rua Rodrigues Caldas, ao lado da Assembleia Legislativa. A unidade policial teve seu início como 11º Distrito Policial na década de 70 e por lá passaram nomes de policiais importantes como os delegados Nilton Ribeiro, Jane Maluf, Eduardo "Marreco", Messias "Caruncho" e tantos outros policiais das diversas carreiras. Nos anos 70, diziam que era uma das delegacias usadas para esconder presos conduzidos para averiguação e condenados sumariamente por períodos que iam de uma semana até seis meses. Era a chamada "Invernada". Segundo policiais antigos, os presos eram recolhidos e quando aparecia oficial de justiça com Habeas Corpus, ele era transferido para outros dois locais, a "Furtos e Roubos" ou o 14º Distrito no Bairro Alípio de Melo. Eram normalmente bandidos reincidentes, que eram colocados fora de circulação pelos policiais para trazer maior tranquilidade na capital. Essa história talvez seja um mito, mas também pode ter seu lastro de verdade.

SECCIONAL SUL-RUA RODRIGUES CALDAS 1996/1998 - UNIDADE OPERACIONAL.   


          E um dos grandes problemas que o Delegado Faria encontrou naquela delegacia, foi justamente a carceragem, que juntamente com os delegados Petrillo e Jaime Monteiro,  buscaram humanizar, reformando, colocando bancos e uma televisão para recreação. Buscaram parcerias com pastores para visitas semanais que dessem um mínimo de alento àqueles criminosos. Mas os presos são todos iguais e nunca estão satisfeitos em cumprir suas penas. Querem o bônus do crime, mas não se sentem na obrigação do ônus, que é a cadeia. Pouco tempo depois da reforma, colocação de bancos, colchonetes novos, TV, os presos se rebelaram e colocaram fogo em tudo.

          Algumas delegacias distritais da Metropol começam a mudar a velha cultura de que distrito só investiga furto de “botijão e pinico” e iniciam investigações importantes que levam a apuração de crimes de destaques e prisões de criminosos importantes, no contexto do banditismo. Remontam aos velhos tempos de Prata Neto e a Metropol da Rua Guajajaras. A 2ª Seccional Sul, na Rua Rodrigues Caldas foi a unidade da Superintendência de Polícia Metropolitana que mais se destacou naquele período, com a 10ª DD na Serra, delegado Jorge Sobrinho, a 1ª Delegacia, na Rua Carangola, Islande Batista, 3ª Delegacia Distrital, na Avenida Augusto de Lima, José dos Santos e a 11ª Delegacia, com os delegados Petrillo e Jaime, tendo como titular Faria. Uma grande equipe de detetives chefiados pelo inspetor Carlinhos se destacava, com Dirceu Beleza, Anderson, Cláudio Coelho, Mesquita, Valdir, Gilson, Gilberto, Marcos Matos, Sidney, Rodrigo, Sales e Procácio. Os escrivães Gustavo, Márcia Farina, Jardel, Shirley e Thessa faziam parte da excelente equipe de policiais. Naquele período, o Seccional Faria recebeu um telefonema de seu amigo Elson Matos, à época no DEOESP, pedindo para receber seu filho Marcos Matos, com 19 anos, recém-saído da ACADEPOL para iniciar sua carreira de detetive. Elson Matos confiava seu filho a Faria, numa demonstração inequívoca de amizade e confiança. E seu filho não desapontaria e se tornaria um grande policial, acompanhando Faria por vários outros órgãos.

          Nas fotos acima, os policiais em momentos de relaxamento: delegados Faria, Jorge Sobrinho, João Bosco, Jaime Monteiro, Wellington Petrillo, José Arcebispo, Márcio Siqueira, Islande Batista, Ana Glaura, Ricardo Minelli, Nilton Ribeiro, Soraya e o Juiz Federal Betti. Detetives e escrivães: Anderson Pinto de Melo, Sidney, Marquinho, Dirceu "Beleza", Ellison Pinto, Takarrachi, Mário, Roberto "Sujinho", Pedro Neves, Gilberto, Cláudio, Márcia Siqueira, Márcia Farina e outros.

O LADO OPERACIONAL DA SECCIONAL SUL

          A prisão do empresário, dono da VISE Vigilância, “Chicão”, do rei da clonagem de cartões, atentado a bomba contra engenheiro no Sion praticado por policiais militares foram alguns dos grandes casos da Seccional Sul. 

 Algumas manchetes policiais da 11ª DD/Seccional Sul no final dos anos 90:

  • Dono da VISE armava golpe de 3 milhões – Estado de Minas-30/8/1996.
  • Auditor do Tribunal de Contas detido em eleição – Hoje em Dia-9/41996.
  • Presos em BH golpistas do cartão magnético de banco.
  • Desempregados resolvem assaltar e acabam presos – DT-5/3/1997.
  • Empresário acusado de prostituir menores – Hoje em Dia – 20/9/1997.
  • Polícia desbarata desvio de calçados da Silvio Rabelo.

 

  • Polícia Apura Atentado a Tiro Contra Colégio Promove
  • Ex Escrivão é Preso por Tráfico de Cocaína
  • Polícia prende máfia do cartão de crédito – Hoje em Dia -20/9/1997. 
  • Polícia prende traficante de cocaína no Mac’ Donalds – Hoje em Dia – 18/2/1998.
  • Preso o chefão do tráfico – DT-1/8/1998.

 

  • Aperta o cerco a autores de atentado-O Tempo-21/8/1998. 
  • Testemunha diz ter seguido PMs no Sion. 
  • Atentado contra engenheiro no Sion pode ter dedos de PMs- DT-21/8/1998.
  • Confirmado: PMs são autores de atentado-DT-1998.
  • PMs envolvidos em atentado estão presos-EM-21/8/1998. 
  • Preso ex-corretor que dava golpe do troco-EM-6/10/1998 
  •  Rastro de destruição-Saldo violento deixado pelos furiosos presos que se rebelaram na Seccional Sul-DT-6/10/1998.

O ATENTADO NO SION

 

          Em 1998, um atentado a tiros contra o engenheiro Cangussu causou grande repercussão na capital mineira e uma enorme pressão da mídia e entidades de direitos humanos para a apuração do crime. Paulo Cangussu estava em seu veículo na Rua Piumi esquina com Cristina no Bairro Sion quando dois homens se aproximaram e desferiram mais de dez tiros em sua direção. Após a fuzilaria os homens fugiram do local em direções diferentes e por sorte a vítima não foi atingida pelos inúmeros tiros, causando apenas perfurações no veículo. Por se tratar de tentativa de homicídio e endereço da consumação do crime, a ocorrência foi encaminhada para a Seccional Sul. Faria assumiu pessoalmente as investigações, designando o delegado Jorge sobrinho para presidir o inquérito policial e os detetives Anderson Pinto de Melo e Marcos Matos da Costa para buscar as informações que pudessem levar à identificação dos autores. 

           Pouco tempo depois os inteligentes investigadores localizaram uma testemunha que tinha informações importantes e gravíssimas sobre o atentado. Logo após o tiroteio, a testemunha viu a direção tomada por um dos atiradores e o seguiu até vê-lo entrando em uma viatura da Polícia Militar. A testemunha, percebendo a gravidade da situação, anotou a placa do veículo oficial. Ao retornar ao local do atentado, notou que a mesma viatura chegou ao local, simulando que iam confeccionar a ocorrência. Ao comentar com os militares o que tinha visto, a testemunha foi ameaçada e se escondeu, com medo de sofrer retaliações.

          Com o uso de um capuz na testemunha e a garantia dada por Faria e seus policiais, que nada de mal lhe aconteceria, o informante resolveu prestar declarações e reconhecimento no inquérito policial e na sindicância presidida pelo major Alvear, comandante do 22º BPM, órgão de lotação dos militares. O atentado ganhou repercussão nacional e os repórteres de diversos canais de mídia faziam plantão na porta da Seccional Sul, pela excepcionalidade daquela modalidade criminosa na época.


1997. O CASO DO AÇOUGUEIRO


          Conforme registramos na “Parte IV, Delegado da RODI”, o Delegado Faria passou por vários processos de abuso de autoridade, na qualidade de chefe, que não podia se defender abertamente, sem acusar seus delegados subordinados, principalmente, porque não tinha posição firmada quanto ao dolo desses policiais em relação aos fatos denunciados. Na Seccional Sul, foi procurado pelos parentes de um rapaz que trabalhava em um açougue, denunciando que um delegado de cabelos pretos, cor clara e de bigodes, o teria espancado por suspeita de furto naquele estabelecimento comercial, junto com outro policial. Para Faria não havia dúvidas, as características eram do seu adjunto, Delegado Jaime Monteiro de Barros e o escrivão Roberto “Sujinho”. Imediatamente chamou a escrivã Márcia Farina e determinou que fizesse uma requisição para o Instituto Médico Legal, para exame de corpo de delito. Na condição de titular da Seccional Sul era sua obrigação tomar aquela providencia. Orientou os parentes do rapaz a voltar após os exames para que fossem ouvidos. Mais uma vez Faria se deu mal por tentar agir dentro dos tramites legais. As pessoas orientadas pelo delegado foram ao IML e nunca mais retornaram, indo diretamente para a Promotoria de Defesa dos Direitos Humanos, onde registraram as mesmas acusações levadas ao Delegado Faria.

          O promotor que recebeu a denúncia viu o nome de Faria na requisição e não pensou duas vezes, ali estava o responsável pelas agressões, era aquele policial e ofereceu a denúncia por abuso de autoridade. O Chefe da Seccional Sul, mais uma vez passou pelo dissabor de ter que responder por um crime que não cometera e que certamente, uma diligencia preliminar ou mesmo um reconhecimento o teria livrado do processo. Em sua defesa, apresentou diversas cópias de documentos, desde que entrara para a polícia aos 21 anos e em todas as fotos, desde então, sempre estava com barba, o que descaracterizava a acusação contra sua pessoa. Faria disse ainda, que se o Ministério Público tivesse lhe pedido informações identificaria o delegado Jaime Francisco Monteiro de Barros como sendo o policial que preenchia as características apontadas, mas que acreditava em sua inocência. Faria argumentou também que era um policial experiente e que faltou inteligência para o promotor que recebera a denúncia, pois jamais preencheria uma requisição para exame de corpo de delito, se a pessoa tivesse sido agredida por ele. Seria no mínimo incoerência. O Delegado Jaime foi ouvido como testemunha e confirmou que a diligencia havia sido feita por ele e seu escrivão Roberto, mas negava qualquer tipo de agressão. Faria provou sua inocência e mais uma vez foi absolvido.


REFORMAS DA SECCIONAL SUL


          Logo que assumiu a Seccional Sul, a convite do Superintendente Metropolitano Edivaldo Brandão, o delegado Faria deu início à remodelagem da unidade policial, tanto no aspecto operacional quanto estrutural. Para a reforma da delegacia, contou com o apoio dos delegados Jaime Monteiro de Barros, Wellington Petrillo e seus policiais, que não mediram esforços na busca de apoio de empresários da região que pudessem ajudar com o material de construção, já que no projeto do delegado, incluía uma ampliação na parte dos fundos, onde abrigaria um cartório e as equipes da subinspetoria. E é sabido que a polícia vive da ajuda da iniciativa privada ou município, vez que, os recursos estaduais nunca, ou raramente, chegam para este tipo de revitalização de delegacias. Os comerciantes e vizinhos acreditaram no projeto, a ponto de um senhor idoso estacionar uma camionete na porta da Seccional Sul, com muitos sacos de cimento, para doação, porque vira o movimento da reforma e queria ajudar, porém, no anonimato. Nos anos de 1997 e 1998 a unidade policial ficou pronta, com a ampliação e pintura em toda sua extensão, incluindo a própria carceragem. O delegado Jaime Monteiro deu seu toque de decorador, colocando um bonito visual na entrada da delegacia com enormes vasos de plantas e jardinagem, que deram um toque mais humano para a delegacia. Nos fundos, também foi construída uma confortável cozinha que permitiu que os policiais fizessem sua alimentação na própria delegacia e usassem aquele espaço no expediente e plantão.


REBELIÃO DE PRESOS. O PROCESSO.

         

          Em 1997 e 1998, os delegados Faria e Jaime Francisco Monteiro de Barros transformaram a ala carcerária da Seccional Sul, buscando maior conforto material e espiritual para o cumprimento da pena naquele cárcere. Isso, conforme já registramos em linhas anteriores, não foi o bastante para apaziguar os ânimos dos presos, principalmente quando o Natal se aproxima. Durante o plantão noturno da delegada Maria Marinho (Faria era o chefe da Seccional e trabalhava durante o dia, idêntico à RODI), os presos se rebelaram e colocaram fogo nos colchonetes, cobertores, TV, bancos e outros equipamentos novos que haviam sido cedidos pelos delegados e comerciantes amigos. A Delegada e sua equipe interferiram prontamente, usando uma mangueira d’água para apagar o incêndio na galeria e no interior das celas, conseguindo debelar o fogo. E controlar a situação. Outro delegado, da Seccional Centro, Eustáquio Alvarenga, que estava na permanência, esteve no local e telefonou para Faria, por volta das 23:00 horas, repassando as informações e esclarecendo não haver necessidade de deslocamento até aquela unidade policial. A situação estava controlada. Ou seja, o Delegado Faria não esteve no palco da crise instalada.

          A Delegacia Seccional Sul era localizada na Rua Rodrigues Caldas, ao lado da Assembleia Legislativa e, como era de se esperar, no outro dia, Faria recebeu a visita do Deputado João Leite e comitiva que queria saber sobre a rebelião e a denúncia da existência de uma “Igrejinha” naquele local. Faria franqueou ao deputado o acesso a todas as dependências, indicando até um porão onde abrigava antigas celas, para que houvesse transparência. O deputado e sua comitiva não encontraram nada e, ao contrário, elogiou as condições de limpeza e da estruturação dada à carceragem, mostrada entre o resto do incêndio da noite anterior. Ainda assim, os presos alegaram que teriam sido espancados e torturados com uso de uma mangueira d’água que inundou tudo. O deputado comunicou à promotoria especializada e mais uma vez Faria foi processado junto com seu inspetor Carlos Augusto, por crimes que não haviam cometido. Durante a tramitação do processo, a Delegada Maria Marinho foi ouvida e deixou perplexo o juiz ao afirmar categoricamente:

“Excelência, tem alguma coisa errada aqui.”

O juiz, não entendendo lhe questionou:

“O que está errado Doutora”.

A delegada prosseguiu:

“Excelência, isso é uma injustiça. Quem deveria estar sentada no banco dos réus deveria ser eu. Eu era a chefe do plantão quando ocorreu a rebelião. Fui eu que determinei aos meus policiais que usassem a mangueira para jogar água no corredor e interior das celas que estavam pegando fogo. E hoje vejo meu chefe sendo julgado, sem ao menos ter comparecido no plantão. É uma verdadeira injustiça e reafirmo que eu, sou a pessoa que deveria estar sentada no lugar dele. Ele trabalha no expediente Excelência, os fatos aconteceram por volta das 22:00 horas.”

          Tanto o promotor, quanto o juiz ficaram atônitos diante daquele desabafo ético e sincero, que partiu de uma policial veterana e que via diante de si, uma injustiça. Com aqueles argumentos, as demais testemunhas foram dispensadas e o juiz absolveu os dois policiais. Por causa desse processo, Carlos Augusto, um grande policial, perdeu todo o estímulo que tinha pela carreira e se isolou no plantão da Metropol até conseguir sua aposentadoria. A polícia perdia um profissional exemplar por erro crasso e desnecessário da justiça, ainda que absolvidos. O constrangimento ninguém tira.


O MANDADO DE PRISÃO CONTRA FARIA.

          Por causa dessa carceragem, o Delegado Faria passou por um verdadeiro pesadelo, pela ignorância e insensatez de um juiz. O delegado Petrillo, titular da 11ª Delegacia Distrital e responsável pela carceragem, recebeu uma ligação da 6ª Vara de Família, de uma escrivã, dizendo que um oficial de Justiça, a mando do Juiz José Batista Alvarenga, estaria levando um preso por inadimplência de pensão alimentícia para ser recolhido naquela carceragem. O delegado argumentou que Faria, Chefe da Seccional, não recebia aquele tipo de preso por não ter espaço para separá-lo do preso comum, conforme disciplina a lei de execuções penais. Mas que receberiam o preso, caso o juiz despachasse no mandado de prisão, autorizando o recolhimento com preso comum, retirando assim, a responsabilidade das mãos do delegado. A escrivã falou que iria transmitir a informação ao juiz. No mesmo, dia, cerca de uma hora após o telefonema, Petrillo adentrou no gabinete do Seccional, acompanhado do oficial de justiça, um sargento da PM e um conduzido, relatando o que conversara com a escrivã. Faria pegou o mandado de prisão por inadimplência de alimentos e percebeu duas coisas: o ofício era dirigido ao delegado de Vigilância Geral, unidade do Departamento de investigações e não constava a autorização para recolhimento com preso comum. O delegado Faria, de forma educada, falou da impossibilidade de recebimento do preso, já que o juiz foi orientado a despachar a ordem de recolhimento com os demais presos e não o fez. Que retornassem com o conduzido para que o juiz corrigisse o mandado.

          No dia 10/12/98 e no dia 11/12/98, por volta das 17:00 horas, o Secretário de Segurança Santos Moreira ligou para Faria, dizendo "que tinha uma batata quente nas mãos. Um mandado de prisão preventiva contra, ele, Faria. Um mandado de um juiz da vara de família". Faria percebeu na hora do que se tratava, ao mesmo tempo em que não entendia como um juiz, de vara de família, podia decretar uma prisão de um crime inexistente, pois nem na Desobediência ele poderia ser enquadrado. O delegado falou para o Secretário:

"Dr. Santos, peça ao João Reis para preparar uma cela no DEOESP que estou subindo para cumprir o mandado."

Santos Moreira tentou persuadir Faria, alegando que:

"Faria, o problema tem solução, o juiz colocou no ofício de encaminhamento que revoga a prisão se você reconsiderar sua decisão e receber o preso".

Aquela chantagem soou como um soco no estomago, e o Delegado Faria expressou toda a sua revolta para o Secretário de Segurança:

"Dr. Santos, só tenho uma palavra e é a primeira que dei. Não recebia o preso se o juiz não expressasse no mandado que ele poderia ser colocado junto com presos comuns. Agora, não recebo de maneira nenhuma. Pode ligar para o Reis que estou indo agora para o DEOESP. Não aceito chantagem de ninguém".

Percebendo o nervosismo e a postura de Faria, Santos Moreira retrucou:

"Calma, Faria, vamos resolver isso. Me aguarde que vou conversar com o presidente do Tribunal de Justiça".

Menos de quinze minutos depois, o Corregedor Geral de Justiça ligou para Faria perguntando sobre o preso recolhido por inadimplência de pensão alimentícia. Faria achou que Santos Moreira tinha sido rápido na busca de uma solução, mas não era isso. O corregedor, quando Faria lhe disse estar ciente do assunto, falou:

"Pois é Dr. Faria, o senhor sabe que ele não pode ficar junto com preso comum e sei que a delegacia não possui cela separada, então eu gostaria de ajudar a tirá-lo daí e levá-lo para local apropriado, na Dutra Ladeira. Estou atendendo um pedido de um amigo".

O delegado não acreditava no que estava ouvindo e respondeu:

"Excelência, por ter a mesma interpretação, hoje deixei de receber esse preso, me negando a colocá-lo em uma cela que seria dividida com assaltantes, homicidas e traficantes".

O juiz corregedor complementou:

"Ótimo Dr. Faria, excelente decisão".

É Excelência, por causa dessa decisão acertada, o juiz da 6ª Vara de Família, decretou minha prisão preventiva”.  Respondeu o policial.

O juiz corregedor:

"O senhor está brincando Dr. Faria."

O delegado concluiu:

"Não Excelência, eu jamais brincaria com assunto tão sério. Inclusive estou indo para casa agora, por que se eu permanecer trabalhando, será uma afronta à justiça, em virtude do mandado de prisão em aberto e também não vou arriscar que a PM bata na porta do meu gabinete, já que o juiz encaminhou cópia do mandado para a PM".

          O juiz corregedor, demonstrando perplexidade, pegou telefone da casa de Faria e pediu que aguardasse seu retorno. Por volta das 20:00 horas o delegado Faria recebeu realmente o telefonema do Corregedor Geral de Justiça, lhe dizendo “para ficar tranquilo, que o mandado fora revogado”.

         

Abaixo, a íntegra da decretação e revogação da prisão preventiva:

DECRETAÇÃO

Processo 024.97.026.231-7 - 6ª Vara de Família.
DECISÃO: Conforme está sobejamente demonstrado a autoridade policial do 11º Distrito Policial praticou infração administrativa e penal (Art. 319 do Código Penal). O fato é extremamente grave por que o não acatamento da ordem de prisão implica em desprestígio da ordem legal vigente. A prevalecer o entendimento da autoridade policial, nenhuma sentença criminal ou civil que implique em decreto de prisão poderia ser executada nesta cidade, gerando o caos e intranquilidade para as pessoas. Se é assim, deve a autoridade policial responder pela falta administrativa praticada, e, para tanto, deve ser oficiado à Corregedoria de Polícia. Quanto ao aspecto penal, em razão da gravidade do caso, com base no artigo 312 do Código Processo Penal, como garantia da ordem pública e também para assegurar a aplicação da lei, eis que há prova da existência do crime de prevaricação e índicio suficiente de autoria, DECRETO a prisão preventiva de ANTONIO CARLOS DE FARIA, Delegado Titular da Seccional Sul desta Capital. Será expedido o imediato mandado de prisão e cópias dos mesmos serão entregues:

1. À Polícia Militar que atua neste Fórum;
2. Á Corregedoria de Polícia;
3. Ao Senhor Secretário de Segurança Pública.

A seguir serão extraídas cópias de todo o processo para distribuição a uma das Varas Criminais da Capital e Tribunal de Justiça.
O teor desta ata será publicado no "Minas Gerais" para conhecimento das partes e demais interessados.
Bel. José Batista de Alvarenga Coelho
MM. Juiz de Direito.


REVOGAÇÃO

Proc. 024.98.150.828-6 - 7ª Vara Criminal

DECISÃO: Vindo-me conclusos, impera d. v. a reapreciação sob dúplice ótica. Primeiramente da competência do juízo para o referido decreto. Evidente que a prisão preventiva originária e qualquer delito criminal, está pelo ordenamento jurídico, afeto à qualquer das varas criminais da Capital e tão somente, em face de sua competência determinada pela Lei de Organização Judiciária. Em face disto, entendo eivada de nulidade plena no caso, pois que, decretada em dia normal de funcionamento das varas, não sendo sequer em plantão. Falece portanto, d.v, àquele juízo competência para este último decreto.
Segundo, não bastasse isto, ao exame do caso, também, data vênia, não vislumbro presentes os requisitos que ensejem o decreto preventivo. A despeito de que a inexistência de vaga não escusa o cumprimento de ordem judicial, verifico que a justificativa do não recolhimento do preso devedor de alimentos junto com outros presos comuns e perigosos apresenta-se como causa justa à cautela na diligencia determinada. Se desavisadamente o Dr. Delegado não comunicou o fato ao juiz titular da 6ª Vara de Família, trata-se de procedimento que deveria ter tomado, entretanto não se afigura a prática de delito, a ensejar prisão preventiva.
A meu sentir, age na verdade com atuação justificada pela ordem natural das coisas, autoridade policial que procura resguardar a integridade física do cidadão - embora o meio não tenha sido o mais adequado, repita-se, por não ter tratado junto àquela autoridade Judiciária. Certo é que nestes autos não existem elementos suficientes para a preventiva decretada, medida de excessão extrema, quando mais se trata de autoridade policial , em atividade normal conhecida e certa no meio institucional. Assim, em correição, revogo o decreto retro de fls., recolha-se o mandado de prisão expedido com urgência, oficiando àqueles mesmos órgãos anteriormente dirigidos, para as devidas baixas.
BHte, 11/12/1998.
Fernando Caldeira Brant
Juiz de Direito da 7ª Vara Criminal.

          Um detalhe importante em relação à revogação de prisão é que Faria não escreveu uma linha de recurso, ou contratou advogado para interpelá-lo. O ato era de tamanha ignorância e aberração jurídica que o próprio juiz corregedor de justiça, através do "recurso por telefone", acionou o Dr. Fernando Caldeira Brant para analisar e deliberar. Certamente, foi a única revogação de prisão preventiva com essas características nos anais da história de nosso judiciário. 

           Faria foi sempre um policial que brigou pelos seus direitos e por isso mesmo, às vezes era incompreendido. Ele elaborou uma representação criminal contra a promotora que assinou a audiência com o decreto de prisão e o Juiz José Batista Alvarenga Coelho, diga-se de passagem, este, com mais de dez notas desabonadoras em seu prontuário na Corregedoria de Justiça. Quando faltavam seis meses para a prescrição do processo, o delegado fez um ofício à Procuradoria Geral de Justiça, informando a data que ocorreria o arquivamento, caso não fosse julgado. Na data citada por Faria, ocorreu a prescrição e o processo foi arquivado. Abaixo, cópia da representação contra o juiz José Batista Alvarenga Coelho e a promotora que atuou na audiência do decreto.

REPRESENTAÇÃO

"PROT TJMG PETIÇÕES 050572 15/01/99 14:17
Ao
Exmo. Sr.
Dr. Lúcio urbano
Desembargador Presidente do Egrégio Tribunal de
Justiça do Estado de Minas Gerais

Antônio Carlos de Faria, Delegado de polícia de carreira, classe especial, atualmente no exercício do cargo de Superintendente de Polícia Metropolitana de SESP-MG, filho de Antônio Corrêa de Faria e de Landy Araújo de Faria, residente na Rua Célio de Castro, n.º 600/502, Bairro Floresta, vem com o devido respeito e acatamento a presença de V. Ex.ª. ofertar representação criminal em fase do bel. José Batista de Alvarenga Coelho, Juiz de Direito titular da 6.ª Vara de Família da Capital, bem como da Bel.ª Célia Beatriz Gomes dos Santos, Promotora de Justiça daquela Vara, pelos seguintes fatos e fundamentos:

Em data de 09/12/98, por volta das 9.00 horas, a escrivã da 6.ª Vara de família ligou para a Seccional Sul, sendo atendida pelo Bel. Wellington Vital Petrillo, titular da 11.ª DD, informando que por determinação do MM. Juiz da 6.ª Vara de Família seria encaminhado àquela unidade policial, para ser recolhido em razão de mandado de prisão por não pagamento de pensão alimentícia, a pessoa de José Dimas Pereira dos Santos. A autoridade policial argumentou que não haveria problema desde que houvesse um ofício autorizando o recolhimento junto aos presos comuns já que a unidade policial não dispõe de ala própria para o recebimento de preso, cujo acautelamento é diferenciado, conforme dispositivos legais.
Por volta das 17:00 horas da mesma data, um policial militar juntamente com um oficial de justiça da 6.ª vara de família apresentaram ao representante a pessoa de José Dimas pereira dos santos, a fim de ser recolhido em razão de mandado de prisão por inadimplência de pagamento de pensão alimentícia. Mais uma vez esclarecemos a impossibilidade de recebimento do preso sem autorização para recolhimento com presos comuns.

Em 10.12.98, por volta das 17:00 horas o representante foi surpreendido por um telefonema do Sr. secretário de estado da segurança pública, Dr. santos Moreira, noticiando que arbitrariamente sua prisão preventiva havia sido decretada sem qualquer fundamentação fática ou jurídica, tanto que foi revogada de ofício pelo ilustre juiz titular da 7.ª vara criminal, Dr. Fernando caldeira Brant.

Do direito: prescreve a carta política de 88 em seu art. 5.º, liv e lv “ninguém será privado de liberdade ou de seus bens sem do devido processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e a ampla defesa, com meios e recursos a ela inerentes”.

In Verbis:

Ora ilustres julgadores no estado democrático ainda existe magistrado, o que é mais lamentável em nosso estado, mais parecido com policiais do período da repressão, que arbitrário e violento, sem qualquer fundamentação fática ou jurídica decretou a prisão preventiva deste signatário sem o devido processo legal, sem o contraditório e sem qualquer defesa, pois sequer foi ouvido. Estranho. Muito estranho o fato!

Vislumbra-se que, no seu deciso, os representados usaram do argumento “como garantia da ordem pública”, o que na verdade não ocorreu, haja vista que, a época dos supostos fatos, além de titular da Seccional Sul, era também o representante vice-presidente da Associação dos Delegados de Carreira de Minas Gerais, condições que jamais iriam lhe permitir deixar de cumprir a ordem ou até mesmo descumprir qualquer determinação legal, o que não é do seu feitio."

          Diante do arquivamento de seu processo, o juiz entrou com uma representação contra Faria na Corregedoria Geral de Polícia, por Desobediência/Prevaricação. A Corregedoria, sem entrar no mérito do conteúdo do procedimento e suas origens, lavrou incontinenti um TCO e o remeteu ao Juizado Especial Criminal, imputando ao delegado Faria os crimes de Desobediência/Prevaricação. O delegado atendeu à intimação para a audiência, sentando à frente de um juiz e um promotor, que o olhavam de maneira não muito amistosa. Afinal, a "vítima" era um juiz. Antes de iniciar a audiência, Faria foi surpreendido com a entrada do Diretor do Juizado Criminal, o juiz Erbert Carneiro, que fraternalmente lhe cumprimentou, deu um abraço e se retirou, demonstrando a amizade que nutria com aquele policial, sem deixar que seu senso ético, interferisse na audiência. O juiz presidente, perguntou ao delegado se tinha conhecimento do processo e acusação. Faria então disse:


"Excelência, acusação não, acusações. E eu gostaria de saber do que realmente estou sendo acusado. Tenho em minhas mãos, duas defesas, uma para Desobediência e outra para prevaricação. No caso em pauta, pelas circunstancias, os dois crimes não poderiam ser cometidos simultaneamente, mas a corregedoria não percebeu essa aberração. Então, preciso saber do que sou acusado para provar minha inocência". 

          O juiz olhou para o promotor e não tinham muito que falar. Foram pegos de surpresa ao perceberem o erro. Pediram ao delegado réu para aguardar um momento que iriam dar uma olhada no processo e retornariam. Depois de cerca de vinte minutos retornaram com o posicionamento: Desobediência. 

          Faria abriu um dos dois volumes que carregava e apresentou três documentos em sua defesa, um ofício de encaminhamento do preso ao delegado da Delegacia de Vigilância Geral e não ao Seccional Sul, o Mandado de prisão por falta de pagamento de pensão alimentícia e a revogação da Prisão Preventiva pelo Juiz Fernando Caldeira Brant, da 7ª Vara Criminal. 

Mais uma vez os dois, promotor e juiz se retiraram minutos depois retornaram com a sentença: Absolvido. Fato Atípico.

          Faria, tinha as provas concretas da falta de lucidez do magistrado e ingressou com uma ação de danos morais e materiais, sem muita perspectiva, já que um juiz julgaria seu par. Para surpresa do delegado, o processo tramitou de forma célere, e a sentença, inédita, favorável a Faria e o valor indenizatório de Dez Mil Reais a ser pago pelo juiz/réu. O juiz José Batista de Alvarenga Coelho contratou um Desembargador aposentado como advogado e conseguiu reverter a decisão no Tribunal de Justiça. Faria não interpelou recurso em Brasília, devido ao falecimento do juiz, vítima em um acidente de carro.


CEM TRILHÕES


          Na polícia acontecem casos inusitados que ajudam a suportar as intempéries da carreira. Faria era titular da Seccional Sul e despachou para o delegado Wellington Petrillo alguns registros de furtos de bolsas de mulheres em academias, hospitais, escolas, etc. Posteriormente os documentos, cartões de crédito e talonários de cheques que se encontravam nas bolsas furtadas eram utilizados na prática de estelionatos nos shoppings e lojas da zona sul da capital mineira. Os policiais daquela Seccional já tinham o perfil de uma mulher, a autora dos delitos, que por coincidência, era filha de um conhecido estelionatário, o advogado Silviomar. Instaurado o inquérito policial para apuração dos fatos e requerido o mandado de busca e apreensão no endereço dos estelionatários pai e filha, prontamente atendido pela Justiça. Petrillo compareceu ao endereço acompanhado de alguns policiais e testemunhas, onde após a busca arrecadou vários documentos que identificavam ilícitos e objetos furtados, possibilitando a instauração de vários outros inquéritos e a prisão da estelionatária. Passados alguns meses da prisão, Faria recebeu com certo espanto, um ofício do Corregedor-Geral que satirizava uma representação recebida naquele órgão, assinada por pelo estelionatário Silviomar. Na representação, reclamava que o delegado Seccional tinha entrado em sua casa ilicitamente por não possuir mandado de busca e arbitrariamente teria prendido sua filha. O detalhe da representação é que o Corregedor despachou “determinando” que Faria pagasse a indenização pedida no documento protocolado na Corregedoria por danos morais: o valor de “cem trilhões de reais”. Na impossibilidade de fazer a “quitação” do pagamento, Faria despachou para que Petrillo, delegado responsável pela diligência, efetuasse o pagamento da indenização requerida, que girava, nos valores da época, em quase noventa trilhões de dólares. Uma bagatela.

Abaixo algumas fotos da equipe de policiais e amigos da Seccional Sul nos anos de 1996/1997/1998.



Fotos acima: com seus amigos: 1ª. Ricardo Tavares(advogado), delegados Márcio Pilotinho, Islande, Bispo, Faria, Ana Glaura, Jaime, João Bosco, Minelli. Sentadas: Rita Virgínia(advogada) e Soraia(delegada). 2ª. Gilson, Faria, Gilberto e Cláudio. 3ª. Petrillo, Faria, Lamounier, Nilton Ribeiro e Ronaldo Cardoso.

 

Acima: Momentos de descontração com seus policiais e amigos. Betti (Juiz Federal), Gilson. Adauto e Faria. Faria e as mulheres policias da Seccional Sul e Pedro Neves. Equipe de detetives e escrivães da Seccional Sul. Faria, Ronaldo Cardoso, Lamounier e Adauto. Faria com o jogador "Palhinha" e policiais da Seccional Sul. Dirceu "Beleza" abraça Márcia Farina, a chefe de cartório. Na última, "Pilotinho", Islande, Petrillo, Mário "Fofoca", Faria e Jorge Sobrinho.


A ADEPOLC 

          Nos anos de 1994 a 1999, Faria teve que compatibilizar suas atividades como titular de delegacias de muito movimento com as funções de Vice Presidente da ADEPOLC e posteriormente respondendo pela presidência da Associação dos Delegados por seis meses, quando do afastamento de Reinaldo Magalhães para disputa de cargo político. Nas fotos a seguir, registro de envolvendo sua participação nesses eventos, ao lado do Senador Romeu Tuma e de outros delegados.

 

 CESPE e CURSOS INTERNACIONAIS

           Durante esse período biográfico, Faria se preocupou na atualização de conhecimento para aprimorar-se e aperfeiçoar-se através da especialização. Não basta ao policial se destacar operacionalmente e relegar a importância do conhecimento a segundo plano. E essa sempre foi a visão do delegado Faria em relação à busca que o policial deve ter em relação ao saber.

 

  

         O curso de chefia, em 1993, foi ministrado pela ACADEPOL. Na mesma linha temporal, Faria participou de cursos de grande expressão para o desenvolvimento de sua carreira: o I CESPE 1996, um ícone do ensino e especialização da Polícia Civil mineira  e o curso no Instituto Superiore de Polizia, em Roma-Itália/1998 idealizados pelo delegado Milton Fortes.

          Ambos eram a  extensão do mesmo projeto e mostrariam, através de estudo comparado, a realidade de duas polícias de primeiro mundo com a segurança pública em Minas Gerais. 

          As fotos acima registram Faria com seus companheiros delegados Gustavo Botelho, Wellington Petrillo, Ronaldo Cardoso, Minelli, Monducci, Jaime, Nonato, Júlio Galante, Pitágoras, Cícero Martins, Fidelcínio, Sandoval, Lúcio Messias, Inácio Murta e o amigo Paulo Pedras. Registra também: Instituto Superior de Polícia, Firenze, Departamento de Repressão à Máfia/Organizações Criminosas e Departamento de Telecomunicações.

 

          A belo e bem estruturado Instituto Superiore de Polizia, em Roma-Itália, com seus modernos e confortáveis alojamentos, loja de souvenirs, Bar/Café, amplo auditório, restaurante, salas de aulas e tudo o que uma escola pode oferecer para a transmissão de conhecimento aos seus alunos.

 

       

 

 

 

 

 

 

2011 Biografia Faria 4 - RODI/Delegacia de Falsificações/Seccional Sul. © 2012 - Cyberpolicia: História da Polícia Operacional Investigativa
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