Biografia Faria 3 - O Delegado de Furtos e Roubos

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Categoria: Biografia

 

 BIOGRAFIA FARIA PARTE III

 

DELEGADO DE FURTOS E ROUBOS

 1988. Faria, titular da 4ª DEFR. Logo da Divisão. Equipe de delegados da DCCP no mesmo ano. Da esquerda para direita: Renato Queirós, Faria, Paulo Porto, Chefe da Divisão de Crimes Contra o Patrimônio, "Zé" dos Santos, Pascoal e Marco Antonio Teixeira. 

 

 Em 1988, Faria chega de Manhuaçú e inicia seus trabalhos na capital, assumindo a titularidade da 4ª Delegacia Especializada de Furtos e Roubos. Era Chefe de Divisão o delegado Benigno Alves da Costa, “Zé dos Santos”, titular da 1ª Delegacia, Yebel da 2ª, Pascoal da 3ª e Hilário da 5ª Delegacia Especializada. Faria tinha uma seleta equipe de policiais: a escrivã Tânia e Osvaldo Wierman, inspetor Carlos Augusto, o “Carlinhos” e dezesseis detetives divididos em quatro equipes. Possuía uma estrutura que nunca tivera antes e pensava nos resultados que poderia apresentar agora, como responsável por uma das mais respeitáveis delegacias mineiras. A Divisão de Crimes Contra o Patrimônio foi construída em substituição à antiga Delegacia de Furtos e Roubos, da Rua Pouso Alegre, 517, na Floresta. Tinha modernas instalações, para 1984/85, época de sua criação na rua Uberaba, 175, Barro Preto. Possuía um andar térreo onde era instalada a inspetoria e as cinco subinspetorias. No segundo andar foram instalados os gabinetes do Chefe de Divisão e dos delegados titulares das cinco especializadas. Nesse andar ficava ainda, a chefia de cartório, os demais cartórios, o primeiro parlatório em uma unidade policial de Minas Gerais e um auditório. Nos fundos do primeiro andar, a carceragem da DCCP, que chegou a abrigar mais de 600 presos em 22 celas com capacidade para cerca de 90 presos.

          Abaixo registramos alguns casos pitorescos e fatos dos anais da história policial da Divisão de Crimes Contra o Patrimônio/ “Furtos e Roubos”, naquele lapso temporal, que de alguma forma envolveram o policial Faria e fazem parte de sua história.      

         

 A MORTE DE "RAMBO"




 Reportagem Estado de Minas sobre morte de "Rambo"(acima).  Os ladrões Gilberto e Rogério. Charge do jornal Estado de Minas: a prisão do ladrão morto, dos artigos abaixo.
                 

          Logo que iniciou suas atividades na 4ª Delegacia de Furtos e Roubos, o Delegado Faria, assim como todos os   policiais daquela unidade especializada, sofreu com a perda trágica de um jovem companheiro. Almir dos Santos Lima, um detetive de 24 anos, recém-formado na ACADEPOL, assassinado a tiros no Morro do Papagaio por bandidos daquela favela (Ver MEMORIAL, neste site). Na tarde daquele fatídico 29 de novembro de 1987, toda as delegacias da capital e um grande número de policiais militares, que incluía a cavalaria foram para o Morro do Papagaio. A PM cercou todas as entradas, enquanto os policiais civis entravam pelos becos da favela, na busca dos assassinos. Já no final da tarde, o delegado Faria, que se fazia acompanhar de Olegário (filho do Paulo Olegário) percebeu que uma mulher lhe indicava a casa ao lado de maneira discreta, usando o dedo indicador. Rapidamente os dois policiais adentraram no terreno, onde viram um homem com uma enxada na mão, como se estivesse capinando. O homem foi prontamente dominado por Faria e Olegário, que acharam uma arma em seu poder. Era Orivaldo Divino Tito, o "Vovô", foragido da Penitenciária de Neves e responsável pelos tiros disparados que mataram "Rambo". O bandido ainda tentou se esquivar, falando que era "chorro” (Batedor de carteiras), mas foi conduzido para a Furtos, onde foi interrogado. "Vovô" confessou a autoria dos disparos que atingiram mortalmente o policial, na companhia de um menor. Era responsável por uma série de assaltos e condenado a 16 anos de reclusão por homicídio, quando fugiu da Penitenciária. Da Delegacia de Furtos, "Vovô" foi transferido para a Delegacia de Vigilância Geral, em virtude do clima de revolta entre os policiais, companheiros de Almir, o "Rambo". Antes, de ser encarcerado, o bandido foi conduzido para o plantão do Departamento de Investigações para a lavratura do Auto de Prisão em Flagrante. Durante o flagrante, um grande tumulto ocorreu na entrada e corredor do andar térreo do DI, quando os policiais de plantão perceberam que iriam tentar matar "Vovô", com uso de uma faca. Era a tentativa de aplicar a lei de Talião: "Dente por dente, olho por olho". A ação ou intenção, foi prontamente repelida pelos policiais de plantão. Posteriormente Orivaldo Divino Tito, o "Vovô", fugiu novamente da Penitenciária, para onde fora recambiado. Policiais da equipe do Delegado Pascoal, da 3ª DEFR, foram procurados por um informante que sabia o barraco onde o criminoso estava escondido, propondo levá-los ao local, na região do Bairro Olhos D'água. Ao chegarem ao barraco, o informante aproximou-se para certificar-se da presença do criminoso na residência. "Vovô", de dentro do barraco, percebeu a aproximação do informante e dos policiais, reagindo com violência, disparando seu revólver na direção de seus oponentes. O informante, por estar à frente, caiu ao solo, atingido por um tiro mortal. Os policiais revidaram a agressão e mataram Orivaldo Divino Tito, o "Vovô", com vários tiros. A justiça, ainda que de forma violenta, fora feita.


1988. HISTÓRIA DE “JOÃOZINHO E MARIA”


          Em junho de 1988, três ladrões identificados como Gilberto Marcus, Sebastião dos Santos e Rogério Carlos Felipe, arrombaram uma mercearia no bairro Marajó, em Belo Horizonte, onde furtaram vários pacotes de cigarros e sacos de moedas. Durante o período que permaneceram no comércio, beberam várias cervejas e cachaça, fugindo com o material subtraído e mal se mantendo em pé, devido ao estado etílico que se encontravam. Em razão da embriaguez, os meliantes não perceberam que o saco de moedas estava furado e como na história de “Joãozinho e Maria“ que espalharam pedaços de pão para acharem o caminho de volta, a realidade imitou a ficção e os marginais indicaram suas residências através das moedas que caíram durante o trajeto. O próprio comerciante, João Mendes ao verificar que sua mercearia estava arrombada, seguiu o rastro deixado pelas moedas até a casa de um dos ladrões, acionando a polícia que os prendeu horas após o furto. Estavam ainda, bastante alcoolizados e atônitos pela “competência policial”.

 
1988. O CENTRO – AVANTE LADRÃO


          No ano de 1988, aconteceu uma série de assaltos e arrombamentos a residências em na capital das alterosas, praticados por um único elemento, de acordo com as características fornecidas pelas vítimas. O delegado Faria designou os policiais Trazíbulo, Cezário, Luiz e Célio, que faziam parte de sua equipe para iniciarem as investigações. Em pouco tempo o bandido foi identificado como o fugitivo de Neves, Mauro Dias Rodrigues, que estava morando na região de Contagem, em local incerto. Apurou-se também um detalhe interessante na personalidade esportiva do marginal: era jogador de futebol e atuava como ponta-direita do Flamengo, do Bairro Bernardo Monteiro, em Contagem.
E não abria mão de participar das partidas de seu time. 
          Durante as investigações os policiais tomaram conhecimento de que o assaltante era o melhor jogador do time no mês de maio, daquele ano, ocorreria a partida final do campeonato de Várzea, com a disputa entre o Flamengo e Rio Negro. Logicamente, Mauro Dias jogaria, principalmente em uma final de campeonato onde era titular absoluto. Faria e seus policiais traçaram a estratégia e o planejamento da ação para prendê-lo sem chance de fuga. Os policiais foram para as laterais do campo com suas armas escondidas nas roupas, incluindo na escopeta. Quando teve a partida teve seu início, os policiais perceberam que o criminoso estava em campo e para que lado iria atacar. Postaram-se próximo ao gol do Rio Negro, como meros torcedores e aguardaram o melhor momento para efetuar sua prisão. Em um ataque do Flamengo, Mauro correu com a bola pela linha de fundo, passou pelo lateral de forma espetacular e se dirigiu para o gol, preparando-se para o chute que poderia lhes dar o título. Nesse momento o assaltante se viu agarrado por torcedores, sem saber ao certo o que estava acontecendo. O juiz apitou e marcou falta favorável ao Flamengo, entendendo ser invasão de campo da torcida adversária.
Na realidade eram os policiais fazendo a prisão. 
      A equipe de policiais teve de agir com energia, pois a torcida do Flamengo não queria deixar levá-lo. Alguns membros da diretoria do Flamengo tentaram argumentar com a polícia a importância do jogo e relevância da presença do jogador, mas não conseguiu convencer os policiais da “Furtos” que o conduziram preso. A mídia explorou de forma jocosa as circunstancias inéditas da prisão. O Jornal Nacional, da Rede Globo, do ancora Cid Moreira, à época, encerrou o programa jornalístico comentando com ironia e sarcasmo a prisão: “Ponta direita do Flamengo é preso e time perde campeonato na decisão. Boa Noite”.

 Charge do Jornal Diário da Tarde  sobre o centro avante ladrão.
Reportagem do jornal Estado de Minas sobre o ladrão vítima
A vítima, corretor Domingos Caetano e seu algoz, Pablo.(artigos abaixo).


1988. A VÍTIMA ERA O LADRÃO OU O LADRÃO ERA A VÍTIMA?


          Também em 1988, a PM apresentou para Faria o conduzido Domingos Peres dos Santos, acusado de ter furtado Joel Pereira de Andrade. Iniciadas as apurações por policiais da 4ª Delegacia, comprovou-se que a “vítima” apontada pela PM no Boletim de Ocorrência já estava morta acerca de um ano. Concluídas as investigações, comprovou-se que, na realidade, Domingos Peres era vítima e ficou sem CR$ 200,00 depois de ameaçado com um facão. O assaltante era o indivíduo que se identificou como Joel Pereira de Andrade, registrado na ocorrência como “vítima“. O título das matérias do Estado de Minas e Diário da Tarde na época ironizava a “ação policial”:
“Prenderam vítima e soltaram ladrão com carteira de morto” e “Assalto a morto provoca confusão“. 
A imprensa questionava:

Como pode um assaltante morto há quase um ano ser vítima de um assalto?


1988. A MORTE DO CORRETOR E A EXTORSÃO

                          

          Em dezembro de 1988 o delegado Faria trabalhou em um caso interessante, quando Chefe da 4ª Delegacia Especializada de Furtos e Roubos, na investigação do desaparecimento e posteriormente morte do corretor de imóveis Domingos Caetano Filho. A vítima foi encontrada às margens do anel rodoviário, próximo ao Bairro Olhos D’água, em adiantado estado de decomposição, não sendo sequer reconhecido por seus familiares no Instituto Médico Legal. Durante as investigações chegou-se ao fato de que a vítima era homossexual e possivelmente seria um latrocínio praticado por um parceiro, até então desconhecido. Com o trabalho minucioso de entrevista com amigos, em locais que frequentava, porteiro do prédio e outras pessoas chegou-se à autoria do assassinato. Pablo, da cidade de Ipatinga, foi identificado como autor. O crime teria se consumado após um programa entre os dois.

           Apesar do corpo não ter sido reconhecido pela família, Faria orientou seus policiais, a procurarem entre os amigos e pessoas de seu relacionamento, alguém que pudesse ser menos passional em relação à vítima e conhecesse seus hábitos e características, como roupas. Faria tinha convicção de que era o corpo do corretor que estava no IML, mas dependia da identificação para prosseguir nas investigações. As diligencias nesse sentido deram resultado e o corpo foi reconhecido por um amigo da vítima, também homossexual, que conhecia as marcas das roupas que Domingos usava. Antes de ver o corpo, a testemunha afirmou para o delegado que Domingos era metódico e só usava as mesmas marcas para suas calças, camisas e cuecas, falando os nomes das grifes e identificando-as no corpo da vítima. Era inquestionável o reconhecimento, corroborado pelo encontro de roupas das mesmas marcas no guarda roupa da vítima, em seu apartamento. Paralelamente às investigações, alguém que vira nos jornais da época, matérias preliminares que noticiavam o desaparecimento do corretor e desconhecendo que a polícia já localizara o corpo, tentava extorquir a família.

          Esse criminoso começou a fazer contatos com a família, com graves ameaças de matar Domingos (já morto) caso não efetivasse o pagamento do resgate de CZ$ 5.000.000,00 (cinco milhões de cruzados). A pessoa desconhecia que todos os telefonemas estavam sendo gravados. Depois de negociação dos familiares, acompanhadas por Faria, Carlinhos, Daniel, Djalma, Mauro e Elídio. Chegou-se a um acordo de pagamento do resgate no valor CZ$ 3.000.000,00 (três milhões de cruzados). Os policiais receberam as informações deixadas com os familiares com orientação do local e horário para a entrega do dinheiro, na Avenida Penetração, Bairro Bernardo Monteiro, em Contagem. Os policiais foram para o local e se esconderam, mas o chantagista desistiu de pegar as sacolas previamente cheias de jornais picados, ligando para os familiares com novas ameaças contra a vida de Domingos, caso houvesse interferência da polícia. No dia seguinte foi marcado novo local para a entrega do resgate, na Av. Lusitana, 464, Bairro das Indústrias, às vinte horas. Juntamente com Carlinhos e policiais da 4ª Delegacia, Faria foi para o local onde distribuiu seus policiais estrategicamente, após o inspetor deixar as sacolas com os jornais no local combinado, como se fosse um familiar. Não demorou mais que 5 minutos para aparecer um homem na escuridão que rapidamente apanhou as três sacolas e as abriu, observando com surpresa que não havia dinheiro. O homem largou as sacolas no chão e tentou correr, quando foi dominado e conduzido à “Furtos e Roubos”, na Rua Uberaba. O elemento identificado como Orlando Rodrigues de Oliveira negou veementemente ser o autor da tentativa de extorsão e que estava apenas de passagem por aquele local. Mas, diante do gravador ligado pelo delegado com vozes ameaçadoras tentando a extorsão, não teve como negar ser ele o autor. A voz era dele. Um detalhe importante na mudança tecnológica ao longo das décadas é que a gravação foi feita através de um gravador de fita cassete acoplado ao telefone fixo. Na época não existiam celulares ou uso de interceptações telefônicas. O criminoso foi autuado em flagrante e condenado pela justiça. Pablo, o menor autor do latrocínio evadiu-se para os Estados Unidos com a ajuda de sua avó.

1988. A GREVE


              No ano de 1988, quando Newton Cardoso era Governador de Minas Gerais  e Secretário de Segurança o criminalista Sidney Safe, iniciou o movimento classista por melhores salários para os policiais. Newton sempre foi um político de pouco diálogo, principalmente em relação à polícia, que em épocas passadas, o investigou por estupro. Dizem que chegou a comentar pelos bastidores que os policiais não precisavam de aumento, pois "tinham uma carteira com sete letras". Dentro desse clima desrespeitoso com os policiais foi deflagrada a greve, que, em tese, deveria ser geral, mas órgãos como o DETRAN, inexplicavelmente, nunca participaram de movimentos grevistas. Sempre que observarmos esses movimentos grevistas, iremos diagnosticar que o policial das unidades operacionais participam efetivamente, e por isso, muitas vezes, sofrem revezes pela sua postura, enquanto outros apenas observam e esperam, à distancia. Dentre esses, um se destacou em 1988, o delegado Domingos Carneiro Costa, o "Domingão", que trabalhava nos gabinetes da secretaria. Tentando furar o movimento grevista e demonstrar que a Polícia Civil estava nas ruas, ele arregimentou cerca de dez viaturas caracterizadas de unidades distintas e fez um desfile com sirenes ligadas pela Avenida Afonso pena. O ato covarde, realizado tão somente para agradar sua chefia, lhe rendeu, pouco tempo depois, a promoção à Delegado Regional de Uberaba, causando enorme indignação entre toda a classe policial. Paralelamente, o Departamento de Investigações assumiu de maneira transparente, sua participação no movimento deflagrado. A Divisão de Crimes Contra o Patrimônio (Furtos e Roubos) tinha como chefe, o diligente e reto delegado Benigno Alves da Costa, que assumiu sua condição de simpatizante com a causa reivindicada pelas entidades policiais. A "Furtos" fechou suas portas e, segundo a imprensa, ali era o termômetro da criminalidade. Logicamente o índice criminal cresceu naquele período. Para o governo era necessário uma medida de choque para conter o movimento e a cabeça do chefe da "Furtos" foi escolhida para servir de exemplo aos insurgentes. O ato de exoneração saiu no Diário oficial de fevereiro daquele ano e foi o estopim para que o tiro saísse pela culatra. Dos cinco delegados titulares, apenas um não aderiu ao ato de desagravo. Os delegados Faria, Minelli, Zé dos Santos e Hilário convocaram todos os policiais da "Furtos" e a imprensa para uma homenagem com todas as características de insurgência. No auditório da Divisão de Crimes Contra o Patrimônio, uma placa de prata era outorgada a Benigno, em homenagem ao "Grande Chefe", como era carinhosamente tratado por seus policiais. No mesmo ato, os delegados titulares das Delegacias de Furtos e Roubos, Faria, Minelli, Zé dos Santos e Hilário fizeram a entrega simbólica de seus cargos em solidariedade ao chefe e amigo. O quinto delegado, Yebel da Costa, que não aderiu ao evento, foi flagrado pelos repórteres, entre as viaturas do estacionamento da Divisão. Pouco tempo depois foi promovido a Delegado Regional de Formiga. No dia seguinte ao ato de desagravo à administração superior e governo, os jornais estampavam sua matérias:

 "Com a ausência de apenas um delegado, Yebel Alves da Costa, cotado para assumir a Delegacia Regional de Formiga, delegados, inspetores, subinspetores, detetives e escrivães da Delegacia de Furtos e Roubos, fizeram uma homenagem ao delegado Benigno Alves da Costa, exonerado pelo Secretário de Segurança Pública. Dos cinco delegados de Furtos, apenas Ricardo Minelli foi indicado para outra unidade e vai servir na Delegacia de Menores. Os outros quatro também foram destituídos e aguardam designação para outra unidade. A destituição maciça, inédita na história da Divisão de Crimes Contra o Patrimônio foi explicada por Sidney Safe." 21/2/1988- Jornal Estado de Minas.

  Reportagem Jornal Estado de Minas: "Benigno Sai da Furtos e Recebe Homenagem." .                                                         Benigno, retidão de caráter à toda prova.       

          

 A saída de Benigno

          Benigno Augusto da Costa foi um delegado sério e comprometido com seus ideais institucionais e profissionais, não abrindo mão do cumprimento de suas obrigações legais e os deveres que a atividade policial lhe impunha. Mas sua personalidade austera e voltada para a vocação policial lhe custou a chefia da DCCP, quando foi exonerado do cargo por apoiar seus policiais em anseios justos. Nos artigos Década de 90 e Grandes Policiais podem ser pesquisadas outras informações sobre Benigno. Durante sua administração à frente da DCCP, deixou uma história de sucessos operacionais produzidos por sua fiel equipe.                                                            

          Apesar das notícias e a própria entrevista do Secretário de Segurança que declarou o afastamento de todos os delegados, Faria, Zé dos Santos e Hilário não foram molestados e permaneceram ainda por vários anos na “Furtos e Roubos”. Inacreditavelmente, a retaliação que nunca veio e nem foi explicada, acabou fortalecendo a Delegacia de Furtos e Roubos como foco de resistência aos desmandos. Com a saída de Benigno, Minelli e Yebel, o delegado Paulo Porto assumiu a Divisão e Valdomiro Pascoal (Calangão) e Marco Antonio Teixeira (Farol de Kombi) se tornaram titulares das 3ª DFR e 5ª DFR respectivamente. Outras informações sobre os atos da administração superior em 1988, em "Décadas/ Década de 80, neste site". 

1988. A QUADRILHA DE RENATO CAETANO E A ADVOGADA PAULISTA.

            Nas fotos abaixo, reportagens sobre a prisão da maior quadrilha de roubo a bancos que atuava em Minas, SP e RJ no final dos anos 80. O bando era chefiado por Renato Caetano e tinha como cérebro nos planejamentos das ações criminosas, uma advogada paulista. A quadrilha de Renato Caetano já atuava em Belo Horizonte e cidades vizinhas há alguns meses em 1988, o que era um desafio para os policiais da "Furtos e Roubos". Alguns já haviam sido reconhecidos através de fotos policiais, quando tiveram passagem no cárcere daquela unidade policial. A maioria eram mineiros, mas para dificultar suas prisões, foragiam para os estados de São Paulo e Rio de Janeiro após suas ações delituosas. Em um deslocamento do Rio de Janeiro para mais um assalto em Belo Horizonte, Renato Caetano sofreu um acidente no carro roubado que dirigia e morreu na BR 040, próximo à cidade de Conselheiro Lafaiete. Ao tomarem conhecimento, os policiais iniciaram uma campana no velório, onde identificaram Márcia, uma advogada de São Paulo, como sendo a namorada do bandido morto. Logo após o velório, os criminosos não perderam tempo e perpetraram o assalto contra o Banco BEMGE, na Avenida Pedro II. Não havendo dúvidas de sua participação, já que identificaram um dos criminosos em contato com Márcia, a advogada foi abordada e conduzida à delegacia, onde confessou sua participação no planejamento dos roubos e identificando todos os partícipes. O trabalho foi coordenado pelo delegado Waldomiro Pascoal e sua equipe, tendo Paulo Porto designado o delegado Faria para o apoio operacional nas diligencias executadas no Rio de Janeiro e São Paulo, onde todos os membros da quadrilha foram presos. Os delegados Pascoal e Faria, com os inspetores Balbino e Zé Maria Cachimbinho, além dos detetives Marília, a "Lili Carabina", Manoel, "Zito", Marcos e outros seis policiais fizeram um rápido deslocamento para São Paulo (capital), Copacabana e Cabo Frio, no Rio de Janeiro, onde conseguiram prender um total de nove homens e duas mulheres.

 

     
          Cabe ressaltar a coragem da detetive Marília, que entrou na casa dos assaltantes que se encontravam escondidos em Cabo Frio, simulando ser uma turista à procura de casa para temporada. Tomou um lanche com eles, observou o ambiente, agradeceu e saiu. Com isso permitiu que seus companheiros tivessem informações privilegiadas sobre o número de bandidos e a estratégia policial para entrar no imóvel. Outra situação inusitada aconteceu quando da prisão de Antonio Evangelista, o "Tonho", e Carlos Alberto Maia, o "Carlinhos Alfaiate" em plena Copacabana. Diante do tumulto, a PM carioca chegou ao local e tentou render Faria, Pascoal e os policiais da Furtos, que, obviamente não acataram a determinação ilegal. Diante daquele quadro, uma multidão que aglomerou nas proximidades começaram a vaiar os militares e a gritar palavras de ordem:

"Isso é que é polícia. Que venha a polícia de Minas. Parabéns mineiros".

      Aquela ovação e a efusiva aclamação com palmas e palavras de ordem encheram de orgulho aqueles policiais, ao mesmo tempo que irritou e provocou os militares. Faria e Pascoal avisaram aos PMs cariocas que poderiam seguir as viaturas até a Delegacia Polícia de Copacabana. Num descuido dos PMs, no transito, os policiais mineiros despistaram "sua escolta" e saíram em direção à Chefia de Polícia, no centro do Rio, onde esperaram a poeira abaixar para prosseguirem na viagem de volta.

1988. O CERCO À DELEGACIA DE FURTOS E ROUBOS

Acima, a Rua Uberaba, no Barro Preto e à direita o prédio onde funcionou a Divisão de Crimes Contra o Patrimônio e suas cinco especializadas. Atualmente está instalada a Delegacia de Repressão ao Furto e Roubo de Veículos.


      Final dos anos 80, já vislumbrando o nascimento da nova década e a promulgação da Constituinte de 1988. A Divisão de Crimes Contra o Patrimônio destacava-se por sua série de bons trabalhos que lhe garantia o título de Polícia Nota 10, em seção do Jornal Estado de Minas. Dentro desse ambiente, através de Paulo porto e seus delegados, foi criado um clima de bom relacionamento com a Polícia Militar, principalmente com o Coronel Trant e Major Baia, que frequentemente se encontravam com os policiais da Furtos e Roubos. E graças a este bom relacionamento não aconteceu uma tragédia de proporções inimagináveis. Naquela ocasião o Comandante de Policiamento da Capital  era o Coronel Amauri Meireles que não escondia sua pouca simpatia pelos policiais civis e foi o mentor do incidente.

      Durante uma diligencia de detetives da Furtos e Roubos na região do Bairro Alípio de Melo, ocorreu um atrito com um motorista que quase abalroou a viatura e ainda esboçou palavras agressivas para os policiais. Diante do erro do motorista, os policiais o abordaram, quando foi identificado como Cabo da Polícia Militar, do Batalhão de Transito. De forma arrogante e desafiadora, o policial militar, que estava à paisana, desacatou os detetives, que o dominaram e o levaram para a Delegacia de Furtos. Um erro crasso. 

      Diante do problema que lhe era apresentado, Paulo Porto, Chefe da Divisão chamou Faria e Zé dos Santos para buscarem uma solução, quando houve consenso em chamar o Coronel Trant e Major Baia, que por feliz coincidência, eram Comandante e Subcomandante do Batalhão do conduzido. Os delegados telefonaram para os dois oficiais e explicaram o problema, pedindo que comparecessem à delegacia, no que foram prontamente atendidos. Ao chegarem os dois militares reuniram-se com Paulo Porto, Faria e Zé dos Santos, quando lhes fora dada a garantia de apuração dos fatos com transparência pela Corregedoria, já que não concordavam com a condução do Cabo PM para a Delegacia de Furtos e Roubos. Era um problema de transito que deveria ter a ocorrência encerrada no DETRAN. Trant e Baia confiavam naqueles delegados e na postura que estavam adotando diante da ocorrência, concordando em levar o policial militar e adotar também, as medidas necessárias para apuração de sua atitude pouco amistosa diante de policiais civis, devidamente a serviço. Aparentemente, as coisas caminhavam para uma solução amistosa, entre profissionais de duas instituições que primavam pelo diálogo diante daquela pequena crise que se encerrava.  

      Mas a crise maior, estava por vir, nos arredores da Delegacia de Furtos, mais precisamente na confluência de Avenida Augusto de Lima com ruas Barbacena e Uberaba. Um policial civil entrou correndo na sala de reunião, gritando que a Delegacia de Furtos estava cercada. Rapidamente dezenas de detetives apanharam metralhadoras, escopetas e fuzis, se posicionando na cobertura do prédio, janelas e portaria da Divisão, que teve suas portas de entrada fechadas. Os delegados Faria, Zé dos Santos e Major Baia desceram correndo, seguidos pelo Coronel Trant e Paulo Porto. Ao abrirem a porta da frente da Divisão e saírem no passeio, viram uma verdadeira "Praça de Guerra". Policiais militares desciam de micro ônibus e patrulheiras e se posicionavam na Rua Barbacena, atrás de viaturas na Rua Uberaba e esquina de Avenida Augusto de Lima. Os policiais civis, em posição de vantagem, como franco atiradores, tinham os militares sob mira do alto do telhado da Delegacia, tendo o beiral da laje como escudo. Bastava um tiro acidental para que a carnificina se consolidasse.

       O Coronel Meireles, ao tomar conhecimento do incidente com o policial militar e sua condução para a DCCP, como comandante, que deve ter sempre a frieza nas decisões, jogou toda a lógica conciliadora por terra e determinou a invasão da Delegacia de Furtos para resgate do policial militar. Não conseguiu o que queria e ainda ficou desmoralizado com a ordem ilegal não cumprida, graças à pronta resposta dos policiais da Furtos. Esquecera aquele comandante que aqueles policiais defenderiam com o próprio sangue aquela unidade policial.

          No momento que mandava invadir a delegacia, três delegados e dois oficiais PM, serenamente solucionavam o problema. O Major Baia, muito conhecido da tropa, por sua carreira em unidades operacionais da PM e conhecido linha de frente, saiu aos gritos para que os policiais militares retornassem para os micro ônibus e se retirassem dali. Meio sem entender, mas acreditando na liderança daquele oficial que admiravam, os militares foram abaixando a guarda e se retirando de suas posições. Descumpriram a ordem de seu comandante Coronel Amauri Meireles, por confiarem no policial Baia. Paralelamente, Faria e Zé dos Santos adotavam a mesma medida em relação aos policiais civis entrincheirados em todos os espaços possíveis que a estrutura do prédio lhes proporcionava.  Há que se registrar ainda, que no meio de todo esse furacão, existiam cerca de 400 presos encarcerados e inúmeros cidadãos que estavam na delegacia da condição de vítimas ou testemunhas e, que, certamente, sofreriam as consequências de um confronto daquela proporção.


1989. OS LATROCÍNIOS DE TAXISTAS

      Este foi um ano atípico em relação à violência contra taxistas em Belo Horizonte. Vários latrocínios causaram terror entre os profissionais do volante, trazendo cobranças e pressão para apuração dos crimes. O último caso caiu nas mãos do delegado Faria, responsável pelo recebimento da ocorrência que vitimou Luiz Fernandes Esteves, assassinado com um tiro na nuca na região do Bairro Gorduras, tendo os criminosos levado seu carro roubado. Este crime foi o ápice da covardia e revolta de seus companheiros taxistas que fizeram longas passeatas de protestos com seus veículos que passavam em frente ao Departamento de Investigações, Divisão de Crimes Contra o Patrimônio e Palácio da Liberdade, promovendo buzinaços. No mesmo período que Luiz foi morto, outro taxista, Geraldo de Souza, de Manhuaçú, também era assassinado com sete tiros e seu carro também roubado. Apesar da distancia entre os dois crimes, as características eram as mesmas. O primeiro passo para a apuração dos latrocínios foi dado pela delegada Eliete Maria de Carvalho, por coincidência, titular da comarca de Peçanha, a primeira do biografado (Biografia Parte II-Delegado do Interior). Ela ligou para Faria informando que estava com um indivíduo envolvido em ocorrência com o veículo de Luiz Fernandes Esteves. Faria informou que se tratava de latrocínio e as investigações apontavam para uma quadrilha, solicitando que fizesse o flagrante do receptador por formação de quadrilha. A delegada argumentou que não seria possível, pois estava com apenas um elemento preso. Faria lhe disse para fazer o flagrante para lhes dar tempo de capturar o restante dos criminosos. Com a prisão em flagrante de Darcy Perpétuo, Faria iniciou diligencias na região de Carangola, Manhuaçú e Peçanha, conseguindo localizar e prender os criminosos Daniel de Souza Filho, o "Galo Cego"Joel Sabino Pereira e Alaíde Sabino. Apenas Joel de Manhuaçú conseguiu fugir. Mas, por pouco tempo.

       Os bandidos mataram os dois taxistas para roubar os veículos e vender para o receptador de Peçanha, onde tentaria legalizar a documentação dos mesmos. Com a quadrilha presa, Faria solicitou da justiça a transferência do flagrante para Belo Horizonte, onde foram anexadas as demais provas, declarações e depoimentos, representando pela prisão preventiva dos envolvidos. Faria fez a reconstituição do latrocínio do Bairro Bom Destino, quando Joel deu detalhes da morte de Luiz Fernandes. A vítima acreditou nos bandidos em razão de Alaíde, mulher de Joel, estar grávida à época. Quando retiraram a vítima do carro, em um local ermo de uma estrada rural, o colocaram de joelhos e, mesmo diante de suas súplicas para não morrer, recebeu um tiro fatal na nuca. desferido por Daniel, o "Galo Cego". Ele também foi um dos autores dos tiros na vítima de Manhuaçú. Esta reconstituição foi o maior aparato policial, da imprensa e de táxis, já visto na cronica policial.  Em carreata mais de cem veículos acompanharam as viaturas policiais até o local de morte do taxista.

 

             As fotos registram reportagem sobre os crimes, os policiais que participaram das investigações, os membros da quadrilha presos e a reconstituição de um dos latrocínios, sob forte segurança.

           Naquele mesmo ano, às véspera do natal, Daniel de Souza Filho, o "Galo Cego" foi encontrado enforcado no interior da cela da "Furtos e Roubos", com a utilização da própria calça para seu auto-extermínio.


1989. O ADVOGADO E AS PREVENTIVAS


          Esse fato se passou em 1989 quando da apuração do latrocínio de Ronaldo Gomes dos Santos, marceneiro assassinado por enforcamento com uso de uma corda, quando o maquinário de sua oficina foi roubado. Além desse crime, uma onda de assaltos com violência contra vigilantes de bancos foi consumada, sempre com as mesmas características, levando a polícia a acreditar em um único criminoso responsável. Depois de uma série de investigações coordenadas pelo delegado Faria com seus policiais, chegou-se à autoria do latrocínio e de dezenas de roubos praticados, com a identificação do ex-vigilante bancário Robson Antonio de Souza. Ao ser interrogado, confessou que se passou por vigilante de banco, utilizando roupas similares para ganhar a confiança das vítimas e entrar nos bancos e empresas. Confessou a série de assaltos com violência que praticara, assumindo sua responsabilidade criminosa.


          Diante da violência e barbárie dos crimes cometidos, Faria deu celeridade a um dos inquéritos de roubo, que necessitava de poucas diligências, representando à justiça pela decretação da prisão preventiva de Robson Antonio de Souza, argumentando o perigo à sociedade a manutenção daquele elemento em liberdade. O juiz Páris Peixoto, da 7ª Vara Criminal da capital decretou a prisão de Robson, por entender e concordar com os argumentos do delegado da Furtos e Roubos. O advogado de Robson, Orlando Amaral Pintorra, diante da impossibilidade de libertar seu cliente, armou uma situação que colocou a polícia em cheque. Peticionou ao juiz argumentando que Robson estava sendo torturado todos os dias para que confessasse os crimes que não cometera e era impedido de acesso por parte de se defensor. O juiz oficiou ao delegado Faria, determinando que o contato fosse autorizado e explicações fossem dadas sobre o teor da petição do advogado. Maliciosamente, o advogado usou de um artifício desleal para liberar seu cliente, ao oferecer “gentilmente” para entregar o ofício na delegacia, como forma de dar celeridade ao tramite.

          No entanto não entregou o ofício que dava o prazo de 24 horas para resposta e informou ao juiz, depois de vencido o prazo, a desobediência e o desrespeito com a ordem judicial. O juiz Páris Peixoto não teve alternativa que não fosse colocar em liberdade o assaltante latrocida em caráter de urgência. Afinal, os argumentos do advogado se mostravam factíveis e procedentes. O advogado comprometeu-se a apresentar Robson Antonio dos Santos sempre que fosse necessário algum procedimento policial, ou judicial. Logo após ser liberado, Robson Antonio dos Santos passou a ameaçar de morte suas vítimas de roubo, testemunhas e familiares dessas pessoas, que, de alguma forma colaboraram para que os argumentos para sua prisão preventiva fossem convincentes.

      Ao tomar conhecimento da trama armada pelo advogado, Faria conversou com seu chefe de Divisão, Paulo Porto que tomou a iniciativa de comparecerem ao Fórum em solidariedade a Faria, para conversarem com o juiz Páris Peixoto, magistrado que sempre se pautou pela parceria e credibilidade na Polícia Civil. Os delegados José dos Santos, Marco Antonio Teixeira e Renato Queirós também acompanharam a visita, quando o juiz tomou conhecimento da trama armada pelo advogado Orlando Amaral Pintorra. Faria falou com Páris Peixoto que não haveria problema em relação à liberdade de Robson, pois já havia entrado com outra representação pela prisão preventiva no inquérito do latrocínio, distribuído para a 5ª vara criminal, onde o juiz Arnaldo Garcia era titular. Indignado com o procedimento do advogado, Páris Peixoto pegou o número do protocolo e garantiu que iria pessoalmente conversar com o juiz do processo para novo mandado de prisão fosse expedido. A resposta veio rápida. No dia seguinte Faria já estava com a ordem de prisão nas mãos.
E apesar de ter conhecimento do endereço de Robson Antonio dos Santos, não deixou que seus policiais fossem procurá-lo naquele local.

“O advogado tirou Robson de dentro de nossas celas e podem ter certeza de que vai trazê-lo de volta e nos entregar aqui na delegacia. Se nos deixou desmoralizados, agora será nossa vez”.

          Realmente, ao intimá-lo para oitiva em um dos diversos inquéritos em tramite contra Robson, o advogado e seu cliente se fizeram presentes ironizando os policiais:

“Eu não falei Dr. Faria. Basta chamar que estaremos cumprindo a intimação. O Robson é uma pessoa do bem”.

Robson se apresentou bem vestido, com olhar sarcástico para os policiais. Ele e o advogado estavam na sala do delegado, Robson com as pernas cruzadas na poltrona de frente para os policiais e rindo como se nada estivesse acontecido.
Então foi vez de Faria ser irônico:

“É Dr., mas o senhor vai ter de ir embora sozinho, pois seu cliente está preso”.

O causídico desmontou na poltrona e disse:

“Não é possível Dr. Faria. Eu não sabia de nada, vocês não podiam fazer isso comigo.”

Virando-se para o bandido:

“Robson, eu não sabia de nada”.

O marginal foi conduzido à carceragem enquanto a advogado aturdido saía da delegacia esbravejando. Robson nunca mais viu a liberdade, acabaram seus dias na cadeia onde contraiu AIDS.

Reportagens jornais Estado de Minas e Diário da Tarde:

“Decretada a Prisão de Robson”.
“Ex Vigilante se Apresenta e Fica Preso na Delegacia”
“... Como o delegado Faria já havia acertado com o advogado do ex-vigilante, Orlando Amaral Pintorra a sua apresentação para a manhã de ontem, a polícia só teve o trabalho de recolhê-lo às celas da Delegacia de Furtos e Roubos...”.

Imagens de reportagens dos jornais Diário da Tarde e Estado de Minas: Robson, com Milton José, seu parceiro em alguns crimes. Na última sequência de fotos, a reconstituição de um dos seus latrocínios.

 


1990. TIRO NO ALTO DA AFONSO PENA

          Princípio de 1990, o Alto da Avenida Afonso Pena era ponto de encontro de namorados que fugiam do burburinho e movimentação da região central da capital para curtir suas aventuras nas proximidades do Hospital Hilton Rocha. Eram constantes as ocorrências de assaltos naquela região, mas ainda assim a frequência de casais era grande. O delegado Faria, com uma namorada, encontrava-se no interior de seu veículo, um Miúra, estacionado no final da avenida do citado Hospital, de frente para a montanha, entre dois outros carros. Alguns eucaliptos completavam o visual à frente dos carros estacionados naquela noite escura de janeiro. E foi entre esses eucaliptos que Faria percebeu dois homens armados vindo furtivamente na direção dos três veículos, distantes cerca de oito a dez metros. O delegado rapidamente apanhou seu revólver Smith Wesson, de 4’, inoxidado, que ficava entre os bancos e avisou à sua companhia para ficar quieta por que estava desenrolando uma tentativa de assalto. A menina assustou-se e fez um gesto brusco dentro do carro, percebido pelos dois homens que se esconderam entre as árvores, fugindo da visão do policial. Faria tornou a avisar para ficar quieta e esperou por alguns segundos, quando viu novamente um dos homens se esgueirando com uma arma na mão. O outro não aparecera nesse momento, mas certamente estava na espreita. Não havia alternativa, pois o criminoso já estava bem próximo e não percebia que o policial estava atento aos seus movimentos. Rapidamente Faria abriu a porta e apontou a sua arma em direção ao bandido, com o tradicional grito: 


“polícia, larga a arma”. 

          O bandido deu um sorriso nervoso, um tanto quanto surpreso e tentou apontar a sua arma na direção de Faria, para uma reação violenta. Faria agiu rápido e disparou um tiro no peito do agressor, lhe tirando qualquer possibilidade de reação. O bandido caiu entre as árvores após o impacto do balaço recebido. Faria voltou rapidamente para o volante de seu carro gritando para os outros dois casais ao lado para fugirem, por se tratar de assalto. Em questão de segundos os três carros aceleravam em disparada, deixando os criminosos no local. No dia seguinte, Faria ligou para seu amigo Nagib José, repórter da Rádio Itatiaia, perguntando se tomara conhecimento de encontro de cadáver ou alguém baleado no alto da Avenida Afonso Pena. O amigo lhe respondeu que não, mas, dias depois ligou para o delegado pedindo para ler no jornal a matéria “PM baleado em assalto já está melhor e deixa o CTI”. Por “enorme” coincidência, um policial militar com as características do criminoso havia sido baleado na mesma noite, mesmo local e também com um tiro no peito, só que sua versão era bem diferente. O policial militar Alegou que estava fazendo “bico” de taxista e dois homens negros entraram em seu táxi na Praça do Papa, no alto da Afonso Pena, anunciaram um assalto e ao tentar reagir levou um tiro no peito. Seria a palavra do policial civil contra a de um policial militar se dizendo “herói”. Por essa razão o delegado não desmentiu aquela história. Faria descobriu que o militar trabalhava na segurança do governador, ao lado do local do incidente, no Palácio das Mangabeiras, cerca de 500 metros, o que poderia lhe permitir um acesso fácil ao local onde ocorriam os assaltos. E quem era o outro criminoso que tentara assaltar os três casais? Dúvidas que permanecem ao longo do tempo.

 

1990. CASAL 20.


          Na década de 80, Mário José Teixeira Filho e Mara Lúcia Passarelli Vicentini eram conhecidos como na capital mineira como o “Casal 20”, em referência ao seriado de TV com o mesmo nome. No entanto, a notoriedade e o apelido não foram recebidos por serem parecidos com os artistas do filme, mas pelos golpes e estelionatos praticados. Ela, filha do delegado Geral Vicentinni e frequentadora das altas rodas sociais. Ele, um criminoso que ensinou a mulher a arte das falcatruas e a usava como ardil, pela sua beleza provocante, para seduzir as vítimas, ou mesmos policiais que caíssem na tentação. No caso de policiais que investigavam seus crimes, Mário surgia como o marido traído e fazia ameaças para que as investigações não tivessem seu prosseguimento normal. Diziam, que este procedimento ocorria também no âmbito da justiça.
Em 1990, o casal subiu um degrau na tipicidade e gravidade de seus golpes, unindo o ardil do estelionato ao roubo. Eles planejaram a aproximação de Mara Passarelli de um próspero empresário de joia de Belo Horizonte, acabando por seduzi-lo e ganhar a sua confiança. O que realmente aconteceu. Mara pediu que lhe apresentasse todo o seu mostruário de joias, marcando uma data para vê-las. Junto de Mário, contrataram outros bandidos para a consumação do assalto no momento do encontro na região da Pampulha, quando lhe renderam e levaram todo seu ouro trabalhado.
          O delegado Faria foi designado para apuração do caso e rapidamente a suspeita pairou sobre o “Casal 20” por todas as circunstâncias que envolviam o roubo. O inquérito policial foi instaurado e, preliminarmente, Mara Lúcia foi intimada para ser ouvida em cartório, para que respondesse pela sua participação no crime. Faria já tinha conhecimento da fama do casal de bandidos e a própria vítima lhe advertira do poder de sedução de Mara Passarelli. No dia marcado para oitiva, Mara chegou à Divisão de Crimes Contra o Patrimônio e foi direto para o gabinete da 4ª Delegacia, onde encontrou o delegado Faria, em sua mesa. Mara, uma mulher muito bonita, à época, apresentou-se usando roupas sensuais, com uma minissaia para transparecer ainda mais os seus dotes de beleza inquestionáveis. Cumprimentou Faria e sentou-se cruzando as pernas de maneira provocante para seu interlocutor. O delegado, em tom ríspido gritou: “Pode levantar que não é aqui que você vai ficar sentada. Pode ir direto para o cartório”.
Após o episódio, Mara e Mário sabiam que “as coisas” engrossariam para eles e buscaram o auxílio do pai delegado, que tentou sensibilizar Faria, na condição de pai, não obtendo êxito na investida. Vicentinni procurou então, o subsecretário de segurança, também delegado geral e contemporâneo de ingresso na polícia. Faria era um delegado II classe, com pouco tempo na carreira e subordinado hierarquicamente aos dois, mas tinha consciência de seu papel na investigação. E a pressão veio quando o subsecretário ligou para Faria pela primeira vez, quando o diálogo a seguir aconteceu:

- “Faria, estou sabendo que está com um inquérito da filha do nosso colega, delegado Geral, Vicentinni”.
- “Certo secretário, é uma investigação de assalto envolvendo ela e o marido”.
- “Mas você sabe, ele é um delegado geral, nosso amigo e ficou sabendo que você tá querendo pedir a prisão preventiva deles.”.
- “Está correto secretário, trata-se de um assalto a mão armada”.

Demonstrando irritação com as respostas não esperadas do seu subordinado, o subsecretário continuou:

- “Eu estou lhe falando que o Vicentinni é um delegado geral e merece nosso respeito”.
- “Secretário, eu estou lhe falando que trata-se de um assalto. O senhor está me determinando que não represente pelas prisões preventivas?”.
- “Entenda como quiser, mas não peça as prisões preventivas”, desligando o telefone na cara do delegado Faria.

Faria, "atendeu" à determinação de seu superior e não representou pelas prisões preventivas. Mas representou pelas prisões temporárias que foram rapidamente decretadas pela justiça com prisão de Mário e fuga de Mara. No jornal Estado de Minas estampava o título da matéria: "Decretada a Prisão da Filha do Delegado".

Posteriormente, na década de 2000, a família Passarelli cresceria ainda mais na graduação criminosa, participando de assassinatos, dentre eles, do próprio Mário José Teixeira Filho.

 http://www.otempo.com.br/super-noticia/loira-golpista-%C3%A9-investigada-por-morte-de-madrasta-1.108355

 http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2012/03/29/estudante-acusada-de-tramar-morte-do-pai-por-seguro-era-garota-de-programa-no-rio.htm

 

1990. O ASSALTO À JOALHERIA IRAWS

       Em junho de 1990 um roubo contra a Joalheria Iraws movimentou toda a Delegacia de Furtos e Roubos, pela audácia dos criminosos ao realizarem um crime pouco comum em Belo Horizonte.  O roubo rendeu aos bandidos vários quilos de joias e pelo sotaque do diálogo durante o assalto, percebeu-se que eram bandidos do Rio de Janeiro. A permanência do dia era do delegado Faria que colocou seus policiais na investigação e lhes advertiu para um detalhe importante: “Corram atrás e busquem no arquivo, fotos de criminosos de Minas que estão foragidos no Rio de Janeiro. Bandidos cariocas não cometem crimes de roubo em Minas, sem que algum mineiro esteja no planejamento, logística, ou perpetração do roubo. Verifiquem com o Jorginho, quais os bandidos mineiros gostam de meter esse tipo de parada e que não estão presos”. Pouco tempo depois os policiais surgiram com algumas poucas fotos e fichas de bandidos perigosos, que, por medo de serem presos, haviam fugido para o Rio de Janeiro. Dentre as fichas levadas ao proprietário da Joalheria pelo delegado e sua equipe, dois bandidos foram imediatamente reconhecidos, Marco Antonio Chácara e seu pupilo, Mauro Luis Domingos Gonçalves de Oliveira, o “Maurinho Branco”. Marco Antonio Chácara havia introduzido “Maurinho Branco” e seu pai no mundo do crime e estava foragido da Penitenciária Agrícola de Neves, onde cumpria pena por homicídios e roubos. 

           Conseguiram com alguns familiares dos bandidos, informações que registravam a presença de “Maurinho Branco” no Bairro do Catete, no Rio de Janeiro. Com dois dos assaltantes mineiros identificados e a possível localização deles, o Delegado Faria e sua equipe de detetives composta por Geraldinho “Gogó”, “Marcão”, Walter Felisberto e Prates foram para o Rio de Janeiro, na tentativa de conseguir juntar outras informações para identificar toda a quadrilha e prende-los. Apesar de contra senso, a polícia civil, incumbida das investigações, não possuía carros descaracterizados para campanas e rastreamentos nos locais suspeitos e teve de deslocar com uma C-10 caracterizada. Primeiramente, na parte da tarde, estiveram em alguns pontos de receptação de mercadoria roubada no centro do Rio de Janeiro, onde identificaram criminosos envolvidos com a receptação.

        Durante a permanência no período da noite, no Catete, os policiais foram abordados por investigadores do Distrito Policial da área que viram a viatura, oferecendo ajuda. Era política dos policiais mineiros sempre procurar e apresentar a alguns investigadores e delegados conhecidos, pois sabiam do envolvimento de muitos policiais com a bandidagem, mas naquele dia não fora possível o contato. Então, não tiveram alternativa, senão a de colocar para os policiais cariocas, as informações de que dispunham, deixando de mencionar, apenas um endereço que possuíam, de um possível comparsa, conhecido por Ronaldo. A equipe de policiais se mostrou solidária e disseram que estavam de ronda e tentariam alguns informantes para a localização dos bandidos, marcando horário no final da noite para se encontrarem.

         Faria e seus policiais deslocaram para o endereço que possuíam e verificaram que “Ronaldo”(1ª foto à esquerda) não estava em seu apartamento no Catete e fizeram uma campana que durou até cerca de 23:00 horas. Um homem negro, forte, com as características fornecidas pelos informantes, chegou num Monza do ano e tentou entrar no apartamento, quando foi rendido pelos policiais mineiros, sendo apreendido um revólver calibre 38 em seu poder. Identificado como Ronaldo da Silva, o assaltante tentou negar, a princípio, qualquer envolvimento com o roubo Joalheria Iraws, mas diante da firmeza dos policiais em conduzi-lo para a Delegacia de Furtos e Roubos em Belo Horizonte, resolveu colaborar. Ronaldo da Silva confessou sua participação e confirmou os assaltantes “Maurinho Branco”, Marco Antonio Chácara e um quarto bandido identificado como Moisés Rodrigues de Souza, na consumação do roubo. Afirmou ainda, que naquela noite, policiais do Catete haviam avisado a ele e aos outros assaltantes, da presença de policiais de Minas Gerais no Rio de Janeiro em troca de propina. Ele, Ronaldo, não acreditara que os policiais chegariam até ele e ficou tranquilo enquanto seus comparsas fugiam da região do Catete. Os policiais retornaram para a capital mineira na mesma noite, pois sabiam que poderiam estar correndo risco de vida. Não adiantava permanecer na cidade se os bandidos tomaram conhecimento de suas presenças pelos próprios policiais cariocas. Seria perda de tempo e risco desnecessário. No entanto, ainda conseguiram apreender várias joias e outras armas usadas no assalto.

        Na capital, Ronaldo contou os detalhes do assalto à Joalheria e o envolvimento dos quatro. Esclareceu que Moisés era um assaltante VIP, sempre vestido a caráter, com ternos de grife, relógios importados e carro do ano. Era um homem bem apessoado, que sempre era utilizado nas entradas dos roubos por não despertar suspeitas. Moisés era também, expert em assaltos às vítimas que frequentavam eventos como casamentos e outras solenidades. Ele entrava como penetra ou comprando o convite e dentro das festas, observava quais as mulheres ostentavam as melhores e mais caras joias. Elas eram seguidas até o carro e as informações repassadas para outros membros da quadrilha que aguardavam do lado externo dos eventos, onde as vítimas eram rendidas ou perseguidas pelos bandidos em carros roubados.

         O assaltante Ronaldo falou sem reservas do envolvimento de policiais cariocas com a quadrilha e que o assalto à Iraws serviu para os bandidos fazerem o caixa de um sequestro. Isso explicava o porquê de tanto interesse daqueles cariocas na presença dos policiais mineiros no Rio e de não ter sido consolidado o trabalho de Faria e sua equipe, com todas as prisões dos bandidos. O delegado Faria, “ao juntar as pedras do Xadrez”, percebeu, que durante a investida no Rio de Janeiro, em junho de 1990, para apurar o roubo de uma joalheria, quase apuraram um sequestro em andamento. Um dos maiores sequestros da crônica policial.

     O sequestro do empresário Medina acontecia quando estavam no Rio de Janeiro e quase prenderam “Maurinho Branco” e seus comparsas, só não acontecendo por interferência direta de policiais civis cariocas do DP da área do Catete. Basta olhar a Seção “Bandidos/ Maurinho Branco”, onde registram todas as nuances do sequestro de Medina e do envolvimento dos assaltantes mineiros, para que se perceba o quão próximo, Faria e seus policiais estiveram do caso e da prisão dos bandidos.

http://cyberpolicia.com.br/index.php/historia/crimes-e-criminosos


1990. “ESQUADRÃO DO TORNIQUETE

      Neste ano aconteceram em Belo Horizonte uma série de assassinatos com pessoas estranguladas por asfixia através do método de torniquete. O pânico tomou conta da população e outras pessoas começaram a matar, aproveitando a onda de crimes e simulando o “serial killer”. João Reis, Chefe da Divisão de Crimes Contra o Patrimônio determinou que Faria assumisse o caso, com seus detetives Geraldinho “Gogó”, Walter Felisberto, Marcão e Prates. A apuração identificou o envolvimento de policiais nos crimes. Detalhes em “Década de 90”.

http://www.cyberpolicia.com.br/index.php/historia/decadas/148-decada-90




1990. A CHACINA DE MALACACHETA

          No princípio de 1990, cerca de dez pistoleiros usando coletes da Polícia Civil, com o líder dos criminosos se identificando como delegado, entraram na Fazenda Canadá, no Distrito de Jaguaritira, município de Malacacheta e assassinaram sete membros da família Cordeiro de Andrade. O Delegado Faria teria participações importantes no trabalho policial de prisão dos criminosos envolvidos durante sua permanência na Furtos e Roubos e posteriormente na RODI, conforme vamos registrar em vários tópicos. A história completa é narrada no artigo "A Saga dos Irmãos Leite", neste site. http://www.cyberpolicia.com.br/index.php/historia/decadas/475-pistolagem-em-minas       


1990. A MORTE DE CARLÃO

        No dia 18 de abril de 1990, por volta das 14:00 horas, João Reis, então Chefe da DCCP, chamou Faria para irem ao Gabinete do Chefe do Departamento de Investigações, Nilton Ribeiro, para uma reunião. Faria não sabia do que se tratava. Ao chegarem no DI foram para o gabinete de Nilton Ribeiro, lá encontrando também, os delegados Raul Moreira (Chefe da Divisão de Crimes Contra a Vida) e Otto Teixeira, titular de uma das Delegacias de Homicídios. Segundo o Chefe do DI, a orientação do Secretário de Segurança José Resende, à época, era para o Delegado Faria escolher uma equipe da Furtos e Roubos e ir para Nova Era, cumprir o mandado de prisão de Hamilton Leite Costa, o “Carlão” e Fábio Elias dos Santos, o “Fabinho”. Carlão era um dos envolvidos na chacina de Malacacheta, conhecido por sua periculosidade, principalmente quando cheirava cocaína. Um dos crimes de Carlão, ocorreu quando um Oficial de Justiça com apoio de um Policial Militar foram cumprir mandado de reintegração de posse por decisão judicial de parte do garimpo invadido por “Carlão”. Ao apresentarem o mandado judicial, “Carlão” não pensou duas vezes e assassinou o rapaz com onze tiros, colocando para correr o militar e oficial de justiça, aos gritos de que “ninguém iria tomar posse ali”. Realmente, em Nova Era, tanto a Polícia Militar quanto à Polícia Civil não interferiam com “Carlão”. O pistoleiro comportava como se estivesse no velho oeste americano e desfilava pela cidade portando, de forma acintosa, sua escopeta de repetição, armas de grosso calibre e até metralhadora. O Chefe do Departamento de Investigações advertiu ainda, quanto à informação da presença de cães bravos na residência e à ameaça que “Carlão” havia feito na cidade: “A Polícia não me põe a mão. Coloquei várias bananas de dinamite no meu carro e se tentarem me prender, eu não me entrego vivo e vou levar muitos filhos da puta comigo”. Era o recado que dava no garimpo. Fabinho era outro pistoleiro com vasta ficha criminal pela prática de assassinatos por mando. 


Fotos e reportagens do  Jornal Estado de Minas                                                                                                                                                                                                             Carlão


         O delegado Faria não entendeu porque a própria Delegacia de Homicídios, sempre colocada no patamar de excelência, não efetuou a diligencia. Afinal o inquérito e a representação pela prisão preventiva de “Carlão” partiu de lá, da “Homicídios”. Faria não estava ali para discutir competências e quem deveria se expor a riscos, afinal era o perfil de operação que gostava, com muito risco e adrenalina. Faria não era louco ao sentir aquela atração, se comportava simplesmente como um policial operacional e só eles, os operacionais, poderiam definir a estranha paixão pelo perigo. O policial retornou para a Furtos e Roubos por volta das 15:00 horas com o mandado de prisão na mão e escolheu os policiais da melhor estirpe da Furtos e Roubos. Policiais sem medo, como Paulo Menezes (Paulo Silu), José Frederico Falcão, Eduardo Santos Abreu (Eduardo Preto), Eustáquio Perez (Juruna), Luiz Fernando Cândido, Mauro Edson Oliveira, Márcio Daniel, José Paulo Chaves, Almir dos Santos, Marco Antônio Andrade, Alcides Martins Maia Filho, Gilberto Cunha Bracelares, Denílson F. Silva (Cabelinho) e Álvaro Amaral Júnior. Eram policiais escolhidos a dedo, de todas as delegacias de "Furtos". Antes de se lançarem à ação, Faria se reuniu com os policiais selecionados e fez uma preleção e síntese da ação a ser desenvolvida, advertindo veementemente:

 “Estamos indo para cumprir um mandado de prisão e trazer o “Carlão” e “Fabinho”, preferencialmente vivos. Mas, não abro mão de retornar com todos vocês, também vivos. Então, se houver a menor reação que coloque a vida de qualquer dos senhores em perigo, que morra o “Carlão”, “Fabinho” ou qualquer outro criminoso que tiver a ousadia de tentar uma agressão contra nós, policiais. Lembrem-se, estamos amparados pela justiça e vamos cumprir a ordem, tenham a certeza disso.”

            Faria e seus policiais se armaram fortemente e partiram por volta das 16:00 horas em um comboio de quatro viaturas, todas “patrulheiras”, em direção à Nova Era. Não podiam perder tempo, para contar com o fator surpresa, pois os criminosos tinham bons advogados e rapidamente tomariam conhecimento dos mandados de prisão. Também era estratégico chegarem, ainda durante o dia. Eram aproximadamente 17:20 horas quando se aproximaram da cidade e tomaram rumo, primeiramente, para o garimpo, onde a chance de serem encontrados era maior. Na estrada de terra que os conduzia ao local, pouco mais de cinco quilômetros da cidade, eles avistaram um veiculo Monza, aquele que “Carlão” comentara em tom de ameaça, sobre colocar dinamites para explodir a polícia. Os policiais cercaram rapidamente o carro, com as quatro viaturas, no entanto, era um policial civil que fazia segurança no garimpo que estava dirigindo em direção à cidade. Ele, meio que assustado com todo aquele aparato, ofereceu para ajudá-los, afirmando que “Carlão” e “Fabinho” se encontravam em sua casa, na cidade de Nova Era. Disse que estava em uma camioneta F-1000 e bem armado. Faria entrou no Monza com mais os policiais Falcão e Daniel e determinou que um de seus policiais o dirigisse. Por ser um veículo em uso no garimpo e pelo próprio “Carlão”, a aproximação não despertaria a sua atenção.

          O Monza foi à frente e as quatro “patrulheiras”, com os demais policiais, cerca de quinhentos metros atrás. Ao entrarem na rua onde residia “Carlão”, uma descida de aproximadamente um quilometro, Faria e seus dois acompanhantes conseguiram chegar até próximo à frente da casa do pistoleiro, que, coincidentemente, armado com uma escopeta em uma mão e outra arma na cintura, atravessou a rua e preparava-se para entrar na camionete, sendo acompanhado por outro homem, possivelmente “Fabinho”.  A rua onde morava era uma descida longa e apesar de não ter despertado sua atenção primária para o carro onde estava Faria, Falcão e Daniel, “Carlão” percebeu, em questão de segundos, o movimento das viaturas policiais no alto da rua e recuou em direção à sua residência, já posicionando suas armas para uma possível reação. Ele já estava no portão, quando percebeu os três policiais descendo do Monza com armas em punho e incontinenti, “Carlão” atirou e sumiu portão adentro. Os policiais que estavam no Monza, entraram pela frente da residência, enquanto os demais policiais já cercavam a casa pelas laterais e fundos do imóvel, revidando os tiros dados pelo pistoleiro em meio a um corre-corre de pessoas que se encontravam no interior da casa e fugiam pelos fundos, escalando o muro. Outros tiros foram dados por quem fugia pelos fundos, prontamente revidados pelos policiais. Quando Faria entrou pela sala, acompanhando o trajeto de fuga de “Carlão”, viu uma cena, no mínimo, estranha. Os dois enormes e “perigosos” cães Doberman, assustados com os tiros, defecaram para todos os lados daquele cômodo e tentavam entrar debaixo de uma pequena poltrona enquanto ganiam desesperadamente. Não houve necessidade de serem abatidos. O medo tirou dos animais qualquer característica agressiva que poderiam ter. Disparos ainda foram ouvidos na parte dos fundos e próximo a um barracão, “Carlão” tombou em razão dos tiros que recebera. Os policiais fizeram a imediata remoção para o hospital aonde já chegou sem vida em razão de mais de cinquenta tiros constatados na necropsia, o que poderia ter caracterizado excesso por parte dos policiais, mas não naquela situação, pelo número de metralhadoras nas mãos dos policiais que se defenderam da injusta agressão.
         
      “Fabinho” não foi encontrado, possivelmente havia fugido quando da aproximação dos policiais. As armas apreendidas e os projéteis deflagrados foram encaminhados à Justiça para serem periciadas e o processo em relação à morte de Hamilton Leite Costa foi arquivado, tendo em vista as circunstâncias de defesa e estrito cumprimento do dever legal, conforme despacho do promotor Francisco Santiago, na ocasião, representante do ministério público da comarca. 


1990. A PRISÃO DE GILBERTO "CABELO SECO"

           Delegados da DCCP: Pascoal, Faria e Minelli em pé. João Reis, chefe da Divisão, assentado.                                Reportagens do jornal Estado de Minas sobre a prisão de pistoleiros.



         Após a Chacina de Malacacheta, todos policiais civis queriam dar uma resposta à sociedade pela covardia e audácia, quando os criminosos usaram coletes e se identificaram como integrantes da Polícia Civil para ganhar a confiança das vítimas, antes de exterminá-las. Policiais da “Furtos e Roubos” receberam informações que indicavam Gilberto “Cabelo Seco” homiziado na casa de “Alfredão”, um “pistoleiro aposentado” que lidava no garimpo da Nova Era. Sua filha seria amásia do pistoleiro foragido. As informações foram passadas por João Reis, Chefe da “Furtos”, para Nilton Ribeiro, que chefiava o DI. Os delegados Faria, “Zé” dos Santos, Hilário e Pascoal foram chamados, bem como, os delegados da “homicídios” Raul Moreira, José Arcebispo e Otto Teixeira. Contra “Cabelo Seco” já existia um mandado de prisão e sua localização poderia elucidar de vez as circunstancias dos assassinatos na Fazenda Canadá. Cada delegado selecionou sua equipe e no dia 15 de maio de 1990, por volta das 05:00 horas da manhã, cercaram a casa de “Alfredão” em Ribeirão das Neves. O pistoleiro estava em um dos quartos do andar superior e ao perceber o movimento dos policiais entrando na casa, tentou sair por uma janela, armado com um revólver calibre 38, oxidado, desistindo de seu intento ou de uma reação violenta, ao ver inúmeras armas apontadas em sua direção.

          O objetivo era a apuração da Chacina de Malacacheta, no entanto, o que tornava legal a prisão de “Cabelo Seco” era o mandado de prisão expedido pela justiça de Conselheiro Pena, por um crime praticado naquela cidade. Coincidentemente, o inquérito também foi presidido por Otto Teixeira, da Divisão de Crimes Contra a Vida. Ao ser interrogado na delegacia de homicídios, negou sua participação na chacina alegando em sua defesa que Aldécio queria que ele assumisse os crimes, mas não aceitou afirmando: “os urubus que fizeram a carniça, que comece ela”. A pedido de Faria, “Cabelo Seco” foi para a Furtos e Roubos para ser ouvido sobre um carro furtado que estava em seu poder, quando de sua prisão. O pistoleiro, que acostumara com alguns privilégios que recebera anteriormente, inclusive noticiados pelo Jornal Estado de Minas, ficou temeroso ao entrar naquela delegacia, onde permaneceria com mais de 400 presos e mudou sua primeira versão, assumindo diversos assassinatos.  Faria tomou as declarações do criminoso que se mostrou uma pessoa fria de pouca ou nenhuma sensibilidade, ao descrever os assassinatos que participou.

          No crime de Conselheiro Pena, Gilberto “Cabelo Seco”, “Fabinho” e José Batista Lana, o “Lana”, também utilizaram coletes e distintivos da Polícia Civil para invadir uma residência na zona rural, de propriedade de Avelino Fortunato de Andrade, 63 anos e sua mulher Cândida Lino de Carvalho, 60 anos. Levaram o casal para a estrada e os abateram com vários tiros a mando de um fazendeiro que estava sendo traído pela mulher, com um filho de Avelino. Confessou também, a morte de “Nicolau”, assassinado em Peçanha, quando juntamente com Deusdeth, ex policial militar, vestiram fardas da PM e fuzilaram a vítima a mando de dois fazendeiros da cidade. Faria, na Seção Biografia-Delegado do Interior, fala desse personagem de Peçanha. Confessou a morte do Presidente do Sindicato Rural de Pancas, do ex-detetive José Neves da Paz, cuja morte foi encomendada por Getúlio Ataíde, pai de uma jovem assassinada em Montes Claros em 1981, crime atribuído a quatro policiais civis. “Cabelo Seco” assumiu os assassinatos do prefeito de Rio Pomba a mando do fazendeiro Armando Xavier e a morte de um motorista de ônibus em Manaus.

          Sobre a chacina de Malacacheta, declarou para o Delegado Faria e escrivão Osvaldo Wiermann:

“Saíram de Nova Era por volta das 0:00 horas do dia 15 de fevereiro de 1990, usando dois veículos, um Gol com placa fria e um Santana sem placas, chegando à fazenda Canadá por volta das 05:00 horas da manhã. Portava uma calibre 12 e uma pistola 9 mm; Ademir uma calibre 12 e uma pistola 7.65, Fabinho portava uma pistola 7.65 e um revólver cal. 38. Ofenir usava uma pistola automática e escopeta calibre 12. “Carlão” portava uma escopeta cal. 12 de repetição e João “Soldado” dois revólveres. As armas, os coletes da Polícia Civil e os carros foram arrumados por “Carlão”.

"Dividiram-se em 2 grupos ao chegarem à Fazenda Canadá. “Carlão” bateu à porta e se identificou como delegado de polícia para José Augusto de Andrade, dizendo que investigavam a morte do pistoleiro Albino Alves Pereira. Mandou buscar o irmão José Augusto Cordeiro que estava em Jaguaritira. Enquanto o aguardavam tomaram café com leite e queijo, sendo bem tratados pelas pessoas que se encontravam na sede da fazenda. Por volta das 07:00 horas da manhã chegaram com José Augusto Cordeiro. “Carlão” falou para todos se reunirem na sala. Estavam presentes José Augusto de Andrade, de 55 anos, sua mulher Eunice Augusto Cordeiro de Andrade, 43 anos, Núbia Florípes de Andrade, 24 anos, Geraldo Augusto Cordeiro, 45 anos, José Augusto Cordeiro, 50 anos e Nacip Augusto Cordeiro, de 23 anos." 

“Carlão” mandou “Cabelo Seco” dar uma busca na casa para verificar se não faltava ninguém, pois o filho mais novo de 18 anos, o “Zé” Sextinho", mentor da origem dos atritos, não estava presente. “Cabelo Seco” declarou que encontrou José Sexto Neto escondido debaixo de uma cama. Colocou a escopeta na cabeça do rapaz e gozando a cara dele lhe falou: “Você não é muito homem? Gosta de encarar e agora está se borrando todo”. Neste momento, segundo “Cabelo Seco”, disparou um tiro de escopeta à queima roupa, esfacelando a cabeça de "Zé Sextinho", em seguida outro no tórax. Ato contínuo, os demais criminosos prosseguiram com a matança, sendo ouvidos vários tiros na casa. Eunice tentou se esconder atrás do vaso sanitário, onde morreu com tiros de escopeta. O corpo de Geraldo foi encontrado a seu lado. Núbia e Nacip correram para fora, mas foram abatidos com vários tiros já na varanda da casa, pelos companheiros de “Cabelo Seco”. Os outros dois homens da família Cordeiro foram assassinados com vários tiros de escopeta e armas semi-automáticas na cozinha da residência."

“Cabelo Seco” confessou para Faria, ter recebido Ncz$ 100.000,00 (cem mil cruzados novos) por sua participação na empreitada, afirmando que o motivo da vingança foi a morte do pistoleiro Albino, homem de confiança da família Leite, morto por Geraldo Augusto Cordeiro quando tentou matar seu sobrinho "Zé Sextinho". Ainda, segundo o pistoleiro “Cabelo Seco”, “Zé Sextinho” provocou a ira dos irmãos Leite porque depois da morte de Albino. Ele andava pela cidade de Malacacheta vestido de preto, dava uma de valentão com um revólver na cintura, ganhando o apelido de “Capitão Gancho” e que: "No dia da chacina, quando cheguei a 12 nele, ele se cagou todo”.

      As declarações colhidas pelo delegado Faria foram juntadas aos autos da “homicídios” e eram coincidentes com as informações e posições dos cadáveres, registradas no laudo pericial do local do crime. Faria participou de praticamente todas as diligências e planejamentos para prisão dos principais  envolvidos na Chacina de Malacacheta, desencadeadas nas cidades de Nova Era-MG, Medeiros Neto-BA, Linhares-ES, Ribeirão das Neves-MG e por último, no Pará. Maiores detalhes no mesmo artigo: "A SAGA DOS IRMÃOS LEITE".

 

1991- FURTO DE GADO EM GALILÉIA. 


          Inúmeras foram as diligências realizadas por Faria no interior de Minas e em outros estados da federação, trazendo boas e más lembranças de fatos que ocorreram durante suas atividades policiais. Um caso interessante em sua Biografia como delegado de Furtos e Roubos ocorreu na pacata cidade de Galiléia, leste de Minas, às margens do Rio Doce e distante cerca de 60 quilômetros de Governador Valadares. O delegado da comarca era Sílvio Pagy, que se encontrava em dificuldades por causa de uma série de furto de cabeça de gado que ocorriam na zona rural de Galiléia. Quando aconteciam fatos dessa natureza, era um grande transtorno para os delegados que não tinham uma estrutura mínima de pessoal e assim, buscavam apoio da Delegacia de Furtos em Belo Horizonte. Faria foi designado para realizar a diligencia junto com sua equipe da 4ª Delegacia de Furtos e Roubos.

          Chegaram à cidade e preliminarmente, conversaram com o delegado Sílvio Pagy que lhes passou as informações sobre cerca de quinze cabeças de gado furtadas individualmente e abatidas no local, onde ficavam apenas as carcaças. Podia parecer que eram furtos pequenos, mas para a população de Galiléia, causavam uma enorme sensação de insegurança. Os policiais da Furtos, dirigidos pelo delegado Faria, iniciaram suas investigações partindo das primícias que o abate do gado e o furto da carne, deveriam ter o envolvimento de gente da cidade, preferencialmente, algum açougueiro que estaria participando do furto ou receptação da carne. Não durou mais que três dias para que as investigações tivessem seu resultado com a identificação do açougueiro que recebia a carne e os ladrões que faziam o abate e destrinchavam o animal. No total, nove inquéritos instaurados e prisão preventiva dos envolvidos, que como defesa, argumentaram que foram espancados ou torturados pelos policiais da Capital, argumento que foi inútil para impedir suas condenações, diante da conclusão por improcedência das denúncias, por parte do delegado corregedor, Cícero Milton Martins. 


          Posteriormente, Faria recebeu um elogioso ofício do delegado Sílvio Pagy, que, com poucas palavras dizia a nova sensação de segurança sentida na cidade:

"Depois da passagem de vocês por aqui, nunca mais se ouviu falar de furto de gado em nossa região."

 

1991. O ERRO NA PRISÃO DE SEBASTIÃO CECÍLIO, O GALO CEGO. 
                                                          

          Este é um caso que Faria gostaria de apagar de sua biografia, mas todos os fatos, quer sejam bons momentos, ou os percalços devem ser inseridos por fazer parte da história. No ano de 1991 ocorreu um latrocínio na região da Pampulha que vitimou o caseiro Francisco, que trabalhava da casa do diretor da Motorauto. Os bandidos dominaram a vítima e o mataram com tiros, em seguida roubaram diversas armas e bens do proprietário da casa de campo. O roubo seguido de morte consumou-se no dia de permanência do delegado Faria e a competência da 4ª Delegacia de Furtos e Roubos. O crime ocorreu na parte da manhã e por volta de meio dia, a PM registrou uma ocorrência com o conduzido Sebastião Cecílio, vulgo “Galo Cego” figurando no campo de autor. Como era horário de almoço, Faria estava em um restaurante próximo onde foi avisado do registro do BO com um dos autores presos. Ao chegar à delegacia percebeu que a PM não o esperara, como era de costume em caso como aquele. De muita repercussão e com um dos bandidos presos em flagrante.
Faria pediu ao inspetor Carlinhos que trouxesse o preso à sua presença para interrogá-lo sobre as circunstancias do crime. “Galo Cego” era um rapaz miúdo, de compleição física magra, com um olho vazado por acidente. Não tinha nenhum aspecto de um criminoso violento. No entanto, durante a entrevista no gabinete do delegado, confessou ter participado do roubo seguido de morte, indicando algumas pessoas da Favela do índio como seus comparsas na bárbara morte do caseiro. Apesar de ter assumido, Faria ficou com “uma pulga atrás da orelha” em relação à confissão. Sebastião tinha as mãos calejadas, não tinha ficha criminal, ou passagem por delegacias. Ao ser perguntado se tinha sido espancado pelos policiais militares que o prenderam. Ele negou. Estava muito fácil. Faria estava diante de um impasse: ratificar a prisão em flagrante, ou não. Não tinha certeza da veracidade das alegações de “Galo Cego”. Para ter convicção da decisão a ser tomada, o delegado ligou para o perito Wallace “Dourado” que estava de plantão no Instituto de Criminalística e havia feito a perícia poucas horas antes, pedindo que conversasse com Sebastião Cecílio sobre as características do local onde se consumou a morte e o roubo. Ninguém melhor que o perito para auxiliar nessa avaliação.
          Wallace em poucos minutos estava na delegacia e conversou longamente com “Galo Cego” que lhe apontou detalhes do local, onde estava o corpo, características da casa, etc. Depois dessa conversa, o perito afirmou que não podia garantir a participação de “Galo Cego” no roubo seguido de morte, mas não tinha nenhuma dúvida que estivera no local. Diante desse posicionamento técnico, Faria autuou Sebastião Cecílio em flagrante pela morte do vigia, ouvindo o perito como testemunha da conversa que teve com o autuado e a certeza que esteve na cena do crime. Mas, como “toda mentira tem perna curta”, a confissão de “Galo Cego” foi se esvaindo nos dias que se sucederam ao flagrante, pela inconsistência de suas alegações. Um dos indivíduos que ele apontou como seu parceiro de crime, compareceu espontaneamente na delegacia se prontificando a ser submetido a reconhecimento, acareação, ou qualquer outro procedimento que pudesse provar sua inocência. As dúvidas de Faria retornaram e, mais uma vez chamou o preso em seu gabinete para nova conversa. “Galo Cego”, diante das evidencias de sua falsa confissão, resolveu contar a verdade. Alegou que tinha sido espancado pela PM que o levaram ao local do crime, afirmando: “Olha o que você fez”, mostrando o corpo da vítima e toda a cena do crime. Alegou que diante da coação, agressão impingida pelos militares e com conhecimento das circunstancias do assassinato, decidiu assumir para cessar o sofrimento. Mesmo na delegacia e na ausência dos militares, temia pela sua vida, caso não confessasse.
          O perito Wallace tinha razão, Sebastião Cecílio estivera na cena do crime.

         "Galo Cego"                                                                             Os verdadeiros assaltantes presos por Faria e sua equipe. Reconstituição do crime e apresentação à imprensa..


          Faria tinha diante de si, um pobre coitado transformado em latrocida pelo abuso e covardia de alguns elementos travestidos de polícia. Chamou seus policiais e falou que era questão de honra encontrar os verdadeiros assaltantes. Não para corrigir o erro, mas por questão de justiça. Poucos dias depois do crime, os verdadeiros bandidos eram presos por Faria e sua equipe da 4ª delegacia com as armas e objetos roubados. Os bandidos Ronaldo, Mauro, Valter e o líder da quadrilha, Alex Sander, foram presos. O delegado encaminhou o inquérito à justiça, representando pela prisão preventiva dos assaltantes, dentre eles, filho de uma abastada Belo Horizonte. No mesmo procedimento, Faria requeria a soltura de Sebastião Cecílio pela improcedência das imputações e as razões que levaram ao erro. O policial foi processado e absolvido, sendo que o próprio Sebastião Cecílio, o “Galo Cego”, foi sua testemunha de defesa, junto com o perito Wallace. Depois do episódio, Sebastião tornou-se amigo do delegado Faria e rotineiramente o visitava na Furtos e posteriormente na RODI e METROPOL. Pouco antes de se transferir para Poços de Caldas, Faria tomou conhecimento que “Galo Cego” foi assassinado por sua mulher com golpes de faca.


1992. TAROT


          Tarot era um barzinho da moda de Belo Horizonte nos anos 90, com grande movimento de pessoas e por essa razão tinha boa arrecadação ao final da noite. Era localizado na Avenida Brasil, esquina de Francisco Sales, quase em frente ao Hospital da Santa Casa. No dia 24 de agosto de 1992 o gerente administrativo do Restaurante, Adilson Márcio Alves foi covardemente assassinado com 12 facadas e um tiro no interior do estabelecimento comercial. Do cofre foram roubados CR$ 800.000,00. Faria designou uma de suas equipes para iniciar os primeiros levantamentos no local, com a participação importantíssima dos Peritos Quaresma e Robson do Instituto de Criminalística, o Inspetor Carlinhos e Maurício da 4ª Delegacia de Furtos e Roubos e o próprio delegado. Verificaram que o local não foi revirado e na antessala do escritório havia sinais de luta e muito sangue espalhado pelo chão e parede. A vítima foi amordaçada pelos bandidos, apresentando um corte profundo no rosto e sinais característicos de que foi dominada e amarrada para em seguida ser esfaqueada e baleada, não tendo a menor chance de defesa, apesar de ser lutador de karatê. Constataram que não havia vestígios de arrombamento no imóvel, o que lhes dava três hipóteses: Adilson foi dominado e levou os seus algozes quando ia trabalhar ou abriu a porta permitindo a entrada dos mesmos ou ainda, a hipótese deles terem permanecido escondidos no interior do barzinho quando de seu fechamento no final da noite. A mordaça e as duas cordas encontradas no local não pertenciam ao restaurante, concluindo terem os criminosos premeditado o bárbaro latrocínio. A primeira equipe da 4ª Delegacia tentou apurar o crime, mas elaborou uma comunicação negativa por não ter êxito na conclusão. Faria chamou o inspetor Carlinhos e lhe disse que não concordava com a negativa. O inspetor Carlinhos, um policial altamente profissional, disse que também não concordava com o desfecho e assumiria pessoalmente as investigações, solicitando apenas um detetive para auxiliá-lo. Os policiais que tentaram identificar os autores do bárbaro latrocínio ironizaram Carlinhos, porque escolheu um dos detetives mais simplórios da delegacia para auxiliá-lo. Após um brilhante trabalho investigativo Faria, Carlinhos e Marcelo identificaram um homem que fazia trabalhos de reforma no bar como autor do crime. Ele via o movimento de dinheiro na gerencia e planejou o assalto e morte do gerente. O bandido concretou a arma usada em uma parede de sua casa, na certeza da impunidade.


1992. OS ESTUPROS DO BAIRRO BOM DESTINO


          29 de abril de 1992, clima de festa no bar dançante de Edson Rômulo Xavier, no bairro Bom Destino, na cidade mineira de Santa Luzia na região metropolitana, onde ocorria naquela noite a inauguração do estabelecimento comercial. Já era início da madrugada quando cerca de vinte e cinco pessoas, entre clientes e funcionários do bar, viveram momentos de terror nas mãos de cinco marginais que entraram na pista de dança de armas em punho anunciando o assalto. Foram aproximadamente três horas de pânico diante das ameaças dos bandidos dando tiros para cima diante da platéia aterrorizada. Agrediram as pessoas, ferindo-as com garrafadas e coronhadas na cabeça. Colocaram as vítimas em um pequeno compartimento, roubando o dinheiro do caixa e os seus pertences, ordenando que todos retirassem as roupas. Aqueles que demoraram a se despir tiveram suas roupas rasgadas com facas, sendo alguns feridos com as armas brancas e em seguida amarrados. Um dos assaltantes se destacava como líder, os outros bandidos aparentavam menoridade. 

          O chefe da quadrilha escolheu três mulheres e levou-as para um banheiro, submetendo-as a violento espancamento e agressões com faca, causando-lhes várias lesões pelo corpo. Prosseguindo em sua barbárie, o marginal estuprou-as, deixando o local todo marcado por poças de sangue, enquanto seus comparsas vigiavam as demais vítimas. Para encerrarem a sessão de crueldade e tortura, os criminosos jogaram bebida alcoólica nos olhos dos fregueses, abandonando o local com a ameaça de vingança caso fossem denunciados. No dia seguinte, os mesmos assaltantes invadiram a fazenda do ex-prefeito de Belo Horizonte, Souza Lima, localizada às margens da BR-262, no Bairro Gorduras, onde renderam Paulo Eduardo Lessa de Souza Lima e sua família, amarrando as vítimas com fios de telefone, trancando-as no banheiro por cerca de oito horas, das 19:00 às 03:00 horas da madrugada. Beberam e comeram o que acharam na geladeira e na despensa para finalmente roubarem várias armas de coleção, TV, bebidas finas e outros objetos de valor. 

          Utilizando o veículo Gol, placa PS-8727 os criminosos fugiram do local. As investigações foram iniciadas pela 4ª Delegacia de Furtos e Roubos, sob a coordenação do delegado Faria e os detetives Adalmário, Maurício, Marcelo, “Dote” e Benfica, todos da equipe do Inspetor Carlinhos. Rapidamente os policiais levantaram que a quadrilha tinha sua base na Cabana do Pai Tomás, zona oeste de Belo Horizonte. Descobriram outros crimes, dentre eles um latrocínio covarde, quando um menino de treze anos foi vítima. A criança foi assassinada covardemente a tiros por não possuir nada de valor quando anunciaram o roubo, levando apenas um velho cinto que o garoto usava. Em outro assalto, invadiram e assaltaram a Fazenda Lajinha, em Esmeraldas. Inúmeros estupros e cerca de quarenta outros assaltos foram praticados pelos mesmos criminosos.

          Clécio de Assis Oliveira, primeiro a ser preso, confessou sua participação, identificando Wanderley Lima Barbosa como líder da quadrilha, fornecendo seu endereço em uma cidade próxima de Governador Valadares. Devido à gravidade e violência dos crimes praticados pela quadrilha, os policiais não podiam perder a oportunidade daquela confissão e com ela conseguir as prisões preventivas e medidas cautelares em desfavor dos dois menores partícipes do bando. No entanto havia um problema, Clécio acabara de completar 18 anos e os crimes cometidos ainda na menoridade. O delegado Faria, diante do impasse, não titubeou e procurou um promotor que atendia os casos envolvendo menores e pediu que Clécio fosse ouvido pelo Ministério Público, sem a presença dos policiais civis para que sua confissão tivesse credibilidade, que infelizmente, nesses casos, dificilmente eram recebidas como idôneas. Normalmente os advogados alegavam coação e os promotores recebiam as confissões com reserva. Era uma cartada no escuro, pois o marginal poderia voltar atrás e negar tudo. O promotor, diante das alegações do delegado, aceitou ouvir Clécio em separado, quando o criminoso confirmou com riqueza de detalhes a sua participação e de seus comparsas.

        A equipe de policiais viajou para São João do Manteninha onde Wanderley estaria escondido na casa de seu pai, um influente vereador da região. Os policiais chegaram de madrugada na pequena cidade e foram até o destacamento da PM, onde receberam as informações sobre a localização da casa do marginal. Arrombaram as portas a chutes e “estouraram” a casa, diante da negativa de seu pai em abrir as portas. Todas as pessoas que se encontravam no interior da residência foram dominadas, exceto o alvo, Wanderley Lima Barbosa. Ao entrar em um dos quartos Faria viu o reflexo de uma arma oxidada e movimento debaixo de uma cama. Rapidamente efetuou disparos em direção à cabeceira e gritou para se entregasse senão seria metralhado. A arma foi jogada para o lado e duas mãos vazias foram apresentadas pelo indivíduo, pedindo para não ser morto. Era Wanderley. 

          Conduzido para Belo Horizonte, Wanderley confessou todos os assaltos, estupros, latrocínio e identificou os menores que foram apreendidos e encaminhados ao Juizado como seus parceiros. Contra os maiores foram decretadas prisões preventivas pela Justiça de Santa Luzia. Mais uma vez os policiais tiveram grande dificuldade para manter o bandido preso diante da pressão do então deputado Laviola, da região de Governador Valadares, para liberar o filho de seu cabo eleitoral.

JORNAL ESTADO DE MINAS: 11/8/1992



“Num trabalho com muita determinação, paciência e rapidez, a polícia acertou um golpe fatal contra uma das principais quadrilhas que vinha aterrorizando a população da Grande Belo Horizonte, particularmente as de Ibirité, Santa Luzia, Esmeraldas e Betim, ao prender sete dos oito membros do grupo. Acusada de cometer mais de 40 assaltos, seis deles com estupro, a violência da quadrilha surpreendeu até mesmo a polícia. Invariavelmente, os membros do grupo estupravam as mulheres que encontravam pela frente.”

      Alguns anos depois, Wanderley Lima Barbosa morreu da mesma forma que viveu, com violência e crueldade. Seu corpo foi encontrado crivado de tiros, castrado, com o pênis enfiado em sua boca e a cabeça espetada em um moerão de cerca próximo ao cadáver, na mesma região onde cometera o estupro coletivo. Era uma resposta cruel e macabra aos estupradores.

 

A CARCERAGEM DA FURTOS E ROUBOS

          Apesar de toda a estrutura montada em 1984 para receber a nova unidade policial da Furtos e Roubos e mudar o antigo cenário do "Inferno da Floresta", o problema carcerário não melhorou, ao contrário piorou devido à superlotação e a temerária vigilância por parte dos policiais civis, desviados para aquela função. Muitas tentativas de fugas rebeliões e mortes naquele cárcere. O delegado Faria, assim como seus colegas policiais, sejam delegados, detetives, escrivães, plantonistas e outros servidores, participou daquele período de insegurança pelo perigo que aquela bomba, formada por uma massa humana de criminosos da pior espécie, representava. Durante cerca de 15 anos, o delegado Faria sofreu para provar sua inocência na morte de um assaltante de joalherias, no interior de uma das celas da Furtos e Roubos.


         Ali era o verdadeiro inferno para os policiais que exerciam suas atividades no local, onde, rotineiramente, mais de 400 a 500 presos, chegando aos 600 em 2006, cumpriam ilegalmente suas penas naquela masmorra moderna. O delegado Faria, como Chefe do Departamento de Investigações, alguns anos depois de ser o titular da 4ª Delegacia Especializada de Furtos e Roubos. Alguns anos depois de deixar a titularidade da 4ª Delegacia de Furtos e Roubos, Faria assumiu a Chefia do Departamento de Investigações (Biografia V Parte) conseguiu acabar com o estigma de Furtos e Roubos, criando, à época, a nova unidade de repressão, DEGREL. Na despedida, os policiais deixaram no prédio da Rua Uberaba, 175, a placa que denominava o que sentiam daquela delegacia: "O Inferno".

 


1992. OS ARGENTINOS


          No ano de 1992 o delegado Faria passou por um dos piores momentos de sua carreira profissional ao ser acusado do homicídio de um assaltante argentino, juntamente com outros policiais. A proprietária de uma Casa de Cambio e Turismo compareceu na Divisão de Crimes Contra o Patrimônio, registrando na inspetoria a ocorrência de um roubo contra sua empresa, esclarecendo que quatro assaltantes, alguns com sotaque castelhano invadiram o comércio, renderam a vítima, suas funcionárias e fregueses, roubando passagens aéreas, dólares e dinheiro. De posse das informações, os policiais Zé Maria “Cachimbinho” determinou aos detetives Magela, “Gunga”, Melgaço, Paulinho, “Buco Buco”, Odilon e “China”, da inspetoria da DCCP, (vinculada ao delegado Vicente Lacerda, chefe da divisão) que iniciassem as investigações. A partir de informações de taxista, os policiais conseguiram interceptar dois dos criminosos no Posto Chefão, quando tentavam fuga em direção ao Rio de Janeiro. Eram os argentinos Luiz Goni e Carlos Fuentecilla Bustos, remanescentes do grupo guerrilheiro argentino, “Sendero Luminoso”. Horácio Álfaro, um terceiro argentino, foi conduzido à Delegacia de “Furtos” por suspeita de ter sido o olheiro da quadrilha, mas liberado por falta de provas. Foram apreendidos com os bandidos, dólares, passagens aéreas e outras moedas, parte dos bens roubados, conduzindo os marginais para a “Furtos e Roubos”. A permanência (espécie de prontidão, cujas ocorrências lavradas naquele período temporal eram de competência do delegado de permanência) era do delegado Faria, que recebeu a comunicação dos policiais e determinou apreensão do material e a lavratura do flagrante.


          Depois da lavratura, os policiais Zé Maria “Cachimbinho”, “Gunga”, Melgaço, Paulinho, Odilon e Magela, agora coordenados pelo delegado Faria fizeram o deslocamento para a capital carioca, local onde estaria o terceiro assaltante envolvido, conhecido por Marco Antonio. Na delegacia do bairro Santa Tereza, Faria e os detetives montaram seu QG e iniciaram as investigações para buscar o paradeiro de Marco Antonio. Passaram o dia buscando informações e tiveram uma denúncia de um morador que o marginal estava em uma boca de drogas no “pé” da favela. Os policiais foram para o local de tráfico, onde conseguiram prender Marco Antonio, que portava uma das armas usadas no assalto em Minas Gerais. Aparentemente não esperava que policiais de Minas entrassem no morro e estava tranquilo junto com alguns traficantes de drogas. Os policiais mineiros o dominaram e liberaram os demais criminosos que ali se encontravam. Toda a ação foi realizada sem o apoio dos policiais cariocas.

          Retornaram com o preso Marco Antonio para a delegacia, quando surgiu um impasse. Os policiais cariocas daquele distrito não queriam liberar o preso capturado pela Polícia Civil de Minas. O argumento era que era área deles e as armas deveriam permanecer no Rio. No entanto não foram ao morro aprendê-las. Foi preciso agradar os “colegas” cariocas, deixando parte das diárias para pagar uma cervejinha. Depois disso o preso e as armas foram liberados para os policiais mineiros. Recambiado para Minas, o marginal foi reconhecido pelas vítimas como o terceiro assaltante.

      Ao chegarem à delegacia de “Furtos e Roubos”, Faria tomou conhecimento que durante sua ausência Carlos Fuentecilla Bustos passou mal e tinha sido socorrido pelo médico Lazarinni que constatou uma doença crônica, a pielonefrite. O preso ficou nove dias encarcerado e neste período foi socorrido em dois hospitais e pelo médico Lazarinni, que atendia os presos daquela delegacia. No 9º dia Carlos Fuentecilla Bustos foi levado ao Hospital do Pronto Socorro, vindo a falecer. Os jornais nos dias seguintes noticiaram a morte como suspeita por ser um preso e seu óbito ter ocorrido durante seu encarceramento na Furtos e Roubos. Os procedimentos legais foram realizados para apuração das circunstancias da morte e arquivado com a conclusão do IML de morte por causa natural em razão de doença crônica, pré-existente, impossível de ser adquirida no curto espaço de tempo de nove dias.

      Passados cerca de dois anos, Horácio Álfaro, o terceiro argentino, camelô na capital, compareceu à Comissão de Direitos Humanos e acusou o detetive “China” de extorsão, denunciando a morte de seu compatriota por assassinato, acusando os policiais que o prenderam por tortura e morte. Começava uma “via crucis” para Faria, que respondeu por um homicídio que não praticara, mas que a repercussão da mídia e da Embaixada Argentina, acabou por provocar a instauração do processo criminal.

ESTADO DE MINAS:

“Os argentinos Horácio Antonio Álfaro e Marcelo Castro, dois anos após os fatos, denunciaram a morte de Bustos e pediram providencias. A repercussão do episódio foi muito grande na Argentina, tendo mobilizado até a classe política do país, que está acompanhando o caso, através do Ministério Público e Defensoria Pública de Mendonza”.

Em 2007, Faria foi levado a júri e absolvido das acusações.

          Por volta de uma hora da madrugada, o promotor Geovani saiu da sala onde estavam reunidos os jurados foi em direção a Faria e o cumprimentou:

"Parabéns, você foi absolvido"
.

          Faria esperava ansioso pela resposta, mas por parte de seus advogados. A ética e o respeito que passou a existir entre acusado e acusador, gerou o gesto magnânimo por parte daquele profissional do Ministério Público.
         





 INTERVENTOR I -1992- ELEIÇÕES EM ÁGUA BOA E CAPELINHA

          Durante sua carreira como delegado de polícia, Faria passou, em duas oportunidades distintas por desafios não muito comuns para policiais que não pertencem aos quadros da Corregedoria Geral de Polícia. Faria foi designado para atuar como interventor em duas regionais, a de Capelinha e Ipatinga em duas ocasiões distintas. A primeira função se deu quando era delegado de Furtos e Roubos e a segunda como coordenador da SGPC. Mas nesta   seção, no texto abaixo, registraremos sua passagem por Capelinha em 1992.

         A região de Capelinha e Água Boa sempre teve notoriedade pela violência e crimes de pistolagem, principalmente em época de eleições para pleitos municipais. No ano de 1992, Faria foi designado pelo então Secretário de Segurança Pública, José Resende de Andrade para dar cobertura nas eleições daquela região e assumir a regional na condição de interventor. O clima estava tenso nas duas cidades e acusavam o delegado regional de pender para um dos lados. Em Capelinha havia ocorrido um atentado contra um candidato a vereador quando se dirigia em uma estrada rural para fazer um comício, na carroceria de um caminhão com vários simpatizantes. O caminhão foi interceptado por adversários políticos e várias pessoas foram baleadas, incluindo o candidato.

        Em Água Boa o clima não era mais ameno, com provocações recíprocas entre os correligionários dos candidatos “Nico”, “Lado Branco” e o farmacêutico da cidade. Era temerário participar de comícios, pois o risco de ser alvejado, durante tiroteios era grande. Faria reuniu os policiais Djalma, Anderson, “Dote”, Osvaldo Wierman, Jorge “Camarão” e Cezário, uma equipe de confiança da “Furtos e Roubos” e foram para Capelinha onde hospedaram no melhor hotel da cidade, de propriedade do prefeito, com todas as despesas as expensas do município. Apesar de não ser prudente essa colaboração, policiais civis sempre viajam sem dinheiro e as dificuldades são muitas, tendo que passar por situações constrangedoras como essa.

       Ao chegarem, Faria foi convidado para um almoço com o prefeito e liderança política de uma das facções concorrentes à eleição. Para não se sentir constrangido ou ser mal interpretado, o delegado levou toda a equipe para participar do almoço e as pessoas que se faziam presentes disseram ter solicitado do secretário um delegado imparcial e enérgico. Faria esclareceu para os cidadãos e políticos presentes que o trabalho seria desenvolvido com seriedade, sem partidarismo, garantindo não aceitar excessos de nenhum dos lados. Os presentes elogiaram o posicionamento alegando que fora este, o perfil exigido do Secretário de Segurança. Pura falácia. “Farinha pouca, meu pirão primeiro”.

      Durante os quarenta dias que permaneceram na região, Faria respondeu pela Delegacia Regional de Capelinha e lá traçava as estratégias para coibir a violência, o que deu resultado. O planejamento era sufocar qualquer intenção de tumulto, de atentado, ou de uso ilegal de armas. Para isso, Faria e seus policiais faziam blitzens nas estradas de ligação e da zona rural entre Água Boa e Capelinha durante o dia. À noite, de posse da agenda dos candidatos, exigida previamente, faziam operações nos distritos de Vila dos Anjos, Serra da Noruega, Coelhos, dentre outros, simultaneamente.



           Para a população local, havia dezenas de policiais da capital naquela região e isto amedrontou aqueles que tinham a intenção de causar qualquer tumulto, ou transtorno. No primeiro comício que os policiais compareceram, em um distrito próximo de Capelinha, abordaram o vereador Gelson, político que foi agredido a tiros no atentado ao caminhão. Estava em um veículo Monza com mais três seguranças, todos fortemente armados. Sem titubear, Faria determinou a condução de todos para a delegacia regional onde foram autuados em flagrante e liberados sob fiança. A facção partidária de Gelson já passou a olhar Faria e seus policiais com insatisfação, acreditando que estavam tomando partido. O lado contrário, de influencia partidária do prefeito, rasgavam elogios à atuação do delegado e sua equipe.

             Não se passaram mais do que três dias após as prisões para que novo incidente ocorresse. Desta feita com os partidários do prefeito. Faria e sua equipe deslocaram para um comício em um distrito denominado “Coelhos”, local de difícil acesso, aonde se chega através de uma longa descida de terra e uma ponte que termina nas proximidades das primeiras casas. Naquele local, munidos de metralhadoras, escopetas e pistolas, iniciaram o trabalho de verificação dos veículos e desarmamento das pessoas. A cabeceira da ponte era local estratégico, aonde obrigatoriamente as pessoas que chegavam deveriam passar. E durante a primeira meia hora, Faria proibiu as saídas de veículos, com medo de avisarem as pessoas de má índole que estavam indo ao comício. Cerca de quinze minutos após iniciarem as buscas e conferencias nos veículos, os policiais pararam uma Camioneta F-1000, do mesmo ano e apreenderam um revólver Taurus calibre 38, novinho. O proprietário, reconhecido pelos policiais como uma das pessoas que recepcionaram os policiais no almoço, não possuía porte. A equipe apresentou a arma ao delegado Faria, que estava nas proximidades e informaram que o dono da arma era irmão do prefeito e que este teria indagado a eles, policiais, para quem iriam entregar a arma. Diante da resposta que o seria o “Dr. Faria”, o prefeito teria disse em tom irônico.

“É só para saber com quem eu vou pegar o revólver amanhã”.

 

            O prefeito era proprietário do hotel onde os policiais estavam hospedados e era quem pagava as despesas. Rapidamente o delegado chamou o escrivão Osvaldo Wierman, que participava da equipe e foram para a delegacia tomar todas as providências legais para a instauração do inquérito policial o que demandou certo tempo até parte da madrugada. Por volta das oito horas da manhã do dia seguinte o inquérito e a arma foi entregue no Fórum local. O prefeito realmente compareceu muito amistoso na parte da manhã, argumentando a necessidade de devolução da arma. Faria disse que infelizmente só a justiça resolveria o problema que não era mais de sua alçada. O político demonstrando contrariedade com o procedimento adotado saiu da Delegacia Regional.

Faria advertiu seus policiais:

“Há possibilidade de sermos “despejados” e perdermos a estadia por conta da prefeitura, mas não vamos nos sujeitar a ingerência política no nosso trabalho”. 

Todos os policiais concordaram com seu chefe, que tinha por costume, trocar ideia sobre assuntos pertinentes às diligencias que faziam.

          A partir de então, as duas facções políticas olhavam a presença dos policiais da capital com insatisfação. O que era bom para a imparcialidade das ações. Os policiais prosseguiram nos trabalhos sem interferência da prefeitura, que continuou lhes atendendo. A insatisfação dos dois lados políticos em relação à presença dos policiais acabou por lhes dar maior liberdade nas ações. Exceto algumas denúncias de lado a lado dos partidos em disputa, de distribuição de cestas básicas e outras irregularidades eleitorais. Além dessas intrigas politiqueiras não ocorreu nenhum outro incidente ou crime violento no período eleitoral, o que marcou aquele pleito pela segurança e tranquilidade.Tolerância zero.

          Pouco depois dessa diligencia, Faria entregou seu cargo ao Chefe do Departamento de Investigações, Nilton Ribeiro, por não concordar com critérios políticos de promoção. Apesar de ser o delegado adjunto da DCCP, outro colega da mesma unidade policial foi promovido à classe superior a sua. Seu chefe, Nilton Ribeiro, concordou com sua postura e pediu que assumisse e reestruturasse a RODI, cujas atividades serão relatadas na próxima fase da Biografia.   


 MEMÓRIA REPORTAGENS

Registramos neste espaço, algumas sínteses de reportagens de ações policiais que tiveram a participação do policial Faria e sua equipe, quando titular da 4ª Delegacia de Furtos e Roubos. Infelizmente, muitos trabalhos policiais se perderam durante o tempo, impossibilitando a inserção das ações, em sua totalidade.

     
          Durante os cinco anos que atuou como titular da 4ª Delegacia de Furtos e Roubos, o delegado Faria teve participação ativa em centenas de prisões de marginais de todas as modalidades criminosas no seguimento de crimes contra o patrimônio. Um número incalculável de arrombamentos, latrocínios, estupros e assaltos apurados, devidamente comprovados pelos inquéritos instaurados e reportagens dos diversos jornais que registraram os fatos.

http://www.cyberpolicia.com.br/index.php/historia/decadas/148-decada-90

 

 

 

2011 Biografia Faria 3 - O Delegado de Furtos e Roubos. © 2012 - Cyberpolicia: História da Polícia Operacional Investigativa
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