Biografia Faria 2- Delegado do Interior

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Categoria: Biografia

BIOGRAFIA FARIA PARTE II 

DELEGADO DO INTERIOR

 

 PEÇANHA


          No princípio de 1984, Faria, ainda era detetive da Delegacia de Furtos e Roubos quando foi convocado à Secretaria de Segurança pelo Secretário Adjunto José Resende de Andrade, que lhe narrou dificuldades em relação à violência na região de Peçanha, com muitos homicídios e crimes violentos, o convidando para assumir o desafio frente à delegacia daquela comarca. Faria foi pego de surpresa pelo convite. Ele havia feito um curso para Delegado Especial, mas não esperava ser selecionado, porque nunca fora ligado a buscas políticas para atingir seus objetivos. O cargo de Delegado Especial, antes da Constituinte de 1988, era exercido em Minas Gerais por policiais civis, bacharéis em direito, com curso de delegado ministrado pela Academia de Polícia.
          O policial aceitou o "convite" e a partir daquela ocasião sua vida daria uma reviravolta, pois até então morava com seus pais e acostumado com a boa vida dos solteirões que vivem nessas condições. Vendeu seu revólver Smith Wesson para se sustentar até ter sua estabilidade naquela cidade, encheu uma mala de esperanças e pegou o ônibus de Peçanha, para uma nova experiência, uma fase diferente em sua carreira, que lhe serviria de suporte para os muitos revezes pelos quais passaria. Ao assumir a delegacia, apresentou-se ao regional de Guanhães, Sérgio Francisco de Freitas que lhe deu as primeiras orientações sobre as atividades e a violência naquela comarca, ainda na rodoviária de Belo Horizonte, onde se encontraram. Era um regional rigoroso com seus subordinados, mas leal e sempre disposto na cobertura e apoio aos policiais de sua área. Em Peçanha, Faria recebeu a delegacia do delegado José Ferreira de Barros, em um imóvel modesto, no segundo andar de um prédio no centro da cidade, ao lado do Hospital. A delegacia possuía apenas duas salas, uma para gabinete e outra de espera. No pequeno espaço, dezenas de volumes de inquéritos e centenas de ocorrências de crimes contra a vida e lesões corporais.

 

 

          Apesar do número preocupante de assassinatos, tentativas de homicídios e outros crimes graves, a comarca, uma das maiores do estado, não possuía promotor, apenas o juiz Gabriel Fernandes. Não possuía investigadores e mais de dois anos sem júri. Peçanha tinha em sua área geográfica de atuação, a sede da comarca e os municípios de São Pedro do Suaçui, São José do Jacuri, Virgolândia, Nacip Ray Dan, Coroaci e Marilac. Este último município distante cerca de cem quilômetros de Peçanha. Basta imaginarmos um delegado trabalhando na capital e tendo de atender a cidade de João Monlevade, cuja distancia se equivalem. A estrutura da delegacia era o delegado Faria, o escrivão Leandro, os móveis surrados, uma máquina de datilografia, um fusquinha 74 e mais nada. Nos demais municípios não existia nenhum policial civil. O transito era feito pelo despachante Neri, dono de restaurante, vistoriador e funcionário do setor de registro de veículos. Os caminhos para chegar a essas cidades eram feitos por estradas de terra que singravam as montanhas daquela região, entre fazendas com suas plantações de café e criação de gado. O período de seca trazia um pó fino e vermelho que entrava pelas vários orifícios do velho fusca 74 durante os deslocamentos entre as cidades células da comarca. Em tempos de chuva a coisa piorava, com lama, derrapagens, aguaceiros nas estradas e muita dificuldade para locomoção entre os municípios, sendo os dois policiais, obrigados por diversas vezes a entrar em lamaçais para tirar o carro, atolado. Às vezes até a altura da porta.

          De certa feita, um criminoso preso no Fusca, teve que descer da viatura algemado e ajudar o escrivão Leandro a empurrar o carro, no trajeto do antigo distrito de Cantagalo para Peçanha. Neste clima de revezes, poderíamos enumerar ainda, uma série de obstáculos para o desempenho do exercício de polícia: falta de pessoal, de cadeia, de julgamentos de homicídios e tentativas, inexistência de promotores e estrutura mínima para as atividades policiais. Naquela comarca, Faria iria experimentar diversas situações novas, perigosas e totalmente diferentes da capital, onde o improviso e decisões rápidas faziam parte rotina do dia a dia de um delegado. Ali ocorreram fatos que merecem registro, não pelo lado trágico, mas pelas peculiaridades das ações do matuto mineiro ao se envolver em ocorrências policiais.
Um mito que existia na regional de Guanhães, que não se sabe ao certo gozação ou realidade era a história que envolvia Paulo Olegário, delegado de Virginópolis. Faria era um policial novo como delegado e seu colega Paulo Olegário um veterano de delegacia de homicídios e de inspetoria de Furtos e Roubos, antes de assumir aquela comarca. Diziam, que em razão do alto número de assassinatos na região, sempre que aparecia um corpo desconhecido na zona rural, nas proximidades da divisa com Peçanha, ele dava um jeito do cadáver “dar uma caminhada” até o outro lado do rio e a competência da apuração passava a ser de Faria. Mito? Verdade? Nunca saberemos.

          Fotos acima: São Pedro do Suaçui e Nacip Raydan.


ZÉ DA ÉGUA

          Um dos casos que registramos, cuja conclusão positiva dependeu da experiência investigativa de Faria, ocorreu no final do ano de 1984, quando um homem foi assassinado, o corpo desovado e carbonizado no aeroporto de Santa Maria do Suaçuí, causando repercussão pela brutalidade da morte. O diligente delegado Geraldo Magela, da cidade onde o corpo foi jogado à época, começou a ligar para seus colegas que trabalhavam nas demais comarcas vinculadas à Delegacia Regional de Guanhães, para saber de alguma pista que pudesse identificar a vítima ou os autores. O Delegado Faria, tinha conhecimento que o “modus operandi” de crimes dessa natureza era praticado na capital, pelo grupo de extermínio denominado “Bombril”, que desde o final da década de 70, executavam e incendiavam corpos de marginais. Deduziu que o “know-how” poderia ter sido trazido de BH e possivelmente haveria a participação de policiais. Começou a investigar o desaparecimento de um rapaz, envolvido em pequenos furtos na zona rural de Peçanha, cujas informações foram repassadas por um velho lavrador que lhe procurou na delegacia de Peçanha. O homem registrou o desaparecimento de seu filho, conhecido ladrão de gado na região, alcunhado de “Zé da Égua” e tinha receio dele ter sido assassinado.
          Faria Imediatamente, ligou o desaparecimento de “Zé da Égua” com o corpo carbonizado do aeroporto de Santa Maria do Suaçuí, e levou o lavrador e um médico legista para Santa Maria do Suaçuí.
          O Delegado Geraldo Magela procedeu à exumação do corpo, retirado da cova rasa pelo coveiro da cidade. Os restos mortais foram prontamente reconhecidos pelo trabalhador rural como sendo seu filho. Os criminosos ao fugirem não perceberam que um pé da vítima ficara intacto. Através do pé do cadáver e de um pedaço de camisa amarela, únicos vestígios intactos no corpo, o pai não teve dúvidas de que era seu filho. Faria entrou em contato com José Resende de Andrade, Secretário adjunto de Segurança Pública e conseguiu uma equipe da Delegacia de Furtos e Roubos de Belo Horizonte, cedidos pelo seu amigo Antonio Alves, (o “Toninho Alves”, chefe do “Kilo”) para auxiliar nas investigações. A equipe era formada pelos detetives Osvaldo Melgaço, Paulo Menezes e Anésio dos Passos, que já estavam acostumados a trabalhar naquela região com Faria. Iniciaram as investigações na zona rural, vasculhando a região de reflorestamento de eucaliptos, próxima da cidade de Peçanha, último local que a vítima fora vista com vida. Faria sempre acompanhava seus policiais, conversando com lavradores, donos de vendas, nos botecos perdidos nos rincões daquela região e conseguiram algumas informações preciosas. Segundo testemunhas, “Zé da Égua” fora visto antes de morrer na companhia de um sargento da PM, de Governador Valadares, conhecido por “Fortunato”, um motorista da prefeitura de Peçanha conhecido por “Tim Tim” e um desocupado de alcunha “Lindim”.

          Posteriormente, as citadas pessoas foram vistas em uma Pick up, marca FIAT, transportando algo enrolado em plásticos ensanguentados e disseram para as testemunhas que “era um porco que tinham acabado de sangrar”. Prosseguindo nas investigações, os policiais fizeram o percurso que os criminosos teriam que fazer para percorrer o itinerário de Peçanha ao aeroporto de Santa Maria do Suaçuí, distante cerca de oitenta quilômetros do local do assassinato. No distrito de “Folha larga”, alguns quilômetros antes de chegar à Santa Maria do Suaçuí, o crime começou a ser desvendado e a versão do “porco sangrado”, ajudou a responsabilizar os autores. Em contato com policiais militares do destacamento de “Folha Larga”, um sargento confirmou que no dia anterior ao aparecimento do corpo de “Zé da égua”, seu colega, o sargento Fortunato, passou com mais duas pessoas por aquele distrito, à noite. Foi parado na barreira que estava sendo feita para conferencia dos veículos e ocupantes que passavam pelo local e alegou que estava com um “porco morto” para levar para Santa Maria do Suaçuí. Juntados os depoimentos e perícias o Delegado Faria e seus policiais apontaram as autorias e responsabilidades pelo assassinato, provocando a fuga dos assassinos. Concluídas as investigações, cópia do relatório foi remetida para a PM e as prisões preventivas dos envolvidos foram decretadas pela justiça de Santa Maria do Suaçuí. Foi um período de muita tensão para o policial, ao receber dos autores do bárbaro crime, através de intermediários, o aviso que estava marcado para morrer. O policial passou a ter maior precaução, mudou a rotina e evitava dar as costas nos restaurantes e locais que frequentava. Afinal era uma região onde a vida pouco valia para os pistoleiros que por ali agiam. A casa onde morava ficava em um local que lhe expunha muito e o obrigava a andar constantemente com a arma na mão nos momentos que chegava e saía. 


O TIRO NO BAR DO NERY

          Naquela ocasião, aconteceu um fato que poderia ter sido fatal para o delegado Faria, dentro daquele quadro de ameaças. O policial havia ido ao restaurante do Neri, na praça principal de Peçanha para jantar, como fazia rotineiramente. Por descuido, Faria encostou-se, no balcão do estabelecimento comercial, de costas para a rua, quando ouviu o estampido de um tiro vindo de trás. O barulho causou um corre-corre de pessoas assustadas, outras se escondendo debaixo do balcão e na cozinha do restaurante, enquanto Faria, rapidamente, achando que era o alvo, voltou-se e apontou o seu revólver na cabeça do homem que se encontrava atrás dele. O indivíduo tremendo e com o rosto desfigurado de medo pela arma na sua cara, mostrava uma bolsa que estava no chão. O Delegado Faria conferiu para ver se não havia sido atingido e apanhou a polchete com um furo chamuscado pelo projétil, sem perder de vista o homem. Após o susto o cidadão conseguiu se identificar como mascate (vendedor no interior) e explicar que ao entrar no restaurante deixou cair sua bolsa, disparando acidentalmente sua arma, um revólver INA, de fabricação Argentina, tendo o projétil atingido a parede, e frente do balcão, alguns centímetros acima da cabeça do delegado. Faria acionou os policiais militares que faziam a ronda na praça e determinou que recolhessem o elemento ao xadrez. Em seguida tomou um bom trago de conhaque para se recuperar do susto.


LINCHAMENTO DE COROACI

          Coroaci é uma cidade que fica situada acerca de quarenta e cinqüenta quilômetros de Peçanha e outros sessenta de Governador Valadares. O primeiro percurso era feito em uma perigosa e estreita estrada de terra, com muitas curvas em subidas e descidas pelas montanhas íngremes daquela região. No ano de 1985, ocorreu um assassinato de uma mulher na zona rural da cidade, trucidada com vários golpes de facas, foices, pedras, espancamentos diversos, porrete e tiro de garrucha. O crime ocorreu durante a noite passando pela madrugada. Por volta das seis horas da manhã Faria foi acionado pela PM do destacamento da cidade para informar o crime. Esclareceram que já haviam prendido cinco autores do bárbaro crime e aguardavam a presença do delegado para a lavratura do flagrante. O Delegado Faria comunicou os fatos ao Delegado Regional de Guanhães, Sérgio Francisco de Freitas, como era de praxe nos casos de homicídio. Em seguida deslocou-se com seu escrivão Leandro para aquela cidade. Em Coroaci tomou conhecimento que a vítima, no dia anterior à sua morte, foi pivô do assassinato de seu próprio pai, sendo seu marido o autor, induzido ao crime por causa das terras de seu sogro.

           O ditado “Violência gera violência” pode não ser justo, mas é real.

         Durante o velório do fazendeiro, os familiares: tios, irmãos, filhos, sobrinhos e outros aparentados e revoltados com o crime, resolveram vingar o velho fazendeiro. Fizeram o enterro e do cemitério se dirigiram para a casa do assassino, dentro da propriedade do morto. Como era de se esperar, o criminoso foragira após o assassinato e não se encontrava na propriedade rural. Os familiares, em número de 23 pessoas entre adultos e crianças, buscando a “Vendeta” partiram para cima da mulher que era ao mesmo tempo irmã, prima, tia e sobrinha daquelas pessoas sedentas de sangue. De posse de armas diversas (Facão, pedras, garrucha, foice, enxada e outros petrechos) mataram a infeliz com crueldade e barbaridade intensa, deixando seu corpo desfigurado na parte externa da fazenda. Cinco dos criminosos, maiores, apresentaram-se no Quartel de Coroaci, sede do destacamento da PM onde confessaram a autoria do homicídio, quando foram recolhidos. Ou seja, apresentaram-se de forma espontânea.

          Assim que tomou conhecimento da situação, o Delegado Faria, na companhia de um soldado de Coroaci foi em direção à fazenda onde ocorreram as duas mortes, na tentativa de apreender algumas das armas e objetos utilizados na chacina, identificar testemunhas e prender outros criminosos que porventura fossem localizados. A estrada de terra que ligava Coroaci à fazenda palco dos assassinatos tinha um percurso que não excedia a seis quilômetros. No entanto, Faria e o soldado que o acompanhava tiveram uma grande surpresa, logo ao sair de Coroaci e avistar 18 pessoas (velhos, homens, mulheres e crianças) em fila indiana se dirigindo para a cidade, vindo da direção da fazenda. Faria parou o fusquinha que dirigia e ao abordá-los e se identificar como delegado, o “líder” do grupo esclareceu que estavam indo para o quartel da PM para se apresentarem, pois todos estavam envolvidos e tiveram participação ativa no crime. O Delegado, perplexo, orientou as pessoas a continuarem e aguardarem no quartel o seu retorno da fazenda. Os criminosos lhe atenderam, prosseguindo em fila indiana na direção do destacamento da PM. O “líder” prontificou-se a acompanhar os dois policiais até a fazenda, onde ajudou a recolher vários objetos e armas usadas no crime praticado pela família de justiceiros.

          Com o apoio do delegado regional Sérgio Francisco de Freitas, que chegara à Coroaci em apoio a Faria, todas aquelas pessoas foram ouvidas em um cartório improvisado, onde o escrivão era o próprio Delegado regional. Na falta de médicos legistas na cidade ou possibilidade de deslocamento naquele momento, (quem atendia era a capital) o Auto de Corpo de Delito foi feito por um farmacêutico da cidade, que fez o exame visual na vítima e descreveu as lesões e feridas encontradas. Pelas dificuldades de toda espécie encontradas nessa chacina específica, Faria tentou convencer a família que um deles, um surdo-mudo não teria participação no crime e que, portanto poderia ser dispensado. Ao comunicarem com o deficiente, argumentando o posicionamento do delegado, ele, nervosamente, começou a gesticular com sinais que mostravam cabalmente a sua participação e a forma como golpeara a vítima, sua tia, não se abstendo da responsabilidade pela sua participação no crime. O delegado Faria foi obrigado a buscar em Governador Valadares um intérprete para a oitiva do surdo-mudo, concluindo o inquérito policial sem ratificar a prisão em flagrante dos 23 criminosos, em razão da apresentação espontânea. Nesse episódio, o Delegado Faria sempre elogiou a postura de seu chefe, à época, Sérgio Francisco de Freitas, que em nenhum momento se posicionou em relação aos procedimentos policiais a serem adotados, deixando todas as decisões por conta de seu delegado e atuando apenas como um escrivão auxiliar.


OS CIGANOS EM VIRGOLÂNDIA

         No interior do estado, os policiais passam por muitos percalços e situações insólitas, principalmente o delegado de polícia. A autoridade policial, ao revés dos defensores públicos, promotores e juízes, dentro do contexto da persecução criminal, não têm o mesmo tempo disponível que as demais carreiras jurídicas, devendo, rotineiramente assumir decisões acertadas ou não, em tempo real. Para esses policiais não existiam finais de semana, recesso e feriados. Tinham de estar prontos para serem acionados, 24 horas por dia, sete dias por semana. As circunstancias e os fatos apresentados não lhes davam o privilégio de pensar duas vezes, ou aguardar decisões para manifestações futuras. Este é o grande diferencial. 
          Em um sábado pela manhã, de novembro de 1984, Faria se encontrava em casa, na sua comarca, quando foi chamado pelo Sargento Manoel e Cabo Pereira, (seus braços direito e esquerdo) para auxílio em Virgolândia. Outros policiais militares daquela cidade, da circunscrição de Peçanha, teriam cercado um acampamento de ciganos para a prisão dos responsáveis por uma série de furtos de animais e outros delitos naquela região. Na Polícia Militar existe uma diferença nos procedimentos operacionais em relação a deslocamentos de militares de uma área para outra, e na época, o tenente não deixou que os dois, Cabo e Sargento, acompanhassem o delegado. Faria, então, pegou sua viatura policial, o já mencionado Fusca 74 caracterizado e deslocou-se para a zona rural de Virgolândia. Na saída da cidade encontrou-se com o Delegado Sérgio Francisco de Freitas, que ali se fazia presente para dar a conferida de sempre nos finais de semana, ou seja, verificar se o delegado não estava “voando” da cidade. O Regional ficou surpreso e chamou Faria de “doido” por estar indo sozinho no encalço dos ciganos. Faria despediu-se de seu regional e rumou para a zona rural de Virgolândia, em direção a Nacip Ray Dan, onde acontecia “o cerco”. Pela falta de policiais civis eram comuns as diligencias sem o apoio de outro policial, principalmente diante da negativa do oficial PM. Ao chegar, o delegado verificou que os policiais militares, em número de quatro, agiram precipitadamente e não fizeram o cerco a contento, deixando todos os ciganos “homens” fugirem. Foram feitas algumas investidas pelas fazendas próximas, mas nenhum deles foi localizado, o que impediu a prisão dos ladrões. 

          Mas um problema foi deixado na mão de Faria, e, diga-se de passagem, um problema bem barulhento e que necessitava de uma decisão imediata, no meio daquele sertão mineiro. Com a fuga dos ciganos, eles deixaram para trás, suas mulheres, filhos (cerca de quarenta no total) e oitenta animais furtados, entre mulas, burros e cavalos. As mulheres e crianças falavam palavrões, lamuriavam, gritavam e choravam em um coro triste para os ouvidos daquele delegado. As ciganas acompanhavam todos os movimentos do policial, que tentava convencer os fazendeiros próximos a guardarem os animais apreendidos em seus pastos. Temendo prejuízos, responsabilidades e principalmente uma retaliação por parte dos ciganos, quando retornassem, após a retirada dos policiais, nenhum fazendeiro aceitou a missão, o que era compreensível. O que fazer? A decisão do Delegado de Polícia, principalmente no interior, conforme comentamos, tem que ser na hora, não há como esperar. O Delegado Faria, decidiu que, na falta de identificação das vítimas de furto dos animais e sem local para guardá-los ou alimentá-los, entregá-los às mulheres ciganas. Elas, com crianças de colo falavam uma língua que o policial não entendia, mas sabia que o xingavam, apesar disso tomou a decisão que entendeu a correta naquele momento: devolveu os animais furtados para as mulheres que foram também liberadas, desaparecendo na estrada empoeirada, cantarolando alegremente músicas ciganas com a tropa de cavalos, burros e mulas.


O FAZENDEIRO DE TABULEIRO. SÃO JOSÉ DO JACURI.

          O Delegado Faria, atuando em Peçanha e cidades da área, sempre teve diálogo direto com o Secretário José Resende de Andrade, pela abertura que dava para seus policiais operacionais. E diante dessa liberdade, o policial sempre buscava o apoio de policiais da antiga Delegacia de Furtos e Roubos, de onde saiu para suas atividades no interior do estado. E inúmeras foram as diligencias com a ajuda dos policiais Osvaldo Melgaço, Paulo Menezes, “Pardal”, Anésio dos Passos, “Chic Chic”, "Camarão", dentre outros grandes policiais. Assim que chegavam à cidade, várias blitzens, operações e investigações eram desenvolvidas, sempre com bons resultados. Em uma dessas operações, na cidade de São José do Jacuri, os detetives Melgaço, Paulo “Silú” e Anésio acompanhavam o Delegado Faria em um trabalho noturno, no lugarejo denominado Tabuleiro, cerca de 20 quilômetros da cidade de Jacuri. Naquele distrito ocorreram vários homicídios, tentativas e outras agressões com armas de fogo e branca, havendo necessidade de uma de ação enérgica contra a violência local. Com a ajuda de um vereador de Jacuri, o “Nego Maia”, os policiais foram no Fusca 74 caracterizado e uma Brasília do político citado.
          O caminho para se chegar ao local era uma estrada de terra estreita e poeirenta, com pouquíssima visibilidade em noites sem lua cheia, como aquela. Como era comum para aqueles policiais, todas as pessoas que cruzavam o caminho eram revistadas para verificar se portavam armas. Dentre os cidadãos conferidos, eles encontraram quatro cavaleiros que foram parados diante dos faróis da viatura (o fusquinha 74), e o velho jargão de identificação: “Parados, Polícia”. Um dos homens pulou do cavalo e, saiu “rasgando” o peito em uma cerca de arame que dividia a estrada com um pasto de uma propriedade, fugindo todo arranhado e caindo aos tropeços que levava do terreno de altos e baixos, na escuridão que assolava o local. Percebendo que o elemento estava armado, os policiais fizeram vários disparos para intimidá-lo, tendo arremessado para longe a arma que portava. Os policiais Melgaço e Faria que saíram correndo no encalço do fugitivo, conseguiram localizar e apreender o revólver calibre 38, enquanto Paulo e Anésio rendiam os outros três homens. Ao ser abordado, o homem mais velho (cerca de 70 anos) resistiu à busca, tentando agredir os policiais sofrendo alguns safanões para ser contido. Apesar da idade, era homem do campo e como tal, força física e robustez não lhe faltavam. Não sendo encontrado nada com os três, eles foram advertidos para que aguardassem os veículos que estavam com os policiais em direção a Tabuleiro.
          Os homens foram liberados para continuar sua viagem rumo à Jacuri. O velho, no entanto, mudou seu destino e começou a galopar em direção a Tabuleiro, falando palavrões e esbravejando que iria avisar da presença dos policiais, para prejudicar a operação em andamento. Faria e os detetives correram até os veículos e aceleraram para alcançar o idoso ignorante, conseguindo interceptá-lo após alguns poucos quilômetros. Faria conversou com seus policiais, orientando que violência não resolveria e que tentaria o diálogo, antes da iminente prisão por desacato e resistência. Faria e Paulo Menezes seguraram no arreio do animal e conversaram com o velho que continuava a xingar e dizer impropérios. Enquanto tentavam convencê-lo a se acalmar, Anésio postara ao lado da sela onde o velho estava montado. Depois de alguns minutos e diante da impertinência do velho, Melgaço e Anésio deram um sinal para que fossem embora, que tudo se resolveria. Faria e Paulo não entenderam bem, mas caminharam em direção aos veículos, quando perceberam que o cidadão tentou novamente empreender galope para Tabuleiro. Digo tentou, porque Anésio, quando estava ao lado do animal, com o uso de uma faca, cortou a barrigueira da sela sem que o irritado cidadão percebesse. Ao ser liberado e tentar novamente correr em direção ao lugarejo, o velho começou lentamente a cair de lado, se estatelando no chão, no meio a fina poeira vermelha da região. Os policiais continuaram a jornada, ouvindo ao longe a série de palavrões, agora mais “cabeludos”, do atrevido senhor, posteriormente identificado como um rico fazendeiro da região. A operação foi realizada em Tabuleiro, algumas armas foram apreendidas e o recado foi deixado para os desordeiros.


O FAZENDEIRO DE MARILAC

          Em 1984, Faria, juntamente com policiais militares do destacamento de Coroaci, como delegado da comarca de Peçanha, foi para a cidade de Marilac, cerca de cem quilômetros da sede, para investigação do homicídio de um conhecido fazendeiro da região. O local do assassinato ficava em estrada de terra da zona rural, nas proximidades de uma curva, no alto de barranco que serviu de trincheira para os pistoleiros tocaiarem sua vítima e matá-la com vários tiros. Diante das dificuldades naturais para apuração de crimes de pistolagem, não foi possível chegar aos autores pela falta de recursos da polícia nos rincões de nosso estado, principalmente, naquela época. No entanto, através de testemunhas foi possível identificar o mandante, outro fazendeiro, vizinho da vítima que brigava há muito tempo por causa de divisa de terras.

          Coordenando a equipe de policiais, Faria deslocou-se para a fazenda do mandante para conduzi-lo à delegacia de Marilac onde seria interrogado na tentativa de elucidar o caso e responsabilizar os assassinos. Ao adentrarem na fazenda, depararam com o fazendeiro, que esboçou imediata e violenta reação contra os policiais, tentando sacar sua arma, sendo prontamente dominado e desarmado. O homem resistiu à prisão, tentando agredir os policiais com violência, ao que foi contido através do uso de força, o que lhe causou várias escoriações pelo corpo. Subjugado, o mandante foi levado à delegacia, ouvido e liberado diante da negativa de participação no bárbaro crime. A falta de materialidade e provas robustas que pudessem levar ao indiciamento e ligá-lo ao crime, levaram à sua liberdade. Na impossibilidade de êxito nas apurações, retornaram para a rotina profissional, tendo Faria feito contato com Secretário adjunto, José Resende de Andrade, no sentido do envio de equipe da delegacia de homicídios para aquela cidade.

          Um dia após o retorno, o Delegado Faria encontrava-se no gabinete da delegacia de Peçanha, em uma casa velha da prefeitura, de dois pavimentos, tábuas corridas antigas e uma pequena escadaria lateral que dava acesso à unidade policial no andar superior. Ainda pela manhã, chegou uma advogada do sindicato dos produtores rurais, profissional de seu relacionamento, que lhe pedia providência em relação a um sindicalizado que se encontrava na ante sala da unidade policial, vítima de arbitrariedades por parte de militares. Faria solicitou da advogada que buscasse seu cliente para que pudesse entrevistá-lo, se inteirar da situação e verificar as medidas a adotar para o caso. A cena que se passou foi estranha e cômica, quando a advogada chamou o homem que se encontrava do lado externo da sala, fora do alcance da visão do delegado. Ao ser chamado, o fazendeiro colocou os pés na soleira da porta do gabinete, fez o gesto de tirar o chapéu, olhou para o Delegado Faria e escorou-se no portal de madeira. Em seguida virou-se bruscamente e saiu em desabalada carreira, aos tropeços nos degraus da escada da delegacia, descendo a rua rapidamente como se tivesse visto uma assombração. A advogada não entendeu nada, quando Faria lhe contou que aquele homem era o mandante do crime de Marilac e que ocorrera um entrevero entre eles quando estavam investigando o caso e ao que parecia, ele veio pedir providências contra o próprio Faria, fugindo ao reconhecê-lo. Aquele fazendeiro nunca mais retornou ou foi visto em Peçanha.


CASO JOAQUIM SOUTO

          O ano de 1985, em Peçanha foi palco de um duplo homicídio a morte de um próspero comerciante e fazendeiro, Joaquim José Souto, talvez o homem mais rico da cidade e seu tratorista Antônio Lutério da Silva, em uma estrada de terra que ligava a fazenda da primeira vítima à cidade. O crime causou grande repercussão e consternação na terra dos “paneleiros”, por ser morte anunciada em razão da rixa antiga existente entre Joaquim Souto e seu primo Jaci Souto. O crime chegou ao conhecimento do Delegado Faria em princípio de março de 1985, em uma Sexta-feira, por volta das dezenove horas, quando o sargento Manoel, do destacamento da PM de Peçanha, bateu à porta da casa onde o delegado residia, alegando que estava com “dois defuntos” aguardando na porta, dentro do Jipe. Em razão da estranha notícia, um tanto quanto inadequada e ilógica: “trazer dois defuntos para a casa do delegado?”. Faria pensou tratar-se de brincadeira. O delegado questionou o sargento se era algum tipo de gozação, tendo o sargento confirmado a ocorrência do crime, alegando que Joaquim Souto e Antônio Lutério, seu tratorista, haviam sido assassinados e os corpos estavam no interior do Jipe, na rua. Faria saiu até a porta da casa onde morava, na saída para Coroaci e viu, incrédulo, os dois cadáveres amontoados dentro do veículo. Nervoso e não acreditando no que via, o policial questionou o motivo de não terem deixado os corpos na cena do crime e preservado o local para que a perícia fizesse o seu trabalho de coleta de provas. Principalmente em se tratando de crime de tamanha repercussão. A resposta do policial militar: “Dr. Faria, já está iniciando a noite, temos que atender outras ocorrências e fazer o policiamento na área central. Não podemos passar a noite esperando o perito de Guanhães”. A resposta foi um balde de água fria para o delegado, ao perceber a negligencia e o desconhecimento do policial militar em relação à preservação de um local de crime de tamanha notoriedade como aquele, demonstrando falta de preparo e conhecimento técnico para a fundamental coleta de provas.

          Inconformado, Faria determinou que os corpos fossem para o Hospital de Peçanha, onde requisitou a presença do Dr. Leão, médico daquela cidade, para a elaboração do Auto de Corpo de Delito, nomeando-o como perito ad hoc. Procedida à necropsia, comprovou-se que foram assassinados por tiros de carabina, pistola ou revólver, a curta distancia. A cidade ficou estarrecida, familiares, amigos e curiosos lotaram as ruas nas proximidades do hospital e delegacia, surgindo no murmurinho da população à primeira versão para o crime. Contavam que Jacy Leal Souto, primo de Joaquim Souto e seu filho Célio Campos Souza vinham em um veículo Chevette da fazenda de propriedade de Jacy, para Peçanha, quando acabou a gasolina do veículo, obrigando-os a parar. Neste momento apareceu na curva onde se encontrava parado, outro veículo, um Fiat dirigido por Joaquim Souto que estava com seu tratorista. O primo parou ao lado do Chevette quando tentaram matar Jacy, e este, prontamente se defendeu, atirando nos dois, atingindo-os mortalmente. Era um duplo homicídio com características de fácil elucidação, não fosse à descaracterização do local. Absurdamente, Faria tomou conhecimento que não apenas os corpos foram retirados do local, mas também os dois veículos. A versão noticiada pela cidade ganhara proporções de legítima defesa e com a bagunça deixada pelos PMs no local, dava ao assassino, fôlego para manter a sua “verdade”. O delegado instaurou o inquérito naquela mesma noite ouviu a versão de Célio Campos, já que seu pai, Jacy, estava foragido após a consumação do crime. O rapaz, na época, com 19 a 20 anos, confirmou que a gasolina do veículo acabou e seu pai lhe pedira para buscar o combustível em Peçanha. O rapaz, em seu depoimento afirmara que deixara seu pai sozinho na estrada, em torno das dezessete horas à espera do combustível, enquanto caminhava para buscá-lo. Durante o trajeto várias pessoas o viram com o galão vazio, indo a pé em direção à cidade. Álibi perfeito. Testemunhas confirmaram em depoimento terem visto Célio com um galão de plástico, indo a pé para Peçanha. Versão inquestionável.
           Era só ouvir as testemunhas, o autor e remeter à justiça com relatório concluindo pela legítima defesa. Ou não?

          No Sábado, a história começou a desmoronar, quando Faria, com sua experiência de policial de Furtos e Roubos, notara que os depoimentos estavam “redondos” demais, sem nenhuma contradição ou chance para outra versão. O Delegado, no sábado bem cedo, chamou o escrivão Leandro, único policial civil lotado na Delegacia, para irem ao local do crime, distante cerca de seis quilômetros da cidade, onde permaneceram por cerca de duas horas. Faria priorizou a observação nos quinhentos metros que antecederam a curva fatídica e o mesmo perímetro após o local dos tiros. Também delimitou como área de observação, cerca de dez metros nas laterais da estrada. O local trazia as marcas da tragédia, a cena era transmitida para o policial através das poças de sangue na terra, estilhaços de vidros espalhados e alguns cartuchos utilizados para consumação dos crimes. O crime era desenhado de forma transparente para o policial. Dentro da área delimitada, o Delegado Faria observou que tanto de um lado como do outro das margens da estrada, em posição estratégica de espera, haviam vegetações esmagadas e amassadas, com visão privilegiada de quem vinha pela estrada. No entanto, as pessoas que ali se posicionaram tinham visão da curva, mas não eram vistas. Características de crime de emboscada, próprias dos antigos toqueiros, pistoleiros que se espreitavam nas proximidades de caminhos à espera de sua presa. Tocos de cigarros também confirmavam a presença dos urutaus nas moitas, por um longo decurso de tempo.

          A versão de legítima defesa era jogada por terra após o exame minucioso do local do crime.

          Retornando a Peçanha, Faria fez uma vistoria nos dois veículos apreendidos, constatando que Joaquim Souto e Lutério foram “abatidos” na posição que se encontravam nos bancos do veículo, ou seja, foram apanhados de surpresa, não tendo a mínima chance de defesa. A partir das análises de local e vistorias, o delegado passou a ter a convicção de que o Chevette de Jacy foi colocado propositadamente na curva para obstacular a passagem de Joaquim Souto. A vítima ao frear dentro de uma curva para não bater, foi assassinada covardemente, juntamente com seu tratorista que não poderia permanecer vivo, pois seria testemunha da emboscada. O delegado convocou um mecânico, profissional competente e muito conhecido na cidade, nomeando-o perito ad hoc, dando-lhe instruções para retirar e verificar a litragem de combustível no tanque. A lógica do policial partiu da seguinte premissa: o sargento Manoel colocou três litros de gasolina em um tanque, em tese, vazio, para trafegar por cerca de seis a oito quilômetros do local do crime até o quartel da Polícia Militar, conduzindo o carro do assassino. Então deveriam sobrar cerca de dois litros, certo? Errado. Como se tratava de uma simulação de legítima defesa, os criminosos não esperavam que os policiais fossem preocupar em investigar profundamente as provas e circunstancias do crime. Isso não era normal naquela região, onde matar era uma banalidade em uma cidade que permaneceu por mais de dois anos sem júri. Eram comuns os assassinatos na região, e, principalmente, a impunidade. Após a retirada do tanque e a transferência da gasolina, para recipientes, cujos trabalhos foram acompanhados de perto pelo Delegado, que não queria deixar escapar nada, foram encontrados e medidos cerca de dezoito litros de combustível no interior do tanque do veículo. Se os militares tentassem ligar o carro antes de colocar o combustível, teriam, de forma elementar, constatado que era uma armação e que não faltava gasolina no tanque.

Matérias do Jornal do Rio Doce. 1985.

        Jacy Leal Souto apresentou-se alguns dias após o crime, em Guanhães e desconhecendo os pormenores da investigação tentou se esquivar de ser ouvido pelo Delegado Faria, optando pela antiga autoridade policial da comarca de Peçanha, José Ferreira de Barros, que estava na sede da regional. Sérgio Francisco de Freitas, delegado regional de Guanhães, sempre demonstrando muita ética e senso de justiça, marcou data e horário para o criminoso, avisando Faria para comparecer na regional e tomar suas declarações. Jacy confirmou as palavras do filho em relação ao combustível e alegou legítima defesa, desconhecendo as provas que haviam sido coletadas contra ele. Para o fechamento das investigações, Faria acionou a “tropa de choque” da Delegacia de Furtos e Roubos de Belo Horizonte, sendo designados os detetives Camarão, Melgaço e Paulo Menezes para auxiliá-lo e tentarem a apreensão das armas usadas no crime. Chegando à cidade e de posse das investigações já realizadas, os policiais não tiveram dúvidas de que a linha de raciocínio e investigação estava correta. Célio Campos foi intimado novamente e após alguns minutos de interrogatório e diante das inúmeras evidências apresentadas, não resistiu à pressão psicológica e confessou as circunstâncias do crime. Célio deu os detalhes da preparação, motivos do crime perpetrado e seus autores.

          Por causa de uma estrada que cortava a fazenda de Joaquim Souto, único acesso para Jacy sair de sua fazenda, caso contrário teria que dar uma grande volta, surgiu o desentendimento entre os primos. A primeira tentativa de assassinato contra Joaquim ocorreu em 1983, quando saiu ileso de uma emboscada na Lagoa Souto, próxima de sua fazenda. Em março de 1985 não teve a mesma sorte. Jacy contratou o pistoleiro de Governador Valadares, conhecido por “Amerquinho” e juntamente com seu filho simularam a falta de gasolina e prepararam a emboscada. Enquanto Célio caminhava com o galão para caracterizar o álibi, o pistoleiro e Jacy se posicionaram no meio do capim e arbustos, onde, munidos com uma pistola, uma carabina de repetição e revólveres, mataram covardemente suas vítimas, que não tiveram tempo de esboçar a menor reação. Foram decretadas as prisões preventivas dos envolvidos que desapareceram da região, passando a mandar recados de ameaças de morte contra o delegado Faria pela elucidação do crime.


NICOLAU, O VELHO PISTOLEIRO

           Peçanha, apesar do número excessivo de homicídios ocorridos, principalmente na zona rural, era uma cidade de população ordeira e tranquila nos anos de 1984 e 1985, sendo a primeira comarca assumida pelo Delegado Faria naquele período. Os assassinatos referidos ocorriam com mais frequência nos municípios de São José Jacuri, São Pedro Suaçuí, Virgolândia, Coroaci, Nacip Raydan e Marilac que pertenciam à área de abrangência de atuação daquela autoridade policial. A ausência de promotor na cidade e longos períodos sem tramitação de processos e julgamentos acarretaram a ausência de Júris e, via de consequência, a impunidade.

        Dentro dessa comunidade, vivia Nicolau, um negro espigado, com cerca de 70 anos, conhecido na cidade por seus crimes de pistolagem no passado. Já havia cumprido as condenações por alguns de seus crimes, outros processos foram arquivados por prescrição e naquela época, Nicolau era considerado um “pistoleiro aposentado”, no entanto, temido na cidade onde vivia de “catiras”, pequenos negócios que iam desde vendas de armas (polveiras e garruchas) até porcos, terrenos, etc. Chegando a Peçanha, Faria não precisou chamá-lo, já que era seu costume frequentar a delegacia e o quartel da cidade. Questionou-lhe em relação à venda de armas e advertiu que iria efetuar sua prisão caso tivesse notícia de porte ou comércio ilegal. Nicolau atendeu sua recomendação e realmente não se ouviu dizer de seu envolvimento com arma após aquele primeiro encontro. Ao contrário, sempre ia à delegacia para levar algumas informações de interesse policial, como pessoas envolvidas com crimes, com armas etc.

          Nicolau tinha muitos inimigos por razões diversas e de certa feita foi intimado à delegacia, juntamente com seu vizinho por causa de confusão e ameaças concernente à divisa do terreno contíguo. Faria tentou resolver a situação, advertindo-os que instauraria inquérito policial contra os dois, caso a rixa permanecesse. Ocorre que o vizinho de Nicolau agiu ardilosamente e o denunciou ao delegado, afirmando que possuía armas em casa. Faria, apesar de gostar do Nicolau, foi até sua casa e deu uma busca, apreendendo duas espingardas polveiras, muito comuns na década de 80 naquela região. Nicolau declarou que as armas eram para sua defesa e que sem elas ficaria desprotegido. Faria lhe alertou que acreditava estar seu vizinho, preparando uma cilada, mas nada podia fazer em relação às armas, apenas lhe orientava a tomar cuidado. Sabendo que Nicolau estava desarmado, o vizinho tramou uma emboscada para o “velho pistoleiro”, escondendo em uma vegetação nos fundos da casa onde aguardou a sua chegada. 

          Era princípio da noite quando Nicolau chegou e não percebendo a tocaia, foi surpreendido pelo vizinho, que disparou um tiro de espingarda polveira, atingindo o rosto de Nicolau, vazando um de seus olhos na hora. Nicolau, apesar de sua idade, era muito forte e a experiência de sua vida passada no mundo do crime lhe dera muita tenacidade e coragem. Mesmo cego de um olho, não se intimidou e correu para sua cozinha com o rosto sangrando, onde apanhou na escuridão do cômodo, uma pesada “mão de pilão”, desferindo um golpe certeiro na cabeça de seu vizinho que lhe perseguia para terminar o serviço. Depois de desarmado e atordoado pela primeira pancada, o vizinho de Nicolau foi espancado violentamente até a morte. Nicolau foi autuado em flagrante pelo próprio delegado Faria, no hospital da cidade, onde foi socorrido. Dias depois foi relaxada sua prisão em razão da legítima defesa citada no relatório do inquérito remetido à justiça. 

          Pouco tempo depois, Faria foi transferido para Sabinópolis e a sorte do velho pistoleiro não ia durar muito. Em uma noite, no final de 1986, dois pistoleiros, vestindo roupas de policiais militares, bateram à sua porta e o chamaram à rua. Não enxergando direito pela cegueira de um dos olhos, Nicolau ficou desconfiado a princípio, por ser noite e a pouca iluminação onde morava, mas ao ver os uniformes da PM, tranquilizou-se. Ele sempre nutriu um grande respeito pela polícia. Nicolau, achando ser um dos policiais militares da cidade, com quem tinha amizade, abriu a porta e saiu à rua, sendo fuzilado e morto pelos dois bandidos que desapareceram sem serem identificados.

          O crime foi uma incógnita até 1992. Por coincidência, nesse ano, quando o Delegado Faria, já estava atuando na capital e chefiava a 4ª Delegacia de Furtos e Roubos e a morte do velho pistoleiro iria ser apurada pelo próprio policial. Durante diligencias e investigações envolvendo a “Chacina de Malacacheta”, Faria, juntamente com a equipe de Furtos e Roubos, efetuou a prisão do pistoleiro Gilberto Marçal, vulgo “Cabelo Seco”, que confessou, dentre outros crimes, o assassinato de Nicolau. O pistoleiro cometeu o crime juntamente com um ex Policial Militar de Governador Valadares, conhecido por Deusdeth, que fora expulso da corporação e trabalhava como vendedor em Peçanha. Deusdeth sabia dos passos de Nicolau e a sua rotina. Gilberto “Cabelo Seco” participou da “Chacina de Malacacheta e tinha como “modus operandis” se travestir de policial para a prática dos crimes de pistolagem. Era uma maneira de se aproximar de suas vítimas sem que lhes desse tempo para uma reação. Em Malacacheta, junto com outros pistoleiros, simularam serem policiais civis com o uso de coletes, quando dominaram e mataram sete pessoas de uma mesma família. Também em Conselheiro Pena vestiu farda da PM e junto com um investigador do Espírito Santo, matou um casal de fazendeiros.


O FILHO DO PREFEITO DE PEÇANHA

          Apesar de todos os problemas encontrados para a gestão da delegacia, o delegado não aceitava ser desafiado ou colocado em cheque o respeito à sua autoridade e à polícia Civil que representava. Era a grande arma que os policiais possuíam naquela região, onde os grandes “coronéis” e os crimes de morte por encomenda ainda lutavam para sobreviverem à realidade da transição de um período de recessão para o retorno da democracia. Os delegados tinham de ter pulso forte para resolver situações delicadas, não podendo permitir ingerência política nos trabalhos, o que era quase impossível. Numa tarde do mês de maio daquele ano de 1985, uma funcionária da prefeitura, daquelas pessoas que dão notícia de tudo e de todos, procurou o Delegado Faria, relatando que o filho do prefeito e mais dois rapazes de famílias tradicionais da cidade de Peçanha, estavam fumando maconha ostensivamente em um bar próximo a delegacia. Uma afronta à polícia e comunidade, ao mesmo tempo, um desafio arrogante daqueles que entendiam ser inatingíveis pelo status social. Melhor, dizendo, condição pela política e econômica na cidade. A mulher trazia a notícia e ao mesmo tempo cobrava uma atitude da parte do delegado. Dizia que não queria que tomassem conhecimento, ser ela a informante.

          Faria não se intimidou diante de seu pouco tempo de comarca e chamou o soldado Batista da Cia PM local, de serviço naquele dia, de ronda na região central de Peçanha. Juntos foram caminhando para o bar, que ficava acerca de cinqüenta metros da delegacia. Ao chegarem ao bar, notaram que os rapazes estavam no interior do comércio e após uma breve revista, diante do cheiro forte de maconha, constataram que faziam realmente o uso da droga em plena luz do dia, na parte mais movimentada da cidade. Ao surpreendê-los, o filho do prefeito começou a desacatar os dois policiais, afirmando a condição de seu pai como chefe do executivo municipal e que iria tomar as providências contra Faria. Os três foram então algemados e conduzidos a pé por um trajeto maior que o normal, diante de vários estabelecimentos comerciais, quando os cidadãos de Peçanha tomaram conhecimento da prisão em flagrante dos rapazes.

          Alguns dias depois, a pedido de políticos da região, o Delegado Regional Sérgio Francisco de Freitas fez uma “Sindicância” contra Faria, em razão de reclamação do prefeito municipal por abuso de autoridade na prisão do filho. Nada ficou comprovado contra sua atuação na cidade, pela improcedência das reclamações, ao contrário, o Delegado regional só ouviu elogios. Indignados com o resultado, “Ziza” Valadares, então Secretário de Administração, pressionou pela saída do delegado Faria de Peçanha. “Zé” Resende, em virtude do “apelo” político, pediu que Faria escolhesse outra comarca da região, sendo designado para Sabinópolis. Para surpresa de Faria, cidadãos peçanhenses fizeram abaixo assinado com mais de 800 assinaturas pedindo sua permanência como titular da delegacia de Peçanha, repudiando a decisão política de sua saída. O próprio Faria intercedeu junto à comunidade argumentando que não tinha nenhum interesse em permanecer, vários fazendeiros e dois deputados majoritários fizeram uma grande festa de despedida na fazenda de “Nozinho” Ayala com um churrasco feito em valas, ao estilo gaúcho. Ali fizeram uma bela homenagem e demonstraram o reconhecimento ao trabalho imparcial do policial.


SANTA MARIA DO SUAÇUI


          Antes de assumir Sabinópolis, o Secretário Adjunto colocou Faria para responder por sessenta dias a comarca de Santa Maria do Suaçui, onde a incidência de crimes de pistolagem estava acentuada, principalmente em relação à família Nunes Leite. No velho prédio da delegacia de Santa Maria Suaçui, Faria preparava para o novo desafio, junto com dois policiais civis, um escrivão e o carcereiro “Paletó”, emprestado pela prefeitura. Terra dos Lima, Pego, “Turquinho” e outras famílias tradicionais daquela região. O delegado ficava hospedado no Hotel onde outrora fora residência do Deputado Nacip Raydan e local de seu assassinato, na década de 60. Junto com um detetive e o carcereiro “Paletó”, o delegado fazia constantes viagens pelos municípios e distritos da comarca, como Folha Larga, Mãe dos Homens, São José da Safira e outros, onde marcavam oitivas e confecção de carteiras de identidade. Era uma forma de levar a Polícia Civil até as comunidades rurais mais carentes, dentro de um trabalho social que impedia aqueles trabalhadores de gastos desnecessários com o deslocamento até a comarca. Também aproveitavam para “conferir” todas as pessoas que cruzavam seus caminhos na estrada, buscando mostrar a ação de polícia repressiva, preocupada com a criminalidade e o desarmamento.


AS SUBSTITUIÇÕES

          O pequeno período de permanência na cidade de Santa Maria do Suaçui se deu em substituição ao delegado titular da comarca, Geraldo Magela, que estava de férias premio nos meses de junho e julho de 1985. Era normal um delegado titular de uma comarca, responder pela comarca vizinha, apesar da absurda demanda que já tinha sob sua responsabilidade. Isso acontecia quando o colega da cidade vizinha entrava de férias, licença, folga de finais de semana ou outro tipo de afastamento de suas atividades. Faria, quando ainda estava em Peçanha, fazia esse trabalho de cooperação com seus colegas Geraldo Magela (Santa Maria do Suaçui), Carlos Alberto de Abreu (São João Evangelista) e Paulo Olegário (Virginópolis). No caso específico foi uma forma do secretário ZÉ Resende atender politicamente o secretário de administração e não prejudicar Faria.


O CUNHADO DOS IRMÃOS LEITE


          Neste ínterim, Faria respondeu também por Peçanha, antes de outro delegado assumir, mas permanecia em Santa Maria do Suaçui. E por ser sua responsabilidade as ocorrências de Peçanha, Faria foi acionado pela Polícia Militar de São José do Jacuri, município de Peçanha, onde estaria preso o cunhado dos irmãos Leite por porte de arma e desacato e precisava da lavratura do flagrante. Quando aconteciam essas pequenas ocorrências, geralmente, os delegados não faziam flagrantes, simplesmente por que não conseguiam atender a todos os acontecimentos criminosos e por isso, eram consumadas muitas prisões correcionais até que os BOs fossem analisados e despachados pelos delegados. No entanto, era um caso diferente, que envolvia o marido de Aldeci Leite e o pequeno destacamento de São José do Jacuri. Para quem conhecia a família Nunes Leite, essa mistura explosiva era sinal de barulho. Muito barulho. Principalmente porque os militares ao conversarem com Faria pelo telefone alertaram que receberam uma informação da vinda de pessoas para resgatarem o preso dos militares. Faria acreditava que o correto seria o acionamento do reforço da própria PM, mas sabia das dificuldades daqueles militares se dependessem da burocracia e boa vontade do oficial de Peçanha. Diante do pedido e pelo bom relacionamento que nutria com aqueles praças, Faria deslocou-se até São José do Jacuri, passando pela estrada de terra que ligava as duas cidades, através de Tabuleiro, rodando cerca de uma hora no percurso de aproximadamente cinquenta quilômetros.
          Ao chegar ao destacamento Faria encontrou com os policiais militares que lhes repassaram todas as informações recebidas, garantindo que cerca de cinco homens estavam a caminho. Faria orientou a se prepararem para recepcionar qualquer carro com mais de uma pessoa dentro. Pediu para um soldado ficar escondido do outro lado da rua, enquanto os velhos mosquetões e revólveres eram preparados e conferidos. Realmente não demorou muito para que um carro com quatro homens estacionasse em frente ao quartel, sendo rapidamente cercado por Faria e os militares. Os indivíduos, apesar do susto, não tiveram tempo de esboçar qualquer reação durante a abordagem. Foram encontradas várias armas em poder daqueles homens, que foram identificados como pessoas ligadas à família Leite. Faria então autuou, não apenas um, mas cinco. No outro dia, o juiz Gabriel Fernandes ligou parabenizando Faria pelo excelente trabalho, no entanto arbitrou rapidamente as fianças e os cinco foram colocados em liberdade. Passados alguns dias, Toninho Leite e Aldécio estiveram na sala do delegado de Santa Maria do Suaçui para conhecê-lo e registrar um veículo. Nenhum dos dois lados, naquele momento, poderia prever que se encontrariam novamente alguns anos depois, após a famigerada chacina de Malacacheta.

http://www.cyberpolicia.com.br/index.php/historia/decadas/475-pistolagem-em-minas



O MORTO NA FAZENDA DE JOÃO PEGO


          Apesar da fama de cidade violenta, Faria passou por um período de tranquilidade com poucos crimes durante sua interinidade. Exceto por um assassinato na véspera de se despedir de Santa Maria do Suaçui, quando designado para Sabinópolis. No sábado, final do mês de julho, Faria foi para o Parque de Exposição onde era realizada a festa tradicional da cidade. Permaneceu no local até cerca de três horas da manhã, quando, após o encerramento das festividades se dirigiu para o hotel descansar. Eram cerca de cinco horas da manhã do domingo, quando bateram na porta do quarto do hotel. Faria acordou sobressaltado e com seu 38 na mão perguntou quem era. Do outro lado uma voz se identificou como sendo João Pego, um conhecido fazendeiro da região, que queria fazer uma ocorrência.

          Faria, indignado com alguém batendo na porta de seu quarto, naquela hora, sem aviso do porteiro, lhe perguntou:
“A ocorrência não pode esperar pelo menos o dia amanhecer?”.
         Bino respondeu:
“Dotô. Mataram um homi a tiro e jogaram dentro da cerca da minha fazenda. É coisa de pistoleiro dos Leite”.
          Faria, resignado:
“É, então não pode esperar. Me aguarde na portaria que só vou trocar de roupa”.

          Faria encontrou-se com João Pego no saguão e de lá acionou o perito e “Paletó”, comparecendo ao local do crime. O delegado não pode fazer muita coisa, além de deixar um relatório sobre as circunstancias encontradas no local, já que no final daquele domingo ira deixar a cidade para assumir sua nova comarca. Nunca mais viu o fazendeiro, mas cerca de dez anos depois, participaria de investigações que envolveriam a família Nunes Leite no seu assassinato.


SABINÓPOLIS

       

          Na comarca de Sabinópolis o policial permaneceria por apenas três meses, já que abrira concurso público para delegado de carreira em 1985, Faria passara nas provas e iria frequentar a Academia. Era certo que não retornaria para a mesma comarca por decisão administrativa relacionada a todos os policiais na mesma situação e diante de mudanças que ocorreria em várias regionais. Apesar do pouco tempo, o delegado deixaria sua marca na cidade, tentando diminuir a criminalidade, ainda que baixa em relação às demais comarcas da região. Passou a fazer blitz constantes em ônibus que chegavam da zona rural para desarmamento daqueles que insistiam em andar armados. À noite, as operações eram feitas nas saídas das escolas para desarmamento de alunos armados. Ação inédita para os policiais militares, mas que trouxe uma tranquilidade maior para a população em virtude das apreensões de armas brancas e de fogo.


DESORDEIROS DE SABINÓPOLIS

          Também em Sabinópolis, Faria foi procurado pelo sargento do destacamento que reclamou da incidência de motoristas jovens, fazendo cavalo de pau com carros e motocicletas sem placas, nas praças e via pública da cidade. O delegado questionou ao sargento se não sabia quem eram os motoristas ou proprietários dos veículos, tendo respondido que eram conhecidos e filhos de pessoas influentes de Sabinópolis. O Delegado chamou o sargento e o responsável pelo transito que passaram a pesquisar os cadastros de veículos e responsáveis pelos mesmos. Em menos da metade de um dia, o delegado já tinha em mãos a relação de cerca de quinze veículos que estavam envolvidos nas ocorrências denunciadas pelo sargento. Naquela oportunidade, os delegados de polícia tinham a competência legal para expedição de mandados de busca e apreensão, o que facilitou a operação que seria desencadeada. Faria listou os endereços dos infratores e expediu mandados de busca para apreensão dos autos e os entregou ao sargento. O policial militar buscou o Jipe do destacamento e em poucas horas encheu o pátio da delegacia de veículos, lavrando o cumprimento com as devidas ocorrências de adulteração de placas e notificações de infração. Dentre os veículos apreendidos existiam proprietários que presidiam partido político local, diretor de hospital e outras pessoas abastadas e influentes. Faria, pouco depois das apreensões começou a receber essas pessoas que queriam a restituição dos veículos e diante da negativa em devolvê-los sem o pagamento das multas, procuraram o caminho político para solucionar o problema. O policial recebeu um telefonema de seu regional e lhe narrou o que estava acontecendo e as providencias adotadas. O regional Sérgio Francisco de Freitas lhe perguntou se cederia de alguma forma legal, porque teria que dar uma resposta à chefia do DETRAN. O delegado Faria lhe disse que poderia ser flexível e arbitrar as multas pela metade, já que tinha essa prerrogativa legal e assim o fez. Ocorre que em alguns casos, mesmo com o desconto de 50%, vários veículos não foram retirados, pois as diversas multas que incidiam sobre os mesmos, suplantavam seu valor comercial. Nunca mais se ouviu falar de pegas e cavalo de pau em Sabinópolis.


O PSICOPATA

       Naquela pacata cidade de Sabinópolis também ocorreu um fato inusitado, que para os policiais militares foi entendido como um ato impensado do delegado Faria. Na cadeia ao lado da delegacia, composta por três celas, existia um psicopata, condenado por ter matado e estripado uma mulher com extrema barbárie. Em razão da periculosidade e perfil psicológico violento, fora colocado em uma cela individual por ameaçar a integridade de outros presos. Era um preso taciturno que não dava trabalho para Faria e os militares que faziam a vigilância do cárcere, cumprindo sua pena na introspecção de sua personalidade e solidão de sua cela. No entanto, a vida do policial não é feita de calmaria já que a crise faz parte de seu dia a dia. Em meados de agosto de 2005, o delegado Faria foi procurado pelos dois militares que faziam a guarda para lhe relatarem que aquele preso estava cortando o corpo com o uso de uma lamina de barbear (Gillete). A sala do delegado era contígua à pequena cadeia e rapidamente Faria estava na frente da cela, não acreditando que deixavam entrar laminas para barbeá-lo. O condenado estava no fundo da cela, apenas de cueca e com o corpo todo ensanguentado, fazendo novos cortes pelas pernas, barriga e braços. Os dois PMs demonstravam nitidamente o medo de tentar abrir a cela e dominar aquele louco. Faria determinou a abertura da cela, entrou e mandou fechá-la, ficando com sozinho com o preso no interior do cubículo. Faria começou a conversar de maneira calma e serena, dizendo ser seu amigo, tentando ganhar sua confiança e pedindo que parasse com o autoflagelo. Prometeu algumas benesses como cigarro e doces. O preso parou com os cortes, sem olhar fixamente para Faria, ao seu lado. Depois de cerca de quinze minutos entregou a lamina para o delegado e aceitou sair da cela para ser levado ao hospital onde foi medicado. O revólver que Faria portava por trás, sem ser visto pelo preso, não precisou sequer ser tocado. Tempos depois o psicopata retornava para sua cela com o corpo cheio de pontos e curativos. 

 

1985. ENCONTRO DE 10 ANOS DOS 220.

          Neste ano, Faria e seus amigos, contemporâneos do curso de formação de detetives MASP 220, de 1975, e também da Divisão de Tóxicos e Entorpecentes, se reencontram para comemorar uma década de amizade sólida e de companheirismo autêntico. No encontro, em Belo Horizonte, estavam Faria (Delegado), Ivanir Pires de Gouveia (Médico Legista), detetives "Zé de Fátima", Odilon da Costa Coelho, Nelson Fialho e Felipe. Ainda se fez presente o detetive da Furtos e Roubos, Jorge Luiz Ferreira, o "Camarão. Não existe história sem amigos. Eles sempre fazem parte de nossas histórias. O reencontro faz parte da vida, das boas e más lembranças. Das coisas fúteis, corriqueiras, ou indiferentes, mas de grande importância para os que viveram aqueles momentos. As confidências e a troca de lembranças sempre faz muito bem para a alma. Ali não existia distinção de carreira ou cargo, apenas a amizade no mesmo patamar.

 

1985. DELEGADO DE CARREIRA

          Menos de um ano como delegado especial, Faria passou no concurso de carreira e retornou à capital, onde fez o novamente o curso de delegado, formando em março de 1986, na gestão de Santos Moreira como Diretor da Acadepol. Apesar de ter ficado entre os vinte melhores colocados, a administração não cumpriu a palavra empenhada, de que os primeiros poderiam escolher as comarcas vagas. Ao chegar à Superintendência, o delegado constatou que politicamente, algumas vagas haviam sido preenchidas por colegas que tiveram pontuação baixa no desempenho da prova final. Mais uma vez se sentindo injustiçado, Faria, que não era de correr do serviço, optou pela cidade de Jacinto, uma das mais longínquas da capital. O policial pensava, que a partir der Jacinto, se mudasse seria sempre para outra cidade mais próxima de Belo Horizonte. Por coincidência, quando acabara de indicar a cidade de Jacinto para trabalhar, ao sair pelo corredor do prédio da Secretaria de Segurança da Praça da Liberdade, encontrou com seu antigo regional, Sérgio Francisco de Freitas, que agora tinha sido designado para assumir Divinópolis. Ao saber da opção do Faria, o regional convidou o novo delegado a lhe acompanhar e ir trabalhar em São Gonçalo do Pará, dentro da área da regional de Divinópolis, o que foi prontamente aceito.


SÃO GONÇALO DO PARÁ



         

          Ao chegar à terra dos doces, Faria foi bem recebido pela pacata população de São Gonçalo do Pará e assumiu a delegacia como o primeiro delegado de carreira da cidade. São Gonçalo era município de Divinópolis e por isso não possuía juiz e promotor, o que sobrecarregava as ações da polícia, apesar de poucas. Naquele ano o governo federal lançou o plano cruzado e iniciava a era de fiscalização de preços tabelados. A cidade era famosa por suas fábricas de doces e pela segurança, não ocorrendo crimes mais graves, como homicídio, há mais de dez anos. Como Faria sempre foi um policial voltado para a operacionalidade e ações policiais, aquela normalidade “excessiva” era estressante. Durante os três meses que permaneceu em São Gonçalo do Pará, conseguiu realizar apenas um inquérito policial de crime contra a honra, mesmo assim em razão da vítima ser médico da cidade e pessoa de seu relacionamento, convencendo-o a representar. Faria também investiu contra a zona boemia, fechando-a por quatro dias e só admitindo sua reabertura por meio de mandado de segurança. Era uma cidade sem ocorrências. A rotina em São Gonçalo era ler livros, muitos livros. Durante o dia fazer palavras cruzadas na porta da delegacia ou sair com algum pescador para umas voltas no rio, local de abundancia de Mandis e Piau. À noite o delegado Faria era disputado pela turma mais nova para jogar “Dourado” (jogo de truco com número maior de jogadores e baralho) em sítios nas redondezas, abastecido com uma cerveja gelada e uma cachacinha como guia. O tira gosto, geralmente era galinhada ou frango caipira. Ou então encontrava com a turma da terceira idade, um grupo de simpáticos idosos que sempre lhe convidavam para um bom jogo de buraco, com um café abastado, regado a sucos, bolos, broas, biscoitos e moças casadoiras.
 


DIREITOS DO CASAMENTO

          Já foi dito que São Gonçalo do Pará era uma cidade pacata e sem ocorrências, mas era preciso ficar atento para que uma reclamação ou pequena rixa não se transformasse em um incidente de maiores proporções. O Delegado Faria sempre se preocupou em atender pessoalmente e principalmente ouvir as angústias daqueles que procuravam a polícia com seus desabafos e reclames. A delegacia, para alguns, era um confessionário. O delegado foi procurado por um cidadão de aproximadamente 70 anos, que pedia providências contra sua esposa, ameaçando matá-la se o problema não fosse solucionado. Faria lhe questionou sobre o que de tão grave estava acontecendo para que estivesse tão nervoso a ponto de praticar um crime tão grave. O policial pensou que poderia ser uma traição, devido ao estado emocional do velho senhor. Na realidade, o idoso reclamava seus direitos matrimoniais, ou seja, era casado há mais de 45 anos e sua esposa, depois desse longo período de união, negava-se a manter relações sexuais, recusando-o. Existia um fato atípico a ser solucionado e que fugia totalmente à seara daquele delegado, mas, ao mesmo tempo, sabia de sua responsabilidade social em relação à resposta esperada pelo cidadão. No interior, o delegado, muitas vezes é obrigado a assumir funções ou obrigações inerentes ao assistente social, psicólogo, juiz, etc. Não por usurpação de função, mas pela necessidade premente, que não pode esperar pela burocracia do amanhã. Nesse caso, Faria sentiu sinceridade nas palavras do simplório lavrador prometendo buscar solução para a reclamação desde que mantivesse a calma e não fizesse nenhuma bobagem. O velho despediu-se aparentemente aliviado, acreditando em uma solução pacífica que seria proporcionada pelo delegado. O policial convidou a esposa ameaçada a comparecer na delegacia e ela, dentro de sua simplicidade e respeito à autoridade, atendeu ao chamado. No pequeno gabinete surgiu a figura de uma velha senhora, com sofrimento visível pelo desgaste natural que o campo impõe ao ser humano. Conversaram longamente sobre os fatos narrados por seu marido, pelas dificuldades da vida, pelo cansaço que a idade lhes impunha, mas comprometendo-se a dialogar com o parceiro e tentar harmonizar seu casamento. Ao que tudo indica, o “problema” do casal foi resolvido, pois a velha não foi assassinada e nunca mais se teve notícias dos dois.


A VACA MAJORADA

          Falamos que no ano de 1986, tinha início ao plano cruzado que tabelou todos os bens de consumo e os preços foram congelados. Faria era rigoroso na fiscalização dos comerciantes e os preços aplicados, principalmente porque lhe sobrava tempo para este tipo de trabalho, em uma época que inexistia o PROCON. Os açougueiros da cidade foram advertidos quando tentaram majorar os preços das carnes que estavam tabelados. Houve uma reunião na Delegacia e os proprietários de açougue ponderaram que teriam que fechar as portas se não autorizasse os aumentos. O delegado foi incisivo e disse a eles que não poderia abrir mão do cumprimento da legislação. Alguns afirmaram que iriam mexer apenas com linguiça que não tinha tabela específica. 

          Passados alguns dias o Delegado Faria foi procurado por um cidadão que reclamava ter comprado carne com preço majorado em cerca de 20%, em um açougue da cidade. São Gonçalo do Pará não possuía em seu quadro outros policiais civis, apenas o delegado. Faria foi então ao local indicado e constatou que uma vaca havia sido abatida e praticamente toda, vendida para o pessoal da cidade, comprovadamente com preço acima da tabela congelada. No estabelecimento comercial o policial apreendeu várias cadernetas de “fiado”, levando o proprietário até a delegacia para análise dos requisitos de prisão em flagrante. O açougueiro, acompanhado de seu advogado pedia para não ser autuado em flagrante, confessando que realmente tinha abatido uma vaca e a vendera acima do preço para seus clientes através da caderneta, antigo método de débito mensal, muito usado no comércio do interior.
Antes de iniciar o flagrante, o Delegado Faria observou um detalhe que passava despercebido pelo advogado. Não existia um consumidor vítima, pois a carne fora vendida fiado, com pagamento previsto para trinta dias, não havendo ainda, a consumação do crime. Ninguém ainda pagara pelo alimento. Faria chamou o advogado, fez uma advertência verbal ao açougueiro e argumentou que não iria lavrar o flagrante caso o comerciante fizesse uma doação espontânea de uma vaca “gorda”, para o “restaurante dos pobres”. Existia em São Gonçalo do Pará um restaurante para atender os carentes com fornecimento de almoço e sopão no jantar gratuitamente. O advogado e seu cliente gostaram da solução proposta e aceitaram imediatamente, se despedindo felizes com o desfecho. No dia seguinte, os responsáveis pelo “restaurante dos pobres” compareceram a delegacia para agradecer pela doação que iria abastecer por no mínimo trinta dias, aquela instituição. Faria falou que deveriam agradecer ao açougueiro pelo seu ato de solidariedade e fraternidade “espontânea”. Apesar do pouco tempo que permaneceu na cidade, Faria foi homenageado com um banco na praça.

         Após os três meses de pouquíssima atividade e nenhuma ação policial, Faria procura seu colega Ricardo João Miguel, que se encontrava lotado em Manhuaçu e propõe permuta. Apesar de estar acerca de oitenta quilômetros de Belo Horizonte e ir todo final de semana para casa, Faria não aguentou o ostracismo e trocou São Gonçalo do Pará por uma cidade movimentada, ainda que distantes duzentos e oitenta quilômetros da capital.


MANHUAÇU

                                                                                                   A cidade e o antigo prédio da Delegacia Regional.


          Faria assumiu a delegacia de comarca e encontrou uma equipe de excelentes detetives, com muita disposição para o trabalho e o Delegado Regional Paulo Roberto Magalhães Alves que lhe deu toda liberdade para desenvolver seu perfil operacional. Ali fez bons amigos e conviveu com três delegados contemporâneos de Academia, Glauco Viggiano, Cícero Martins e João “Gambá”. A inspetoria contava com Toninho, Gilson, Portela, Gervason, Getúlio, Agostinho Etiel, dentre outros policiais civis. Inúmeros casos de assassinatos e roubos foram solucionados pela abnegação daqueles policiais. Inúmeras diligencias foram realizadas nas diversas cidades da região e de outros estados, dentre elas, Carangola, Ipanema, Matipó, Caparaó, Ipatinga, Aimorés, Mutum, Divino, Manhumirim, Vitória-ES, Volta Redonda-RJ.

          O Delegado aqui biografado tentou seguir à risca os dispositivos legais de que dispunha para cumprimento das normas estabelecidas para o cumprimento do “Plano Cruzado” do governo federal, que previa o congelamento de preços para conter a inflação, agindo da mesma forma que em São Gonçalo do Pará. Alguns “incidentes” que ocorreram na tentativa de cumprir a legislação merecem destaque nesta biografia. Conforme já foi citado, nas cidades do interior do estado o congelamento de preços funcionava melhor, principalmente se ocorresse interesse das autoridades na fiscalização. Em Manhuaçu Faria adotou uma metodologia diferente para controle dos preços de forma a inibir os excessos. Todos os cardápios dos restaurantes, churrascarias, pizzarias e outros comércios similares eram obrigados a ter o carimbo da Delegacia da comarca e o visto de Faria. O procedimento de controle era levado ao conhecimento da população através da mídia local. Com essa ação policial, o máximo que poderia ocorrer, seria diminuir o tamanho do churrasco, a quantidade de mussarela da pizza, os ingredientes das refeições, etc.

Aumentar os preços era improvável e difícil de ocorrer.

OS OVOS

          Apesar de todo o controle, existia um tratamento respeitoso com os comerciantes e diálogo aberto, com reuniões rotineiras sobre as dificuldades do Plano Cruzado. Em uma dessas reuniões, uma informação foi trazida pelo grupo de comerciantes do ramo de padarias. Eles reclamavam não suportar mais os aumentos seguidos no preço das caixas de ovos e sem condições de repassar para os preços. O Delegado Faria questionou quem era o vendedor na região, quando lhe informaram que era de Venda Nova do Imigrante, no Espírito Santo e por coincidência estava circulando em Manhuaçu naquele dia. Faria imediatamente chamou dois policiais e determinou que percorressem a cidade para localizar um caminhão baú daquela cidade capixaba. Menos de uma hora após a saída dos policiais, seus detetives retornaram conduzindo o possível infrator. Interrogado o motorista negou a majoração de preços, alegando que os padeiros estavam mentindo. Não havia como provar o crime. Nenhum comerciante quis representar contra o vendedor e nenhuma nota fiscal ou recibo apresentado. Faria foi até o caminhão e viu que estava com a carga quase completa de caixas de ovos. Chamou o motorista e lhe perguntou novamente se estava na cidade vendendo os ovos a preço de tabela, recebendo confirmação do mesmo, quando lhe disse:

 

“Então você não vai se importar de fazermos uma propaganda gratuita para que venda mais rápido”.   

          O delegado não titubeou e através da imprensa local informou à população que na porta da delegacia regional, estava estacionado um caminhão cheio de caixas de ovos para venda a preço de tabela. Rapidamente a rua encheu de gente, incluindo os policiais da delegacia que cercaram o veículo para compra de ovos. O motorista, sem alternativa, que não fosse a venda dos ovos tabelados, começou a entregar caixas de ovos para aquelas pessoas que se aglomeravam na rua. Em pouco mais de duas horas o caminhão ficou vazio e o motorista foi embora dizendo que nunca mais retornaria à Minas. 

           Houve casos em que o delegado Faria foi acionado por motoristas que queriam abastecer seus veículos, por voltas das vinte e uma horas e o proprietário do posto fechara as bombas ao tomar conhecimento, pelo Jornal Nacional, que haveria reajuste no dia seguinte. Era uma forma de especular e fraudar o consumidor. Como era posto 24 Horas, não havia como alegar que era um fechamento normal. Já era rotina este procedimento e a PM nunca agira para coibir. Faria ia pessoalmente ao local e obrigava a imediata abertura das bombas, sob ameaça de prisão em flagrante por prática de crime contra a economia popular. Não tinha argumento mais convincente e sempre o abastecimento era normalizado.


A VACA DA FUNERÁRIA.

          Certa feita, Faria foi acionado na Delegacia da comarca em relação à denúncia de abate de vaca e venda clandestina da carne com preço majorado. O delegado chamou dois policiais e se dirigiu ao endereço e surpreso, percebeu tratar-se de uma funerária de renome instalada no local, de um dos irmãos Perígolo, família tradicional de empresários do ramo de fabricação de caixões. Os policiais entraram no estabelecimento passando entre urnas funerárias e coroas de flores, quando houve uma correria geral entre os caixões e também pelos fundos, onde passava um rio. Nos fundos da loja, em uma espécie de área de despejo que dava para o rio foi encontrada uma vaca abatida e que estava sendo destrinchada e vendida aos "clientes" que fugiram assustados. Dentre as mais de dez pessoas que correram estava o dono de um dos principais hotéis da cidade, o Hotel Joala, que ali tentava comprar um coração de vaca. O detalhe curioso é que nesse hotel residia o delegado Faria, ali coordenando a diligencia na funerária. O proprietário foi conduzido à Delegacia, onde foi autuado em flagrante. A história da “Vaca da Funerária” foi motivo de chacota e comentários maliciosos em relação aos fujões, todos, cidadãos de conceito na cidade. Essas pessoas, ao fugirem da ação policial, desconheciam a condição delas de vítimas e não de autores de crime ou contravenção.


O PISTOLEIRO SEM ESCOLTA

           No dia 27 de junho de 1986, o assassinato do fazendeiro Jandir Bueno Ferreira causou grande comoção na cidade de Manhuaçu. Era uma pessoa muito conhecida pela sua integridade, honestidade e amizade no meio que vivia. A sua morte se deu por encomenda, quando três pistoleiros o fuzilaram com vários tiros. Naquela oportunidade, o Delegado Faria, juntamente com dois grandes policiais da regional, Gilson Dias de Souza e Antônio Eduardo Luciano iniciaram as investigações. Foram realizadas várias diligencias em Manhuaçu, com desdobramentos em Mutum, Aimorés, Ipanema, Matipó, Vitória-ES e Volta Redonda-RJ. Depois de algumas semanas de trabalho, os resultados começaram a surgir e prisões preventivas foram decretadas pelos autores apontados à justiça pelo delegado. Geraldo Pacheco, dono de um Motel na cidade, foi identificado e preso como mandante. Também foram presos o intermediário e os três pistoleiros que participaram do bárbaro crime. Um deles de nome José Augusto Queirós Mota, o famoso pistoleiro “Zé da Gata”, responsável por uma série de assassinatos e crimes, na região de Mutum, Aimorés e Vitória-ES. 

          Nessa investigação ocorreu um fato bem curioso, que merece registro na crônica policial. O Delegado Faria, Gilson e Antônio Eduardo, o “Toninho”, estiveram em Volta Redonda-RJ para prender o último dos pistoleiros, conhecido por Vantuil, elemento de alta periculosidade e cruel na prática de seus crimes de pistolagem. Faria portava uma pistola Taurus, 7.65, recém adquirida e nunca usada, Gilson uma metralhadora Beretta e revólver. “Toninho”portava um revólver e uma carabina calibra 38. Ao chegarem à casa do pistoleiro, Vantuil estava na varanda da frente e ao avistar a aproximação dos policiais, correu para apanhar suas armas no interior da residência. Faria entrou em seu encalço e ao engatilhar a pistola para impedi-lo de se armar, a pistola, apesar de nova, encavalou o projétil, deixando o delegado desarmado. Com um gesto brusco e rápido, digno de grandes profissionais, Gilson gritou: “Segura doutor” e jogou a metralhadora ao perceber o sufoco de seu chefe. Conseguiram então dominar o pistoleiro e desarmá-lo, no entanto reagiu com violência contra a prisão, agredindo os policiais, que foram obrigados a usar da mesma violência para dominá-lo, deixando-o bastante machucado. O pistoleiro foi conduzido para Manhuaçu onde foi recolhido à cela, no entanto, por ser diabético, começou a passar mal devido as lesões sofridas na resistência à prisão. Imediatamente foi levado ao hospital de Manhuaçu onde ficou por cerca de dez dias.
          O delegado responsável pela prisão oficiou ao comandante da PM no dia que o pistoleiro foi hospitalizado, solicitando escolta devido ao número reduzido de policiais civis na regional e a competência para escolta ser da PM. O comandante respondeu ao ofício alegando que não dispunha de militares para a escolta. Impasse criado, Faria oficiou ao juiz criminal da comarca, informando que em razão do posicionamento do comandante, apesar do preso hospitalizado ser de alta periculosidade, retirava os policiais civis da escolta por falta de condições para a manutenção daquele serviço, não se responsabilizando pela iminente fuga. Determinou que fosse deixado um aviso no hospital para a delegacia ser alertada quando o criminoso recebesse alta. Passaram-se dez dias, quando o pistoleiro Vantuil teve alta, mas os médicos ou funcionários do hospital não avisaram a delegacia, apesar da recomendação. O pistoleiro chegou à portaria do hospital e, achando que havia muita facilidade para sua fuga, recuou, pediu a um enfermeiro que lhe chamasse um táxi, entrou no veículo e se dirigiu à Delegacia Regional, onde ainda assustado, se apresentou para cumprir seu mandado de prisão. Posteriormente confidenciou para outros presos ter pensado a polícia estava facilitando sua fuga com a intenção de pegá-lo no caminho e matá-lo. Se soubesse o problema da escolta....


A FILA

           Saíram estampados no jornal “O Globo” e “Estado de Minas” em maio de 1987 os títulos sensacionalistas de reportagens: “Delegado organiza fila para povo ver matador de taxista” e “Assaltantes ameaçados de linchamento“. Naquela ocasião, juntamente com policiais da Delegacia Regional de Manhuaçu o delegado Faria conseguiram prender cinco marginais que mataram um taxista na cidade. Dois anos antes, em 1985, o taxista Sebastião Romualdo presenciou o assalto a um caminhoneiro que transportava café, em uma estrada de terra, próximo de Manhuaçu. O motorista foi rendido e a carga de sacas de café roubada pelos marginais. Sebastião entrou em contato com a polícia e denunciou os criminosos, acarretando a prisão em flagrante de Roberto Souza Ribeiro e José Vicente da Silva, liberados posteriormente pela justiça por excesso de prazo. Inconformados com o taxista os marginais decidiram vingar-se, e preparam uma armadilha. Telefonaram para um ponto de táxi e contrataram Romualdo para uma corrida até a cidade vizinha Manhumirim. Com a participação de outros marginais, identificados, como sendo Isonete Rosa Silva, Roberto Souza Ribeiro e Antônio Carlos Oliveira, seguiram o taxista em um opala, obrigando-o a parar às margens da estrada. Ali o mataram impiedosamente com quatro tiros na cabeça e o abandonaram no local. A população de Manhuaçu ao saber da prisão dos marginais se movimentou em direção a Delegacia querendo o linchamento dos bandidos. Com muita conversa o delegado Faria, responsável pela comarca, conseguiu dissuadi-los da violência, entrando em acordo para que fizessem uma fila e pudessem ver frente a frente os assassinos. Foi organizada a fila, sendo reforçada a segurança, permitindo que cerca de 2000 pessoas fizessem a “visitação“.

 

  Apesar de o procedimento parecer estranho ou inusitado, foi a única solução que o policial encontrou para acalmar os ânimos exaltados do povo.                                                  


O SEQUESTRO

           Outro crime de repercussão em Manhuaçu, em Julho 1987, foi o sequestro do menor Bruno Nogueira Gomes, à época com seis anos de idade, filho de família tradicional na cidade. O pai Sebastião Nogueira, era um dos proprietários de uma grande empresa atacadista, a “Irmãos Nogueira.”. Faria, na condição de delegado da comarca foi chamado por Paulo Roberto Magalhães, Delegado Regional, que lhe noticiou o registro do sequestro da criança, passando para aquele policial a investigação do caso. Era um desafio para Faria que nunca trabalhara em apuração de sequestro, mas que tinha de agir rápido por causa da criança vítima, indiferentemente da Polícia Civil possuir o GAS, grupe especializado para tal tipo de crime. Faria fez contato com a chefia na capital e solicitou reforço de policiais da “Furtos e Roubos” para ajudá-lo. Porém, não podia esperar a burocracia que sempre existiu na liberação de policiais para deslocamentos em apoio ao interior. A ação da polícia Civil de Manhuaçu deveria ser iniciada sem a presença dos policiais da capital e assim iniciaram a ação com o monitoramento do sequestro e a cobrança de resgate.

           O sequestrador telefonou para a casa dos pais do garoto exigindo a importância de CZ$ 1.500.000,00 (Um milhão e quinhentos mil cruzados), ameaçando matar o menino caso a polícia fosse avisada. Registrou em seu telefonema, que após o pagamento o garoto seria libertado na rodoviária de Vitória, no Espírito Santo. Diante das circunstâncias, parecia que alguém conhecido da família ou do garoto estaria envolvido no sequestro, devido à facilidade para levá-lo da porta de sua casa. Uma equipe de policiais se dirigiu para Vitória, enquanto Faria permaneceu à espera de nova manifestação do sequestrador. A família não abriu mão de atender os sequestradores e levantou o dinheiro para o pagamento do resgate no dia posterior ao arrebatamento do garoto. Sebastião Nogueira aguardou novas instruções que chegaram através de um bilhete, entregue por um menino a mando de um desconhecido. O sequestrador orientava a entrega do dinheiro pela mãe, que “conhecia”, em uma estrada de terra que fica na saída para a cidade de Ipanema. Como os policiais não podiam interferir na entrega do dinheiro, o que colocaria em risco a vida do menor, o delegado traçou uma estratégia. Primeiro recomendou à perícia que marcasse todas as notas que seriam utilizadas para o pagamento. Em seguida fez um mapa do local e as vertentes de chegadas e saídas através de estradas que ligassem ao ponto indicado pelo criminoso. Verificou-se que a estradinha, indicada pelo marginal, ligava Manhuaçu à Ipanema e tinha um caminho que ligava ao distrito de Reduto, atingindo a BR 262, não havendo outra possibilidade de acesso.

           Faria posicionou um policial, em cada extremo da estrada nas saídas de Manhuaçu e Reduto, com a orientação de ficarem em um bar anotando de maneira disfarçada, todas as placas e características dos veículos que transitassem por aquele caminho. A orientação compreendia o horário marcado para o pagamento, com intervalos de três horas antes e três horas depois. A mãe da vítima atendeu as orientações, deixando o dinheiro no local pré-determinado por volta das vinte horas. Aproximadamente uma hora após a entrega do dinheiro, Bruno foi encontrado dopado por tranquilizantes em uma praça, no centro de Manhuaçu. No dia seguinte, Faria e o delegado regional Paulo Roberto foram à casa de Sebastião, onde tiveram a oportunidade de conversar com o garoto sequestrado. Respondendo às perguntas e muito falante, Bruno dentro de sua sabedoria infantil esclareceu um ponto importante quando falou que um tio lhe levara de carro. Apesar de sua tenra idade o Delegado Faria lhe perguntou se saberia dizer a cor ou marca do carro, quando de maneira convincente respondeu: “o tio tem um fusca verde”. Era a senha para fechar o cerco ao sequestrador, pois a equipe de policiais escalada para o serviço de persistência era excelente e comprometida com o trabalho e havia coletado os registros de todos os veículos que passaram na estrada Manhuaçu/Reduto. No confronto das informações, dentre mais de uma centena de carros, havia o registro do Fusca verde, placa FV-7455, que passara pelo local por duas vezes, uma em direção a Reduto e outra retornando no horário da entrega do dinheiro. Os policiais verificaram o prontuário do veículo na Seção de Trânsito e identificaram Cleomar Clementino Gonçalves como proprietário do veículo. 

           Foram até a residência do possível sequestrador onde localizaram várias cédulas do dinheiro marcado pela perícia em poder da esposa de Cleomar. A mulher informou desconhecer o envolvimento de seu marido com o sequestro e afirmou que ele havia viajado para a cidade de Coronel Fabriciano, cerca de duzentos quilômetros de Manhuaçu e se encontrava na casa de sua irmã. A equipe coordenada por Faria deslocou-se rapidamente para Coronel Fabriciano, levando a mulher do sequestrador que indicou o apartamento. O imóvel foi invadido e Cleomar encontrado na cozinha, tomando tranquilamente um café. A princípio tentou negar sua participação, mas após minuciosa busca no apartamento, parte do dinheiro estava dentro de uma almofada costurada pelo próprio marginal. Cleomar havia depositado o restante do dinheiro em um banco da cidade, retirado na boca do caixa pelo próprio sequestrador, sob escolta. Do total do dinheiro do resgate só não foi recuperado o valor utilizado para pagamento do táxi e de pequenas dívidas do bandido, valor irrisório em relação ao montante. Recambiado para Manhuaçu, Cleomar foi autuado em flagrante e condenado a oito anos de prisão. Faria, nesse brilhante trabalho, foi auxiliado pelo delegado Lourival e os detetives Gervason, Getúlio, Portela, Sérgio e “Toninho”. Vale consignar a coragem do policial Gervason, participante dessa diligencia, que alguns anos depois tentou prender membros de uma quadrilha de roubo de cargas em Divino de Carangola e foi covardemente assassinado pelos marginais.

          Logo após a apuração do sequestro, Faria recebeu um telefonema do Chefe de Divisão Benigno Alves da Costa, lhe convidando para retornar à Divisão de Crimes Contra o Patrimônio, a nova “Furtos e Roubos”, na Rua Uberaba, 175, para assumir a 4ª Delegacia de Furtos. A indicação teria sido de outro delegado, José dos Santos, o “Zé do Facão”, antigo companheiro de Faria, como detetives do “Kilo”. O convite foi aceito e em setembro de 1987 Faria assumia seu novo posto.

  As fotos acima são do antigo prédio da Delegacia Regional de Manhuaçú e de momentos de descontração entre delegados da regional de Manhuaçu: Faria, João, o regional Paulo Roberto, Glauco e outro colega de Manhumirim, em 1986.

 

EM CONSTRUÇÃO. FALTA CONTEÚDO, REVISÃO, FOTOS E INSERÇÃO DOS ARTIGOS QUE COMPLEMENTAM A BIOGRAFIA.

 

 

2011 Biografia Faria 2- Delegado do Interior. © 2012 - Cyberpolicia: História da Polícia Operacional Investigativa
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