Casos e causos policiais

Imprimir
Categoria: Artigos-Artigos

                                                                       

                                                                                                APRESENTAÇÃO

               Esta seção é destinada a postar fatos interessantes, cômicos e inusitados, aqui denominados "casos e causos", pesquisados, ou encaminhados por policiais, onde registram um pouco da rotina e cenas pitorescas do dia dos profissionais que atuam nesta área. Pela nossa longa jornada na lida, podemos garantir que todo policial que militou ou ainda exerce as suas atividades na área operacional, principalmente, já participou ou ouviu algumas dessas narrativas. Quer sejam verdadeiras, ou não. O importante é que fazem parte desse maravilhoso cenário e folclore da polícia. Qualquer policial de campo, certamente tem histórias para contar. Algumas trágicas, às vezes inusitadas e outras hilárias. Muitas vezes nos confundimos com as narrativas e não percebemos ao certo se são fatos ou meros causos. Mas certamente, em quase todas essas histórias, existem certamente, fundo de verdade, mesmo porque, alguns relatos têm registros históricos de suas consumações. Portanto, buscamos inserir algumas dessas histórias ou estórias, como queiram.

 

1919. A Verdadeira História da Loira do Bonfim

            A história é feita de fragmentos de ideias, pensamentos e atos ocorridos, inventados, ou reinventados. Pesquisando alguns alfarrábios policiais, encontrei esta pérola sobre o mito "Loira do Bonfim" e achei interessante postá-lo, pela narrativa curiosa.

           Como a história é feita também de estórias, não poderíamos deixar de citar um episódio inusitado envolvendo um guarda civil nos primórdios de seu nascedouro qual seja, a notícia do primeiro fantasma que alarmou a cidade, publicada em jornal matutino de 1919. O registro ou a lenda dizia: “O primeiro fantasma que temos notícia histórica apareceu em 1905, num colégio de moças donzelas da Rua Januária, no Bairro Floresta. Como todo abantesma que se preza, trajava de branco e deslizava sutil e imponderável, em horas certas, pelo dormitório das alunas. Depois desse caso, os jornais de 1919 se ocuparam de outro fenômeno espírita que alarmou o povo. Uma jovem da nossa sociedade, lindíssima e rica, por motivos ignorados, suicidou-se. O fato foi muito comentado na época. Um ano exato depois da morte dessa moça, o guarda civil que prestava serviço na Praça da Lagoinha teve sua atenção voltada para uma senhora que, alta noite, aflita, procurava orientar-se na praça deserta. Aproximando-se da moça, ela pediu que a guiasse até a sua casa, à Rua do Bonfim. O policial não relutou e lá foram pela subida escura da Rua Bonfim, sem trocar palavras. Nessa época, a Rua Bonfim era de terra e praticamente deserta, com poucas casas. Ao aproximar-se do portão do cemitério, a estranha jovem, voltando-se para o guarda, disse: “é aqui”. Como uma sombra, penetrou pelas grades da necrópole”. O guarda correu, correu muito descendo aquela rua. Dizem que enlouqueceu e em seus delírios fantasmagóricos repetia as palavras da jovem: “é aqui, é aqui”.

 

Década de 40

           Os textos abaixo inseridos no tópico Década de 40 são fiéis à íntegra do livro de ocorrências registradas na Delegacia de Segurança Pessoal, na década de 40. Os títulos foram colocados pelo Cyber Polícia, de acordo com o seu conteúdo. Os erros ortográficos fazem parte dos textos originais.

 

Ou Casa Ou Morre

            Este é um registro de ameaça de morte por parte do irmão da “moça”. Este comportamento fraterno e paterno era uma rotina policial até meados do século passado e a delegacia era vista por esses pais como o lugar adequado para resgatar a honra perdida pela filha.

"Antonio Lino , residente a Av. do contorno, próximo ao museu escreve queixa contra o sr. Luiz de tal, residente no mesmo local, pelo seguinte motivo: Tendo o queixoso vindo a polícia com sua noiva que é irmã do sr. Luiz, afim de dar andamento nos papeis de seu casamento, mas como o queixoso não saio casado da polícia, o referido esperou o mesmo chegar em casa onde o esperava armado com uma faca em que dizia que o queixoso não tinha casado na polícia, ia casar naquele momento na ponta da sua faca; só não havendo tal fato, depois que o queixoso resolveu a correr , mas mesmo assim o acusado perseguio, até a distancia de uns 40 m de sua residência. Adianta mais o queixoso que não pode ir a casa para dormir pois se o acusado prometeu que hoje tem de dar cabo de sua vida.

Belo horizonte, 2 de fevereiro de 1945

Antonio Lino

O Sedutor Valentão

Ilmo Snr Dr Delegado de Segurança Peçoal

O abaixo ressignado brasileiro residente nesta capital no Hotel Feira de Amostras.

Venho pedir a V. Exa uma providencia no sentido de estando nesta capital em tratamento de saúde venho solicitar garantias do senhor João Mendes Torres de Oliveira, sedutor de minha senhora Aline Torres de Oliveira cuja senhora si acha em companhia do referido acima, por ser conhecido como Sedutor Valentão e tenho suspeita de uma agressão por parte delle e a referida senhora no momento saiu de casa, tirou todo dinheiro para a companhia do sr. acima. Tendo dito aos pais e irmãos que ia embora para se apresentar no cargo de expedicionária de enfermeira, por ter recebido diversas correspondências de uma pessoa, dizendo que seu marido estava em Joaquim Felício com amantes e namoradas e comprou passagens para esta capital no dia 7 de outubro, onde recebeo depois correspondência do acima referido no Regina Hotel onde telegrafou para a família.

Bello Horizonte, 28 de outubro de 1944

Luiz Cipriano de Oliveira

O Coice

          Esta “queixa”, foi registrada no ano de 1944, na então Delegacia de Segurança Pessoal e trazia em seu conteúdo os reclames do cidadão Antonio Nicolao de Paiva contra um oficial militar. Sem tirar nem por, assim está registrado na pág. 67 do livro dos anos de 1943 a 1945:

“Sempre foi amigo pessoal do Tenente Coronel Sebastião Alves do Prado e dava-se com aquele militar desde 1934, quando servia no 8º Batalhão em Lavras. Que sempre proporcionava e recebia daquele oficial provas de simpatia e amizade. Que é hábito do queixoso-como o sabem quantos com ele privam –ao se encontrar com alguns amigos, perguntarlhe pelo seu estado de saúde, fazendo tal cumprimento extensivo à sra do mesmo, quando o-sabe casado. Que hoje, às 13:30, na Praça Sete, aproximou-se daquele militar reformado a quem cumprimentou, dizendo: _”Você como está? Forte não? E a patrôa?” Do que o militar parece não ter gostado, pois que replicou: “Não é da tua conta! Eu há muito estava para te dar esta resposta e com vontade de te quebrar a cara!”. O que o queixoso só estranhou, ponderando_ “desculpe coronel, eu pensava que isso lhe- agradasse!”. Pois não era a primeira vez que o queixoso o-fazia!. Hoje porém, o oficial traiu a sua aparência de homem educado mostrando a dura realidade da casca. E veio o coice. O queixoso retirou-se afastando-se uns dois ms, em atitude de defesa, mas o militar não cumpriu a ameça. Contudo, aqui fica a presente queixa, para conhecimento desta Delegacia e para as providencias que o caso comporte.

Belo Horizonte, 31 de janeiro de 1944

Antonio Nicolao de Paiva

Mulher de Vida Alegre?

Emo Snr Delegado de Segurança Pessoal,

José Guilherme Pena, vem por meio desta dar queixa de Nair das Mercês mulher da vida alegre que veve em preceguição do meu filho prejudicando o presente e o futuro do meo filho.

Rua Bahia 2736 Bello Horizonte 9 de outubro de 1944

Este pai, apesar de sua pouca instrução demonstrada na pequena queixa, tentou dar um ar diferente para as mulheres de “vida fácil” talvez pela demonstração de satisfação deixada pelos homens freqüentadores da antiga zona boemia, após seus deleites com as damas

José Guilherme Pena

Com um Sogro como Este...

                 Queixa registrada na década de 40, durante a II guerra Mundial. Enquanto brasileiros lutavam, matavam e morriam na Europa, outros, com a mesma gana ameaçava de morte seu desafeto, o genro, que registrou o crime e anexou uma carta remetida pelo sogro:

Brumadinho. 18 de dezembro de 1944.

Saudações

José Ascedino, vulgo Garapa

Em primeiro lugar desejo a tua ifelicidade porque você é um bandido é sem vergonha e é muito cretino e o verdadeiro tipo de reputação duvidoza. É tão baxo que não reconhece que meu barracão esta coberto de luto, eu me acho no maior sofrimento e ainda aparece um bandido como você para tirar por completo o juízo de minha santa filha com feitiçaria! Filha esta que nunca me deu disgosto por isto eu digo e repito mil vezes que você e um disgraçado mais você pode ficar previnido que se não desmanchar a tua feitiçaria e não desistir deste maldito cazamento, eu juro por tudo quanto é santo que te bebo o sangue com todo prazer. Bandido você fique sabendo que eu criei minha filha com a maior dificuldade da vida, infrentei duas revolução em beneficio de meus filhos porque sô home e não sô um covarde igual a você que está procurando uma pobre infeliz que trabalha para tratar de você porque você e tão sem vergonha que saiu daqui deveno o Sr Jose da Silva e ele dice que não tem nada com você. Que a minha pobre filha e é obrigada a pagar a sua pouca vergonha, bandido! O Sampaio também ista queixando que você finto uma conta grande no tempo que você trabalhava no minero e você não tem vergonha brotar que não desiste do cazamento? Cretino! Você fique sabeno que eu isto em puder de uma carta que na qual você esta pedino retrato, você deve pedir retrato e a tua mãi e não a minha filha! Você mandou também abraço e beijinho? O teo abraço e beijo estão guardado para quando comigo você encontrar. Eu quero te dar um beijo que você nunca mais há de desgraçar outra familha coberta de luto igual a minha, e você fique sabeno que se eu morrer antes de vingar esta disgraça que me fez, eu dexo 2 irmãos e um cunhado para vingar por mim. Por isto eu te digo que pode disistir porque morto você não caza, na cadeia também não. Pença um pouco bandido. Vê o que está fazendo com um pobre viúvo pai de seis filhos sem mãi! Agora eu te peço que me respopnda esta com uma carta acinada por você e por duas pessoas disistino do casamento e se você achar que tem coraje de respoder minhas palavras fisicamente, eu isto pronto para ti esperar onde quizer e asim acontecer terei o maior prazer ne resto da minha vida. Sem mais ispero resposta urgente."

Este é um caso, que apesar do delegado não ser psicólogo, deve ter determinado a imediata providência para solução da pendência. O ódio demonstrado pelo pai da moça não deixa nenhuma dúvida de que realmente estava disposto a “beber o sangue do genro”.

 

A Discriminação em Tempos de Guerra

          Outro registro encontrado no tomo de queixas da Delegacia de Segurança Pessoal, em plena II Guerra mundial, expressa na pág. 64, queixa 229, toda a intolerância racial, propagada por Hitler, só que, com uma diferença, acontecia em Belo Horizonte. Nesse caso, um jovem de origem síria, de 22 anos, reclama em desfavor de seu pai e irmãos que eram contra o seu namoro com uma jovem brasileira.

“Eu, Edmond Lufty, Brasileiro com 22 anos, residente à rua Francisco Socaseaqux, 161, venho queixar a V. Excia contra o meu próprio pae Michel A. Lutfy, residente a rua Rio Grande do Norte 178 e contra a família e irmãos residentes a Av. Brasil por ambos estarem me perseguindo pelo seguinte motivo: estando noivo de Deusmira José de Castro, brasileira. E chegando ao conhecimento da minha família, os mesmos começaram a me perseguir querendo interromper o meu casamento dizendo que eu não podia casar com uma brasileira negra e sim com uma Syria rica. Vendo que não conseguiam me convencer por eu gostar da moça, arranjaram um atestado médico falso e impediram os papéis civis no cartório e me prenderam como louco e conduziram-me à Casa de Saúde Santa Clara por 25 dias, sendo 8 dias incomunicável. Consegui obter a liberdade e mesmo assim continuaram eles a impor que eu desistisse por completo por ser a moça de raça brasileira e ele considerar a raça brasileira inferior a sua que é Syria. Então eu lhes respondi que só me casaria com uma brasileira e que não me serviria nehuma outra raça. Decorridos 6 meses, fugi com a moça para o Distrito de Moeda onde casei diante de autoridades. Mesmo assim casado continuam as ameças e novamente meu pae disse que se eu tentasse casar novamente ele me mataria. Ainda disse, depois de casado que vae anular o casamento e vão me prender novamente como louco.

E nesta situação peço a V. Excia para que nos forneça uma segurança pessoal dentro do estado que residirmos

.

Confiando no ato de justiça de V. Excia espero ser atendido

10 de maio de 1944"

Edmond Lutfy.


A Dita Estalação da Barata

Eu, Gerson Ribeiro Brasileiro, solteiro, 23 anos de idade, estabelecido com off. De concertos de automoves na Av. Paraná, 166, tendo em meu domínio uma Barata Ford 1929, a qual estava a venda e presizava de uma estalação elétrica nova. Eu estando com 4 sirvisso e presisando de entregar a dita Barata a qual vendi para o S. João Ribeiro, o qual tem que viagar, procurei o S. Pedro Tutti Didino sábado ultimo e perguntei se ele podia fazer a dita estalação e ele disse que sim. Hoje segunda feira procurei para pagamento da dita estalação e descordando com o presso cobrado em excesso, entrando em discussão, sendo agredido violentamente pelo dito Pedro Tutti Didino.

Belo Horizonte, 2 de outubro de 1944

Gerson Ribeiro

 

 O Recurso do Pinguço

 

                                                                                        

       

 

 

 

 

 

 

 

           Este é um registro interessante encontrado em nossas garimpagens nos velhos tomos de ocorrências do Departamento de Investigações em meados dos anos 40. Trata-se, de um “recurso” ao delegado, se assim podemos dizer, de um cidadão que foi conduzido ao órgão policial por se envolver em confusão, no Armazém Santo Antonio, após tomar umas calibrinas na "Cervejaria Bremense-Armazém Guarani” e que insistia não estar “tonto”. Os erros ou diferenças encontrados na ocorrência se devem ao modelo ortográfico da época.

"Relativamente à suposição de achar-se minha pessoa como que, vulgarmente se diz, “tonta”, sob effeito proveniente de bebida alcoólica tenho a declarar que se trata de uma illusão ou pouca efficiencia de observação de quem assim affirma ou poderá vir a affirmar.

Tinha tomado, é verdade, um Chopp Brahma(garrafa comum, uns 3 copos) e, após, dois cálices pequenos,ou sejam de dose mínima, de uma aguardente especial, de fabrico esmerado e proveniente da cidade de Muriahé.

Em abril ou maio de 1939, portanto há mais de 5 annos, diante das radiographias toraxicas, de conhecidos e conceituados médicos locaes, Dr. Alison Abreu e Dr. Haroldo Garcia, assim como médicos pertencentes ao corpo clinico (Departamento Medico) da Matriz da companhia Sul America Terrestre, Maritimos e Acidentes, no Rio de Janeiro, entre elles como me lembro, o Dr. Salvador Parda, acharam-na bastante adeantada considerando minha idade. Não só isso. Outra particularidade ainda, que os médicos não me revelaram e nem o fazem, pelo seu dever profissional e humanitário e sobre o qual nem siquer cheguei a ter apenas só vislumbre de schisma ou de mera impressão, porem, das minhas próprias observações(porque sou eu mesmo quem lhe sente as manifestações e phenomenos)e ainda em vista dos mais remotos,dos ainda recentes e de actuaes casos na minha familia, tenho a minha mais intima, com absoluta certeza, segurança mesmo(si melhor me expresso)de que sou portador de uma cardiopatia congênita. E não seria por outra razão que mesmo por aquella occasião dessas observações medicas sobre o meu estado pathologico, a referida companhia prevalecendo-se do direito que lhe concebia uma das cláusulas especiaes de apólice de sua carteira de accidentes, cancelou incontinenti minha apólice de seguros de acidentes pessoaes, em pleno vigor ha varios annos.

Pois bem, o que me aconteceu, como incialmente dizia, foi exatamente o seguinte: uma ação e revolta desorientadora, naturalíssimos em casos semelhantes, após a inqualificável surpresa, o choque, o abalo tremendo da agressão e afronta injusta, innominaveis, recebidas. Dahi, o sentir-me, como verdadeiramente aconteceu numa espécie si acertado diria, de crise de traumatismo moral, ou de outra cousa que nem sei mesmo explicar,menos daquillo que se poderia attribuir ser um effeito de bebida alcoólica. Tanto que, não obstante toda minha agitação pela natural revolta que me sobreveiu com a surprhendedora, desastrosa ocorrência, não me afastei da minha linha de conduta, da minha serenidade, nem perdi, tão pouco, a minha calma ou meu controle de nervos, porem com a minha integral, perfeita lucidez, em pleno uso de minha razão, com todo o meu senso, imperturbável procurei unicamente meios de uma providencia, de uma reacção pacífica, dentro dos bons princípios humanos e recursos legaes.

Porventura estivesse tonto por bebida alcoólica e como erroneamente teriam julgado, apenas minutos antes da afronta recebida não teria sido eu capaz de lembrar-me de agradecer o Dr Álvaro Santos a espontânea offerta que me fizera a 5 deste e mandando juntamente com uma remessa de mantimentos, de um lápis ainda intacto que ganhara como brinde da cervejaria Bremense-Armazém Guarani, assim como e principalmente-não teria sido capaz de adquirindo no Armazém, dois envelopes comerciais, usá-los, como imediatamente o fiz, para, com o meu próprio punho, escrevendo à lápis, sobre um caixotinho a um canto do balcão do bar, próximo à vitrine de pães e doces, offerecer, com algumas linhas conscientemente redigidas, uma insignificante lembrança ao Sr Álvaro Santos e outra ao Sr Abílio Pimentel, assim pretendo corresponder, si bem que ainda não condignamente, como reconheço, às atenções inaltteráveis e já bem antigas desses corretos moços, para commigo. Outra circunstancia determinante da minha perfeita lucidez e do meu completo controle e domínio de consciência: ao chegar ao Armazem Sto Antonio, conduzia três exemplares de jornaes, junto a minha pasta, pequena pasta por mim mesmo improvisada, capa primitiva e por fora o bloco de 1ª classe , marca “Tupy”, que tanto se apropria para um tal aproveitamento. Consta-se dos jornaes locaes: Orgão Oficial “Minas Geraes”e “Folha de Minas”, edições, ambas, do dia 8 (dia santo e feriado), assim como, do “Correio Paulistano”, edição do dia 6, sendo-o, o referido empregado Abilio, dizendo que bastante o apreciava, parece-me que na parte politica, manifestou-me vontade de tão logo pudesse, passar-lhe apenas primeira vista, e a isto, incontinenti eu retirei entre outros jornaes o exemplar do diário paulista e lho entreguei, Aproximando-se do momento de minha retirada e regresso aquelle conceituado estabelecimento, por achar-se concluída minha tarefa unicamente de carátcer comercial-domestico, que alli me levou-e isto também antes da tristissima occorrência- lembro, junto ao empregado Abilio, o exemplar do Correio Paulistano. Procurando-o, mesmo com aquella attribulaçaõ do movimento das ultimas horas da tarde de um sabbado e apezar da minha insistente objeção de não ser preciso fazê-lo, o prestativo moço não encontrou o jornal (não se recordava no momento, onde o tinha deixado); e lhe disse que já havia lido o mesmo, não mais necessitando e que delle poderia dispor quando porventura ainda o encontrasse, pois espontaneamente e de antemão eu lho oferecia.

Bello horizonte, 15 de Dezembro de 1944.

 

                                       Abaixo postamos diversas histórias narradas por policiais, de fatos que ocorreram durante suas atividades profissionais.


Coitada da Minha Noiva

Década de 60.

          As ruas fervilhavam de tanques e soldados que se espalhavam por todos os lados na busca insana de subversivos. A Guarda-civil também participava do patrulhamento em suas GMC com grande aceitação pelo povo, em razão de sua doutrina de respeito ao cidadão, sem deixar de lado o comprometimento em trazer a tranqüilidade e segurança para a comunidade. Como em qualquer instituição, naquela época também existiam policiais civis, militares e das Forças Armadas que gostavam de frequentar a região boêmia das Ruas Mauá, Bonfim, Paquequer, Guaicurus e adjacências para procurar mulher, tomar cachaça e arrumar confusão. Era difícil uma noite que transcorresse dentro da normalidade. Para conter esse problema de caráter institucional foi criada a patrulha Mista, composta por um Fiscal da Guarda Civil ou inspetor de detetives, um sargento PM, outro da Aeronáutica e um do Exército. A Patrulha Mista fazia rondas em locais de Baixo meretrício e outros pontos “da pesada” em Belo Horizonte e, dependendo do envolvido na confusão, a ocorrência era solucionada pelo representante daquela instituição. No ano de 1967, a Mista estava de serviço com o Fiscal Geraldo Lara, um sargento do BG, um do exército e um cabo da Aeronáutica. Durante a ronda aconteceu um fato engraçado, quando uma senhora grávida pediu ajuda à guarnição. Como não podiam se omitir, a mulher foi colocada no banco de trás da viatura policial e saíram em direção à maternidade. Ocorre que durante o trajeto iniciou-se o trabalho de parto e os componentes tiveram que parar a viatura para fazer o parto. Enquanto o sargento PM e do Exército tranquilizavam a mulher, Geraldo punha em prática os ensinamentos do curso de primeiros socorros, dentre os quais existia uma aula básica de parto. Geraldo Lara mandava a mulher respirar e inspirar enquanto massageava sua barriga para facilitar a saída da criança. Ficando fora da direção da vagina porque no curso fora orientado que a bolsa costumava estourar e jogar sangue em quem estivesse na frente. É claro que a cena não era das melhores para quem não estava acostumado com aquilo e principalmente pela posição da mulher dentro do carro, dado ao improviso. Nesse momento, o cabo da Aeronáutica, um rapaz novo, que até então não tinha se manifestado para ajudar, começou a passar em frente da grávida com suas pernas abertas e a gritar nervoso: “Ai meus Deus. Coitada da minha noiva, como mulher sofre gente. Eu tenho que valorizar mais minha noiva. Coitada da minha noiva. Ela vai sofrer demais. Ai minha Nossa Senhora”. Enquanto falava e reclamava o sargento ia e voltava olhando para aquela cena até que a criança nasceu e foi levada para o hospital junto com a mãe sem nenhum problema. No entanto, como os policiais não podiam rir na hora do parto, tão logo saíram do hospital, ficaram sabendo que ele estava noivo e pensou na situação da amada quando tivessem filhos. Geraldo Lara e o sargento PM começaram a choramingar dentro da patrulheira para o companheiro da aeronáutica: “Ai gente me acode. Coitada da minha noiva”.

Faria.

 

O Fantasma de Ouro Preto

                                                                                                          

         

 

 

 

          Pessoas desavisadas e principalmente seresteiros visitantes ou da própria Ouro Preto, passaram por maus pedaços quando se aproximavam do cemitério da igreja histórica de São Francisco, naquela cidade e deparavam com dois fantasmas que os punha para correr nas íngremes ladeiras que rodeiam a matriz. A preferência dos fantasmas eram as segundas e sextas-feiras, quando os seresteiros soltavam suas gargantas a cantar as melodiosas músicas de Vicente Celestino. Os espectros, todos de preto, apareceram para o garoto Augusto Cardoso, aos dez anos em 1966, dizendo com suas vozes fantasmagóricas: “Temos o segredo de um tesouro escondido em uma casa velha da praça e iremos contá-lo a quem for ao adro da igreja de São Francisco de Paula, à meia-noite de sexta-feira, sozinho, num dia muito escuro com ventania e nevoeiro.” Foi um reboliço na cidade quando a história do garoto circulou pelas vielas e becos de Ouro Preto. Alguns queriam arriscar e ir ao encontro por causa do tesouro, mas o medo era maior.

O Jornal O Globo destacava o mistério:

“Fantasmas atacam à noite em Ouro Preto”.

“Pessoas mais idosas de Ouro Preto afirmam que os fantasmas já apareceram no século XVIII e só foram afugentados com rezas. Os historiadores contam uma lenda antiga sobre os fantasmas de pés de patos que apavoraram Vila Rica no século XVIII. Os fantasmas possuíam pés de patos, olhos brilhantes e ferozes e desciam em algazarra pelas serranias que circundavam a cidade. A população aterrada, escondia-se dentro das casas e entregava a cidade aos fantasmas que só desapareciam quando o dia desaparecia.As autoridades de Vila Rica pediram providencias ao governador da capitania de Minas Gerais, o Conde de Assumar, que residia em Mariana, mas de nada adiantou, embora ficasse isenta de culpa, qualquer pessoa que conseguisse matar um fantasma. Com o agravamento da situação, os moradores de Vila Rica pediram licença às autoridades eclesiásticas para construir oratórios nas esquinas, onde o povo se aglomerava para rezar, afugentando, assim, os fantasmas.”

Será que os fantasmas de Vila Rica voltaram?

"O espanto da população foi maior, quando os fantasmas Reginaldo Sebastião Alves dos Santos e Roque Ferreira apareceram presos na delegacia. Os soldados Cruz e Rocha da Polícia Militar, afirmaram que “faziam a ronda nas proximidades do cemitério e comentavam que outro soldado da cidade de Dores de Campos teria acendido o cigarro de um estranho no meio da rua e o viu virar fumacinha, depois da primeira tragada.” Naquele momento avistaram os dois presos preparando suas capas para iniciar a vida de “fantasmas cachaceiros”. Foi aquele alvoroço na porta da delegacia para ver os fantasmas presos com uma garrafa de cachaça, capas coloridas e como dizia o delegado da cidade, Ediraldo Brandão: “Não há nenhum mistério, pois eles sorriem como gente deste mundo.” Os presos afirmavam que eram “fantasmas desde o dia que arranjaram roupas pretas e porque precisavam de uma brincadeira para alegrar a cidade”.

Após a reprimenda de praxe, o delegado liberou os dois “fantasmas.”

O Jornal Diário de Minas destacava a matéria:

“Polícia assusta e prende fantasma”

Faria.

 

Barbacena e o Dr. Grossi

          Este é mais um caso verídico do cotidiano policial e aconteceu com um auxiliar de necrópsia do Instituto Médico Legal, em BH, no final da década de 60. Até meados dessa década, os servidores da Polícia Civil e Militar não eram recrutados por concurso público e em alguns casos o QI (Quem Indica) é que prevalecia. Com isso pessoas, às vezes sem nenhum preparo técnico ou cultural, ingressavam nos quadros das polícias, apesar de muitos desses policiais terem se destacado como excelentes profissionais, já que o tirocínio e a coragem eram os requisitos mais importantes naqueles tempos. Dentro desse contexto um auxiliar de necrópsia conhecido por “Barbacena”, devido às suas condições psicológicas um tanto quanto, digamos, diferente, se destacou no seu trabalho rotineiro de abrir e fechar corpos acompanhando as instruções dos médicos. Era o auxiliar preferido dos médicos pela sua destreza e comprometimento no trabalho. “Barbacena”, apesar de simplório e do parafuso a menos, era um homem casado e pai de dez filhos, lutando com muita dificuldade para sustentá-los. O delegado Grossi se condoeu da situação de penúria do pobre servidor e reuniu sua equipe de investigadores para arrecadar dinheiro e comprar mantimentos para abastecer a despensa vazia. No dia da entrega do caixote de madeira com farta alimentação, “Barbacena” não se conteve em lágrimas e tentou fazer um discurso de agradecimento:

“Se nossa polícia tivesse dez homens como Dr. Grossi, num tinha Polícia melhor. E uma coisa eu digo, que num deixo ninguém chegar perto do Dr. Grossi no dia da necróps”. E apontando para Grossi: “Essa barriga eu faço questã de abri com meu canivete. Muito obrigado Dr. Grossi”.

Para "Barbacena" era a maneira correta de retribuir a gentileza.


Bosta Relógio

          Não poderia deixar de registrar um caso interessante ocorrido em uma cidade do interior do circuito das águas, mais precisamente, Poços de Caldas, por volta de 2004. Chegou ao conhecimento da Coordenação de Polícia Civil da Superintendência Geral, através de um ofício do delegado regional, a notícia de um caso escabroso de ameaça contra o magistrado daquela comarca. Tudo começou com o aparecimento de um estranho pacote no Fórum, mais precisamente na sala do juiz deixando em polvorosa os funcionários e o magistrado que se sentiu ameaçado pelo poder de destruição que o pacote podia causar. A PM foi acionada, o quarteirão isolado e até o esquadrão anti-bomba foi cogitado ser chamado, enquanto uma multidão se acotovelava nas proximidades. Com a chegada do delegado as providencias foram tomadas e chegou-se a conclusão narrada no documento que registro na íntegra:

“Cumpre-me informar a V.Exa. que por volta de 11:30 horas, fomos informados que algumas viaturas da Polícia Militar encontravam-se paradas defronte ao Fórum local. Ao verificarmos do que se tratava, fomos informados de que um dos juízes desta cidade teria recebido em seu gabinete uma caixa de aproximadamente 40 cm de comprimento por 30 cm de largura, por 5 cm de altura, embrulhado com papel presente, avassalando do interior dela um odor desagradável.

A Polícia Militar não dispõe de policiais com treinamento para desativar bombas, pois a primeira impressão que nos causou, igualmente a referida autoridade judiciária, seria uma bomba relógio ou algo semelhante. Finda a ocorrência, policiais militares entregaram nesta unidade policial a referida caixa e, por precaução levamos a mesma à Policlínica desta cidade, passando-a por um Raio-X, visando detectarmos se havia algum objeto metálico no interior dela, todavia o referido exame demonstrou que nada metálico continha, entretanto não revelava o que seria. Quando peritos desta Unidade Policial abriram-na, para nossa surpresa, havia no interior dela fezes humanas. Ainda fazendo parte do invólucro, continha um bilhete manuscrito com os seguintes dizeres,...”p/ a merda de juiz que vc é, sai daí e deixa gente séria trabalhar seu bêbado...”.

Investigações policiais estão sendo encetadas. Inquérito policial poderá ser instaurado, de acordo com a autoridade Judiciária retromencionada. A mesma autoridade solicitou que deixasse a cargo dela a divulgação do fato à imprensa, que vem acompanhando desde o início.

Respeitosamente”.

Não entendi bem, mas parece que o crime seria “Tentativa de Bosticídio".

 171 Até a Morte

           Vamos rememorar o princípio dos anos 90, mais precisamente 1992 na antiga Delegacia de Falsificações e Defraudações do extinto Departamento de Investigações, à época chefiada pela velha raposa, o delegado Pedro Zanella e alguns de seus inseparáveis policiais Zé de Fátima, Geraldo BC, Jorge Semin e a escrivã Ofélia. Todos, policiais tarimbados e experientes no combate aos criminosos que militavam na arte dos golpes e fraudes de toda a espécie. Dentro desse contexto, surge na capital um estelionatário que aterrorizava empresários e comerciantes com suas laranjas mecânicas, empresas fictícias cridas para grandes compras à prazo para em seguida fechar suas portas, causando enormes prejuízos na praça. Como era de se esperar, não demorou muito para que o estelionatário fosse identificado pela equipe de Pedro Zanella como sendo Leopoldino, da pacata cidade de Brumadinho. Vários inquéritos foram instaurados e representações de prisão preventiva foram encaminhadas à justiça. Infelizmente a alegria pela apuração e a proximidade de colocar o marginal atrás das grades duraria pouco, pois, vítima de um infarto fulminante, Leopoldino morria prematuramente, deixando assim de pagar pelos seus crimes, como devia.

          Zanella, como bom mineiro, mandou que seus fiéis escudeiros comparecessem até o cemitério de Brumadinho para terem certeza da morte do golpista e também ao cartório da cidade a fim de conseguirem o atestado de óbito que seria juntado aos inquéritos e processos criminais que seriam arquivados pela morte do autor dos delitos. No cemitério encontraram com o Zé coveiro que não se fez de rogado e narrou com detalhes as circunstancias do enterro, cujo defunto ele mesmo enterrou. Dizia para os policiais: “Óia gente, nunca vi um enterro com tanta gente, coroa de flores e tinha até três muié de Belo Horizonte que choravam feito viúvas e por causa da chuva que caía forte no dia, nem deixaram abrir o caixão. Vê se pode, o home já tava morto mesmo, que importava se ia moíá um pouquim”.

          Em seguida Levou Zé de Fátima e Geraldo BC até a sepultura, onde uma cruz e uma coroa de flores indicavam a partida do 171: “LEOPOLDINO, DESCANSE EM PAZ”. Para concluir a diligencia, os policiais foram até o cartório de Brumadinho onde conseguiram o atestado de óbito. Tarefa cumprida.

          Os dias passavam e estranhamente novos golpes, na mesma modalidade dos praticados por Leopoldino começaram a acontecer na capital. Seria um bom discípulo de Leopoldino, o mestre 171?

          Zanela com sua argúcia de policial tarimbado, chamou seus policiais e foram até o cemitério de Brumadinho, onde determinou que a sepultura fosse aberta, para, como São Tomé, verificar os restos mortais do estelionatário dentro do caixão.

          Surpresa! O caixão estava cheio de pedras. Leopoldino aplicara mais um golpe, "falsificando" a sua própria morte. Os policiais descobriram que Leopoldino falsificou o atestado de óbito e contratou três prostitutas para chorarem em seu enterro.

          Os IP e processos foram reabertos e rapidamente o falso morto foi colocado atrás das grades.

                                                                                                          

  O Strip Tease Mortal

                                                                                   

         

 

 

 

 

 

 

 

 

          1976. Tempo de discotecas, dos Opalas SS equipados com toca-fitas TKR e os “possantes” amplificadores Tojo. Dos Dodge Dart, Maverick, Fuscão 1500, o “Bezorrão” e outras pérolas do modernismo automobilístico. O Rio de Janeiro fervia com os escândalos do crime organizado e o envolvimento do policial Mariel Mariscot, um dos “dez homens de ouro” da polícia carioca e sua fuga espetacular da Ilha grande, ao ser resgatado por uma lancha. Na mesma época, o Rio viveu uma cena no mínimo inusitada em sua crônica policial. Um assaltante e estuprador passou “dias a fio” em frente à casa de um casal milionário, observando a mulher á distância, se deliciando de sonhos e desejos de seu corpo escultural. Uma noite, aguardou o casal até aproximadamente vinte e três horas, escondido nas proximidades da entrada da luxuosa casa quando os dois chegaram em uma Variant, último modelo. O homem e sua esposa foram rendidos sob ameaça de um revólver, sendo obrigados a entrar na casa. O marido tentou demonstrar calma e colocou à disposição do bandido seus dólares, jóias, dinheiro e outros bens para poder se ver livre da ameaça e não serem molestados fisicamente. Porém, o marginal foi contundente e sob a ameaça da arma, disse que não queria nada daquilo, apenas que sua mulher fizesse um strip tease para ele. O marido tentou uma reação diante da estranha vontade do bandido, mas foi prontamente contido, sendo obrigado a colocar uma música suave no som Polivox da sala. Deu-se início a um desempenho de strip tease. A mulher começou a tirar peça por peça de seu vestuário, enquanto o bandido assistia trêmulo e soltava suspiros de desejos, dando asa às suas fantasias e imaginação. Quando a mulher retirou o soutien, o malandro parecia que estava com maleta de tanto tremer. Ao retirar a calcinha e deixá-la cair ao chão, a mulher deu o golpe de misericórdia no tarado, que teve um ataque cardíaco fulminante, caindo morto com sua “arma” em ponto de bala, para nunca mais ser usada.

A notícia foi publicada no Jornal Estado de Minas de 22/12/76.

Faria.

 

O Peido

          Em 1977 o tráfico de drogas atingia patamares bem mais toleráveis que os atuais, no entanto, também naquela época vários foram os marginais que reagiram quando se confrontavam com a polícia. É um desses casos e suas conseqüências que vamos narrar.

          Numa noite de sexta-feira, do mês de maio daquele ano, apanhei o fusca descaracterizado na divisão de tóxicos e com os companheiros Ivanir, Fialho, Camargos e Marquinho nos dirigimos para a praça Nova York, no Sion, onde tentaríamos prender um traficante que comercializava drogas naquele local. Chegamos à pracinha e nos separamos, ficando ao volante com Fialho ao meu lado. Não durou muito para o marginal, filho de classe média alta, com seus 2 metros de altura, compleição física avantajada, mais parecendo um jogador de basquete, aparecer em uma bicicleta de corrida para iniciar a distribuição de cocaína. Ao perceber a presença de pessoas estranhas na praça, saiu pedalando fortemente para fugir do local, quando acelerei o que pude e consegui atingir a traseira da bicicleta com o fusquinha, fazendo com que capotasse sobre manilhas enormes que estavam sendo instaladas no logradouro pela prefeitura. Do jeito que caiu estatelado ele permaneceu, dando a impressão de ter morrido. Ficou assim por pouco tempo. Ao perceber nossa presença, aquele “gigante”, levantou-se abruptamente e começou a jogar capoeira e conseqüentemente “jogava” Faria, Fialho, Ivanir, às vezes Camargo e Marquinho para o alto. Foi um Deus nos acuda para tentar dominá-lo. Quando um de nós conseguia dar uma gravata, só se escutava os outros colegas falando: “Chuta o saco, chuta o saco”, mas não adiantava, pois o infeliz estava sob efeito de cocaína, completamente anestesiado. Depois de cerca de vinte minutos de luta, conseguimos desmaiar o bandido que teve de ser levado ao Pronto Socorro para ser medicado, junto com Ivanir que quebrou um dedo da mão durante a resistência a prisão.

          No sábado, pela manhã, nos encontramos, conforme havíamos combinado, na rua 21 de Abril, onde funcionava a Divisão de tóxicos, para irmos a Marliéria, parque florestal do Rio doce, no aniversário de casamento dos pais do Murilo, que também trabalhava naquela unidade policial. Eu estava no meu “possante” Opala 2500, quatro portas, três marchas com câmbio em cima, rodas de magnésio, farol de milha, toca-fitas Road Star, volantinho de madeira, branco e rebaixado. Calculamos cerca de duas horas para percorrermos os 170 kms até o lugar, mas gastamos seis horas por causa de um imprevisto bem fedido. Ivanir cursava medicina e inventou de tomar ovo com enxofre para facilitar a cicatrização da fratura no dedo e tão logo começamos nossa viagem também começou nosso tormento. Não tínhamos trafegado nem quinze quilômetros na estrada, Ivanir nos avisou: “Gente, vocês vão me desculpar, mas não dá para segurar” e soltou os primeiros “peidos” de uma série. Mal dava tempo para jogar o carro no acostamento, as quatro portas do opala se abriam e era aquela correria para ficar bem distante daquela “podriqueira”. Ivanir era o primeiro a correr, pois nem ele conseguia ficar perto dele mesmo. Só dava para retornar ao veículo depois de cerca de no mínimo vinte minutos. Paramos pelo menos umas dez vezes durante o trajeto. Nunca na minha vida, senti gases tão fedorentos.

 

Pintocídio- Delegado Lhamas

                                                                                                             
                                                                                                               

 

 

 

 

 

        Esse caso aconteceu realmente, quando Lhamas era delegado de Caratinga nos anos 80. Trata-se de ocorrências verídicas registrada no cotidiano das atividades policiais. A PM apareceu com dois indivíduos na delegacia para registro de um fato, no mínimo estranho e diferente das ocorrências rotineiras. Envolvia um rapaz com o pênis enfaixado e um homossexual que teria lhe agredido quando fazia sexo oral, quase lhe decepando o órgão genital. Enquanto o rapaz se contorcia de dor o delegado interrogava a “bicha” presa, que toda serelepe saiu com o seguinte argumento em sua defesa:

“Óia Dotô, eu amo de paixão o Geraldinho e jamais ia fazer um negócio desse com ele. O que aconteceu é que eu tava no "bem bão", dando uma, uma...., o sinhô sabe né? Então na hora eu espirrei forte e mordi sem querer.

Eu sou inocente Dotô”. O delegado não teve alternativa, senão colocá-lo no xadrez pelo crime de lesão corporal. Ou seria tentativa de pintocídio?.

Essa é mais uma história que o delegado Lhamas não contou o final, apenas dizendo: “prefiro não entrar no mérito da coisa”, o que, traduzindo para os dias atuais: “prefiro não comentar”.

 

O DNA da Galinha

          Outro caso interessante contado pelo delegado Lhamas, o de uma senhora que morava na zona rural de Lajinha do Chalé, pacata cidade fincada entre as montanhas da região de Manhuaçu e Mutum. A mulher era uma daquelas pessoas bem simplórias, típica caipira de nosso interior, com rosto bem marcado pelo sofrimento do lavrador daquelas paragens. Ela apareceu na casa do delegado Lhamas com dois frangos "canela seca" debaixo do braço. O "manjura" logo pensou que seria um agrado por alguma coisa que tivera feito, o que era muito comum para o pessoal da roça. No entanto a velha senhora reclamava do furto de uma galinha no terreiro de sua casa. Lhamas lhe perguntou:

“A senhora tem alguma idéea de quem seja o ladrão?”, ao que ela respondeu:

“Não seu Dotô, eu num discunfio de ninguém”.

Continuando a prosa, tentando obter algum subsídio para a investigação a autoridade questionou:

“Por acaso a senhora teria alguma pista para chegarmos ao ladrão?”.

A mulher deu um sorriso matreiro e apontando para os dois frangos que trazia debaixo dos braços falou:

“Ah, Dotô, é divera qui eu tenho e é pru mode disso qui eu truxe essa franga e o franguinho, pois eles são fiotes da ninhada da galinha robada e ingualzinho a ela sem tira nem pô. Na hora qui o sinhô achá, vai dentificá na hora. É cara dum fucinho do outro”.

O delegado olhou boquiaberto para para aquela velha senhora sem saber o que falar.

Não sabemos se a franga e o franguinho viraram ensopado, ou serviram para cruzamento do DNA pela perícia local.

 

O Doido Clonado de Manhuaçu

          No fim da década de 80 havia na cidade de Manhuaçu um "doido" que vivia causando problemas às autoridades, em uma de suas prisões, decidiram que o preso deveria ser internado em um estabelecimento psiquiátrico na cidade de Barbacena. Dois Detetives da delegacia de Manhuaçu receberam a incumbência de recambiar o "doido" até o manicômio. Com o preso confortavelmente instalado no "rabo da rita" , os tiras saíram logo cedo de Manhuaçu e, após umas duas horas de viagem o "doido" começou a pedir para ir ao banheiro. Os tiras não deram bola e foram em frente. Após alguns minutos, o doido disse que se não parassem para ele defecar, iria fazê-lo ali dentro (no corró da viatura). Como a chegada até Barbacena ainda demoraria e, tendo os Detetives de retornar a origem naquele mesmo dia e por se tratar de um doido que realmente teria coragem de cumprir com a ameaça, resolveram parar e deixá-lo se aliviar, pois se ele fizesse lá dentro, teriam de suportar o fedor por um bom tempo. Pararam então próximo a uma moita de bambu e mandaram o doido ir lá para "amarrar um gato". Não se preocuparam com uma possível fuga, pois o cara era doido, mas não era burro, e sabia muito bem quem eram os tiras que o escoltava. Passaram dois minutos, três minutos, quatro minutos e nada do doido voltar. Então resolveram ir atrás dele e conferir, quando chegaram mais perto da moita, viram o doido, já longe, correndo pasto afora. Chamaram ele de volta, deram alguns tiros pro seu rumo, mas nada adiantou, o doido fugiu. Os tiras se desesperaram, pois além da bronca, se não contornassem aquela situação, seriam alvo de chacotas pelos colegas. Haviam tomado chapéu de um doido pé de chinelo. Ainda sem saber o que fazer, subiram na viatura e retomaram a viagem pensando na desculpas para a fuga, quando avistaram um andarilho que ia caminhando tranquilamente na beira da estrada. Não pensaram duas vezes, deram cana no andarilho e o colocaram na viatura e seguiram a viagem. Chegando a Barbacena, entregaram o andarilho no lugar do doido e, quando este percebeu a situação, começou a alterar dizendo que não era doido, que estava na estrada e que havia sido preso pelos policiais, foi então chegou um enfermeiro do tipo "guarda-roupas" querendo fazer média com os policiais e disse ao andarilho: "cê já chegou alterando" e foi logo lhe aplicando um "sossega leão", virando-se depois para os detetives e falando: "quando fala que não é doido é porque é mesmo". Com a "missão cumprida" retornaram a Manhuaçu. Para o espanto de todos, depois de duas semanas, eis que reaparece o doido em Manhuaçu, causando perplexidade em toda cidade pela rapidez com que recebera "alta" do manicômio.

Edgar Miranda - 2010 - Agente de Polícia, lotado na Delegacia Regional de Ponte Nova.

 

O Exterminador de Sogras

Se não fosse o caráter sério e grave dos fatos aqui registrados, poderíamos dizer que trata-se de uma peça teatral tragicômica em razão dos lances que envolvem a situação. No ano de 1999/2000, um policial civil estava lotado em um distrito da região oeste de Belo Horizonte e constantemente se envolvia em ocorrências por espancar sua mulher. Foram instaurados vários processos e expedientes na Corregedoria culminando com o pedido de prisão temporária e a decretação da medida, ficando o policial custodiado por dez dias na Dutra Ladeira. Demonstrando desequilíbrio emocional, o policial ao sair da cadeia, teve como primeira atitude contatar com seu chefe imediato, requerendo sua arma para matar sua mulher.

A debilidade psiquica do cidadão policial era tamanha, que na sua secretária eletrônica ele registrara a seguinte mensagem que foi denunciada e divulgada pela Rádio Itatiaia: “Aqui é da residência do policial X, matamos sua sogra por enforcamento, asfixia ou estrangulamento, serviço limpo, em cinco minutos”.

A mensagem deu ao policial mais um procedimento na Corregedoria Geral de Polícia.

Na época, foi apreendido um cartão de identificação com o mesmo policial que continha o seguinte registro:

A-E-S-R- S/A ASSOCIAÇÃO DE EXTERMINADORES DE SOGRAS REBELDES>
ELIMINAMOS SUA SOGRA EM APENAS 15 MINUTOS ATRAVÉS DE: FACADAS, TIROS (GROSSO CALIBRE), AFOGAMENTO....
SOMOS ASSOCIADOS AO DEPUTADO ELDEBRANDO PASCOAL E A FUNERÁRIA DESCANSE EM PAZ.

A mensagem foi retirada secretária eletrônica e colocada outra:

“Não posso atender no momento, estou fazendo sexo”.

Era doido, ou se fazia de doido para viver!

Faria.

O Matuto da Ofélia

         Este é um caso pitoresco narrado pela escrivã Ofélia quando de suas inúmeras viagens pelo interior do estado durante suas viagens pelo Núcleo de Mutirão da Superintendência Geral de Polícia Civil, nos anos 2003/2004 e 2005. A história se desenrolou na cidade de São José do Jacuri, pertencente à comarca de Peçanha, com a equipe do delegado Fialho, escrivães Ofélia, Rose e o detetive Ricardo Teixeira. "Durante um mutirão realizado pela Superintendência Geral, com escrivães da Inspetoria Geral do Corpo de Escrivães, na referida cidade recebemos os inquéritos policiais, cujas intimações estavam previamente agendadas. Um desses inquéritos apurava uma tentativa de homicídio. Como era de praxe, tínhamos pouquíssimo tempo para nos inteirarmos dos fatos, entre uma oitiva e outra. Assim, após uma breve análise, sentia-me preparada para ouvir o principal suspeito. Cheguei na porta da pequena sala do destacamento PM, utilizada como cartório e chamei o suspeito pelo nome. Apresentou-se o cidadão: uma simplicidade que desarmava qualquer espírito! Vestia roupas muito surradas, usava um velho chapéu de palha e calçava botinas também muito gastas... O rosto e as mãos com sinal de muito sol e trabalho! Estranhei aquele tipo de criminoso! Expliquei a ele o motivo de sua intimação, os fatos constantes naqueles autos, o testemunho de pessoas que o avistaram nas proximidades do fato e que teriam ouvido o tiro. Enfim, a sua inegável condição de principal suspeito do crime em apuração. Por fim, perguntei-lhe o que tinha a dizer sobre tudo isso. E veio a sua resposta:”

"Fui eu mesmo uai! Num escondo não". Qual o motivo, perguntei-lhe: "Cumé que eu pudia dexá sôrto por aí o sujeito que tirô a vida do meu primo, cum tanta covardia? Com um pau de lenha. Eu fui criado junto cum esse primo que era boa pessoa, trabaiava mais eu lá na roça! O matadô vivia tranquilo, fugindo das otoridade. Isso num pudia continuá".

Eu ouvia com admiração e incredulidade aquele relato. Ele falava como se tivesse prestado um serviço às autoridades. Era impressionante a sua postura diante do caso. Era convicto de que tinha feito a coisa certa. E continuando seu relato:

"Fiquei sabeno qui todo dumingo de manhã o iscumungado vinha da roça pra cidade. Passava na venda onde tentei cabá cum ele. Lá ele dava umas vortinhas e ia simbora. Comprei a chumbêra numa catira e deixei pronta. Soquei dentro a porva com a paia e os chumbim e deixei guardada. No dumingo cedo, saí de casa, lá da roça e vim fazê o sirviço. Tucaiei o cabra, ví quando ele entrou na venda e fui atrais. Fiquei do lado de fora dispistano e ispiano o sujeito lá dentro. Ele pidiu uma pinga e ficô incostado no barcão. Condo (quando) o vendêro se distraiu eu dei o tiro. Mais na verdade, o qui as pessoas iscuitaro num foi um verdadêro tiro, foi uma baruiada danada dos chumbim qui ispaiaro dentro da venda acertano as coisas. Foi muita garrafa de cachaça e querosene qui quebraro. Acho qui num soquei direito a munição e tudo ispaiô na venda, acertano o sortimento qui era muito. Aqueles chumbim tamém acertaram as bacia, regradô d'água, os bardos (baldes) e até nuns urinó qui tava pindurado, o qui fêiz o baruião".

Não consegui conter o riso diante daquele matuto com sua confissão "diferente". Ainda lhe perguntei se depois ele conseguiu terminar o "serviço" contra seu desafeto, ao que respondeu:

"Não uai, de jeito ninhum. Aquela era minha única purtunidade e fazê outra tucaia era muitio difíci. Já que pirdi a purtunidade purquê num sube (soube), larguei a malquerença pra lá".
Escrivã Ofélia.

Arnaldo Romano - Reminiscências etc e tal - XLII  

Existirá alguém na polícia que não conheça Dr. Paulo Porto? Papo maneiro, gozador sutil, transforma a vida numa grande piada. Mais vivo, não há. No bairro Guanabara, seu principal reduto em Patos de Minas, dava concertos ao ar livre. Com um cabide enganchado à cabeça, criou uma engenhoca que lhe deixava tocar violão, gaita e pandeiro ao mesmo tempo, parecendo aquele ceguinho da esquina. Tinha futuro. Tango sofrido e bolero nostálgico foram feitos sob medida para sua voz rouca. Alegre e comunicativo, sempre agregou: aonde chega, ajunta gente. Se precisar alegrar velório e procissão é só chamá-Io. Tem história pra tudo. Foi pescador no Paracatu, goleiro de futsal, técnico de futebol, instrumentista de charanga no Mineirão, comandante de aeronave (a foto do seu vôo-solo foi tirada por mim), churrasqueiro, contador de causos e seresteiro. Multivitaminado. Ele, polícia, é redundância: filho de Coronel, neto de Comandante Geral, ainda com faro de sabujo, perspicácia e obsessão totais, o destino estava rezado. Não enjeita serviço. Pelo contrário, quanto mais difícil, é com ele mesmo. Já passou dias e noites dentro de guarda-roupas, colocado em galeria de Juiz de Fora, na campana. Quando viu o suspeito pela portinhola entreaberta! atracou-se feito pitbull. Só largou porque a própria polícia ficou com dó. Faz o tipo calado. Observador. Calculista. Não joga sem carta.

Trabalhamos em Patos de Minas. Quase todos os crimes pesados da região foram elucidados por ele. Credito o sucesso à sua criatividade e coragem para decisões fatais. Às vezes! sumia. Dois três dias. Ninguém dava notícia. De repente, pelo telefone!! Doutor! o caso já está resolvido e o cara algemado aqui comigo!' Um conhecido, filho de pessoa querida! comunicou o desaparecimento do sogro. Paulo Porto viajou para lá. Farejou de todo jeito. Foi e voltou um par de vezes. Não comentava. Certo dia, arranjou um avião! chamou nosso amigo, genro do desaparecido e sobrevoaram extensa área. Avistaram uma camionete escondida no matagal. Aterrissaram onde coube. Examinou tudo. Sem perguntas, sem um comentário, deu voz de prisão ao genro [amigo] e lhe colocou algemas. Retornaram em silêncio a Patos. Crime solucionado. Notícia nacional.

Uma prostituta de Patos, famosa pela beleza, sumira. O filho comunicou-nos o fato. Dias depois, esquartejado, um corpo de mulher foi achado no rio Paranaíba. Irreconhecível. Parentes, vizinhos e amantes não identificaram. Paulo Porto assumiu o caso. Quis ver todas as roupas da casa! mesmo as que já tinham sido lavadas. Examinou demoradamente por três dias. Deu falta de uma peça. 'Cadê?”! 'Era muito velha, joguei fora faz tempo." "Mentira! Ela está comigo há dias. Você está preso por homicídio." O Paulo achara minúscula mancha numa roupa do filho, tipo safári. Sem ninguém ver, recolheu-a. Mandou examinar. Confrontou com o tipo sanguíneo da vítima. Deu na cabeça! no mesmo dia o filho mostrou onde escondera a arma. Crime solucionado. Notícia nacional.

Um casal apareceu morto a golpes de faca. Retalhamento geral. Quarto revirado. Coisa passional. Lá foi o Paulo. Ninguém deu notícia de algum romance paralelo. Nenhum suspeito e pista. Nada sumira. Nosso herói trancou-se em taciturno mutismo. Falava com ninguém. Ficou sem ir à delegacia. No terceiro dia, chegou com o homicida: um enrustido que amava, em doentio segredo, a mulher. Não queiram saber como foi descoberto. Em estado de lucidez, nem o próprio Paulo Porto é capaz de explicar. Crime solucionado. Notícia nacional.

Por volta das 4 horas de uma tarde, a agência bancária foi assaltada em plena Av. Major Gote, no centrão de Patos de Minas. A polícia inteira se dirigiu para Presidente Olegário. Menos Paulo Porto. Seguiu com sua turma em direção oposta. Juntei dois ou três e fomos atrás deles. Quilômetros adiante do Posto PATÃO! caminho de Patrocínio, existiam estradas paralelas em construção. Uma! interditada. Outra! transitável. Nesta, em um carro escondido pelas árvores! o resto do bando aguardava. Por engano! os assaltantes entraram na primeira e deram com um paredão. Tentavam manobrar, quando chegaram Paulo e equipe metralhando. Nem um minuto depois, os quatro já estavam deitados no chão, mãos e pernas em X. Malotes recuperados. Logo atrás, eu. Heroica e desastradamente, eu caíra no lodaçal dum córrego que estava me engolindo. Levaram mais tempo pra me puxar pelos braços e cabeça - e Ihes dei mais trabalho - que para prender toda a quadrilha. Crime solucionado. Notícia nacional. Paulo Porto irradiava vibração interior que imantava a turma. Doava-se por inteiro e nunca reclamou falta de recurso ou a qualidade dos meios - pensando bem, nunca o vi reclamar de coisa alguma.

Dispúnhamos de duas viaturas, a patrulheira e um Fiat. O Fusquinha do Elber não contava: faltava farol, uma porta era chumbada, rodas cambetas, sem amortecedores e banco traseiro. Ainda sim, com a mais dramática falta de estrutura, sem qualquer das modernidades que hoje existem (computadores, rádio, viaturas, armamento sofisticado, coletes, roupa ninja, suporte técnico/científico primeiromundista, helicópteros, aviões, diárias, asfalto, áreas regionais menores, centros de inteligência, estudos macro e micro-sociológicos, teorias e máximas burocráticas, entre outros) não deixou de cumprir tarefas. Desabafo feito, novamente ao herói.

Quintino é localidade perto de Carmo do Paranaíba. Àquele tempo, sinônimo de guerra. Coitado do sujeito que se abestalhasse por lá. Fosse padre, juiz ou delegado. Duas famílias disputavam cada palmo do seu chão. Era fogo cruzado. Paulo me telefonou do Carmo dizendo que estava indo pra lá para prender um fulano: "Estou com dois detetives, pode ficar tranquilo." JUNTEI o pessoal que coube no tal Fusquinha do Dr. Elber e "voamos", a 50 km/hora, pelos 75 quilômetros de estrada. O povoado não tinha ruas. Era uma casa aqui, outra mais adiante. À medida que andávamos, as janelas foram fechando. Tudo deserto. Só faltava trilha sonora para ser faroeste. Um dos nossos, contava as carabinas nas gretas das portas. Lá na frente, chupando laranja, conversando com um algemado, enquanto os dois detetives trocavam pneu, o Paulo e sua tranquilidade: "Não precisava vir aqui, doutor. Ninguém é besta de meter a cara conosco." Dali, seguimos para Carmo do Paranaíba. Já noite, na porta de sua residência, o Juiz de Direito acolheu pedido de prisão preventiva.

Outros fatos existem. Mas, juntos, não me marcaram tanto quanto este: Paulo e eu seguíamos para o almoço. Súbito: "Dá uma paradinha, doutor." Brequei na hora. Enfiou dois dedos na boca e largou um assobio. Fez gesto para alguém chegar à viatura. "Te quero na delegacia às duas horas. E já leva a bagulhada. Podemos seguir, doutor. Juro que foi esse bicho que 'fez' a casa de fulano." À tarde, ao retornarmos, lá estava o cujo. Sentadinho como um santo. À sua volta, numa espécie de ofertório, rádio, televisão, faqueiro, toca-fitas, perfumes, roupas, sapatos e até um revólver... Assim era a nossa polícia.

                                                              

Arnaldo Romano. O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

 

2006. DI- A PROMESSA

             Um fato no mínimo inusitado ocorreu com um cidadão em 2006, quando sua moto furtada começou sua peregrinação e luta para recuperar seu precioso bem. E, como ocorria na antiga Delegacia de Furtos de veículos, o cidadão se tornou mais uma vez vitima, refém, dessa feita do sistema. Apesar de aparentemente fácil solução, já que os policiais tinham conhecimento do local onde a moto se encontrada, nada foi feito pela delegacia para recuperá-la. A vítima compareceu dezenas de vezes na busca de ajuda para o que lhe era de direito, sem êxito. A via sacra durou cerca de três anos, até que a delegacia saiu do DETRAN e foi transferida para o Departamento de Investigações. Lá, a delegada Jacqueline Ferraz era adjunta, e foi designada pelo chefe do DI, delegado Faria, para dar fim a angústia do cidadão. Menos de um mês depois, a moto fora recuperada e devolvida.

          O desencanto da vítima era tanto após ter seu bem roubado, chegou a fazer duas promessas: a primeira, deixar sua barba crescer até a recuperação da moto. A segunda, quando a investigação foi para o DI, se propôs a cortar apenas a metade de um lado de sua longa barba em agradecimento aos policiais, no caso de recuperação da moto.

         E assim foi feito. Para espanto dos policiais que trabalharam no caso, o homem compareceu na sala da delegada Jacqueline Ferraz com apenas metade de sua barba, enquanto o resto do rosto estava liso e muito bem aparado. Agradeceu a todos e se dizia incrédulo com o resultado apresentado por aqueles policiais, já que não tinha mais esperança na recuperação da moto. A delegada o recebeu e durante o tempo que ali permaneceu agradecendo com sua meia barba longa, teve de ter muito equilíbrio para não rir daquela cena cômica. Coisa de louco.

2011 Casos e causos policiais. © 2012 - Cyberpolicia: História da Polícia Operacional Investigativa
Powered by Joomla 1.7 Templates, read web hosting reviews